Perdida
3 Enlouquecida
Notas iniciais
ENLOUQUECIDA
A ideia de Orochimaru, ou Orochi Maro, era que eu socializasse com os meus pais e todos os outros para que não ficasse tão entediada enquanto ele roubava os produtos químicos da escola e procurava urânio no mercado negro e sei lá mais o quê.
Claro, cada vez mais eu me jogava naquela porção extravagante de LCD e começava a fingir que sentia até o som das plantas e a respiração das cores. Afinal, se já se está no inferno, por que não abraçar o diabo? Vamos ser amigos, ora essa.
A pior parte nem foi eu embarcar naquela jornada pelos rios da heroína, mas sim, perceber que algumas coisas naquela atriz eram terrivelmente familiares a Sakura, minha mãe.
E mais, Hinata, a lésbica que eu vi que fica empurrando Naruto para beijar Sakura e dizendo que os dois vão e casar, é DOIDA! Como a esposa empurra o marido para outra? Ela é demente?
Naruto é o que se espera de um Uzumaki, grande, musculoso, jogador, olhos azuis, aquele clichê que sou apaixonada porque é uma cópia de meu namorado.
Já Sasuke… hm, ele é esquisito.
Não suficiente, há outra coisa estranha acontecendo aqui: os produtores fizeram Hinata ter um primo. Um primo cabeludo, de olhos baixos, corpo esguio e parecendo cansado. Pelo o que vi dele, quando provoquei um esbarro no meio do corredor para que analisasse ele direito, ele é usuário pesado. Não tão pesado quanto às drogas que estou usando para me manter alucinada, não tão pesado quanto meus pais terem criado um universo para me dar uma lição.
Provavelmente ele é algum tipo de Easter egg de alguma outra série. Ainda lembrarei.
Mas, pesado ao ponto de ser muito magro, esquelético, estranho. Havia algo errado com aquele personagem, porém, perto de Sasuke emo, Sakura famosinha, Hinata lésbica, Kurenai bonitona e Naruto hiper gostoso, tava tudo nos conformes.
Meus pais são loucos.
Orochimaru me deu dinheiro para comprar algumas coisas, era pouco, então só daria para algumas peças, no máximo três.
Hinata queria porque queria comprar o tal vestido na Forever 21 e a toda hora mostrava os calos em suas mãos por pegar, ensacar, amarrar, mudar de caixa, pegar, ensacar e amarrar produtos no tal supermercado que trabalhava. Já Sakura, aparentemente não trabalhava, então só observava as vitrines cantando alguma música de alguma cantora com quinto no nome, eu acho, comentando vez ou outra sobre os calos.
Eu estava atrás delas, parecia a esquisita em meio aquelas moças bonitas.
— Sara, o que tá achando da cidade? — Sakura me perguntou. Entortei a boca e olhei para aquela moça de cabelos róseos, deve ser uma peruca, se eu puxar a peruca a farsa acaba.
Eu puxei o cabelo daquela Sakura. Ela gritou. E me deu um tapa na cara. Hinata gargalhava. Parte do corredor do shopping nos olhava. E, não, não era uma peruca.
— Você tá louca?
Meu rosto ainda estava virado pelo tapa, ele queimava na parte que os anéis de ferro daquela criatura bateram, e um deles: o de compromisso. Não com meu pai, com Naruto. Acho que foi esse que mais doeu. E tava muito bem preso na cabeça pra ser uma peruca.
— Poxa, Sara! Doeu.
Virei o rosto para ela. Aquela atriz pintou o cabelo para fazer isso? Há quanto tempo estão planejando essa brincadeira?
Hinata limpava as lágrimas e Sakura me olhava esquisito. Acho que preciso pedir desculpas.
— Desculpa. Eu… pensei que fosse uma peruca.
Ela sorriu e pegou em minha cabeça. Essa nojenta, só porque tá de salto, acha que pode se achar mais alta que eu? Você é de minha altura, mãe.
— É uma anomalia genética. Bem louco, né? Espero que meus filhos não herdem.
— Amém. — Sussurrei. Ela riu e pegou em meu queixo, virando meu rosto e vendo onde havia me acertado.
— Desculpa. Às vezes, eu… hm, não consigo me segurar.
— Eu sei.
Por mais que eu não queira admitir, aquele é o tipo de coisa que Sakura, minha mãe, faz. Não me acertar, mas bater na mesa, gritar e explodir. Gostava de brigar com minha mãe porque quando ela surtava eu sabia que estava prestes a ganhar o bate-boca. Primeira vez que Sakura me bateu foi quando ela, aparentemente, tinha 17.
Meus pais vão se lascar quando precisarem me internar em uma clínica psiquiátrica após isso. Fingirei que sou louca pra eles pagarem contas maiores, mais louca do que já ficarei.
Sakura, sentida pelo acerto, continuou a caminhar comigo abraçada a si, de lado. Meu bico estava enorme. Não gosto desse contato com ela.
— Gosta de Kpop? — Hinata puxou assunto, enquanto eu me desvencilhava do abraço de Sakura-falsa.
— O que é kpop? — Automaticamente perguntei.
— Em que mundo você vive?! — Questionou a morena.
— Você não quer saber. — Sakura sussurrou longe dos ouvidos de Hinata. Eu vou surtar a qualquer momento. Eu quero minha casa e acho que minha verdadeira mãe.
— Kpop é um gênero musical de pop coreano! Nunca ouviu? Seventeen, BTS, Big Bang? — Hina explicou afobada. Era algum pecado em 2016 não conhecer Kpop?
— Não.
Arfou. Com a mão no peito, que inclusive são enormes. Enormes.
— Você vai ouvir kpop.
— Tá. — Respondi. — A loja tá ali. — Mudei de assunto apontando para uma loja grande de vitrines claras e manequins com roupas bem legais.
Havia roupa demais para pouco dinheiro e eu gostava de, ao menos, uma coisa em cada arara. Fora as meias que são umas gracinhas e parecem ser bem confortáveis, e adivinhe, eu amo meias.
Pela falta de dinheiro, só deu pra duas blusinhas. Uma de melancia e outra que dizia “Pizza Lover”, foram boas aquisições. Hinata só queria o vestido, um vestido florido, de alças com fenda. Agora sei porque Naruto não olha pra ela, ele precisa abaixar muito o rosto. Hinata consegue ser menor que eu e Sakura.
No meio da fila para pagarmos, Sakura-Atriz quase me entregou a farsa:
— Será que eu levo uma meia pra ela?
— Ela quem?
Sakura olhou para Hinata, que virou o rosto para olhar uns pincéis de maquiagem. Aí tinha. Para minha infelicidade, nossa conversa foi interrompida por alguém de voz irritante e fina e incrivelmente familiar.
— Oi, meninas!!
Não podia ser. Virei meu rosto para ver a dona daquela voz e minha nossa senhora do perpétuo socorro. Era ela.
— Tia Aleksia?!
— Oiê. — As duas, Hina e Sakura, disseram.
— Tia? — Ela riu e acenou. — Oi, sim, sou Aleksia. Te conheço de algum lugar?
Vi um crachá no pescoço dela, gerente da Forever 21. Ok.
— Acho que por aqui. Devo ter te perguntado o número de alguma calça.
— Ah, deve ter sido. — Respondeu.
Eu sou realmente ótima em inventar histórias.
Sorri e abracei minhas blusas desviando o olhar. Essa mulher é idêntica a esposa de tio Itachi. Como encontraram alguém tão igual e com a voz tão igual?
Incrédula, virei o rosto para ela de novo. Certo que a Aleksia que eu conheço tem mais rugas, botox e essas coisas, mas poxa. Como assim?
Olhei para Sakura, depois Hinata, então Aleksia.
— Boa tarde, flor da tarde. — Orochi Maro disse sorrindo.
Ele estava perto demais. Empurrei-o para longe e sentei na cama. Pelo sons, o cheiro, a cama meio dura e o pano verde percebi que estava em um hospital. Devo ter desmaiado ou surtado, ou os dois. Olhando para Orochimaru respirei fundo, estava de saco cheio daquilo.
Abracei o travesseiro.
— Cadê meus pais? Eu quero meus pais. — Choraminguei. Não pensava que fosse falar isso após um dia louco sem eles, mas eu falei, e o pior: eu falei chorando. — Eu quero que isso acabe, Orochimaru.
