Perdida Na Tempestade
61 Capítulo -61- Até os cegos verão...
Notas iniciais
Haviam se passado poucos momentos desde que ela ouvira o ranger da porta de vidro fechando-se atrás de si e de seu raptor. O veneno, apenas havia paralisado seu corpo, no entanto, não havia mexido em sua consciência tampouco com sua audição. Graças a isso, ela ouvira cada palavra proferida pelo Lorde desde que entraram.
" Como você é bela, jovem humana. Valeu à pena ter saído de minha posição apenas para ter certeza de que você estaria aqui quando eu retornasse... As valsa de honraria para os aliados, começarão em breve, por isso, eu vou deixá-la aqui me esperando, mas garanto que será por pouco tempo... Isso vai ser muito bom... "
Ela havia sentido quando o tal Lorde Fauno, lhe tocara em seu corpo, levantando seu vestido, de modo a tocar-lhe as coxas e aspirar o perfume de sua virgindade. Mas ele não havia ido além, tampouco, fizera menção em despí-la por completo, certamente porque ela mal conseguia mexer o pescoço. Ela estava deitada sobre uma cama grande com cheiro de flores, e após a investida do youkai, ele ergueu-se, colheu uma orquídea púrpura, e retornou para colocá-la nos cabelos da hanma espalhados em uma profusão de cachos, sobre o leito da cama. Ficou alí admirando sua "Obra" de arte, quando subitamente ouviram um som, como de uma explosão de pequeno porte. Alguma coisa ou alguém estava tentando abrir a porta da estufa, e o lorde teve que sair para ver do que se tratava. Tendo o cuidado de fechar as "cortinas" de heras floridas, que cobriam a cama. Ao se vir sozinha, Leodora começou a forçar-se a se levantar. Ao longe, algumas palavras abafadas eram ditas, e ela sabia que não havia muito tempo. Com muito esforço, conseguiu fazer a terra tremer de modo muito sensível. Depois de alguns poucos minutos, as vozes tornaram-se mais altas, e ela pôde perceber que o lorde estava discutindo com alguém. "Preciso sair daqui... Preciso sair daqui agora!" Pensou a hanma, usando seu poder para provocar outro tremor, que desta vez sacudiu todo a estufa. Foi neste momento que ela conseguiu mexer a cabeça e olhar na direção da porta, bem à tempo de ver por entre as heras, que caíam sobre o dossel da cama, a enorme luz, na verdade, outra explosão, que desta vez, estilhaçou os vitrais e retorceu o ferro, seguidos de uma voz que Leodora reconhecera imediatamente.
_Maldito Fauno, mentiroso! Você não merece sequer a alcunha de lixo, quanto mais a de lorde! Raptar uma fêmea, para tirar proveito dela, é algo imperdoável! — O youkai de cabelos vermelhos, disse aproximando-se da cama e com seu poder queimou as plantas, para vislumbrar Leodora. Ao vê-la, Ryotaro, tomou-a em seus braços sem qualquer cerimônia.
_Imperdoáveis são seus modos! Esta fêmea está em minha cama porque ela assim deseja... Aliás, temos de convir que eu sou mesmo um macho muito piedoso. Afinal quantos youkais da minha posição, podem dizer que foram tão gentis com uma reles fêmea humana!? — Fauno vociferou tentando safar-se de seu crime.
_Eu deveria arrancar esse seu membro, imundo, e enfiá-lo na sua garganta, só para ver você sufocar com sua própria imundície... Eu lhe asseguro, Fauno, que se chegar aos meus ouvidos, que você violentou outra jovem eu partirei imediatamente para as terras das florestas azuis, para cumprir com minha ameaça... — O Youkai fênix tinha os olhos em brasas, enquanto levava Leodora para fora da estufa.
_Ela veio a mim por que quis! E mesmo que ela negue isso, como lorde aliado, posso lhe assegurar que minha palavra tem muito mais peso do que a de uma reles humana... E além disso, quem é você, para me acusar de algo? O filho de uma hanyou... É você que nunca deveria se chamado de lorde... Saiam de minha presença e eu lhe farei o favor de ignorar que você destruiu minha estufa particular! — O lorde retrucou no auge de seu orgulho, embora mantivesse suas asas abertas, há uma distancia bastante segura, de Ryotaro.
