Percy Jackson e as alianças de prata.
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Continuamos ali, olhando as estrelas por um bom tempo, só falando quando necessário. Queria ficar assim para sempre, com ela deitada sobre meu braço, seu rosto próximo ao meu, sua respiração em minha nuca, mas quieta, observando o céu coberto por pontos brilhantes por toda a eternidade.
Conversávamos em cochichos sobre coisas que gostávamos, como queríamos que fossem ou que planejávamos. Pouco nos movimentávamos para não sairmos do eixo. Estava tão bom estar deitado com Annabeth ao meu lado que nem vi a hora passar.
Olhei no relógio, eram dez e dez.
Senti o braço de Annabeth ao meu lado, seus dedos percorreram o espaço das minhas costelas e pararam na lateral do abdome, fazendo cócegas.
–Não acha que está meio tarde?-Ela se apoiou em um dos braços, ficando de frente para mim.
–Já quer rir?
Ela franziu o cenho, evidentemente não desejava ter que deixar aquele momento assim como eu.
–Não, mas não posso voltar muito tarde, eu moro numa escola sabia?
Me apoiei nos cotovelos e sentei. O restaurante estava fechando, muitas pessoas saiam ao mesmo tempo com familiares e amigos, a rua ficou iluminada pelos faróis, que subiam a rua e despareciam.
–Vai ter que me prometer que vamos fazer isso de novo- me levantei e estendi a mão
Ela sorriu e aceitou minha ajuda- Com certeza.
Andamos ainda de mãos dadas pelo gramado da praça, nossos passos eram lentos, relutando para ficar mais. Nossos olhos iam de um lugar para o outro, notando cada detalhe da decoração iluminada.
Annabeth parou de frente para um espaço cercado do jardim, dentro dele havia bonecos de neve feitos de uma espécie de plástico esbranquiçado com lambadas dentro de suas cabeças, de modo com que os pequenos espaços fossem preenchidos pela luz, tornando o boneco uma enorme lamparina. Eles usavam chapéus e cachecóis coloridos, os botões e nariz de cenoura eram feitos do mesmo material, assim como os galhos que serviria como braços e mãos.
Parei ao seu lado e olhei seu rosto. Ela não tinha expressão, mas seus olhos observavam cada detalhe, até mesmo a neve falsa nos pés dos bonecos. Annabeth se debruçou sobre a cerquinha de madeira branca e tentou tocar o nariz do boneco maior.
–Queria fazer uma coisa antes de ir- Ela não olhou para mim enquanto falava
Não tinha mais nada que pudéssemos fazer com a cidade praticamente toda parada. Não havia mais nenhum estabelecimento aberto- A não ser os fast food, mas duvido que ela queira comer mais.
Ela pegou o celular e apertou alguns botões na tela touch, em poucos segundos uma musica lenta começou a tocar, ela abraçou meu pescoço e manteve os olhos em nossos pés, depois em meus olhos.
Minhas mãos estavam em cintura, ela me empurrava para trás com delicadeza, e logo estávamos dançando.
Eu nunca tinha dançado dessa maneira. Só conseguia ouvir sua respiração desacelerada e a musica. As batidas de seu coração estavam na mesma frequência que o meu, no mesmo lugar, um sobre o outro, como se meu coração e o dela fossem um só.
Annabeth encostou seu rosto sobre meus ombros, seus lábios ficaram próximos ao meu pescoço. Senti seu calor, o cheiro de seu cabelo, suas mãos escorregaram para meu peito e lá ficaram. Dávamos passos sem sair do lugar, de um lado para o outro, como se eu estivesse a embalando.
Sussurrei em seu ouvido a letra da musica, palavra por palavra, e sentia seu leve sorriso se formando mesmo sem estar olhando. Senti quando ela se estremeceu e cada vez que seus pulmões se enchiam de ar os meus se esvaziavam, se completando. Apertei os braços ao seu redor, meu queixo encostava em suas bochechas, quentes, seus olhos estavam fechados, mas dançavam a cada batida e sorriam cada vez que eu a apertava.
Meu coração não estava acelerado, mas toda vez que batia a palpitação era forte,como se estivesse me dando socos por dentro. Isso só acontecia quando ela estava comigo.
Pra mim não estava tarde, nunca estaria tarde demais para ficar mais tempo ali. Que se dane o dia seguinte.
