Perdição
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Sonho 4: Ele me segurava pelo quadril contra a mesa como se soubesse exatamente o efeito que tinha sobre mim. Como se estivesse esperando o momento exato em que eu pararia de fingir resistência.

A chuva começou às 10:07 da manhã. Veio forte, densa, caindo violentamente contra os vidros SMG. O tipo de chuva que deixava Manhattan cinza e transformava os andares altos da empresa em algo perigosamente isolado do resto do mundo.
Infelizmente, meu cérebro associou aquilo imediatamente ao Sonho 4. Erro fatal. Porque agora eu não conseguia olhar para a sala de Ethan sem lembrar exatamente da frase:
"muita chuva lá fora e eu gritando o nome dele em português porque o inglês não era suficiente."
Meu corpo inteiro aqueceu só de pensar. Ótimo.
Perfeito. Excelente ambiente psicológico para trabalhar.
O pior de tudo era que eu ainda estava usando o vestido vermelho. E ainda sem calcinha. A decisão parecia brilhante às sete da manhã. Às dez e quinze, depois de quase ser psicologicamente destruída dentro de um elevador corporativo, parecia apenas insanidade.
Cada movimento lembrava. Cada passo lembrava. O atrito da seda contra a minha pele era praticamente uma provocação contínua.
Ethan, é claro, percebeu isso imediatamente. Porque Ethan Stern percebia tudo. Passei a manhã inteira evitando olhar diretamente para a sala dele. O problema era que evitar olhar para Ethan exigia aproximadamente o mesmo esforço mental necessário para ignorar um incêndio em ambiente fechado.
A manhã estava sendo um exercício avançado de tortura psicológica corporativa. Desde que saímos juntos daquele elevador, Ethan tinha permanecido irritantemente profissional.
Nenhuma provocação direta. Nenhum comentário sobre o vestido vermelho. Nenhuma referência ao elevador. Tivemos apenas reuniões, planilhas, chamadas com investidores e Ethan sempre o mesmo cubo gelado de sempre.
O que, honestamente, era pior. Porque meu cérebro não conseguia parar de preencher os espaços vazios.
Toda vez que a porta da sala dele abria, meu corpo reagia primeiro. Meu estômago apertava antes mesmo de eu levantar os olhos do notebook.
Patético.
Eu encarava o relatórios de performance da Firgo há trinta minutos, mas os números pareciam hieróglifos. Toda vez que eu fechava os olhos, sentia a pressão da mão de Ethan na minha coxa. Toda vez que ouvia o som de uma porta abrindo, meus ombros subiam até as orelhas.
— Sara? — A voz de William me fez saltar. — Credo, você está ligada no 220V. O Ethan quer você na sala dele. Cinco minutos, palavras dele.
Levantei-me, alisando o cetim carmim. Ignorando o olhar perigosamente curioso de Marcos ao meu lado.
— Nossa. Você ficou pálida.
— Isso é porque eu trabalho em um ambiente hostil.
— Isso parece mais uma ameaça biológica.
Infelizmente... ele não estava errado. Peguei as anotações com dedos perfeitamente estáveis por fora e absolutamente inúteis por dentro.
— Boa sorte — ele murmurou.
Estreitei os olhos.
— Isso foi ameaçador.
— Isso foi empatia.
Ótimo. Agora até meus colegas percebiam que entrar naquela sala parecia equivalente emocional a entrar numa arena romana.
Caminhei até a porta de carvalho, respirei fundo e bati.
— Entre — a voz dele veio abafada, autoritária.
Entrei.
Erro número um.
Ethan estava de costas, observando Manhattan através do vidro. Ele tinha tirado o paletó; as mangas da camisa preta estavam dobradas até os cotovelos, revelando o relógio caro e as veias marcadas nas mãos que eu infelizmente já conhecia detalhadamente demais. Meu cérebro imediatamente lembrou das mãos dele subindo pela minha coxa no elevador.
Traidor desgraçado.