Enquanto eu agonizava minha sanidade e tentava fazer o máximo de drama possível para que meus pais vissem meu desespero e cancelassem esse show, Orochimaru começou a andar de um lado para o outro, alisando aquele cabelo já liso.
— Vai ter que esperar mais um pouco. Ainda preciso de…
Talvez eu morra, quem sabe soe mais realista.
— NÃO! — Gritei. — Quero que essa invenção deles acabe! Eu já aprendi a lição. — Seja lá qual for. — Sussurrei.
Orochi se virou para mim e suspirou. Seus olhos estavam brilhosos e baixos, como se estivesse se apiedando de minha alma e queria que aquilo também acabasse:
— Onde você acha que estamos, afinal?
— Em um programa de pegadinhas, onde seria?
Cruzei meus braços e olhei pela janela. Tudo parecia tão real que às vezes eu me via caída na tentação de aceitar aquela realidade.
— Por quê?
— Ora por quê?! Porque é tudo muito louco!
— Sarada, deixa eu te contar uma coisa. — Ele se sentou no pé da cama e jogou o cabelo para o lado, como se quisesse jogar em minha cara que o dele é mais brilhoso, longo e macio que o meu e de qualquer outra pessoa que eu conheça. — Seus pais, no ensino médio, nunca namoraram, sua mãe namorava Naruto e ela ficou grávida e você é irmã de Boruto.
Respirei bem fundo e fechei meus olhos. Ele deve achar que sou idiota ou algo do tipo. É lógico que eu não acreditei naquilo. Pelo amor de deus, seria gritante a diferença de idade.
Nossa, Orochi.
Enquanto ele gargalhava, eu remexia em minhas unhas, puxando as cutículas e deixando-as mais evidentes do que já estavam.
Fechei meus olhos e sussurrei:
— Orochimaru, eu quero voltar para minha casa.
A inútil tentativa de crer que ainda estava em um reality show.
— Sarada, você está vinte e quatro anos no passado, minha querida, aceite. E lembre-se que qualquer coisa que você fizer pode interferir no futuro.
Tipo, se eu cagar aqui, vai ter um cocô a mais no futuro?
— Oi?
Ele riu de mim.
— Agora, não sei como vai funcionar com você. Porque as coisas caminham em uma sucessão de fatos, sabe?
— Não.
Suspirou. Quem deveria suspirar era eu, posso estar presa no passado com esse lunático.
— Tanta coisa pra herdar, por que não a inteligência de Sasuke e Sakura?
Por sorte eu não queria ser curiosa o suficiente para entender Orochimaru, como já disse: ele é um lunático. E não queria perder meu tempo debatendo com ele que sou inteligente para coisas que me interessam. Não loucuras implantadas por meio de seringas em minha veia.
— Por que acha que sou rico? — Ele parou e eu quis morrer. — No futuro? Altas loterias que peguei os número e joguei, querida. Isso mudou meu futuro em um estalo. Eu ter ganhado na loteria, fez que com que no futuro, eu fosse rico. Então, o que você fizer aqui, pode ter alguma influência. — Ele colocou a mão no queixo me analisando. — Agora, você é um ser do futuro que não passa de um espermatozóide aqui. Você está completamente fora de seu ambiente. Não sei o que pode acontecer. Por isso digo que tudo terá uma causa. Lei da ação e reação, lembra?
Enquanto eu surtava com a ideia de foder completamente o passado, meus pais não ficarem juntos e eu não existir no futuro, ele mudava radicalmente de assunto:
— Sabia que eu só vou conseguir fazer as viagens daqui oito anos? Quando você ainda era uma gracinha. Saudades de você bebê. Me odiava.
Eu vou chorar e não será por drama.
— Não mudou muita coisa. — Comentei olhando para ele como alguém olha para alguém com descaso. Até que notei algo em sua frase, que me causou um grito histérico: — EU VOU FICAR OITO ANOS COM VOCÊ? Isso se eu não morrer, né?
— Não! A gente volta sábado. Meu antigo eu consegue daqui oito anos, ou eu... o que conseguiu criar isso. Saudades dele. Como eu já consegui, então só irei.
Muito eu’s numa frase pra que eu entenda à qual dele está se referindo.
