Perdida no tempo
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Alan e eu sairíamos assim que escurecesse. Contamos a todos que iríamos embora ao anoitecer. Depois de Rosa muito chorar, de Ana e Alan trocarem olhares cúmplices e emocionados e de Julia prometer fazer uns bolinhos para a viagem, só havia uma pessoa que não sabia: Jeremy. Ele havia saído com o pai e o Sr. d'Franklin e acabou perdendo a notícia.
Imaginar-me em casa, reencontrando Mary, Jack e Cameron, trouxe uma sensação de alívio. Eu adorava todos aqui – Jeremy, em especial –, mas sabe quando, depois de uma longa viagem, você volta para casa? Ver os lugares conhecidos, dormir na sua cama, usar a internet. A privada! Todas essas coisas me fizeram ficar animada para voltar.
À hora do jantar, "os homens" ainda não haviam chegado, o que me preocupava seriamente. Eu detestava despedidas. Porém, depois de tudo, não podia deixar o Jere sem ao menos dizer um ‘tchau’. Não queria pedir para Alan adiar a viagem, mesmo que fosse por algumas horas, apesar de saber que ele faria isso de bom grado. Por isso, escrevi um bilhete para o Jeremy e tomei o caminho para o casebre junto a meu irmão.
O casebre – que não era bem um casebre, mais parecia um enorme celeiro no meio do nada – era bem iluminado e amplo. Alan pensava em tudo mesmo. O tele transportador estava ligado a um motor enorme, que imagino ser a fonte de energia que ele fez.
— Como isso vai funcionar? Digo... você vai deixar o tele transportador/máquina do tempo aqui no meio do nada? – Perguntei a meu irmão.
— Sim, vou. Ah, não me olhe desse jeito, como se eu fosse louco. Pensei que talvez pudéssemos visita-los algumas vezes.... Não fará mal a ninguém... – Alan dizia isso casualmente enquanto acertava algumas coisas nos computadores. Creio que ele não percebeu o efeito de suas palavras em mim. Eu nunca considerei voltar... E então uma dúvida me atingiu.
— Querido irmão, essas nossas “viagenzinhas” não vão causar alguma mudança no nosso presente? Mudamos o passado, isso de alguma forma vai nos afetar, correto? – Achei plausível meu ponto de vista. Contudo, Alan não pareceu concordar, pois soltou uma risadinha irônica. Argh!
— Querida irmã, não pense que somos tão importantes assim. Esse tipo de interação com o passado não alteraria nossa realidade tão drasticamente. Se tivéssemos entrado em contato com nossos antepassados diretos, por exemplo nosso avô, e, sei lá, tivéssemos o impedido de encontrar nossa avó, aí, sim, teríamos problemas. Fora isso, nada demais.
— Se você diz... – O encarei e ele ainda mexia nos computadores. – Então... – Comecei devagar. – Você e a Ana, hein! – Alan me olhou de rabo de olho, as bochechas rosas, quase gargalhei.
— Então... – Ele pronunciou com maldade na voz. – Você e o Jeremy, hein! – Filho da mãe! Decidi somente ignorá-lo. Eu gostava do Jeremy, não havia dúvida. Mas não podia ficar aqui, nem pedir para que ele fosse comigo. Era uma relação impossível.
Rondei meu irmãozinho por um momento e já ia perguntar sobre o que Alan faria em relação a máquina do tempo quando chegássemos em 2015, até que ouvi um barulho do lado de fora do nosso celeiro.
— Ouviu isso? – Alan e eu dissemos em uníssono e nos entreolhamos.
Comecei a caminhei até a porta do celeiro, mas meu irmão pegou-me pelo braço de um jeito protetor e colocou o dedo indicador direito sobre os lábios, me mandando fazer silêncio. Ele começou a andar na minha frente, me levando consigo. Que absurdo! Alan devia saber que sou faixa preta em judô, sei me defender!
Andamos juntos até a porta, daquele jeito meio na ponta dos pés, tentando ser silenciosos – se alguém nos visse, acharia que éramos personagens de desenho animado, com certeza. Apontamos nossa cabeça para fora e, decepcionantemente, vimos um veado que logo saiu correndo. A risada veio logo em seguida. Alan afrouxou o aperto em meu braço, endireitando a coluna.
Voltamo-nos para dentro novamente, mas eu tinha um mal pressentimento.
— Alan... – Comecei para desviar a atenção do que minha mente insistia em ser uma coisa ruim. – O que pretende fazer da máquina do tempo quando chegarmos? Vai divulgá-la?
— Estive pensando nisso e.... não. É perigoso demais. As pessoas podem usar para fins indevidos.... Imagine se alguém resolvesse, sei lá, trazer o Hitler para o presente? Coisas assim me preocupam.
— Uau! Nunca pensei que meu irmãozinho fosse privar a humanidade de uma novidade científica! – O encarei risonha, mas entendendo seu ponto de vista. Olhei novamente para a porta e jurei ter visto um vulto passando. Disse isso a Alan.
— Deve ser o veado de novo, acalme-se. – Meu irmão continuava a mexer em seus computadores, nem me dava atenção.