O youkai borboleta ficou com seus olhos vermelhos de ódio, com o desprezo que Ryotaro lhe destinara ao lhe dar as costas e sequer responder à sua provocação. Por hora, a bela humana estaria salva, mas em algum momento, Ryotaro não estaria por perto, e aí ela o pertenceria. Com esse pensamento o youkai usou seu poder para reconstruir a estufa e caminhou para dentro dela, no intuito de se banhar rapidamente e retirar o cheiro da humana em seu corpo. Logo em seguida, à sua entrada, toda a construção voltou ao solo como se nada estivesse acontecido ali.
Ryotaro caminhou um pouco com Leodora, mas logo que viu Fauno partir, abriu suas asas de fogo, e tomou a direção de seu aposento no shiro, tomando o cuidado de entrar pela varanda, para não ser visto por ninguém. Ele abriu a porta dupla da varanda, que se encontrava apenas encostada, e caminhou até sua cama, onde depositou Leodora que já conseguia mover o pescoço e os braços, embora, com dificuldade. O youkai a examinou minuciosamente, mas não lhe dirigiu à palavra. Foi Leodora que teve de começar o diálogo.
_Ryo... Eu agradeço muito, por ter me salvado... — A bela morena agradeceu.
_Não o fiz por você... — O youkai respondeu secamente, batendo na porta três vezes pausadas, e logo em seguida, indo se servir de uma bebida destilada no carrinho de bebidas de seus aposentos.
_É melhor eu ir embora... Eu já me sinto melhor e... — Leodora apressou-se temerosa, pois sabia que o gesto de bater na porta, servia para avisar a algum servo, ou qualquer outro ser, que o dono do aposento estava de volta.
_Você mal consegue se levantar... Se sair daí, vai no máximo cambalear até o corredor... O veneno de Fauno tem efeito temporário. Em youkais, dura no máximo dez minutos, mas em um organismo frágil como o de vocês humanos, pode levar até três horas e ter sérios efeitos colaterais. Pelo tempo que cheguei até vocês, imagino que esteja envenenada apenas uns quinze à vinte minutos, portanto...
_Eu NÃO SOU HUMANA, TÁ LEGAL? -Leodora vociferou sentando-se com dificuldades na cama. Ryotaro continuou sorvendo sua bebida, de pé, e de costas para Leodora.
_Então, me diga quem você é!- O youkai questionou ainda de costas.
_ E O QUE ISSO LHE IMPORTA? Olha... Obrigada mais uma vez por me salvar... — A hanma explodiu nervosamente, esforçando-se para conseguir se sentar na beirada da cama ainda sentindo as pernas sem forças.
_Eu já lhe DISSE QUE NÃO FIZ NADA POR VOCÊ! — O youkai retribuiu o tom de voz, alto voltando-se para encará-a com ferocidade.
_Ora e por quem foi? Por si mesmo, ou por seu Lorde, o tal de Ryotaro? — Leodora desdenhou.
_EU SÓ SALVEI VOCÊ, PELAS CRIANÇAS, SEUS FILHOS! Nenhuma criança merece ser separada de sua mãe... Minha mãe morreu quando eu era jovem... E meu pai enlouqueceu por conta disso. Passei quase toda a minha vida, lutando para reconstruir tudo aquilo que ele destruiu, e sei que ainda vai ser pouco, diante de tamanha dor, inflingida por ele... Foi por isso, que eu te admirei tanto Leodora... Por que você é uma fêmea, capaz de tudo por seus filhos, mesmo eles não tendo saído de dentro de você... Você está disposta a sacrificar a sua vida pelo que é certo, mesmo que você não tenha feito nada de errado. E PELO MENOS NISSO, NÓS SOMOS IGUAIS! -O youkai disse enérgico, surpreendendo à hanma.
_Ryo... Eu... Eu sinto muito... — Leodora sentia o rosto queimar de vergonha.
_Não sente mais do que eu... VOCÊ NÃO É HUMANA...-O youkai continuou encarando Leodora com tanta frieza que a fez ter vontade de sumir.
Ryotaro foi novamente até o carrinho de bebidas e encheu seu copo. Desta vez caminhou até a varanda, em absoluto silêncio. A hanma ainda pretendia falar, mas, algumas batidas na porta se fizeram ouvir. Prontamente caminhou até a mesma e a abriu com discrição, apenas para que Brunhilde entrasse no aposento.
_Leodora! Pelos deuses, diga-me o que aconteceu! — A hanyou exclamou abraçando a hanma com alívio.
_Estou bem Lady Brunhilde... Graças ao Ryo, foi apenas um susto. — A morena limitou-se a dizer ainda mais envergonhada por perceber que o youkai havia mandado chamar a própria Brunhilde.
