Percy Jackson e a Volta ao Passado
5 5. Dei a mão à minha namorada que nem sabe quem eu sou.
Notas iniciais
Quando saí da Grande Casa, ainda chocado com o que acontecera, encontrei Hefesto, conhecido como o Senhor H, que substituía Dioniso (originalmente Senhor D), com uma máquina qualquer nas suas mãos. Este estava acompanhado de Grover e Rachel, ambos com caras preocupadas.
Decidi aproximar- me, esperando que Grover me quisesse torturar; mas surpreendi- me quando ele mal me falou e ouvia o que Hefesto dizia, enquanto este se sentava, retirando uma chave de porcas e um martelo, aperfeiçoando a sua nova criação.
“ – Não entendo o que aconteceu”.— Continuou o Deus. – “Eu senti o mesmo que vocês os dois, como se algo bastante importante fosse esquecido… Mas não entendo o quê”.
“ – Digo o mesmo!”. – Acrescentou Grover, assim que desviou o olhar para mim quando cheguei. – “E agora acabou de piorar”.
“ – Grover, que mal eu te fiz?”. – Perguntei, com cara de poucos amigos. Desviei os olhos e reparei que Annabeth me olhava intensamente, o que me fez engolir em seco e ficar um pouco nervoso. Rapidamente olhei para Hefesto, que não nos dava muita atenção. – “Posso saber o que aconteceu?”.
Imediatamente, senti- me importante por Hefesto pousar a máquina e olhar- me de alto a baixo. Por fim, disse:
“ – Algo estranho aconteceu. O campo foi invadido por uma aura de um inimigo e apagou algo de todas as mentes. Só eu, Annabeth, Rachel e Grover nos apercebemos disso”.
“ – Tem a certeza que não quer manter isto em segredo, Senhor H?”.— Perguntou Annabeth, desviando pela primeira vez o olhar de mim.
“ – Quero manter sim, mas daremos uma hipótese a este tipo novo. Ele parece ter algo a haver com o assunto. Desde que ele chegou, alguma coisa mudou”.
“ – E eu posso dizer o que isso foi, com toda a certeza”.— Afirmei, com medo de me arrepender. Recebi olhares estranhos dos três, como se tivesse dado a minha assinatura para a sentença de morte.
“ – Sabia que tinhas algo a haver com um espião!!”.— Gritou Grover, olhando- me com raiva. Este pegou- me na Tshirt laranja do campo pela gola, aproximando- se de mim com a maior raiva que já o vi ter na vida. – “Esta é a minha casa!! Se te atreves a fazer algo com ela, não tenho medo de te enfrentar, espião!!”.
Uma das coisas que tolero é chamarem- me o que quiserem. Mas traidor? Nunca.
Empurrei levemente Grover, passando o olhar no rosto dele. Observei lágrimas nos olhos dele, o que me fez diminuir a raiva. No fundo, tentei entender a raiva dele: Uma pessoa que ele não conhecia (Neste caso, não se lembrava) aparecia do nada e ameaçava a segurança da sua casa.
“ – Eu sou muita coisa, Grover, inclusive, acredites ou não, o teu melhor amigo. Sem mim, este campo teria morrido à cinco anos num piscar de olhos. Eu já derrotei titãs, monstros, deuses até. Não tenho medo de derrotar um sátiro.”.— Fiz uma pausa, colocando as mãos no bolso. Senti a minha fiel espada, Anaklusmos no bolso. Sempre que a segurava, parte de mim se recompunha e deixava- me mais calmo. Segurei- a com força, virando costas, com a cabeça às voltas. – “Mas não consigo derrotar o meu melhor amigo. Desculpa”.
Afastei- me do local, deixando o Deus e os meus melhores amigos que não sabiam da minha existência, deixando só o barulho das ondas do mar na minha mente.
O mar sempre me acalmou. É uma das poucas coisas que me faz descontrair e pensar que não estou só.
Mesmo sem nunca admitir em voz alta, Poseidon é demasiado importante para mim. Ele, mesmo que esteja afastado de mim à força e mal nos falemos, está sempre aqui. Quando estou na praia, perto do mar ou algo que tenha contacto com a água, sinto- me mais forte e seguro, como se pudesse derrotar qualquer coisa, até mesmo um Titã que me ameaçou e apagou- me da memória do mundo.
Retirei a Anaklusmos do bolso. A minha espada, que brilhava com a luz do pôr do sol laranja e vermelho, estava igual ao dia em que Quíron ma deu.
Quíron, pensei.
Infelizmente, um ponto a favor de Chronos. Levou as memórias de todos, os Deuses do futuro e ainda Quíron. E não devo ter muito tempo até que ele monte os seus planos finais. Terei de agir, nem que isso signifique que terei de ir sozinho e deixar tudo para trás.
Rapidamente, uma imagem surgiu- me na mente. A minha mãe, Sally Jackson, de braços abertos com o seu primeiro livro escrito numa mão e com o orgulho que sentia por mim. Será que ela também se esquecera da minha existência?