— É, deve ser. – Não resisti em olhar novamente. Nada. Relaxei meus ombros. – Pensei que estivesse tudo pronto para a viagem, Alan! Que demora!
— Pare de reclamar tanto. Porque não senta na poltrona e fica quietinha? – Comecei a andar de costas até a horrorosa, que estava num canto completamente oposto aos computadores, fazendo careta para Alan.
Dei uns bons passos, ainda de ré, e estaquei. Na porta, segurando uma arma, estava Henry McAdams. Instantaneamente meu coração acelerou e meus músculos tencionaram.
— Bom – ele começou, com sua costumeira voz irritante e maliciosa –, eu não pretendia ser visto tão cedo essa noite. – McAdams olhou da arma em suas mãos para nós. Seu olhar estava um pouco perdido, acho que ele tinha bebido. – Mas já que aconteceu, acho que posso matá-los mais cedo também...
Alan, quando notou a presença de Henry, adotou a mesma postura protetora de antes, e moveu-se em minha direção. Não era necessário, mas, ownt, era fofo.
— Sr. McAdams, não seja tolo. É evidente que bebeu e não está em seu juízo perfeito. Por que não volta outra hora? – Meu irmão disse o mais calmamente possível.
— Ah, não, não! – O homem gordo disse um tom mais alto. – Vocês são bem intrometidos, sabe? Principalmente você, garota. – E apontou para mim com a arma. – Não tinham que dizer nada de mim para aquele idiota do Richard! Estava tudo certo.... Eu iria pegar tudo! Tudo daquele desgraçado! Mas você tinha que abrir a boca grande. Ainda não sei como sabiam...
O tempo todo Henry nos olhava nos olhos. A arma dançava em suas mãos, ameaçando nos constantemente. Ele dava alguns passos à frente, se aproximando cada vez mais de nós. Alan segurava meu punho cada vez mais firme, conforme McAdams caminhava em nossa direção.
Ele, então, olhou em volta, parecendo só agora notar os instrumentos estranhos à sua volta.
— Talvez isso possa explicar alguma coisa... – Disse apontando com a arma para os computadores. Se ele desse um tiro neles, eu não voltaria para casa, portanto tirei o aperto de Alan de meu pulso e dei uns passos à frente, ficando perigosamente perto dele.
— Cedo ou tarde, Dick descobriria. Se não ele, Jeremy. Olha, Henry, é melhor você parar por aqui. Sabe, você deveria ver isso como uma oportunidade! Mudar de vida! Parar com as malandragens, virar um cara legal, honesto. É.... é isso que você deveria fazer.... Quem sab-- – Fui bruscamente interrompida pelo som do tiro que Henry deu para o alto, fazendo um buraco de 10 cm de diâmetro no teto. Ui! Faria um estrago se fosse em qualquer um de nós.
— Ah, garota, não me diga o que fazer! – Pronunciou sarcasticamente, gargalhando em seguida.
McAdams deu alguns passos em minha direção, mas não recuei. Ajeitei a postura, pronta para lhe dar um belo soco na cara, quando Alan se moveu rapidamente, fazendo barulho e me distraindo. Henry foi mais rápido do que meu irmão e me puxou pelo braço, prendendo-me pelo pescoço com a arma apontada para minha cabeça. Era só o que me faltava! Morrer em 1768 pelas mãos de um gordo lunático.
— Nem mais um passo garoto! – Henry pronunciou ameaçadoramente quando Alan tentou se aproximar. – Não vai querer que a princesinha aqui se machuque. – Ele passava a arma em minha bochecha e falava muito próximo de mim, a ponto de eu sentir seu hálito, levemente alcoólico.
Acho que todos já viram o filme Miss Simpátia. Quando a linda da Sandra ensina a sair de situações como essa, pode parecer brincadeira, mas funciona mesmo. Eu já havia feito isso algumas vezes, não perguntem como nem porquê. Ia fazê-lo de novo, mas McAdams tinha uma arma apontada para minha cabeça e eu usava um vestido que me deixava duas vezes mais pesada.
Havia uma tábua, provavelmente sobrou da construção, no chão, felizmente, perto de Alan. Olhei meu irmão nos olhos e estão, o pedaço de madeira, esperando que ele entendesse meu recado.
— Henry... – Começou devagar, Alan. – Pense um pouco! Como isso vai fazer qualquer coisa melhorar para você?
Ele agachou lentamente, pegando a madeira. Ao mesmo tempo, dei um soco na virilha do McAdams, pisei em seu pé e, então, acertei seu nariz, saindo de seu abraço. Alan veio logo atrás acertando um Henry curvado na cabeça e tomando-lhe a arma.
O homem gordo caiu, havia desmaiado.
Alan me puxou e abraçou-me forte. Retribui seu carinho, o apertando. Ele me beijou a testa e voltou a me amassar em seus braços, como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo para ele. Senti seu cheiro adocicado, lembrava o da nossa mãe, e percebi que talvez ele fosse a coisa mais preciosa do mundo para mim também. Independente de Jeremy ou Ana, nosso laço fraternal nunca seria quebrado. A única coisa que permanece é a família, seja século 21 ou 18. Sorri em seu peito antes de empurrá-lo e mandá-lo parar de viadagem. Alan só riu baixinho ainda me olhando cuidadosamente.