A sala estava mergulhada numa luz cinza suave por causa da chuva. A cidade inteira parecia borrada atrás das janelas enormes. O som distante dos trovões preenchia os silêncios.
— Feche a porta, Mason.
A voz grave atravessou meu sistema nervoso como uma corrente elétrica, desintegrando o que restava do meu protocolo de defesa.
O clique da fechadura ecoou como um veredito final. Naquele momento, meu coração perdeu qualquer resquício de dignidade profissional.
— William disse que seriam cinco minutos — comecei, mantendo uma distância que eu sabia ser puramente psicológica.
Ethan se virou devagar. O semblante gélido estava ali, mas os olhos... eles guardavam a tempestade do elevador. O olhar dele desceu pelo meu corpo inteiro. Bem devagar, sem pressa nenhuma. Parando exatamente na altura dos meus quadris.
Meu pulso falhou.
— Senta, Sara.
O uso do meu primeiro nome deveria vir acompanhado de alerta médico. Sentei na cadeira diante da mesa tentando manter o resto da minha dignidade profissional intacta. Fracasso imediato.
Ele caminhou até a mesa e se encostou na borda, bem na minha frente, diminuindo o espaço até que seus joelhos quase tocassem os meus.
— Então. Como está sendo seu dia até agora?
Pisquei, atordoada pela banalidade da pergunta em contraste com a voltagem do ambiente.
— Você me chamou aqui para... pesquisa de clima organizacional?
— Estou avaliando os danos do elevador.
Meu coração tropeçou violentamente.
— Ethan—
— Relaxa. — O canto da boca dele subiu com uma lentidão predatória. — Tecnicamente ainda é uma reunião profissional. Afinal, o incidente aconteceu dentro da empresa.
Ódio. Ódio absoluto.
— Você é inacreditável.
— E você passou a manhã inteira evitando olhar para mim. — Ethan inclinou levemente a cabeça, os olhos azuis fixos nos meus. — Isso significa arrependimento ou distração?
— Isso significa sobrevivência.
— Hm.
Ele abriu uma pasta qualquer sobre o mogno, mas não se deu ao trabalho de ler uma única linha. Era puro teatro corporativo; ele estava apenas nos dando um álibi visual caso alguém entrasse.
— Interessante.
— O quê?
Os olhos azuis voltaram lentamente para os meus.
— Você ficou muito mais silenciosa depois que percebeu que eu realmente sabia.
Meu corpo inteiro aqueceu instantaneamente. O contraste entre o ar-condicionado frio e o fogo que subia pela minha pele era insuportável. Lá fora, a chuva se intensificou, o som dela contra o vidro reforçou a acústica da sala.
Ethan observou meu rosto por alguns segundos, tempo suficiente para ele notar a dilatação das minhas pupilas. Então, ele perguntou baixinho, com uma voz que parecia um segredo compartilhado:
— Você escreveu o Sonho 4 pensando nesta mesa?
Meu cérebro simplesmente desligou.
A pergunta veio calma. Precisa. Quase gentil, o que a tornava mil vezes mais perigosa. E o pior: ele não estava mais me olhando. Ele estava olhando para a própria mesa de mogno enquanto perguntava.
A mesma mesa.
A mesma sala.
A mesma chuva.
Meu corpo inteiro travou. Não externamente. Externamente eu ainda parecia Sara Mason, analista estratégica da SMG, profissional competente, funcional e relativamente inteligente.
Internamente? Internamente eu era um sistema operacional pegando fogo.
— Você não pode perguntar esse tipo de coisa no horário comercial — consegui dizer, embora minha voz tivesse perdido completamente a autoridade no meio do caminho.
Ethan se inclinou para frente, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o calor emanando de seu corpo. Ele apoiou as mãos na borda da mesa, uma de cada lado dos meus quadris, prendendo-me em seu raio de ação.
— Posso, na verdade. Sou dono do prédio.
— Isso não é uma justificativa legal.
— Não pretendo usar num tribunal.
