Perdendo e Encontrando
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Quando chegamos ao depósito, eu me sentei no chão com o corpo de Mel ainda no meu colo, pensando em como fazer pra pô-la dentro do buraco. Seria complicado... Ele era pequeno, mal cabia uma pessoa, duas certamente estava além da sua capacidade; ainda mais, se tentássemos entrar simultaneamente. Acho que teria apenas que a empurrar para dentro.
Já me preparava para fazê-lo, quando os meus olhos caíram sobre o rosto dela. De olhos fechados, sem o brilho aversivo prateado, era como ter a minha Mel de volta. Com carinho, eu lhe acariciei delicamente a face machucada, afastando alguns fios de cabelo de suas faces, ainda incandecentes pelo sol insano a que ela tinha estado exposta durante todo o dia. Uma certa culpa permeou o meu toque. Mas eu a afastei; não era ela. No entanto, ali, com o calor de seu corpo junto ao meu; com o seu rosto lindo, tão próximo de mim, eu não podia fugir às lembranças do nosso tempo juntos.
Eram umas 5 horas da tarde, o dia estava quase findando, nós estavamos na antiga cabana de caça do meu avô, escondidos no alto de uma montanha. Tinha sido duro o caminho até ali; ainda assim, nenhum de nós parecia muito disposto a se deitar. Estavamos todos muito excitados com a vista lindíssima que tinhamos. Pra mim, também tinha sido estranho ir para aquele lugar, depois de tantos anos. Eu só fui uma vez, quando ainda era um menino. Meu avô me tinha levado lá meses antes de ele morrer. Aquele era um lugar a que eu associava com alegria e inocência. Talvez eu estivesse tentando recuperar um pouco disso. Eu não sei.
Jamie corria pelo lugar como um cabrito montês, apontando uma e outra coisa das imediações. Eu sorria-lhe, indulgente ante a sua alegria. Sim, tinha valido cada pontada nos meus músculos da perna, apenas para ver Jamie nesta felicidade. Querendo participar de sua alegria eu expliquei:
— Há um grande lago logo atrás, e com certeza, temos algumas varas de pesca
dentro da cabana.
— Mesmo?
— Sim, espere um instante. — E então, eu fui até um tronco caído e peguei uma
larva. — Pegue, use isso como isca.
— Legal! — E com isso ele saiu correndo. Provocando o riso de Mel.
— Isso ai, maninho. Vê se pega pra nós um peixe bem grande pra gente jantar.
— Eu vou Mel, eu vou pegar um peixão, você vai ver.
Nem eu, nem Mel conseguíamos afastar o riso diante de tanto entusiasmo. Mas quando me virei para olhá-la, o riso foi aos poucos morrendo, dando lugar a um calor que nada tinha que ver com o esforço físico que tínhamos feito e muito menos com o tempo. Era como se o ar em torno de nós tivesse se condensado. Eu poderia jurar que sentia cargas elétricas em torno de nós dois. Os olhos castanhos dela, mergulharam nos meus e eu vi as suas pupilas se dilatarem ainda mais. Eu a queria tanto....Mas ainda tentava manter a distância. Como eu era idiota! Eu acho que ela sabia o que eu estava tentando fazer, porque sem piedade, ela ergueu a sua mãozinha e acariciou o meu queixo e o meu lábio.
— Você parece um pai babão.
Mel brincou, em uma voz rouca que nem de longe se assemelhava ao seu tom de voz normal. Eu gemi ante aquele contato, fechando os olhos. No segundo seguinte, meus lábios estavam sobre os dela, seu corpo duramente pressionado ao meu. Eu tinha fome dela. Eu queria saboreá-la, e que gosto maravilhoso ela tinha! Tão doce.... Aquele foi o nosso primeiro beijo.
Eu fechei os olhos, tentando afastar as recordações do gosto de sua língua dançando dentro da minha boca. Do calor dos seus braços circundando-me o pescoço. Eu precisava me afastar, não era ela. Não era ela.
Com brusquidão, eu a pús dentro do buraco e a empurrei para dentro. Seu corpo acabou ficando em uma posição estranha, eu notei. Mas não tive coragem de me aproximar e tentar pô-la mais confortável. Mas de fato, porque eu deveria me preocupar com isso? Não era Mel. Ela não deveria mesmo desfrutar de conforto. Afinal, aquela era a sua assassina. O verme que tinha matado a verdadeira Mel.
Com todas as minhas forças eu me agarrei a cada fio de raiva que eu tinha em mim por aquela criatura para não me aproximar do buraco. Eu deveria ficar distante. Mentira! Eu tinha que ficar distante. Ou então, eu não iria sobreviver àquilo.
Desta forma, me acomodei na cadeira e esperei que ela acordasse. O tempo passava e nada. Contra a minha vontade, eu me senti começar a ficar preocupado. Será que eu a tinha machucado tanto assim?
Foi quando eu já estava quase indo até a borda do buraco, apenas para checá-la que eu escutei um barulho de um corpo se mexendo lá dentro. Os seus ruídos mesmo mínimos, derramaram alívio em mim. Eu esperei que ela falasse algo, mas ela não disse uma palavra. Então, nós dois ficamos em silêncio. Até que Kyle, Ian e Brandt entrassem.
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