Não notei quando a musica mudou, até que Annabeth a sussurrou em meu ouvido da mesma forma que eu fizera, ela encostava o rosto no meu e beijava o espaço perto dos meus ouvidos enquanto repetia a letra da musica.
Desejei que esse momento nunca tivesse fim. O mundo poderia acabar naquele momento, e eu não daria um passo.
Continuei a repetir os movimentos com os quadris de um lado para o outro mesmo que aquilo não pudesse ser chamado de dança. Não estávamos movimentando nada mais do que nossos troncos, mas de toda forma aquilo foi totalmente diferente da valsa que dançamos no Olimpo diante de muitos deuses, inclusive nossos pais. Aquilo foi sem duvidas muito melhor.
Por anos tive as aulas da minha mãe na sala de estar, onde ela empurrava os sofás e a mesa de centro e me puxava para um abraço. Ela pegava minhas mãos e colocava ao redor de sua cintura, a outra ela segurava junto a sua, apontadas para o leste, passo por passo ela me ensinava a dançar, eu batia em seu ombro naquela época, mas isso nunca impediu minha mãe de ensinar com clareza e determinação. Ela dizia que quando eu ficasse maior eu agradeceria por ela ter me obrigado a dançar.
Mesmo no começo não gostando das aulas da minha mãe, nós nos divertíamos muito com os tropeços e tombos que levávamos, dávamos risadas e brincávamos um com o outro. Ela me ensinou a não ter vergonha , principalmente se eu estivesse com alguém que eu amasse, ela disse que os passos seriam espontâneos, tão suaves que eu nem sentiria os olhares em mim.
Então pela primeira vez, á anos atrás, eu entendi o que ela estava dizendo. Quando dancei com Annabeth no Olimpo não tive vergonha ou medo de pegar em sua cintura ou em segurar em suas mãos, nem mesmo no ginásio do internato em que resgatamos os Di Angelo quando dançamos no meio de muitas outras garotas e garotos. Eu ainda pisava nos pés dela naquela época, mas sentia que todos aqueles olhos não me afetavam, porque eu estava com ela, dançando com ela, e se fosse qualquer outra pessoa eu tinha certeza que tropeçaria em minha própria sombra.
Peguei sua mão e esperei até o final da musica. Desejei que toda sua playlist fosse de musicas lentas e românticas e pra minha sorte musica seguinte era Angie dos Rolling Stones.
Annabeth levantou a cabeça e me olhou, seu braço subiu para meu ombro e suas pernas seguiram as minhas, para frente e para trás, de um lado para o outro, como minha mãe me ensinara.
Ela olhava para nossos pés em movimento, como se estivessem grudados, compatíveis. Seus olhos esperavam que os meus pés encontrassem a ponta de seus sapatos e que eu fizesse algo de errado que ela tivesse que concertar, como sempre fazíamos, mas dessa vez fiz questão de deixa-la esperando. Encostei sua testa na minha, ela aproximou seu nariz do meu e assim ficamos até a musica acabar.
Infelizmente nossa noite tinha que terminar, mas o que fizemos hoje será para sempre.
Quantos casais por ai pensariam em fazer coisas românticas como essas que fizemos hoje? Não a levei para jantar em Paris como fiz em nosso primeiro aniversário, mas o restaurante de Margareth fez mais do que matar nossa fome. Ele me fez olhar para Annabeth com outros olhos, mesmo que de uma forma desrespeitosa, mas saudável. Desejo sempre foi bom para uma relação, mas a nossa era diferente. Ao invés de fazermos essas coisas que os jovens fazem, decidimos deitar debaixo de uma arvore e procurar constelações, conversar sobre coisas alheias e dançar na frente de um jardim iluminado por bonecos de neve.
Ainda não havíamos chego em sua escola, mas meu coração doía como se ela estivesse subindo as escadas de seu dormitório. Queria vê-la de novo amanhã, e depois, e depois e depois até que o depois virasse todos os dias, para sempre.
Ela me olhava de esguelha e ria, e eu fazia o mesmo da forma que podia, com as mãos no volante e um sorriso que não era meu, mas de uma criança depois de um passeio no parque.