Filho da puta. Desviei os olhos para as janelas tentando recuperar o mínimo da compostura. Erro grotesco. Porque a chuva piorava tudo.
As gotas escorriam pelo vidro em linhas lentas, distorcendo Manhattan inteira. A cidade parecia distante, borrada, quase íntima demais ali de cima.
Exatamente como eu tinha descrito no diário. Ethan percebeu o segundo exato em que minha respiração mudou.
— Ah — murmurou baixinho. — Então foi aqui mesmo.
Meu coração bateu tão forte que chegou a doer.
— Você leu meu diário.
O silêncio confirmou tudo antes mesmo que a boca dele abrisse.
— Eu encontrei por acidente.
— Ah, claro. E sua mão caiu acidentalmente em várias páginas específicas também?
O canto da boca dele subiu.
— Algumas páginas chamavam atenção.
Quero matá-lo.
Quero beijá-lo.
Talvez os dois.
Inclinei-me sobre a mesa, furiosa em voz baixa.
— Você invadiu minha privacidade.
Pela primeira vez naquela noite, Ethan pareceu perder um pouco da segurança perfeita. Só um pouco.
— Eu sei.
Aquilo me desmontou mais do que deveria. Por que não foi a arrogância que encontrei ali, ele foi sincero.
— Eu devia ter parado depois da primeira página.
— Mas não parou.
Os olhos dele encontraram os meus.
— Não.
Meu estômago virou.
A honestidade dele era perigosamente pior que a provocação. A chuva preenchia o silêncio entre nós enquanto eu tentava organizar os próprios pensamentos.
— Então o elevador... — minha voz saiu mais baixa do que eu queria — aquilo foi planejado?
Ele sustentou meu olhar.
— Sim.
Meu Deus. Tapei os olhos por um segundo.
— Isso é comportamento de serial killer corporativo — sibilei, tentando não deixar transparecer que meu corpo estava em chamas. — O que vem depois? Você vai me trancar em uma sala de arquivos até eu confessar todos os meus pecados literários?
Uma risada baixa escapou dele.
— Depende — ele respondeu, sem desviar o olhar. — Quantos pecados você ainda tem guardados naquele diário? Você escreveu que eu faria isso.
— Ethan!
— O quê? — Ele inclinou a cabeça, completamente calmo. — Você me transformou num personagem antes mesmo de me dar a chance de ser um homem.
— É ficção. Escapismo. Nada além disso.
— Se é apenas um roteiro, por que o seu batom está borrado no canto porque você não consegue parar de morder o lábio desde que você entrou aqui?
Eu não respondi. Não havia resposta que não fosse uma confissão.
— Você não devia ter lido aquilo.
— Talvez não. — A voz dele baixou. — Mas depois que li... eu precisava saber se você realmente me queria daquele jeito ou se era só fantasia segura no papel.
Meu corpo inteiro aqueceu de novo.
— E agora você sabe?
Os olhos dele desceram devagar até minha boca antes de voltarem aos meus.
— Agora eu sei que você treme quando eu chego perto.
A tensão veio tão forte que precisei respirar fundo. Ethan continuou:
— Sei que você provoca quando está nervosa. Que usa sarcasmo para esconder quando perde o controle. E sei... — ele inclinou levemente a cabeça — que você me olha como se estivesse tentando decidir se me odeia ou se me arrancaria a roupa.
Meu cérebro: sim.
— Você é absurdamente convencido.
— Não. — O tom dele ficou perigosamente suave. — Só estou lendo você do mesmo jeito que você me escreveu.
Meu coração batia tão alto que eu mal conseguia ouvir qualquer outro som.
— Tem mais sonhos comigo?
Soltei uma risada nervosa.
— Você quer a versão curta ou a judicialmente preocupante?
Aquele sorriso apareceu de novo.
— O elevador ainda é o meu favorito até agora.
— Claro que é. Seu ego provavelmente saiu de lá usando terno.