Apertei com força entre os nós dos dedos a caneta que o meu pai me oferecera quando fui na minha primeira missão. Lembro- me desde aquele dia tudo o que eu, Annabeth, Grover e todos os outros passamos. Lembro- me até hoje da morte de Luke (Que, sinceramente, ainda tenho pesadelos com isso).
Lembro- me do meu primeiro beijo com Annabeth, quando ela teve de fugir para se salvar, deixando- me para trás. Ainda me lembro do beijo debaixo d’água que demos, quando nos atiraram para a água, após o fim de Chronos. Quando Clarisse começou a gostar só um pouquinho de mim.
Senti a minha pele arrepiar e quando dei por mim, Annabeth estava nos meus pensamentos. Tentei desviar a minha mente, mas era inevitável. Ela era uma armadilha perigosamente cativante e atrativa.
Ouvi, de longe, a chamada para o jantar. Precisava de falar urgentemente com Hefesto e esclarecer tudo.
E qual a melhor altura para o fazer, se não à frente de todos e a criar pânico?
Sentei- me sozinho na mesa de Poseidon. Todos olharam- me confusos e amaldiçoei- me mentalmente em Grego por fazer tal coisa. Levantei- me, meio atrapalhado, dando a entender que não sabia onde ficar.
“ – Hey, Percy!”. — Chamou Luke. – “Senta- te aqui! Hermes fica com os novatos e nós ajudamos!!”.
Fui em direção a ele, sentando- me ao seu lado. Reparei em várias caras conhecidas e todos olhavam para mim, incluindo outras mesas. Rachel estava ao lado do Senhor H, o que me fez perder a esperança de saber quem era o seu Deus.
“ – Hoje, para grande honra, conseguimos um novo familiar e amigo no nosso Campo!!”.— Anunciou Hefesto, alegremente e com gotas de suor a escorrerem- lhe do rosto com os nervos de tantos seres- vivos a pousarem os olhos em mim. Possuía óleo na cara e nos dedos dele, com a barba grossa e com as pontas chamuscadas. – “Por favor, levanta- te e apresenta- te, Semi- Deus!”.
Levantei- me lentamente, enquanto os pares de olhos passaram de Hefesto para mim. O Deus, aliviado por me passar aquela bola de Basket e um grande fardo, suspirou. E eu, sem saber o que dizer, olhei para Rachel ao lado dele em pedido de socorro. A mesma sorriu maliciosamente, soletrando com os lábios: “Boa sorte, bem vais precisas!”.
“ – Bem… Olá.”. – Comecei, meio a tremer. Passei a mão na minha nuca, olhando para Luke, também na hipótese de salvamento. O mesmo sorria para mim, com um ar divertido. Ótimo, pensei. Inimigos como Chronos para quê, com estes amigos!!— “Alguns já sabem, mas o meu nome é Percy… Não tenho muito que falar sobre mim, mas mais sobre algo bastante sério”.
Uns falatórios baixos foram sussurrados à minha frente. Alguns perderam o sorriso e encaravam- me com um olhar confuso, menos Grover, Annabeth, Luke e Rachel. Todos nós sabiam que vinha uma bomba.
“ – Que tipo de assunto, Percy?”. – Perguntou Hefesto, confuso.
“ – Bem… Muitos vão me achar louco, mas os Deuses do futuro sacrificaram- se para me enviarem para aqui. Vejam- me mais como um… Mensageiro.”.— Admiti. Um silêncio constrangedor reinou por quatro segundos, e decidi continuar. – “Eu explicarei tudo antes da captura da bandeira…”.
“ – Hm, então Hera estava certa quando um mensageiro do futuro…”. — Murmurou Hefesto demasiado alto e gerando falatórios. – “Invoco uma reunião rápida à volta da fogueira em vinte e cinco minutos. É tudo por agora.”.
Hefesto saiu com uns parafusos na mão, com certeza decidido a pensar no assunto e a brincar com uma máquina. Percy voltou a sentar- se, pensativo sobre o que acabara de dizer e se, realmente fora inteligente afirmar algo tão cedo.
“ – Foi o melhor a fazer, Percy”.— Tranquilizou Rachel, dirigindo- se a mim. – “Apesar de ser agora motivo de medo e falatório, é necessário avisar o mais cedo possível sobre… Chronos”.
“ – Chronos?!”. — Gritou Luke. Rapidamente, tapei- lhe a boca, já que com a distração ninguém ouvira.
“ – Luke, é uma longa história. Infelizmente, se te conta- se tudo agora, demoraria demasiado tempo. Basta saberes que… Isto é uma mentira. Tu estás a viver na mentira”.
Luke olhou- me, inseguro e surpreso. Uns segundos de silêncio entre nós os três, ele suspirou.
“ – Isso explica porque as memórias do meu passado estão enevoadas. Talvez alguém ou algo fez com que eu me lembra- se de falsas memórias, tanto que mal conheço Annabeth, para dizer a verdade. