Perdendo a calma

1 Capítulo único


Louca?Como poderia achar que estou louca?A doença não amorteceu meus sentidos,aguçou-os.Principalmente a visão,logo depois a audição.Conforme contarei meu relato verá que não sou louca,pois o farei com calma.Calma essa que só perdi no final.

A vida privilegiada que eu tinha – boa escola,bons amigos,filha única – se foi nesses últimos oito meses,quando eu comecei a notar os olhares.Parecia que eu conseguia notar todo ódio e desprezo que as pessoas sentiam através de seus olhares,e ás vezes esses sentimentos ruins pareciam ser direcionados exclusivamente para mim.Chegava ao ponto de eu precisar evitar os olhos das pessoas para também evitar seu ódio e desprezo.

Tentei conversar com meu pais sobre isso,afinal eu lhes contava praticamente tudo e o problema que me afligia se tornara mais do que era capaz de suportar.Mas para minha surpresa falar desse problema só o tornou maior.No olhar de meus pais notei o mesmo que notava no olhar de outras pessoas com um outro sentimento que libertava em mim extrema repulsa : pena.Não aquela que origina a solidariedade e compreensão,mas aquela que te fazem olhar de canto,cobrir a boca com a mão e dizer coisas do tipo "não posso acreditar" ou "coitada dela!".E arrependi muito de ter me aberto.

Eles me obrigaram a ir a médicos,que me receitaram remédios.No começo eu os tomava,pensei que realmente me ajudariam.Mas ai vieram as vozes.Elas me contaram que tudo que eu via era verdade,que as pessoas realmente possuíam todos aqueles sentimentos ruins e que os remédios só me deixariam ignorante dos fatos reais.Elas me disseram que o problema vinha das outras pessoas,não de mim.

Até dado momento eu conseguia me segurar e não interagir com essas vozes.Todavia,com o passar do tempo,elas deixaram de sussurar e passaram a gritar e me dar ordens.

"Se afaste dela,ela te julga"

"Ele te inveja e inveja seu dom"

"Machuque-os,mantenha-os longe"

Eu contei isso para um dos médicos e ele me receitou mais remédios,cujos quais,é claro eu não tomei.As vozes disseram para não tomar.O médico disse também que eu deveria ficar longe da escola por um tempo,para "relaxar".

Mas como poderia relaxar?Veja,no olhar de meus pais estava minha condenação.Sim,ele me condenavam,me julgavam.Os malditos não compreendiam que as vozes me guiavam.E os olhares,o pior de tudo eram os olhares.Se intensificam dia após dia,me forçando a me trancar em meu quarto para evita-los.Mas na verdade eu queria elimina-los.

Numa certa ocasião,resolvi sair um pouco pois estava me sentindo sufocada com as vozes e com os olhares dentro de minha casa.Quando estava na porta ouvi uma conversa de meus pais."Ela está ficando louca",soluçava minha mãe.

Louca,dizia a mulher que me criou,e o homem que se intitulava meu pai concordava.

Aquilo me chocou.Tentando escapar dos olhares e das vozes,sai de casa e corri.Não sei dizer por quanto tempo,mas chegou uma hora que me cansei e parei.Me sentei na porta de uma casa qualquer e chorei,chorei muito.

"Eles te odeiam".

Não podia acreditar.

Eu fiquei nesse estado até que um conhecido de meus pais me viu e me arrastou até em casa.Eu gritava e esperneava,rugindo que dentro daquele lugar as pessoas me odiavam,assim como em todos os outros lugares.

Assim que cheguei lá eles me deixaram no quarto,onde mesmo assim eu ainda podia ouvir trechos de suas conversas no cômodo ao lado.Conversas essas que falavam sobre uma louca que precisava ser internada.As vozes me contaram que a louca era eu e que meus pais queriam se livrar de mim.

Mas eu já disse que não sou louca,não é?Eu não podia deixar que eles fizessem tamanha injustiça.Se livrar de mim?Não,eu me livraria deles.

Sai de meu quarto na hora mais escura da madrugada,sabendo que meus pais já estariam dormindo.Fui a cozinha e peguei a faca mais afiada que encontrei.

Parei diante da porta do quarto dos meus pais e a abri com todo cuidado.Meus algozes repousavam traquilamente em seus travesseiros,provalmente sonhando com o dia em que se livrariam de mim.