Então, minhas ações terão uma influência no futuro e há chances de que eu não exista. Não só eu, mas também Boruto e todos meus amigos. Lá se foram minhas chances de querer fazer alguma coisa para estragar esse mundo doido que eles vivem.
Surtei. Tô achando que tô no passado mesmo.
Se bem que Aleksia é tão igual a tia Alê. Preciso encontrar o irmão de papai, tio Itachi. Tio Itachi e tia Alê se casaram, acho que em 2018, se estamos em 2016 então eles devem estar namorando ou talvez noivos. E, talvez, descobrir alguma coisa que eu já saiba e tirar a prova sobre esse reality ou realidade. Por mais irônico que seja.
Algum tempo depois, um tempo longo e esquisito, olhando para Orochimaru jogar o cabelo dele para os lados e fazer penteados que não conseguiam ficar firmes, eu perguntei:
— Viajar no tempo é crime? — Se fosse pra não existir que fosse impedindo Orochi de fazer essas voltas.
— Não. Porque até onde se sabe ninguém nunca conseguiu. — Ele sorriu jogando o cabelo para trás. — Só o xuxu aqui. — Gabou-se.
Lógico.
— Se alguma coisa acontecer aqui, interferirá em meu futuro e eu me desfaça aqui? — Perguntei, só pra garantir.
— Capaz.
Sem ar, gritei por uma enfermeira.
Depois da alta, devolveram meus “documentos”, que alegavam que sou filha de Oorochina Maro e Uruchi Maron, e fomos embora (com isso, percebi que Orochi Maro, ou Orochimaru, é uma pessoa excelente para desenvolver nomes e falsificar documentos, mais o primeiro que o segundo). E então, dentro do carro que cheira a queijo, meu adorável tio ligou o som.
— Baby I don't need dollar bills to have fun tonight! — Cantou a mulher.
— I LOVE CHEAP THRILLS! — Gritou o outro no carro, batendo as mãos no braço.
— But I don't need no money…
— As long as I can feel the beat...
O pior era a voz que ele fazia tentando imitar a cantora, claro que era uma desgraça. Mas nada foi comparado a coreografia no meio do sinal enquanto cantava uma música bem… esquisita.
— WORK WORK WORK WORK WORK WORK — parados no sinal, Orochimaru rebolava sentado — you see me doin… Por que não fazem músicas boas no futuro?
— Não acho que isso seja bom…
Ele me olhou assustado, como se eu houvesse dito algo completamente louco, o que não era verdade, aquelas músicas eram péssimas. Disposto a me fazer gostar das músicas da época, ele mudou a estação:
— Ooohh, it’s just me, myself and I. Solo ride until I die 'Cause I got me for life…
E até o rap e a parte que pode ser transcrita como:
— Like ba-ba-ba-ba-da-ba. ba-ba-ba-ba-da-ba. Vamo, Sarada! I don’t need anything…
2016 foi um ano esquisito.
Desliguei o rádio e comecei a questionar Orochimaru sobre o que aconteceu neste ano com meus pais e com todo mundo que aparentemente interfere em minha vida… no futuro. Eu precisava existir e faria o possível para que isso acontecesse. A resposta dele, eu mereci:
— Eu tinha mais o que fazer que me importar com esses adolescentes chatos, Sarada. Você não perguntou a eles?
Eu já tô achando que isso tudo é possível mesmo.
É tudo mentira. Estou sendo drogada, mantida em cativeiro ou dentro de um show. Eu ainda existo.
— Não é como se eu perguntasse o que houve em cada ano da vida deles. — Retruquei. Ele sorriu, murmurando que sou atrevida. Ignorei.
A cada minuto que passamos naquele carro, eu desejava quebrar aquele rádio. De músicas que falavam a querer ficar drogada para esquecer a pessoa até músicas que falavam que tudo era triste (azul). Todas com vocal de Orochimaru. Todas. Ele conhecia todas as canções que tocavam na rádio e parecia sempre ter uma coreografia para aquelas músicas. Era incrível como um cara que viaja no tempo consegue lembrar todas as músicas da moda.
O que passou a me motivar foi a vergonha nacional que ele passaria quando esse programa for ao ar. Que ideia maravilhosa.
Em frente a um restaurante de esquina, que parece ser barato o suficiente para os jovens que dependem dos pais, Orochi estacionou, sorriu e disse:
— Ali é onde Itachi trabalha.