Ele riu baixo de verdade dessa vez. E foi tão inesperadamente bonito que meu coração simplesmente desistiu de cooperar comigo.
Então Ethan apoiou os braços na mesa e disse a frase que destruiu completamente o resto da minha estabilidade emocional:
— O Sonho 4 dizia que eu perderia a paciência com a sua resistência exatamente no momento em que o primeiro trovão ecoasse.
Como se o próprio universo estivesse sob o comando de Ethan Stern, um trovão baixo e distante ressoou pelas entranhas do prédio. Meu coração saltou.
— Ethan, a reunião... — tentei, num último esforço de sanidade.
— A reunião pode esperar. O mercado pode esperar. — Ele se aproximou mais, o nariz roçando no meu. — O que eu quero saber é: o que você escreveu que eu faria a seguir? Porque, honestamente, Mason, minha imaginação está começando a superar o seu roteiro.
Ele estendeu a mão e, com uma lentidão torturante, tocou a ponta dos dedos no meu queixo, forçando-me a olhá-lo. E então ele deslizou a mão do meu queixo para a minha nuca, os dedos se perdendo no meu cabelo, puxando minha cabeça levemente para trás. O olhar dele estava fixo na minha boca, e eu sabia que estava a um milímetro de perder totalmente o chão.
— Você escreveu que eu te colocaria sobre esta mesa — ele murmurou, a respiração quente contra meus lábios. — E que eu não pararia até você esquecer como se fala qualquer outra língua que não seja a sua nativa.
Minhas mãos subiram involuntariamente para o peito dele, sentindo a batida firme do seu coração sob a camisa cinza. Eu queria empurrá-lo e puxá-lo ao mesmo tempo.
— Você está sendo... — as palavras sumiram.
— Predador? — Ele completou com um sorriso mínimo. — Talvez. Mas você foi a arquiteta dessa caçada. Desde o elevador, você consegue pensar em outra coisa?
Meu silêncio respondeu primeiro. Porque não.
Eu não conseguia. Não conseguia esquecer a mão dele. O peso do corpo dele contra o meu. A voz dele contra meu pescoço. A maneira como ele descobriu instantaneamente que eu estava sem calcinha.
Ethan observou meu rosto por alguns segundos lentos demais. Nossas respirações se misturando. Então os olhos dele desceram. Direto pras minhas pernas. O vestido vermelho tinha subido alguns centímetros quando sentei. O suficiente.
A mandíbula dele travou com tanta força que vi os músculos do seu pescoço saltarem. Foi a primeira rachadura real na armadura de gelo que ele ostentava desde as oito da manhã.
— Cristo — ele murmurou baixinho.
Meu coração quase explodiu.
— O quê?
Os olhos dele voltaram pros meus lentamente. O azul muito mais escuro agora.
— Você veio mesmo trabalhar assim — ele constatou, a voz rouca, quase sem fôlego.
Minha respiração falhou.
Porque aquilo não era um julgamento de RH. Não era uma bronca do chefe. Era fascinação masculina pura. Ele não estava apenas tinha lido meu sonho número 4; ele estava vivendo a versão dele, e percebendo que a realidade era mil vezes mais perigosa do que qualquer coisa que eu pudesse ter escrito naquele caderno.
O telefone na mesa dele tocou, o som estridente cortando a névoa de desejo como uma navalha. Ethan não desviou o olhar. O aparelho tocou uma, duas, três vezes antes dele soltar um suspiro irritado e se afastar apenas o suficiente para apertar o viva-voz sem me soltar.
— O que é, Amanda? — a voz dele saiu cortante.
— Sr. Stern, os investidores da Firgo acabaram de entrar no lobby. William está perguntando se a Srta. Mason já terminou a revisão dos dados.
Ethan olhou para mim. Um olhar que prometia incêndios e ruínas.
— Diga a eles que subam. A Srta. Mason está... finalizando os ajustes.
Ele desligou o aparelho e voltou sua atenção para mim. O momento de vulnerabilidade tinha passado, substituído pela máscara de aço, mas a tensão ainda vibrava entre nós.
