Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão
3 Refrigerante, senhor?
Notas iniciais
Eu segui atrás dele. Chegamos à mesa da comida e estava pronta para me servir sozinha, quando ele tomou o prato de minha mão, rápido, mas delicadamente, e começou a falar que seria meu anfitrião e que iria me servir as melhores iguarias da mesa. Eu apenas agradeci, enquanto sentia as bochechas queimando mais uma vez. O que atraiu mais uma risada a sair dele.
Ele encheu o meu prato, fazendo uma montanha de comida que empilhava. Porém, estava tão feliz com sua atenção que achei melhor não interferir. E era um prato diferente dos descartáveis comuns. Mais grosso e mais resistente; mais estável. E ao pressionar o material pela curiosidade, tive uma surpresa...
– Incrível! É de isopor! – foi então que as risadas e respirações ofegantes dele me tiraram de minha analise.
– Hahaha! Você é bem diferente mesmo, pequena. – me irritei com o “pequena”, mas ele continuou com sua diversão.
– Você tava parecendo uma cientista olhando esse prato...
Deve ter percebido que eu não estava gostando da brincadeira, pois parou abruptamente as risadas, engolindo-as com folego entrecortado.
– Desculpe! Eu não queria ofender, “milady”!
Disse com o sorriso de canto de boca, e uma breve reverência cavalheiresca; uma tentativa charmosa para me fazer relaxar.
– Tu-tudo bem! – falei envergonhada. Mas já estava mais descontraída.
Sua tentativa me trouxe um leve sorriso; enquanto meu coração palpitava, vendo-o como um príncipe naquela postura. Mas tinha de ser realista. Ele deve me achar uma bonequinha, por isso ri tanto de mim. Uma boneca que fala! Pensava.
Sei que parecia muito extremismo da minha parte, mas esta era uma das minhas inseguranças quando jovem. E algumas de suas atitudes não me ajudavam a exterminar este complexo. Ficava me analisando o tempo todo, como quando uma criança ganha um boneco novo modelo no mercado e tem curiosidade para descobrir todas as suas funções – Bom... isso porque ele tinha o mesmo olhar do Miguel criança quando ganhava um presente. E esse pensamento começou a me perturbar.
Será que ele vai ficar brincando comigo, como já fizeram? Vai me tratar como uma boneca, também? Se ele tentar eu tenho que ser firme e dizer não! Isso! Não importa o que ele me peça para fazer; eu vou dizer NÃO! Pensei comigo mesma, enquanto ele entregava meu prato risonho e começava a arrumar o próprio.

Eu fiquei olhando para os lados, procurando minha família. Encontrei meus pais bem abraçadinhos (típico deles) sentados em uma mesa junto a outros casais de adultos. Todos rindo, sem prestar atenção qualquer a outro canto além de si mesmos.
Procurei meu irmãozinho e só via flashes dele em sua corrida alucinada com outras crianças e pré-adolescentes numa quadra de tênis próxima ao salão do churrasco. Nenhum deles estava próximo o suficiente para ouvir um pedido de socorro meu, nem mesmo prestando atenção a qualquer sinal que eu pudesse mandar.
Se quisesse sair dessa situação eu teria de tomar coragem e "libertar-me" por mim mesma. Claro que me desculparia com o jovem de olhos âmbar e correria para ficar a noite toda grudada aos meus pais ou ao meu irmão, mesmo que tivesse que aguentar os coquetismos dos adultos ou ser juíza nos jogos das crianças.
Quando eu estava começando a bolar o que dizer com polidez para me retirar, o jovem de olhos mel me trouxe a ele levemente pela curva do cotovelo. Me deu uma piscadinha e disse:
– Já que você está sozinha. Não quer sentar comigo e meus amigos?
Ele apontou para uma mesa ao fundo e percebi que era a mesma para qual eu estava me dirigindo antes de nossa colisão. E afirmou, provavelmente, pela minha expressão relutante e desconfiada:
– Eles são legais. Não precisa se preocupar!
– E então? – sorriu novamente – Quer sentar com a gente?