Num rompante, Jeremy Declair passou pela porta, assustando eu e meu irmão. Ele olhou a nossa volta, analisando o lugar, até que ele viu Henry jogado no chão. Seu olhar focou em mim e vi o alívio tomar conta dele.
— Meu Deus! Eu ouvi um tiro e fiquei preocupado, vim o mais rápido que pude. – Ele caminhava em minha direção e eu na dele. Acabamos nos encontrando no meio do caminho. – Você está bem? – Perguntou me olhando nos olhos profundamente.
— Sim, estou!
— Eu também estou bem, obrigado! – Alan gritou ainda no mesmo lugar, olhando para o corpo caído de Henry McAdams. Jere desviou os olhos dos meus envergonhado, respondendo o meu irmão.
— Desculpe, Alan. Afinal, o que aconteceu?
— Ele apareceu. – Disse Alan apontando para Henry. – Está tudo sob controle... Só preciso dar um jeito de tirá-lo daqui. Poderiam namorar depois e dar uma mãozinha? – Ele nos olhava sério.
Caminhamos em sua direção e, acredite, nós três juntos tivemos uma dificuldade enorme ao tirar o homem do chão e acomodá-lo na poltrona mostarda. Sugeri amarrarmos ele, mas os homens acharam uma má ideia. Frouxos. Alan somente levou a arma para bem longe.
Olhei para Jeremy, queria tanto beijá-lo e jogá-lo no chão agora mesmo. Contudo... não dava. Não agora.
— Como nos achou? – Esse lugar era no meio do nada, difícil de achar mesmo conhecendo a área.
— Ah! Eu segui Alan uma vez. – Alan o encarou perplexo. – Me desculpe. – Jeremy disse olhando meu irmão. – Imaginei que estariam aqui. Vi seu bilhete. – Ele me olhou sério. – Como pôde sair sem se despedir? Não faça mais isso.
— Desculpe? – Eu acho, né.
Meu irmão me encarava. O fitei implorando silenciosamente por mais uma noite aqui. Acho que ele entendeu, pois em seguida pronunciou:
— Acho que devemos adiar a viagem por mais uma noite... Só precisamos tirá-lo daqui. – Disse meneando com a cabeça em direção ao Henry. Pisquei para Alan em agradecimento.
Ouvimos um leve farfalhar longe. Direcionamos nosso olhar para o barulho e vimos McAdams levantar-se da poltrona. Droga! Bem que dizem que vaso ruim não quebra.
Ele começou a caminhar raivoso em nossa direção. Não sei o que ele pretendia, mas Jeremy rapidamente meteu-lhe um soco na cara. McAdams colocou a mão no lábio rachado e sangrando, olhando mortalmente para Jere. O homem mais velho levantou o punho firme e acertou o rostinho lindo do Declair. Aquilo me subiu o sangue.
Andei resoluta até Henry e, juro que iria dar um belo de um chute no saco dele, mas o vestido não permitia tal movimento, por isso contentei-me em acerta-lhe o olho esquerdo.
Alan, contudo, tinha os movimentos da perna livres e deu um pontapé em suas bolas. Ele curvou-se, colocando as mãos em sua enorme barriga. Jeremy deferiu-lhe uma joelhada no rosto. Sei que três contra um é covardia, mas McAdams não era bem a melhor pessoa do mundo, portanto ninguém parecia ligar.
Henry começou a se afastar lentamente e logo correu dali. Jeremy quis segui-lo, mas não havia necessidade. Além do mais, estava cansada.
— Só vamos para casa hoje. – Disse derrotada.
— Mas... – Começou Jeremy raivoso.
— Deixa quieto, Jeremy. – Falou Alan, colocando a mão em seu ombro. – Vamos dormir um pouco.
Voltamos a casa dos Declair. Rosa ficou felicíssima, nunca a vi tão contente. Houveram muitas perguntas, claro, então explicamos brevemente a visita do Henry e que por isso íamos ficar mais uma noite, se não houvesse problemas.
À porta do meu quarto, Jeremy e eu nos olhamos.
— O seu bilhete... – Ri baixinho. O que escrevi no bilhete era pessoal demais. Foi só para ele. – Você podia ficar aqui comigo. – Emudeci.
— Não é assim, Jere... Eu tenho uma vida me esperando.
— Alan está aqui. Você não precisa ir! – Ele me olhava sério.
— Hoje, não. – Segurei seu rosto em minhas mãos e encostei minha testa na dele, fechando os olhos. – Não vamos falar sobre isso hoje. Por favor.
Sua respiração estava descompassada e eu podia sentir seu coração pulando. Abri meus olhos e encarei o mar azul em minha frente. Oh, senhor, ele era tão lindo! Selei nossos lábios, não conseguia mais segurar. Abri a porta do meu quarto, o puxando para dentro comigo.
Amanhã eu iria embora, mas por hora tudo que eu queria era sentir a boca e as mãos do Jeremy em mim.
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