_Leo... O destino das terras do oeste começa a ser definido nesta noite... Eu preciso de você... E se não for lhe pedir demais, gostaria que você dançasse, conosco... Como uma feiticeira do tempo... -Brunhilde pediu humildemente.
_Mas milady... Eu não sou digna... Sequer sou feiticeira... — A hanma tentou se esquivar sobretudo, dos olhos penetrantes do youkai.
_Você pode não pertencer ao meu clã, pelo sangue, mas pertence pelos laços que formou conosco! Você salvou a vida de Minara assim que ela veio quase morta para Meikakümun. Você ajudou minha mãe, Izanami e ela se afeiçou a você, de modo que lhe ensinou tudo aquilo que apenas se ensina à uma filha... Conheço minha mãe, Leodora. Ela jamais lhe ensinaria coisas tão pessoais como a dança de meu clã, se não tivesse um imenso carinho por você... — Brunhilde disse com doçura secando as lágrimas da hanma que desciam mesmo com ela, se segurando ao máximo.
_Está certa, milady... Eu o farei... -Leodora respondeu respirando profundamente.
_Então prepare-se... Aliás, vocês dois deverão se preparar. Estarei esperando pelos dois na pista de dança... Inu no Taishou fará um breve discurso antes das valsas serem extendidas aos aliados, portanto, acredito que teremos pouco mais de vinte minutos. Eu peço que vocês, apressem -se por favor... Conto com vocês! — Brunhilde disse, levantando-se e reverenciando os dois antes de sair, apressada.
Assim que a hanyou alada saiu, fechando cuidadosamente a porta atrás de si, Leodora se viu em meio à um silêncio sufocante assim como o olhar frio que o macho youkai lhe lançava enquanto terminava sua bebida. A hanma tentava desviar o olhar, mas por mais que quisesse negar, sentia-se em débito com ele. Seu maior problema no entanto era o medo que sentia. Um medo paralisante de que aquele misterioso youkai pudesse traí-la e levá-la de volta ao seu algoz. Como se lesse seus pensamentos, ou pelo menos pressentisse seus medos mais profundos, o youkai sentou-se na beira da cama, permanecendo de costas para a hanma, como se tentasse escolher bem as palavras.
_Eu tive centenas de servos durante minha vida, e nenhum deles teve a sua sensibilidade, ou me despertou sentimentos semelhantes. Eu não entendo o porquê, mas você... Me atrai muito... Depois que você saiu do salão e me disse aquelas duras palavras, eu relutei muito, mas acabei achando melhor ir atrás de você... Eu segui o seu cheiro até o jardins, e embora eu não tenha visto nada do que aconteceu, encontrei o cadáver do servo pessoal de Fauno em meio à uma pilha de rochas que tinham o seu cheiro... Leodora, você é uma hanma da terra, não é? Foi por isso que você me repeliu? Diga-me... Por favor, eu preciso saber porque você foi tão rude comigo... Será que eu não mereço saber ao menos isso? — O youkai perguntou em um tom de voz calmo, e quase suplicante enquanto voltava-se para encará-la.
_Tem razão... Você salvou minha vida hoje, Ryo... Não temos muito tempo para que eu lhe conte tudo, mas posso lhe adiantar que eu fui prisioneira da loucura de um lorde youkai, há muitos anos, e foi graças a Izanami sama, que consegui escapar. Eu vivo escondida aqui em Meikakümun, desde então, e tenho uma vida feliz, embora o medo insista em me atormentar... -Leodora disse toda a verdade, com resignação sentindo as lágrimas descerem sem nenhum controle por sua face. Estava cansada de mentiras, especialmente quando nenhuma delas a havia levado há lugar algum.
_E quem foi este lorde? Que crime uma fêmea como você, poderia ter cometido, para merecer ser prisioneira? -Ryotaro questionou-a incrédulo.
_Lorde Kyuura o antigo senhor das terras do leste... Por sete anos, ele me manteve presa, em um porão escuro, de onde eu só via o sol pelas frestas de madeira que cobriam uma janela menor do que este travesseiro, apenas por que eu tinha um dom único, capaz de sustentar as guerras que ele travou em meio à sua loucura... Eu sou sim, uma hanma da terra, Ryo... — A hanma revelou, respirando fundo, enquanto tentava recuperar o controle sobre suas emoções.
_Então foi por isso que mudou comigo... Você pensou que eu fosse um general das terras do Leste e temeu por sua liberdade... Mas o lorde Kyuura morreu há muitos anos, e mesmo agora que ele retornou, não é mais, o ser insano, que fez esta maldade com você...