— Você tem dez minutos para se recompor e entrar naquela sala de conferências — ele disse, a voz agora profissional, mas os olhos ainda fixos nos meus. — E Sara?
Meu cérebro ainda estava preso na frase "você escreveu que eu te colocaria sobre esta mesa", e aquele sociopata corporativo queria que eu participasse de uma reunião executiva em dez minutos.
— O quê? — perguntei, tentando recuperar o fôlego.
— Deixe o caderno na sua gaveta. Eu não quero que você leia sobre o que eu vou te fazer. Eu quero que você sinta.
Minha respiração ainda estava desregulada quando Ethan finalmente se afastou.
Não muito. Não o suficiente para eu esquecer o calor das mãos dele na minha nuca. Mas o suficiente para ele reconstruir aquela máscara corporativa absurda que me dava vontade de cometer crimes financeiros.
Ele soltou meu cabelo devagar, se afastando para pegar o paletó na cadeira e o vestiu com uma elegância insultante, deixando-me ali, sentada diante da mesa de mogno, com a pele em chamas.
Levantei rápido demais da cadeira. O vestido vermelho deslizou pelas minhas pernas como uma ameaça pública, e percebi imediatamente o erro porque os olhos de Ethan acompanharam o movimento por um milésimo de segundo.
Durou só um instante, mas eu vi. E pior,
ele percebeu que eu vi. A mandíbula dele travou novamente. Meu Deus, eu estava afetando Ethan Stern.
Não de maneira estratégica.
Não de maneira intelectual.
Não como analista.
Como mulher.
Aquilo era perigosíssimo.
Peguei minhas anotações na mesa com dedos que eu esperava parecerem menos trêmulos do que realmente estavam.
— Você deveria ser proibido de conduzir reuniões depois desse tipo de... — gesticulei vagamente entre nós dois — terrorismo psicológico.
— E você deveria parar de usar vermelho em ambientes corporativos se pretende manter relações profissionais saudáveis.
Meu coração bateu forte outra vez.
Filho da puta.
Caminhei até a porta tentando recuperar alguma dignidade, mas antes que eu alcançasse a maçaneta, a voz dele veio baixa atrás de mim:
— Mason.
Parei imediatamente. Erro evolutivo feminino número um: obedecer ao tom de voz de um homem perigoso.
Virei devagar.
Ethan estava parado atrás da mesa agora, as mãos apoiadas no mogno escuro. O olhar dele percorreu meu rosto com uma intensidade silenciosa demais.
— Respira antes de entrar naquela sala — disse por fim. — Porque todo mundo lá fora consegue perceber quando você está nervosa.
O problema? O problema era que ele parecia igualmente sem ar.
Saí da sala sentindo as pernas estranhamente leves. Não leves de um jeito bom. Leves de um jeito "talvez eu tropece e morra no corredor da SMG". A sensação era de que todas minhas moléculas haviam sido rearranjadas.
A porta se fechou atrás de mim. E imediatamente dei de cara com Marcos. Claro. Porque Deus havia me abandonado completamente. Ele estava encostado na própria mesa segurando um café, mas o olhar que me lançou foi perigosamente analítico.
— Credo — murmurou. — Parece que você voltou de uma zona de guerra.
— Reunião produtiva — respondi rápido demais.
Marcos estreitou os olhos.
— Hm.
Eu ODEIO gente perceptiva. William apareceu do outro lado do corredor segurando um tablet.
— Finalmente. A Firgo já está na sala principal.
Ele começou a andar enquanto eu e Marcos o acompanhávamos pelo corredor de vidro da diretoria.
— Ethan está estranho hoje — William comentou distraidamente. — Acabou de destruir o financeiro numa call de quinze minutos. Acho que alguém irritou ele.
Meu coração deu um pequeno salto absolutamente inconveniente.
Marcos soltou um ruído pelo nariz.
— "Hoje"? O homem nasceu irritado.