Arregalei os olhos e garanti:
— Tio Itachi?
— Conhece outro?
Fechei a boca, ele estava abusando de minha boa vontade. Orochi sorriu e desceu do carro comigo logo em seu encalço.
Às vezes eu acho que tô me deixando levar demais por essa ideia de estar no passado.
De certo modo, conseguir as músicas é fácil, piscando eu consigo uma playlist com todos os hits de 2016.
Entramos no restaurante. Adolescentes demais. Pessoas que lembram meus amigos para todos os lados. Minha mãe no colo do cara do time que é loiro como meu namorado, ao lado deles na banqueta do balcão Hinata e do outro lado do balcão com um pano jogado no ombro e cabelos… curtos, alguém que é familiar demais, com bolsas de olheiras abaixo dos olhos e o mesmo sorriso acolhedor e gentil.
Sentei com Orochi à uma das mesas, encostei na janela e fiquei olhando aquele povo.
Itachi. Sakura. Hinata. Naruto. Ino. Sai. Chouji.
Coloquei a mão na cabeça, doía demais. Isso tá muito errado.
Uma garota de cabelos curtos e roupas rasgadas entrou no restaurante, ela foi quem deu um beijão em Hinata, que nitidamente ficou zonzinha. Tentei ver a reação de Naruto, ele estava mais entretido em conversar com os outros com casaco igual ao dele, ou seja, do time, que ver a esposa com outra. Será que ele tem algum ciúme? Deve ter. Espero que tenha.
Por falar em ciúme, cadê Sasuke?
— E aí, prof! — Itachi se aproximou e eu não soube tirar os olhos dele. — Tudo bom?
— Ah, Itachi, tá tudo supimpa! — Só nesse momento que eu precisei olhar para Orochimaru. O que diabos é supimpa?
— Que bom. Essa deve ser sua sobrinha... que tanto comentaram.
— Tanto comentaram? — Perguntei encarando meu tio. Gente, o nariz dele é igual o meu e o de meu pai.
— É, os meninos ali te acharam mó gata. — E ele continua o mesmo fofoqueiro. — Então, quer pedir o milkshake da casa? É o que mais sai.
Concordei e ele saiu, esquecendo de anotar o pedido de Orochi, que tentava há alguns segundos chamar atenção dele.
Itachi fake é a cara de meu tio Itachi. Só mais novo aqui e mais velho lá. Como isso é possível? Muito bizarro.
Mais bizarro ainda foi quando Sasuke chegou. Meu pai chegou. Cruzou o balcão e colocou o avental. Os dois trabalhavam e os dois eram terrivelmente iguais àqueles caras cinquentões que eu conheço. Mais assustador que isso, foi quando Aleksia chegou com um grupo de amigas, se sentaram em um banco e ficaram conversando. De longe eu vi que Itachi era a fim dela e de longe eu vi que ela o achava uma gracinha, porque ele é uma gracinha.
— Milkshake de ovomaltine? — Tirando-me de meu transe, Sasuke surgiu com o milkshake na bandeja.
— Hm, acho que é meu. — Sasuke colocou em minha frente e entregou-me um canudo.
— Sasuke, eu quero um waffle com chocolate. — Orochimaru parecia uma criança pedindo um doce a mãe com medo que ela fosse negar.
— Você não pode, professor. — E a mãe, que não é mãe, negou. — Sinto muito.
E completando, Orochimaru fez bico.
— Sanduíche de queijo. — Refez o pedido.
— Tá. — Sasuke saiu e eu juro que eu vi Orochi olhando pra bunda dele.
Descobri que Orochi tinha diabete e todo mundo regrava a alimentação dele, exceto ele.
Sentada naquele sofá de plástico vermelho, tomando meu milkshake de ovomaltine, observando toda aquela loucura criada por drogas ou crise existencial, percebi que, se eu estivesse mesmo no passado, o eu de Orochimaru do passado não estava aqui. Afinal, ele deveria esbarrar no eu dele do passado, certo? Tipo aquelas cenas de filmes quando o mocinho encontra o dele do passado e eles tocam o dedo e acontece uma explosão.
Quando questionado, ele suspirou.
