Percy Jackson e os Olimpianos A Vingança da Víbora
9 Meu tio vira piloto de avião
POV. PERCY
Outra noite sem sonhos, isso só poderia ser presente dos deuses.
Quando acordei, vi Annabeth sentada ao meu lado, a cabeça entre os joelhos e os dedos nas têmporas, seus olhos estavam fechados.
– O que está fazendo? — perguntei, sentando me. Ela gritou. Franzi o cenho.
– Hã... nada... você me assustou.
– Está pensando na profecia?
– Hmm... É! — algo me fez pensar que ela estava mentindo.
– Acha que a "víbora" tem algo a ver com a Medusa?
– Acho que não, a cabeça da Medusa foi entalhada em Aegis, de novo, e sua posição na linhagem não se liga ao que disse Anfitrite, provavelmente... Ah, Crisaor é filho da Medusa e de Poseidon, portanto, seu meio-irmão.
Fingi uma ânsia de vômito, Annabeth riu.
– Polifemo... ele também era seu meio-irmão, Percy.
– Preciso ter uma conversa séria com Poseidon, pobre Anfitrite...
– Enfim, tive um sonho com Atena esta noite... Percy, acho que descobri quem vamos enfrentar... Víbora, em grego antigo é Equidnä... Eu liguei as pistas, Crisaor e Calírroe, Geríon não foi o único filho deles, Equídna também era filha dos dois. Algumas teorias apontam que ela é descendente de Gaia e do próprio Tártaro... Medusa e Poseidon, Oceano e Tétis são avós de Equídna... Os avós de Anfitrite são Gaia e Pontos, Oceano e Tétis, então Anfitrite e Equídna são primas de parte materna. Claro! Tanto Calírroe como Dóris são Oceânides! Como pude demorar tanto para descobrir isso?
Eu a observava, fascinado.
– Falei demais. — ela disse — mas, enfim, todas as pistas apontam para Equídna. Ela foi conhecida como "A mãe de todos os monstros", Argos a matou enquanto ela dormia.
Era este o motivo de Argos parecer tão preocupado, ele tinha medo da vingança da Víbora.
Eu a abracei, queria beijá-la de novo, mas ela me fez parar, colocando um dedo em meus lábios.
– "Escuta e serás sábio. O começo para a sabedoria é o silêncio." disse Pitágoras, o filósofo. -ela citou.
De ínicio pensei que ela tivesse me dado uma indireta para ficar quieto, mas aquele primeiro verso... Era da profecia.
– O que isso significa? — perguntei.
Annabeth balançou a cabeça.
– "O segredo para a plenitude é muito simples: ... compartilhar" disse Sócrates, o professor e filósofo ateniense.
– Mas o que tudo isso significa? Devemos nos calar ou compartilhar? E o que Sócrates e Pitágoras tem a ver com isso?
– Isso é uma profecia, não há como entendê-las somente quando acontece o que diz nos versos.
– Para quê elas servem então?
Annabeth deu de ombros.
– Vamos. Temos que viajar.
Tirei meus braços dela, de má vontade. Ás vezes Annabeth era muito estranha, depois de tudo aquilo, ela pareceu esquecer-se completamente da noite de ontem, eu não a culpava, os sonhos que ela teve deveriam ser mesmo reveladores, mas ela quase sempre agia daquela forma, e isso acabava com meus sentimentos.
Ela foi para o banheiro e trocou de roupa, depois eu.
– Como está a perna? — perguntei.
– Ah, me sinto melhor. — como de costume, ela não me deu a resposta correta.
Ela pareceu notar minha decepção.
– Ah, Percy... — disse ela, suspirando — Me desculpa? — perguntou ela, abraçando meu pescoço. Assenti, e ela me deu um selinho fofo.
Pegamos as mochilas e saímos. Chamamos um táxi na Broad, e fomos até o Aeroporto Internacional de Newark. Os seguranças acharam estranho estarmos levando apenas mochilas e preferirmos levar conosco, mas nem se deram ao trabalho de nos impedir, Annabeth usou um pouco de névoa na parte do detector de metais, e assim, entramos com tranquilidade no avião, esperava que a viagem fosse tanto quanto. Eu e Annabeth nos acomodamos em bancos do lado esquerdo do avião.