_E não apenas isso... Ryo... Ele me tirou tudo... Eu nunca mais poderei ser livre de novo... — A hanma fechou os olhos com amargura.
_Leodora... Não pense assim!Você é uma mulher livre para buscar sua felicidade...
_ NÃO! EU NUNCA VOU SER LIVRE! — A hanma gritou, explodindo desta vez, em um choro convulsivo, enquanto retirava os laços e abria os botões do vestido, para finalmente retirá-lo.
Ryotaro levantou-se surpreso com a atitude descontrolada da hanma, que rapidamente ficou apenas de calcinha, soutien, cinta ligas e meias. Ao terminar de se despir ainda muito nervosa, a hanma abaixou um pouco a cinta-liga, apenas para que ele pudesse ver do que se tratava.
Ryotaro ficou estarrecido com o que viu. No quadril, na direção da virilha direita da hanma, havia uma cicatriz, com um símbolo, muito conhecido por ele.
_Isto... Isto é... — Murmurou o youkai perplexo.
_É a marca do clã de Kyuura... Ele me marcou com um ferro em brasa, e usou magia negra para tornar essa coisa em uma marca... Como eu posso ser livre tendo uma imundície dessa em meu corpo? Que tipo de macho ficaria com uma hanma marcada por outro? Eu nunca serei livre, Ryo... ENTENDE AGORA? — A hanma vociferou caindo de joelhos, e cobrindo o rosto com as mãos, completamente fora de si.
Para Ryotaro a situação também não era boa. O chão subitamente parecia ter desaparecido debaixo de seus pés. Aquele símbolo era o mesmo que Minara ostentou no braço por tantos anos,com a diferença de que o de Leodora, tratava-se de algo muito mais profundo, uma dolorosa queimadura que embora estivesse muito bem cicatrizada, parecia uma ferida aberta no coração da hanma.
_Leodora... Não se desespere... Eu tenho certeza de que agora que Lady Brunhilde está de volta, ela poderá ajudar você... Pelos Deuses, você é virgem, deve haver algum modo de enfraquecer isso!
_NÃO! Por favor, Ryo... Ninguém pode saber disso... Eu nunca mostrei isso, pra ninguém além de Minara e de Izanami Sama! Por favor... A senhora Izanami era muito mais poderosa como feiticeira, do que Lady Brunhilde... E nem ela conseguiu qualquer hêsito... Apenas... Prometa-me... Que não dirá nada à ninguém, principalmente o tal lorde Ryotaro!
_Mas Leodora... Deve haver algum jeito de você se libertar...
_Ryo... Essa marca foi feita com o consentimento de meus pais... E o meu...
_O quê? Porque você consentiu isso?
_Quando Kyuura soube de meus poderes ele foi até minha terra... Lá ele prometeu aos meus pais que me levaria para ser a fêmea de seu filho, a futura lady das Terras do Leste... Eu era ainda muito pequena, mas ele insistiu que eu deveria ir com ele o quanto antes, para aprender a me portar como uma lady... Meus pais consentiram, mas por precaução, exigiram que antes de partir, eu deveria ser marcada... Foi o próprio Kyuura quem fez esta marca, preparada por uma feiticeira negra de modo que se outro macho tentasse me tocar... Seria morto pelo poder da própria marca, assim como eu também, acabaria morta!
_Então, você foi marcada para ser a prometida, do filho de Kyuura?
_Isso... Anos depois, quando eu ainda estava presa, ouvi o próprio Kyuura dizer que havia feito a mesma coisa que fizera comigo, mas desta vez, ele prometera a paz, e em troca receberia uma feiticeira do tempo... Era Minara... Mas ele novamente só pensava em burlar o acordo, e fazê-la prisioneira assim como eu...
_ Mas Leodora... Ryotaro... -O youkai fênix tentava encontrar um modo de contar a hanma que ele próprio era o lorde, mas via-se, sem saída.
_Por favor, Ryo... Se encontrei alguma graça diante de seus olhos, por piedade... Não conte nada disso, à Ryotaro, ou qualquer outro general do leste... Só te contei tudo isto porque me sentia na obrigação de lhe dizer a verdade sobre mim... Eu... Queria muito me envolver com você... Queria muito, ser digna, mas não sou... Você é um macho lindo, Ryo... É ainda, mais rara, a beleza que você ostenta em seu coração... Leve-a consigo, sempre... E não deixe nunca mais, nenhuma fêmea lhe machucar... — A hanma sorriu em meio às lágrimas, e acariciou o rosto de Ryotaro deixando-o em uma situação, ainda mais difícil. O youkai fênix,sorriu, e pegou o vestido da hanma que jazia no chão, e o entregou a ela antes de falar.