— Sim e não. Sim, porque o meu eu do futuro deveria esbarrar no do passado e criar um colapso temporal que foderia minha vida de vez. — Orochi arregalou os olhos — Perdão! Eu nunca digo isso.
— Continue. — Pedi puxando o líquido grosso por aquele canudo estreito.
— Não. Porque eu sou o eu do passado vivendo o futuro.
Pisquei e olhei para Sakura que gargalhava de algo ainda no colo de Naruto e gritava por Sasuke. Escandalosa.
Confusa, perguntei:
— E o seu eu do futuro?
— Não existe.
Resolvi não perguntar mais. Já havia sido informação demais para minha cabecinha processar. Se bem que eu não entendi muito coisa que aconteceu hoje. Com a cabeça ciente que sairia dessa série ou dessa droga ou desse passado definitivamente louca, puxei o caderno de minha mochila e uma caneta.
Comecei:
“Sakura não namora Sasuke, mas namora Naruto. Naruto não namora Hinata, mas sim minha mãe! Meu pai é um emo esquisito. Hinata cola velcro. Todos eles são amigos.
Aleksia trabalha na Forever (NÃO IR LÁ!). Itachi é um tremendo gostoso e já mostrou que tem uma queda por Aleksia. Na verdade acho que os dois se gostam.
Orochimaru é diabético. Eu sou a sobrinha dele. Pra piorar, como eu estou no passado (rsrs) tudo que eu fizer haverá uma consequência no futuro. Inclusive não existir.
Orochimaru me deixará louca, mas isso não é pior do que existir a possibilidade de que, talvez, meus atos me impeçam de existir no futuro.
Porém, será que eu não sou o que fará com que esse povo deixe de loucura e veja que tá tudo errado?
Tipo, pensa Sarada, o pivô dessa separação? E se, eu interferir aqui e não for do jeito positivo? Mas, eu destruir minha existência? E a de Boruto e até de Himawari?
Será que eu vou começar a me desfazer aqui? Que nem nos filmes?
E… como assim orochimaru é o eu do passado vivendo entre os tempos? Ou eu entendi errado? espero que eu esteja entendendo tudo errado tô gastando tinta e folha e Orochi tá me olhando estranho”
Fechei o caderno rapidamente e o abracei contra meu peito. Vai dar tudo certo. Eu vou sair disso e provar que tô drogada ou dentro de uma série. Eu vou sair daqui. Meus pais não comerão meus neurônios.
Virei meu rosto e olhei meus pais. Sakura fazia cafuné nos cabelos de Naruto. Naruto estava deitado no ombro dela. Hinata devorando uma batata-frita com a namorada. Sasuke saía de trás do balcão com o sanduíche de Orochi.
Tão bonitos e tão jovens, tão… diferentes.
— Deixa eu dar um gole.
Bati a cabeça na mesa e massageei minhas têmporas. Orochi Maro bufou, recebendo o sanduíche.
Eu preciso sair. Dar um jeito de fazer meus pais aparecerem aqui, me dizerem que isso é tudo mentira, ou eu tenho quase 99% de certeza que o prejuízo deles em me custear um hospício será altíssimo.
Imagina eu, amarrada pelos braços, pulsos, pernas, tornozelos, pescoço, em uma maca enquanto enfermeiros desesperados tentam injetar um calmante em meu braço (já cheio de muitos furos pelas drogas que Orochimaru está injetando em mim) e eu, ao estilo novela mexicana, me debatendo e gritando.
Ouvi um barulho de revista e levantei o rosto, Orochi passava as folhas lentamente e sorria. Pela capa percebi que era uma de carros e me surpreendi por Orochi gostar de algo estereotipado ao masculino. Com o queixo na mesa e a vontade de viver no chão, observei ele ler atento e sorridente algumas páginas.
— Como você consegue manter a calma?
— Por que não estaria? — Questionou como se eu fosse a louca por estar à beira de um surto, isto se é se eu já não estava surtando. Ele esticou a coluna e virou a revista pra mim, mostrando um carro azul.
— Vai comprar esse carro?
— Vamos roubá-lo.
Se eu já tinha dúvidas se poderia estar surtando ou não, minhas dúvidas foram sanadas. Eu estava surtando.
O ar faltou, o peito apertou, vários pontinhos pretos surgiram em minhas vistas, meus ouvidos apitavam, eu ia desmaiar de novo.