Eu olhei bem para ele. Olhei para mesa. Vi todas aquelas moças rindo com os rapazes. Pareciam mulherões em contraste comigo. Haviam duas loiras muito bem arrumadas rindo e implicando com um rapaz negro forte, que tinha tranças compridas no cabelo. Uma morena de cabelos lisos os enrolava e parecia brigar com um rapaz loiro que não parava de apontar e rir de seus enormes seios. Uma jovem negra, com escova e californiana ria sem parar enquanto uma ruiva belíssima, que parecia uma atriz, se irritava ao seu lado. Um outro rapaz negro careca tocava violão, enquanto três rapazes morenos, cada um mais bronzeado que o outro, pareciam cantar debochadamente uma música aos berros.
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Havia mais alguns outros jovens em pé conversando e bebendo, um casal distante se agarrando na parede da chácara (pareciam apenas duas sombras se contorcendo a pouca luz), e alguns sentados na grama olhando para o lago.
Eu voltei minha atenção pra ele e percebi que seu sorriso estava começando a se desfazer. Com certeza eu já estava demorando muito a dar uma resposta. Enquanto observei os jovens, ponderei tudo o que poderia acontecer, os deboches e brincadeiras, tudo o que poderiam me fazer. Cheguei à conclusão que o melhor seria declinar o convite e procurar meu irmão.
– Se você não quiser, não tem...
Ele dizia já demonstrando certa mágoa. Não sei se foi seu olhar meio desapontado, o jeito gentil com que me tratou, a pressão social (bom, eu seria a única fora de quadro na festa toda), ou uma coragem recém-adquirida do meu interior, que me impulsionou a respondê-lo antes que pudesse concluir.
– Tudo bem! – ele parou de falar imediatamente – Eu gostaria muito!
Ele abriu um sorriso enorme, estendeu a mão desocupada, num gesto para pegar o meu prato. E assim que eu entreguei a ele, me disse.
– A propósito... – ele sorriu com o olhar – Eu sou Marcos!
– Prazer, Marcos!
Eu dei uma leve reverência de novo. E as risadas dele vieram automaticamente. Mas agora eram suaves como carícias.
O simples som do nome dele saindo dos meus lábios foi tão emocionante, que eu tomei mais um gole de minha recém-descoberta coragem e, tomando a iniciativa, impedi-o de seguir de imediato para seu grupo de amigos.
– Espere! – ele me fitou com um olhar interrogativo, mas carinhoso – Devemos levar algo que beber.
Ele ameaçou outra risada, mas se controlou a tempo. Antes que eu franzisse as sobrancelhas, voltou ao seu tom sério.
– Sim, claro, senhorita! – abriu seu sorriso brilhante – O que você quer?
– Não se incomode! – eu disse apontando com os olhos para suas mãos ocupadas com nossos pratos – Eu pegarei para nós.
Ele assentiu divertido. Senti que ele repetia e ria, mentalmente, de cada palavra que eu dizia. Mas decidi que não ia me deixar aborrecer por isso, afinal, ele estava sendo gentil. E embora estivesse preocupada se ele me levaria para me mostrar como um novo lançamento de algum brinquedo; sua postura, olhares e palavras, me diziam que não queria me magoar e que provavelmente não deixaria que outros o fizessem.
Ele não disse mais nada e já ia se dirigir para mesa.
– Espere! – ele parou e olhou pra mim. Primeiro surpreso e curioso, depois sorrindo divertido.
– Sim, senhorita? – fez uma reverência torta, mas parecia respeitoso.
– Não vai me dizer o que quer beber?
Ele sorriu com pura satisfação, era até palpável.
– O que quiser! Pode me trazer um refrigerante.
– Mas tem tantos. Tem certeza que não deseja escolher? – não sei o que me impulsionou a continuar aquela conversa, até pensei que ele poderia perder a paciência, voltar a seus amigos e me deixar com meu prato, desiludida e chorosa.
Mas não. Ele sorriu ainda mais. Me olhou dos pés a cabeça, deu uma leve risada e perguntou, com um olhar charmosamente desafiador e ainda assim, sem malícia alguma.
– O que acha que eu poderia querer? – ele não desviava o olhar e eu sentia que devia estar ficando vermelha como um tomate neste momento.
Estava me sentindo tão envergonhada. Meu estômago dava voltas. Comecei a brincar com meus dedos nervosamente, enquanto ele me estudava.
– Um-ma... uma coca-cola? – eu não conseguia encara-lo.
Ele ainda me mediu por um tempo, depois parou em meus olhos novamente e me fitando com uma profundidade insondável, respondeu:
– Muito bem! Uma coca, então! – não sei se acertei ou não as preferências dele, mas ele estava contente.
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