_Vista-se... Falaremos disso mais tarde Leodora... Por hora, temos de ajudar Lady Brunhilde e as outras... Apenas confie em mim... Você confia em mim, Leodora? -O youkai respondeu encarando-a enquanto ela cobria parcialmente o corpo com o tecido do vestido.
_Confio... — A hanma murmurou antes de ir ao banheiro terminar de se vestir e se ajeitar para retornarem ao baile. Uma vez dentro do banheiro, não demorou muito para que a hanma se vestisse e se preparasse para seu retorno. Alguns poucos minutos depois, a porta se abriu, e Ryotaro contemplou-a, surpreso.
_Você está bem? — O youkai ergueu uma sobrancelha duvidando da resposta positiva.
_ Sim... Eu só preciso de uma bebida... — A hanma respondeu levantando-se e caminhando ainda um pouco trêmula, sob o olhar incrédulo de Ryotaro.
Ela havia soltado seus cabelos, deixando uma cascata de cachos negros cair-lhe pelas costas, como um véu. Sua maquiagem estava bem menos intensa, mas mesmo assim sua beleza estava ainda mais radiante. E apesar de ainda estar um pouco em choque, era nítido que estava refeita. A hanma caminhou até o carrinho de bebidas e serviu-se sob o olhar ainda descrente do youkai. Sorveu toda a taça de bebida de uma só vez, e respirou profundamente depois disso. Em seguida guardou a taça antes de voltar-se para Ryotaro.
_Estou pronta... — Ela disse com altivez.
_Tem certeza de que está bem? — O youkai aproximou-se e murmurou transparecendo toda a sua preocupação.
_Estou sim... Nós iremos juntos? Talvez prefira ir primeiro... — A hanma ponderou.
_Será um imenso prazer acompanhá-la... -O lorde a reverênciou e abriu a porta para Leodora.
_O prazer será todo meu, Ryo... — A hanma hesitou um pouco, antes de responder, com um olhar confuso.
Uma vez do lado de fora puseram-se a andar rapidamente e lado à lado, mas quando se aproximaram do salão, Ryotaro, de maneira quase que automática, pegou a mão esquerda de Leodora, e ambos sentiram uma onda de energia lhes tomarem. A hanma soltou a mão assustada, e em seguida olhou para Ryotaro que parecia estar igualmente surpreso. O youkai voltou a pegar a mão da hanma, enquanto se encaravam e pôde ver que no momento em que as duas mãos se tocavam, uma pequena chama se acendeu.
_Por que isso está acontecendo? — A hanma perguntou curiosa.
_Não sei ao certo... Mas acho que teremos de ter cuidado, ou vamos pôr fogo neste salão hoje... -Ryotaro sorriu de lado, encantando ainda mais à hanma que concordou, enquanto se apoiava no braço do youkai, para adentrarem ao salão tendo quase todos os olhares sobre eles.
Os músicos haviam acabado de retornar, quando Inu no Taishou estava terminando seu discurso. Nele, o inu dai youkai havia agradecido a presença de seus aliados, e reafirmado Sesshoumaru como o novo lorde das terras do oeste, ressaltando no entanto, que ele continuaria protegendo e guiando ainda que de modo secundário o governo de seu filho. Ele ressaltou ainda, o quanto estava feliz pelas uniões celebradas, e anunciou a sua união com Izayoi, e a de seus filhos, com suas respectivas mikos, para o terceiro dia de lua crescente que se seguiria. O anúncio havia encerrado o discurso, e causara um grande impacto, que pôde ser sentido mesmo em meio ao silêncio que se seguiu. Brunhilde que há principio ficara apreensiva, havia relaxado ao conversar com Minara. A hanma ruiva concordara imediatamente com a proposta de sua mãe, e havia combinado com suas amigas que tinham de provar aos youkais que eram mais do que eles poderiam supor. E mesmo que nenhum daqueles orgulhosos nobres, nunca viessem a admitir publicamente, o quão especiais elas eram, também pensariam duas vezes, antes de rechaçá-las.
A valsa estava prestes a começar e Sesshoumaru caminhou até Minara para tomá-la das mãos de Hikaru,mas para sua surpresa quando se aproximou dela, ela sorriu da maneira mais sensual possível, antes de declinar o pedido. Em voz alta a princesa verbalizou sua intensão causando frenesi e espanto em seus convidados.