Eu já havia feito todas as orações e oferendas devidas a Zeus, até mais do que isso. Esperava que se ele tivesse pelo menos um pouquinho de consideração e amor próprio, nos deixaria sair vivos deste avião, mas mesmo assim eu tinha muito medo de quando decolássemos o avião fosse explodido por um raio ou atirado para longe numa lufada de vento. E ainda tinhamos que nos preocupar com os filhos e amigos de Equídna.
– Você está bem? — perguntou Annabeth, tocando em meu rosto ao notar meu tom pálido.
– Tomara que Zeus esteja de bom humor. — eu disse.
Annabeth entrelaçou os dedos nos meus, nervosa, aparentemente. Então olhou em volta. Uma comissária de voo apareceu e disse:
– Preparem-se para a diversão! Escolhemos a dedo do bom e do melhor para vocês. — disse ela, então reconheci a voz, era a mesma que eu ouvira no sonho, Calírroe.
Arregalei os olhos para Annabeth, e ela apertou mais meus dedos, até os nós dos seus ficarem brancos. Com a mão livre, tirei contracorrente do bolso e a apertei entre os dedos.
A mulher sorriu, maliciosa, em nossa direção. Depois virou as costas e abriu as cortinas para a outra classe. Da outra classe, um monstro muito esquisito surgiu. Tinha uma cabeça de leão e outra de cabra, corpo de leão e cauda de serpente. Os olhos eram vermelhos e ferozes. Os passageiros começaram a gritar, jogar malas no monstro, mas ele só as rasgava e jogava de volta, com os dentes. Annabeth tirou as facas do suspensório militar que usava. Eu destampei contracorrente e nos levantamos, de frente para o monstro.
Dei um golpe direto no monstro, mas ele era veloz, rolou para o lado e levantou-se, correu na direção de Annabeth, eu me joguei entre os dois, caindo no chão com a criatura em cima de mim, tentando me impedir de levantar, Annabeth, a nossa frente, esquivara-se, quando se recuperou, chutou a lateral do monstro para longe de mim, esnobando-o, então eu posicionei contracorrente e o perfurei, transformando-o em uma pilha de pó.
Desabamos nos bancos ofegantes as armas ainda a mão.
Reconhecemos uma garota de pele clara, sardas, olhos azuis e cabelo preto repicado, numa mensagem de Íris. Thalia Grace, minha amiga, filha de Zeus.
– Percy, Annabeth... — disse ela, alíviada. Estava no Acampamento Meio-Sangue, junto com as caçadoras e alguns campistas de Íris e Hécate. — o que aconteceu com vocês?
– Fomos atacados por uma Quimera, o que está fazendo aí? — disse Annabeth
– Vim aqui com esperanças de encontrar vocês, mas já haviam partido, alguns campistas de Hécate fizeram um feitiço de localização com ajuda de alguns de Íris. Enfim, onde estão? — Perguntou ela, tentando ver o cenário atrás de nós.
– Estamos em um avião, voando para o Arizona. — respondi.
– O que? Ficou louco? Zeus pode matá-los! — equivocou-se Thalia.
– É a nossa única escolha, e acho que ele não é a única ameaça que temos. Calírroe, é nossa comissária de voo.
Thalia expremeu os lábios e uniu as sombrancelhas, se estivéssemos em um encontro físico ela teria me torrado com um raio e me estrangulado.
– Temos cinco dias.
– Como sabe disso? — perguntou Annabeth.
– Eu, Artémis e as caçadoras temos passado um bom tempo no litoral oeste, na Ilha de Vancouver e Washington. Temos notado a movimentação crescer e crescer a cada dia, se não chegarem em no máximo oito dias, cada monumento importante dos Estados Unidos vão ser demolidos ao mesmo tempo, destruindo as raízes do país, evaporando todo o poder do lugar, obrigando os deuses a voltarem para a Grécia ou a Roma, ou até mesmo escolherem outro, então Equídna destruirá cada civilização importante para o mundo, dominando-as.
– Como descobriu isso? — perguntei.
– Tive minhas próprias aventuras... e sonhos, mas não temos muito tempo aqui, nos encontre na Ilha de Vancouver, mas antes de ir para Washington. Boa sorte. — Ela passou a mão na imagem, desmanchando-a, sem nos dar a oportunidade de responder.