"Faça"

E fiz.Muito calmamente posicionei a faca no ponto exato do pescoço de meu pai e a deslizei.Eu havia pesquisado sobre isso.Viu?Como uma louca poderia ser tão inteligente?

Infelizmente,com minha mãe foi diferente.O barulho e o sangue a despertaram.Sendo assim com ela tive que ser mais brutal,desferindo golpes fortes e aleatórios por todo seu corpo.Ela me arranhava e gritava,mas foi ela que causou tudo isso não foi?Ela queria se livrar de mim,então eu tinha que fazer alguma coisa.

Finalmente ela parou,mas algo ainda me incomodava.

"Os olhos"

Sim,é verdade.Eles estavam mortos mas os olhos ainda estava lá.

"Queime-os"

Exato,fogo apagaria tudo.Voltei na cozinha e peguei álcool,que meu pai usava nos nosso churrascos em família.Irônico como ele ajudou a destruir essa imagem de família feliz.

Espalhei álcool no cobertor da cama na qual meus pais ainda jaziam.Acendi fósforos e os joguei sobre o cobertor até que julguei que as chamas estivessem grandes o suficiente e sai para o jardim.

Me sentia aliviada.Ninguém se livraria de mim,ninguém me olhava com ódio e desprezo,não mais em minha casa,que agora eu assistia queimar.

Eu só não poderia contar com os enxeridos dos vizinhos.Chamaram os bombeiros e a polícia,que aparam o fogo e descobriram os corpos.Viram o sangue em minhas roupas e me acusaram e me olharam.Os olhares que tanto me perturbavam.

"Fuja"

E tentei correr,contudo não fui rápida o suficiente.Os olhares me alcançaram e me levaram.As vozes riam agora,mas eu sabia dizer porque.

Fui levada para uma dessas prisões de loucos.Loucos,perceba.Sendo menor de idade teria de cumprir pena ali até poder ser julgada.Eu tinha contado tudo a eles,as vozes,os olhares,meus pais tentando se livrar de mim.Mas não acreditaram.

Em minha minúscula cela naquele manicômio que chamavam de "reabilitação pra os mentalmente insanos" eu andava de um lado para o outro tentando afugentar os olhares e as vozes.

"Você nunca se livrará disso".

Se livrar!Foi ai que eu entendi que parar fujir de minha própria mente só tinha uma coisa a ser feita.

E o universo parecia conspirar a meu favor,pois naquela manhã durante a "hora de recreação",que se resumia a ficar num pátio com as outras detentas e ser viajada por vários guardas,eu achei um pequeno pedaço de vidro ocultado por uma plantinha que estava num canto dos muros altos da prisão.Não media mais que cinco centímetros,mas tinha seu potencial.Rapidamente o escondi no bolso de minha calça.

Retornei a minha cela determinada,evitando os olhares de todos como sempre fazia.Deitei-me em minha cama e aguardei as vozes.Elas demoraram mas vieram.

"Faça,se liberte"

Nesses murmúrios eu podia ouvir também risadinhas de puro prazer.

Nesse instante eu percebi que elas é que estavam tentando se livrar de mim o tempo todo.Me afastando de tudo e todos,me fazendo enxergar num rosto inocente coisas que só eu sentia : desprezo,ódio,pena.E sentia isso tudo de mim mesma.

Posicionei o pequeno pedaço de vidro em meu pescoço,assim como havia feito com meu pai.Pressionei-o contra a pele com força e senti o sangue fervente escorrer.

"Isso,não tenha medo"

Tudo em que pensava era em calar as vozes e me livrar dos olhares de uma vez por todas,quando deslizei o vidro por todo o pescoço,com o máximo de força que consegui.

Apesar de tudo não foi com a mesma eficiência que o fiz com meu pai.Pude ouvir e ver ainda muitos gritando e os guardas vindo ao meu socorro.

Mas logo em seguida tudo ficou escuro e meus ouvidos ficaram abafados.Se ainda conseguisse,choraria de alegria.

Pode ver o tamanho de minha satisfação naquele momento?Nenhum louco pensaria em solução mais sagaz.

Mesmo que a calma tivesse ido embora eu já não podia ver os olhares e havia calado as vozes.

Notas finais
E aí,gostaram?E a primeira história que eu posto,por isso estou muito animada.Se quiserem elogiar,pontuar algum erro ou mesmo criticar,deixem reviews.Vão fazer uma autora de primeira viagem muito feliz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!