_Meu lorde... Se me permitir, desejo fazer-lhe um pedido... — A hanma ajoelhou-se sensualmente em uma reverência delicada.
_O que queres, Minara Hime? — O youkai disse erguendo-a pela mão, ainda surpreso com a atitude dela.
_Como bem sabe, meu lorde, esta noite eu me uni ao macho escolhido para mim. Esta é portanto a minha primeira dança de honraria, e eu gostaria de propor uma pequena mudança... Meu desejo, meu lorde é que não sejam as fêmeas as tomadas, para a dança, mas sim os machos a serem tomados por nós... — A hanma falou com delicadeza e audácia, causando um imediato burburinho ao terminar.
_Isso é um absurdo... Um escândalo! — Arthálion,o lorde das terras do gelo, disse erguendo-se de seu lugar, e teve apoio de outros que com ele estavam.
_Ao contrário, lorde Arthálion... O que eu desejo, é provar minha teoria à cerca do que acontece aos machos que se permitem viver " levianamente" com fêmeas de outras espécies assim como eu. Acredito que não existe nada, que uma fêmea, independente de sua raça, faça, que outra, tomada de paixão, não faça, ainda melhor... É por isso, que eu gostaria de tirar os senhores, para honrá-los, e mostrá-los, o quão maravilhosa pode ser uma fêmea cujo coração está tomado de paixão. Garanto ao senhor, que até mesmo o coração mais endurecido, como o vosso, meu lorde, feito do gelo eterno dos pólos, poderia sentir o calor do meu, enquanto dançamos... — A hama caminhou até o altivo youkai com seu mais doce olhar, suas mais amenas palavras, e seus gestos mais sensuais, fazendo com que ele acabasse por assentir com a cabeça.
Novamente Minara encarou Sesshoumaru, que se segurava para não gargalhar diante da atuação da hanma, e ele a respondeu.
_Que seja do jeito que me pede, Minara Hime... Que as fêmeas, nos deleitem com suas danças mais envolventes... -O inu Dai youkai disse finalmente voltando-se para seu lugar. Quase que imediatamente, Kagura já previamente avisada, aproximou-se dele, e os dois foram para a pista aguardar pela valsa.
Minara teve de cumprir sua promessa e foi de encontro, ao lorde de gelo, que parecia intrigado com a hanma. Ambos foram para a pista, enquanto Rin, ia em busca do jovem e belo príncipe Kedrik, que ficou lisonjeado com a proposta. Talon foi tirado pela sacerdotiza Kara, Yashiro por Kagome, Nagato por Ritorirï, Isamu por Kikyou, Hikaru por Janis, Kaede tirou à Inu no Taishou por insistência de Hokuto que queria vê-la na companhia do antigo lorde. Leodora deixou Ryotaro nas mãos hábeis de Souten, e tomou a Ryouko, o Lorde das terras do fogo, deixando que Freyia, tomasse ao Lorde Morior. Satori, Byaküro, Brunhilde, Izayoi e Claire, tomaram os demais convidados para as danças enquanto seus machos foram rapidamente tirados por jovens damas youkais que, apressaram-se em aproveitar a oportunidade que lhes era apresentada.
A valsa invertida começou com um ritmo mais tribal e denso, muito lenta à princípio, mas logo tornou-se compassada, e as fêmeas, sobretudo as humanas e hanmas, dançavam usando todos os seus artífices. Se sedução significava poder, então elas tinham de mostrar o quão poderosas eram.
Rin se esmerou na dança lembrando-se especialmente das palavras de Brunhilde e de Minara.
"Meninas, o objetivo das danças de honraria é seduzir o parceiro alheio. Elas remetem à dança do acasalamento dos animais selvagens, por isso nenhum contato sexual esplícito, como um beijo na boca ou carícia mais desinibida, será permitido, mas isso não significa que alguns machos deixem de tentar. Vocês devem estar preparadas para tomar a frente e não permitirem que nenhum macho as deixe constrangidas ou inibidas..." Brunhilde explicou-lhes, e logo em seguida Minara simplificou.
"O negócio é o seguinte, galera, o que minha mãe quer dizer é que a tal valsa de honraria nada mais é do que uma espécie de jogo tosco, cujo vencedor é aquele que deixa os outros com mais tesão! Ridículo, né? Mas a gente não pode esquecer que eles são meio animais, meio demônios, e totalmente machistas, então, estamos até no lucro! Eles não podem nos beijar na boca, ou passar a mão na gente, assim na cara dura, mas acreditem eles vão tentar! Cabe então à gente, fazer isso primeiro, e deixar eles com água na boca. Esqueçam os machos de vocês, pelo menos, um pouquinho! Até porque se a gente fizer tudo certo, eles não vão conseguir fazer o mesmo com a fêmea alheia... Vão ficar de olho na gente, morrendo de ciúme, e de orgulho também, por mais estranho que isso possa parecer... E então, vocês estão prontas?"