Nos ajeitamos no banco e tentamos agir normalmente, um dia as pessoas teriam que parar de nos encarar.
– Faz ideia do que Thalia quis dizer? — perguntei.
Annabeth sacudiu a cabeça, e tomou um gole de néctar.
– Algo no tom dela me fez pensar que não deveríamos nem passar por Washington até chegar em Vancouver.
– Talvez os monstros tenham instalado um sistema de segurança lá, como se dois semideuses fossem grande coisa.
Annabeth colocou a garrafa de néctar em minhas mãos.
– Devería tomar um pouco.
Então tomei um mínimo gole. Olhei pela janela, as cidades pareciam pequenas olhando de cima. Eu poderia tentar aproveitar a viagem, mas aquilo já era impossível antes da Quimera. O que Thalia queria dizer com tudo aquilo? Ela foi de Vancouver no oeste e sul do Canadá para Long Island no leste dos Estados Unidos só para dizer isso? Teria ela outro objetivo no acampamento? E o motivo de tudo aquilo? Eu tinha certeza de que Equídna não faria aquilo só para se vingar de Argos. E se a maioria dos monumentos do país estava em Washington D.C, na Philadelphia, leste e sul, por que Equídna escolhera Washington, o estado, no norte e oeste?
O tempo parecia passar muito rápido, este é o problema de ter TDAH. Quando eu estava ansioso para alguma coisa, as horas pareciam não passar, e quando eu estava indo na direção da minha morte, as horas voavam. Eu tentava não olhar pela janela, para o céu, mas parecia impossível de resistir ao impulso. Meu, hã... tio Zeus ainda não me matara, poderia pensar que eu deveria pelo menos cumprir a missão antes de morrer, mas eu não abusaria da sorte, pararíamos no Arizona e pegaríamos algum transporte em Terra até San Francisco, lá utilizariamos algum transporte aquático até Vancouver, e depois disso... Não faço ideia.
Annabeth alisava o tridente em seu colar, e olhava, nervosa, para os lados. Bom, haviamos feito uma bagunça horrível na terceira classe. Livros, roupas e malas estavam espalhados pelo chão. As pessoas já haviam voltado para seus lugares, mas ainda nos encaravam com pavor.
Então pensei: Se Calírroe é nossa comissária, quem é o nosso piloto? Meu estômago se contorceu. Annabeth notou meu desespero.
– O que foi?
– Annabeth, quem é o nosso piloto? — perguntei, levantando a questão em sua mente.
– Ah... deuses! — ela olhou em volta de novo, mais nervosa ainda. — Crisaor era um pirata, será que ele faria algum tipo de... tripulação aérea?
– Bom... eu aprendi a não dúvidar muito das coisas.
– Os homens da tripulação de Crisaor eram híbridos, metade homens, metade golfinhos. Dionísio os amaldiçoou.
Isso poderia me fazer rir, mas eu estava apavorado demais, não porque Dionísio já me ameaçara a me transformar em um golfinho, mas porque se fossemos em um transporte aquático de San Francisco até Vancouver, tinha noventa e nove por cento de chances de sermos pegos.
– Acho que não, mas... — aproximei-me de seu rosto — Annabeth, nossos planos estão arruinados.
Então parei pra pensar: Um velho conhecido espectral, a ruina os levará. Poderia ser Luke? Eu não quería mais pensar em nada disso, mas estar em silêncio, num avião, voando em direção a morte, era o mesmo que pedir um tempo para pensar.
Quando achei que não podia piorar, Calírroe voltou ela estava prestes a dizer algo, mas com um grito, evaporou. Franzi o cenho. Ouvi alguns barulhos estranhos, mais a frente, provavelmente na cabine do piloto, então um homem apareceu. Tinha uns quarenta anos, mas ao mesmo tempo parecia ter vinte, tinha cabelos pretos, com algumas mechas grisalhas, a pele clara, mas não muito, e seus olhos eram azuis glaciais, como os de... como os de Thalia, então o reconheci, a expressão autoritária e seus olhos azuis que eu já tinha visto antes, aquele era Zeus, em uma forma que eu não tinha visto ele usar nem em filmes, ele sempre tinha a aparência de um velho barbudo de noventa anos. Então ele olhou em minha direção, o queixo erguido, autoritário, senti vontade de vomitar, mas nem havia nada em meu estomago para que eu pudesse colocar pra fora. Annabeth olhava apavorada, para seu avô. Era estranho usar essas palavras para a família divina... no máximo mãe ou pai. Zeus sorriu, mas o brilho autoritário continuava em seus olhos, caminhou até parar do nosso lado.