Eu e ela resolvemos perturbar os moradores das casas por onde passássemos com som alto e cantoria, ela aumentou o som do rádio e juntos tentamos imitar Eminem sem dar nós nossas línguas. Eu fazia a maior parte, já que quando estava sozinho eu e o rapper competíamos o melhor trava línguas, ela conseguia pegar muitas partes mas sempre parava para respirar, coisa que o Eminem parecia nunca fazer. Buzinei em todas as ruas, abaixei as janelas e deixei que o ar entrasse. Os cabelos louros e longos de Annabeth dançavam ao redor de seu rosto, ela os remexia com uma das mãos, e com a outra fingia estar segurando um microfone. Ela o entregava para mim e eu devolvia depois desafiar o rapper a cantar ainda mais rápido.
Ela ria tanto ao me ver ficando vermelho que seus olhos lagrimejavam, seus cabelos levavam as lagrimas com eles, deixando-os molhados e embaraçados. A maquiagem de seu rosto borrou dos lados e ela tentou acertar com a ponta dos dedos. Seus pés estavam sobre o painel, de forma que sua respiração ficasse desajeitada quando tentasse cantar, e essa era sua desculpa para perder para mim, o senhor do rapp de Manhattan.
Quando chegamos em sua escola eu também estava chorando, mas dessa vez não sabia se de tristeza em ter que deixa-la ou por Annabeth ter se engasgado tentando acompanhar a musica.
Parei o carro em frente ao portão principal, pelo qual ela desceu quando vim buscá-la. Não havia ninguém na cabine da portaria. Os portões não tinham correntes nem trancas. Olhei para Annabeth, ela limpava as lagrimas do rosto vermelho e calçava os sapatos, mas não estava sorrindo. Ela ajeitou os cabelos atrás da orelha e chegou mais perto.
Me aproximei, suas mãos agarraram meu rosto e cabelo, tirei o cinto de segurança e a puxei para mim.
Nos beijamos com vontade, a vontade que estava guardada esperando o momento de escapar. Seus dedos se entrelaçavam e se misturavam com meu cabelo, puxando-o para baixo e empurrando minha cabeça mais para ela. Sua outra mão fazia a mesma coisa, me puxava ainda mais. Uma de minhas mãos estava no cabelo de sua nuca, a outra segurava meu peso ao seu lado. Annabeth se arrastou para a ponta do banco e eu fiz o mesmo. Reti a vontade de puxa-la para meu colo, aquilo não seria certo, não agora, em frente a sua escola, correndo o risco de sermos vistos ou parados por alguém na rua.
Senti que ela fazia o mesmo. Seu corpo se estremecia e ela se jogava para frente, mas suas pernas a traiam, empurrando-a para longe, até que ela parou, deixando que apenas eu continuasse o beijo. Suas mãos largaram meu rosto e eu parei. Ela retomou o fôlego e se abanou, suando.
– Hoje foi sem duvidas...- Annabeth procurava meus olhos- Você me surpreendeu.
Sorri em resposta e abaixei os olhos antes de olha-la novamente. Ela não fazia ideia o quanto essa noite fora especial. Mágica.
Procurei a mão da aliança e a peguei, passei o dedo sobre as pedras e beijei a parte de cima da sua mão.
–Enfrentei muita coisa hoje- Olhei para ela e a puxei para perto, até nossas cabeças se encostarem- Mas eu sabia que mais tarde, quando nos encontrássemos, tudo aquilo não importaria mais. Você me recompensaria. E fez muito mais do que isso...
Ela não respondeu, senti sua respiração falhar e seus olhos tremerem. Ela molhou os lábios e se afastou, me olhando com os olhos cheios de lágrimas, mas felizes.
–Eu amo você- eu disse
Annabeth me abraçou com força e eu retribui o abraço. Ela me deu um beijo rápido antes de abrir a porta e sair. Ela acenou enquanto abria o portão e subia as escadas.
–Também amo você- Ela gritou. Não consegui responder, o carro já estava em movimento quando olhei para trás.
Encontrei minha casa num perfeito silencio. Minha mãe e Paul já estavam dormindo, então fui para a cozinha fazer um lanche antes de tomar banho e ir para a cama.
Meu estomago estava cheio de borboletas, mas mesmo assim cosegui colocar um sanduiche de pasta de amendoim para dentro.
Depois do banho fui para a cama, mas minha cabeça não desligava. Meus pensamentos estavam no colégio Saint Wherington, no dormitório 130, lendo um bom livro antes de dormir.
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