— Não, hoje é diferente — insistiu William, parando diante das portas de vidro fumê da sala de conferências. — Ele está... agressivo. Num nível mais pessoal.
As portas da sala de reunião principal apareceram no fim do corredor como um portão de entrada para um tribunal. Vidro fumê, madeira escura e o logo gigantesco da SMG em relevo na parede, brilhando sob as luzes frias do teto.
Respirei fundo, sentindo o cetim carmim subir e descer contra o meu peito.
Profissional.
Você é uma analista sênior.
Você é adulta.
Você consegue sobreviver a noventa minutos sem pensar na pressão dos dedos dele na sua pele.
Mentira.
Uma mentira absoluta e vergonhosa que o meu próprio corpo desmentia a cada passo.
William abriu a porta com a eficiência de sempre. A sala já estava cheia. Executivos da Firgo espalhados pela mesa gigantesca de carvalho, cercados por tablets, pastas de couro e o aroma pesado de café e perfumes importados. Era uma densidade de poder e dinheiro concentrada em poucos metros quadrados.
E na cabeceira, o epicentro do meu caos: Ethan Stern.
Ele estava impecável. A camisa preta agora coberta pelo paletó cinza-chumbo, a postura milimetricamente ajustada. Ele era a definição de controle. Um iceberg corporativo.
Como se, vinte minutos atrás, ele não estivesse murmurando obscenidades psicológicas contra a minha boca enquanto a chuva destruía Manhattan atrás de nós. Como se ele não tivesse mapeado cada centímetro da parte interna da minha coxa mais cedo no elevador.
Meu estômago deu um solavanco violento.
Caminhei até o meu lugar, o som dos meus saltos ecoando no silêncio que se formou. Então, os olhos azuis ergueram-se.
Eles encontraram os meus com a força de uma colisão frontal.
Senti o ar estagnar nos meus pulmões, esperando pela provocação, pelo brilho de deboche ou pela fome predatória. Mas o que aconteceu foi pior. E pela primeira vez desde que conheço Stern... ele desviou o olhar primeiro.
O fato de Ethan desviar o olhar primeiro deveria me dar alguma sensação de vantagem estratégica, algum resquício de equilíbrio emocional.
Em vez disso, só piorou tudo.
Porque Ethan Stern não desviava. Ethan sustentava, dominava e controlava. Ele encarava investidores bilionários como quem avalia a previsão do tempo em um aplicativo de celular. Ver o contato visual ser rompido foi como assistir à primeira rachadura surgir em uma represa de concreto: pequena, quase invisível, mas o prelúdio de um desastre iminente.
— Sara? — William murmurou ao meu lado.
Pisquei rápido demais.
— Hm?
— Sua cadeira. — ele indicou o lugar vago.
Ah, certo. Ser humano funcional. Movimentação básica. Atravessei a sala tentando ignorar a consciência física do vestido vermelho deslizando pelas minhas pernas a cada passo. Era uma missão impossível, principalmente porque eu sentia o vácuo deixado pelo olhar de Ethan, que agora evitava minha direção deliberadamente.
O que significava, obviamente, que ele estava pensando exatamente nisso.
Sentei-me ao lado de Marcos, abrindo o notebook numa velocidade talvez excessivamente agressiva.
— Você parece alguém tentando sobreviver a um interrogatório da CIA — ele murmurou discretamente.
— Talvez eu esteja.
— O Stern?
Lancei-lhe um olhar mortal. Marcos ergueu as mãos em rendição silenciosa.
— Certo. Touchy subject. Entendido.
Do outro lado da mesa, Ethan iniciou a reunião sem preâmbulos, sua voz cortando o burburinho da sala como uma lâmina de bisturi.
— Vamos direto ao ponto. A Firgo quer expansão agressiva de posicionamento no próximo trimestre, mas a campanha atual ainda parece segura demais. Carece de pulso.
A voz dele estava perfeitamente estável. Profissional. Controlada. Mas eu agora conhecia o registro grave e rouco que aquela mesma voz alcançava entre quatro paredes. E isso destruía minha capacidade cognitiva.