– Olá, garotos. — a voz era a mesma que eu escutara no Solstício de Verão, no Solstício de Inverno, e todas as vezes que eu fora para o Olimpo.
Não respondi, estava prestes a ter um ataque cardíaco quando ele disse:
– Percy Jackson... — eu apertava contracorrente no meu bolso, não que eu pudésse me levantar e duelar com o senhor dos céus e rei do Olimpo, mas era o que eu fazia quando ficava nervoso. — esta será a única vez que o aceitarei aqui.
Perguntei-me por quê. Não achava que todas as oferendas e orações o convenceriam.
– Hã... obrigado. — eu disse, ou tentei dizer, mas acho que ele entendeu, porque assentiu.
– O que está fazendo aqui? — perguntou Annabeth, com todo o respeito, mas mesmo assim achei que Zeus lançaria um raio na cabeça dela, mas ele arqueou as sombrancelhas e disse:
– Ora, vim conferir que tivessem um voo seguro até o Arizona, e... — ele uniu as sombrancelhas — não gosto que pessoas que planejam me destruir fiquem passeando em meus domínios.
Franzi o cenho.
– Por que ainda não me triturou? — perguntei. Annabeth me olhou como se estivesse prestes a me jogar pela janela. Essa era minha hiperatividade em ação, eu fechei os olhos, esperando, mas não senti nada. Abri os olhos, Zeus me observava, insatisfeito.
– Provavelmente pelo mesmo motivo que Dionísio ainda não o transformou em um golfinho. — ele disse. Então levantei as sombrancelhas. — Devemos muito a você, garoto. Você foi um herói... — ele se interrompeu — Estou dizendo que você foi um herói e não Poseidon.
Suspirei, aliviado. Eu sempre achei que Zeus tinha ódio de mim por ser cria de Poseidon, sim, ele tinha. Talvez alguém o tenha feito refletir sobre isso, então agradeci mentalmente a Atena.
Nuvens de chuva vieram até nós, parando ao lado de Zeus. Sim, foi isso o que você leu, nuvens de chuva.
– Essas são suas comissárias de voo, — ele disse, respeitoso, então levantou o olhar. — preciso voltar a cabine, ou as pessoas vão começar a estranhar.
Eu tive vontade de rir, depois de tudo o que acontecera ali, as pessoas já deviam estar estranhando. Olhei em volta, mas ninguém nos encarava mais. Uma viagem de avião acompanhado de meu tio todo-poderoso, poderia não ser tão ruim assim. Quando ele já estava longe, Annabeth se virou e cochichou:– Atena e Thalia são nossas salvadoras. — eu sorri.
– Em quanto tempo pousaremos? — perguntei. Ela debruçou-se em cima de mim, olhando a janela.
– Estamos em Atenas — ela disse. Eu ergui as sombrancelhas e olhei pela janela. — Geórgia.
Suspirei, aliviado, ela riu e saiu de cima de mim. Conseguia ver um templo, bom, não vou dar detalhes porque a única coisa que consegui ver é que era um templo de arquitetura grega. A cidade era bem pequena e simples, diferente de Atenas na Grécia. Havia muitas árvores e muito sol. Não faltavam lagos e riachos.
– Acho que chegaremos amanhã, de tarde, no máximo, com Zeus sendo piloto então... — ela disse.
Passei um bom tempo observando as cidades lá embaixo. Atlanta, Jacksonville, Birmingham, Philadelphia... Já era noite, oito ou nove horas, a lua estava perfeita, como se Artémis estivesse sorrindo pra mim. Annabeth pousou a cabeça em meu ombro, sua respiração me provocava arrepios. Ela levantou a cabeça e me olhou.
– Ainda está com raiva de mim? — ela perguntou. Eu balancei a cabeça, e então ela me abraçou.
Passei um braço a sua volta, puxando-a para mais perto, então adormecemos assim.
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