Rin sorriu mais uma vez lembrando das palavras de Minara, fazendo com que Kedrik arqueasse uma sobrancelha, curioso.
_O que é, tão engraçado?-O jovem youkai questionou-a.
_Ah me desculpe, eu me lembrei de algo que ouvi... Mas diga-me, príncipe, está gostando da dança?
_ Estou, lady Rin... Confesso que estou um tanto quanto surpreso, com sua desenvoltura. — Kedrik respondeu sorrindo sedutor.
_ Pois eu afirmo que o senhor ainda não viu nada... — A humana disse com seu sorriso mais encantador, antes de subir as mãos, até próximo da nuca do youkai, fazendo com que ele abaixasse um pouco a cabeça e colasse sua testa à dela, enquanto ela remexia os quadris de forma lenta e sensual.
O youkai manteve seus olhos dentro dos de Rin, enquanto sentia o corpo dela remexendo delicadamente contra o seu. Suas mãos, desceram pelas costas da jovem, e foram parar nos quadris, enquanto Rin, enlaçava-lhe o pescoço com o braço direito e segurava o rosto do youkai com a mão esquerda para que ele não parasse de encará-la. O jovem príncipe youkai sentiu-se tão envolvido pela dança e pelo corpo delicado da miko, que teve de se esmerar para que sua ereção não fosse vista ou sentida pela jovem. Sesshoumaru à tudo assistia, e sentia-se no limite de seu auto controle.
Já Hikaru explodia de ciúmes ao ver o quanto Minara se entregava em cada passada de dança. Seu corpo remexia sensualmente e suas mãos apertavam os ombros do alto lorde que permanecia sério, mas concentrado, em cada movimento dela. A hanma mostrava toda a desenvoltura e a desinibição de seu corpo recém deflorado. Mordia os lábios e colava o corpo ao do youkai, corpulento, que não tirava seus olhos do rosto da hanma parecendo hipnotizado com cada movimento dela. Hikaru chegou a ficar com seus olhos enegrecidos por um momento, mas foi advertido por Janis, que o lembrou de que não poderia inteferir de forma alguma. A bela hanma loura, se eximía de todas as formas, para chamar a atenção de Hikaru para si, e depois de alguns movimentos, sentiu que ele relaxou e ela continuou esmerando-se cada vez mais, em remexer seus quadris, e tocar levemente o dorso semi nu do youkai tigre, enquanto buscava os olhos de Yashiro sobre si.
O youkai dragão, assistia de longe o espetáculo da loura hanma, enquanto sentia mais uma vez o amargo gosto do ciúme.
A primeira valsa terminou, e todos cumprimentaram seus parceiros. Minara reverenciou o Lorde de gelo antes de entregá-lo à Naelle que havia chegado àquele momento no salão, e apesar de sua aparência tranquila, e sua face lívida, era nítido a ela, que sua amiga havia chorado. Contudo antes que pudesse dizer algo a própria Naelle se pronunciou, e avisou à Minara que as danças estavam apenas começando, e que ela deveria dar seu melhor assim como a própria Naelle pretendia fazer.
Diante da convicção, apresentada pela amiga, Minara despediu-se do Lorde, e saiu indo em direção ao Lorde das florestas azuis, para tirá-lo para a próxima dança. Ao se aproximar dele no entanto, Leodora lhe surgiu na frente, e surpreendentemente pediu a honraria para si. Apesar de Minara não saber o por quê de tal atitude, o brilho nos olhos da hanma morena lhe indicavam uma segurança tão grande, que tudo o que Minara fez, foi reverênciá-la e sair em busca de outro parceiro.
O Lorde estava impecável, e ninguém, nem o mais hábil dos youkais, podera afirmar que ele tivera em uma batalha há pouco. Ao vislumbrar Leodora vindo em sua direção, a princípio notou o quanto ela parecia diferente. Apesar da única mudança ter sido o fato dela ter soltado os cabelos, seu corpo inteiro, transpirava confiança e sua beleza estava anda mais acentuada pela audácia lida em seus olhos.