— O consumidor premium responde melhor à sensação de exclusividade emocional — continuou Ethan, passando os olhos pelos relatórios. — E no momento vocês estão vendendo eficiência. Não desejo.
Meu cérebro travou por motivos completamente inadequados ao ambiente corporativo. Desejo.
— Concordo parcialmente — disse um dos executivos da Firgo, um homem grisalho chamado Daniel Reeves. — Mas existe uma linha tênue entre sofisticação e provocação.
Ah.
Não.
Não use essa palavra hoje.
Ethan pegou a caneta, girando-a lentamente entre os dedos, os mesmos dedos que, vinte minutos atrás, haviam mapeado minha pele.
— Provocação não é o problema — respondeu ele com uma calma gélida. — O problema é quando você provoca sem ter a intenção de sustentar a atenção depois.
Meu coração tropeçou violentamente. Aquilo não era sobre marketing. Não podia ser. Marcos lentamente virou o rosto na minha direção, e eu mantive os olhos pregados na tela, fingindo digitar algo vital para a sobrevivência da SMG.
Oh, meu Deus.
Não.
Não percebe.
Mantive os olhos presos na tela do notebook enquanto fingia digitar alguma coisa extremamente importante e nada relacionada ao fato de que Ethan Stern aparentemente havia decidido me assediar psicologicamente através de metáforas corporativas.
— Então qual seria a solução? — Daniel perguntou, inclinando-se para frente.
Ethan recostou-se na cadeira. Pela primeira vez, os olhos azuis deslizaram na minha direção. Foi rápido. Um segundo. Tempo suficiente para incendiar o oxigênio da sala.
— Tensão — respondeu ele, a voz baixando uma oitava. — Você faz o consumidor querer algo antes de entregar. A antecipação cria obsessão.
Meu corpo inteiro entrou em combustão espontânea. Marcos tossiu ao meu lado. TOSSIU. Não uma tosse de garganta seca, mas aquela tosse de quem acabou de somar dois mais dois. Filho da mãe percebeu alguma coisa.
— Interessante abordagem — comentou outra executiva, alheia à eletricidade estática que fazia meus pelos do braço se arrepiarem.
— Funciona — Ethan respondeu simplesmente.
Desta vez, os olhos dele permaneceram em mim por tempo demais. Não de forma vulgar, mas com a fixação de um homem tentando desesperadamente manter o autocontrole enquanto pensa em algo absolutamente inadequado em uma sala cheia de testemunhas.
Ele olhou para mim. Não foi um olhar profissional de quem espera um dado estatístico. Foi um olhar masculino, lento e demorado, que desceu pelo decote em V do vestido e se demorou na fenda lateral com um interesse nada corporativo.
O ar da sala mudou instantaneamente. Eu senti antes mesmo de olhar para Ethan.
A temperatura da sala despencou para zero absoluto em um microssegundo. Senti o impacto antes mesmo de olhar para a cabeceira da mesa. O maxilar de Ethan endureceu a ponto de os músculos do pescoço saltarem. Os dedos dele apertaram a caneta com tanta força que achei que o plástico fosse estourar.
— Reeves.
O homem ergueu os olhos, confuso.
— Sim?
— Acredito que a apresentação no telão esteja mais relevante do que analisar minha equipe visualmente.
Marcos congelou. William ergueu lentamente os olhos do tablet, a expressão de quem acaba de ver um acidente de trem em câmera lenta. Aquilo não tinha sido uma correção de conduta. Tinha sido um rosnado de posse disfarçado de etiqueta empresarial.
Daniel Reeves ergueu as sobrancelhas com uma lentidão calculada, claramente pego de surpresa pelo corte seco e gélido de Ethan. O ambiente, que antes cheirava a café e couro, agora parecia carregado de ozônio, como se um raio estivesse prestes a atingir a mesa de carvalho.