— Eu vou desmaiar.
— De jeito nenhum!
Ele se levantou, me empurrou no sofá e levantou minhas pernas. A cena era estranha, mas tava dando resultado. Isso se eu não estivesse com minha cabeça infestada de um refrão ruim que repetia várias e várias vezes: “vamos roubar um carro”, era o que o cantor desafinado cantava.
— Ela tá bem, prof? — Sakura, de longe, perguntou.
— Está sim. Acho que ela se assustou com a beleza dos irmãos Uchiha.
Meu tio e meu pai. Que loucura. Mas nem tanto mentira, os dois são bonitos. AAAAAAAA. Eu já acho de novo que tô no passado, ó. Arranquei meus óculos do rosto e coloquei meus braços nos olhos, respirando fundo.
— Quer colocar sal debaixo da língua dela? — Espiei por baixo de meus braços e vi Sasuke ao lado de Orochimaru, o segundo parecia brincar de ciranda com minhas pernas, em resposta, chutei ele.
— Atrevida. — Continuou segurando minhas pernas. — Não sei, Sasuke. Como se sente, Sara?
Eu basicamente não ouvia a voz de meu tio, estava com os olhos fixos em Sasuke. Encarando aquele rapaz jovem, de cabelos bagunçados e olhos escuros, eu visualizei o homem de quarenta anos de cabelos bem arrumados e olhos escuros. Lembrava demais meu pai e parecia demais esse jovem.
— Eu preciso me sentar.
— Acho que um misto tá bom, Sasuke.
O garoto concordou e saiu.
Orochimaru se sentou:
— Melhor?
Ignorei a pergunta dele, eu só pensava em uma coisa:
— Como assim roubar um carro? Você tá louco?
— Pensei que quisesse voltar para o futuro antes que sua existência fosse acabada. — Ele parou. — Ir para o futuro. — Fez outra pausa. — Ir para o futuro, é.
Deitei de novo, cada vez que ele dizia futuro eu achava que explodiria.
— E o que tem a ver roubar um carro?
Orochimaru se abaixou no banco da frente, ficando os dois se olhando por de baixo da mesa:
— Para vir ao passado, nossa aceleração precisa estar em repouso, para que haja o desaceleramento. Para irmos ao futuro, nosso aceleração precisa estar constante em torno de 400km hora, para que consiga abrir o portal e darmos o salto. Para isso, precisamos do carro de Hiruzen.
Acho que entendi alguma coisa, exceto:
— O prefeito que foi preso por corrupção? — Perguntei, me sentando.
— Sim! Mas não diga a ninguém, ele ainda é amado por aqui. Sabe como seria ruim uma acusação dessas, né?
Neguei, acho que seria certo.
— Esse carro é dele? Não é caro demais para um prefei…. — Lembrei das acusações de corrupção e liguei os pontos. — Ahh.
O professor de História há algum tempo nos contou o caso dele, Hiruzen Sarutobi, o maior político corrupto de Konoha. Dizem que ele furtou mais de milhões ou bilhões da cidade nos três mandatos.
— É, usou dinheiro nosso pra comprar carro chique. Acho que é nosso direito fazermos um pulo com ele.
— Agora você é justiceiro? — Remexi o milkshake.
— Usarei um livro para combater o crime ou uma capa, com um carro que chamarei de batmóvel, qual gosta mais?
Entortei o rosto encarando aquele lunático. O que se passa na cabeça dele?
Itachi deixou o sanduíche em minha frente e saiu indo atender alguém.
Orochimaru ainda sorria para mim.
— E vamos roubá-lo hoje.
— Qual a outra opção? — Ainda tive esperança.
— Nos jogarmos de um avião. Sem paraquedas. A velocidade é considerável, também dará certo.
Ele é louco.
Tanta gente para me enfiar em um reality show e logo com esse lunático.
Fechei meus olhos e sorri. Se fosse pra seguir esse script, que o fizéssemos. Certeza que eles impedirão isso rapidamente. Meus pais são dois preocupados idiotas.
Olhei para Orochimaru e com toda confiança e fé nos trouxas de meus pais acabarem isso, falei mais determinada que nunca:
— Vamos roubar esse carro.
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