_Rsrs... Sentiu saudades, minha presa...? — O youkai murmurou apenas para que ela ouvisse, enquanto a hanma o reverenciava e tomava o braço dele para caminharem até a pista.
_Nenhuma, seu verme... Mas sabe, acho que eu lhe devia, sim, uma última dança. Quero que conheça quem eu sou verdadeiramente... Assim vai poder passar o resto da vida apenas se deleitando com a memória de que me teve em suas mãos, e que mesmo se tivesse conseguido me possuir, nunca saberia, o quão fêmea, eu realmente sou... Nenhuma fêmea que você violentou, nunca foi verdadeiramente "Ela", com você, seu idiota... Mas eu terei a chance de mostrar aquilo que você, não é macho suficiente para ver! -Leodora falou igualmente baixo, com um sorriso confiante e debochado na face, que fez o Lorde tomar a face fria de sempre.
Ryotaro sentiu uma pontada de ciúme lhe invadir, mas o que mais lhe chocava, era como o antes tão orgulhoso macho, parecia indefeso diante da determinação demosntrada pela hanma. Os papéis foram completamente invertidos, e naquele instante, era o youkai "borboleta" que estava sendo atraído pela "luz do fogo" lida nos olhos da hanma.
Masato entrou sorrateiro no salão de festas. Estava à procura de Naelle, e depois de alguns minutos, à procura dela, encontrou-a, em posição de dança com o Lorde das Terras do gelo. Apesar de ser uma situação normal em um baile, a cena lhe chamou a atenção por que o Lorde nunca chamaria uma dita humana, para uma valsa de Honraria. O coração duro de Arthálion, não se impressionava com quase nada, e tampouco ele se importava com convenções. Então porque tirar a hime das terras do fogo conhecida por ser uma "humana", para uma dança?
_Por que a valsa foi "invertida", Masato. São as fêmeas que tomam os machos e eles não poderão se negar! Tive ou não uma grande ideia? — Minara disse ao se aproximar do youkai morcego.
_Está lendo meus pensamentos, não é?... Rsrsrs... Uma ideia como esta só poderia ter sido concebido por seu espírito livre, Minara Hime... — O youkai sorriu.
_Desculpe pela invasão de privacidade, é que eu não controlo isso ainda... Mas que bom que pensa assim, embora eu não tenha muita certeza se isso foi realmente um elogio... Enfim, me concederia a honraria? — Minara o reverênciou, e em seguida o pegou pela mão, sem dar tempo de resposta ao youkai morcego.
_Me perdõe, mas... Minara hime, eu não sei dançar! Por favor, eu não posso aceitar a oferta! -O youkai continuava andando, mas tentava se justificar murmurando para ela, da maneira mais discreta possível.
_Não seja bobo, Masato! Você não precisa saber dançar certinho! Tudo o que tem de fazer é me acompanhar, e você consegue ler meus pensamentos com precisão, então poderá usar sua velocidade!
_Não funciona assim, Minara hime! Eu não me dou bem com multidões... Me sinto exposto... -O youkai continuava tentando se justificar.
_Olha pra mim, Masato! Eu preciso que você dance... Eu quero que você dance comigo,da maneira mais sedutora que conseguir! Quero que imagine a fêmea mais gostosa com quem você já transou, e imagine que sou ela, entendeu? — A hanma murmurou no ouvido do youkai morcego que sentiu envergonhado com todo o desprendimento da hanma que falava com seriedade.
_Mas Minara hime... Eu não posso fazer isso... Hikaru, pode não gostar, de tamanha intimidade...
_Esqueça Hikaru! Ele é seu amigo, quer que você seja feliz! E você pode fazer isso, sim! Chega de ficar se escondendo Masato! Chega de fingir que você é assexuado, que não tem desejos e não sente nada, além de seus instintos. Está na hora de você mostrar a todos, e sobretudo a si mesmo, o macho incrível que você é! E além disso... Se você não dançar comigo, eu juro que fico pelada aqui mesmo e pulo em cima de você!- A hanma foi enérgica, e sua determinação contagiou o youkai.
_NÃOO... Arrgh... AARRRRhhhhaaaammm... Está certa... Chega de me esconder... Esta na hora de descobrir até onde eu posso ir... Mas por favor,não faça isso... — O youkai gritou, e em seguida limpou a garganta, para murmurar, completamente corado.
_ É assim que se fala! Está vendo ? Além de lindo, você também é muito inteligente, Masato! -Minara piscou, e estendeu-lhe a mão, e ambos assumiram a postura de dança, bem à tempo de começar a próxima valsa.
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