— Claro — Reeves respondeu, ajustando a postura, o sorriso murchando instantaneamente. — Não foi minha intenção...
— Ótimo — Ethan interrompeu, sem alterar o tom, mas com uma autoridade que encerrou qualquer possibilidade de réplica. — Então vamos continuar.
Meu Deus do céu.
Porque Ethan Stern não perdia compostura em reuniões. Ethan Stern era o homem que conseguia negociar fusões multimilionárias enquanto o mercado desabava. O homem era praticamente uma inteligência artificial vestida de Armani.
E, mesmo assim, ele acabara de marcar território de forma primitiva em uma sala cheia de executivos de alto escalão.
Marcos virou o rosto na minha direção com a cautela de quem observa um acidente nuclear. O olhar dele gritava: "Que porra foi essa?"
Eu queria respostas também. Mas eu estava ocupada demais tentando não entrar em combustão espontânea.
Ethan voltou para a apresentação como se não tivesse acabado de detonar uma granada social.
— O problema da campanha atual é a previsibilidade — disse ele, a voz agora suave e perigosa. — O luxo não pode parecer acessível emocionalmente. Precisa existir uma tensão aspiracional.
A palavra tensão deveria ser banida daquele andar por decreto municipal.
William pigarreou, um som seco que denunciava seu desconforto crescente.
— A equipe da Mason trouxe alguns insights interessantes sobre isso — disse ele.
TRAIDOR.
Meu cérebro ainda estava tentando sobreviver ao microcolapso possessivo de Ethan há literalmente quarenta segundos e agora eu era o centro das atenções.
— Sara? — William incentivou.
Respira. Você é competente. Você é uma estrategista. Você não é apenas uma mulher sem calcinha tentando sobreviver ao olhar do chefe.
Levantei os olhos para o telão, focando nos gráficos para não desmoronar.
— A Firgo vende exclusividade como status financeiro — comecei, sentindo o piloto automático profissional assumir o controle. — Mas hoje, a exclusividade precisa parecer pessoal. Quase íntima.
Ethan me observava. Ele não piscava. Ele estava completamente imóvel, as mãos entrelaçadas sobre a mesa, mas a energia que emanava dele era puramente predatória.
— O consumidor quer sentir que está entrando em um universo privado — continuei, minha voz ganhando uma firmeza que eu não sabia que tinha. — Não apenas comprando um produto. A campanha precisa criar uma sensação de... intimidade seletiva.
Silêncio absoluto. Daniel Reeves assentiu devagar, parecendo genuinamente impressionado.
— Isso é bom. Muito bom.
— É por isso que a proposta visual da Sara funciona — Ethan interveio antes que Daniel pudesse alongar o elogio.
Meu coração tropeçou. O tom dele havia mudado. Não era mais o CEO falando com a diretoria; era algo mais baixo, mais atento, quase confidencial. Os olhos azuis permaneceram fixos em mim enquanto ele continuava:
— Ela entende como provocar curiosidade sem entregar tudo imediatamente.
Meu pulso acelerou até o limite. Não era sobre marketing. Não era sobre a Firgo. Fazia tempo que não era.
Marcos percebeu. Eu vi o segundo exato em que ele recostou na cadeira e cruzou os braços, observando o pingue-pongue de olhares entre nós como quem assiste a uma bomba-relógio fazer a contagem regressiva.
— A antecipação é a parte mais importante do desejo — Ethan continuou, as palavras saindo lentas, pesadas. — Quando você entrega rápido demais... perde o impacto.
Meu Deus.
William agora parecia querer se fundir à cadeira. A mulher do marketing da Firgo começou a digitar furiosamente no tablet, desesperada para fugir da estranheza elétrica que saturava o oxigênio da sala.
Eu finalmente entendi a coisa mais perigosa de todas: Ethan Stern não estava apenas perdendo o controle perto de mim. Ele estava começando a odiar a ideia de que o resto do mundo também pudesse ver o que ele estava tentando, desesperadamente, reivindicar.
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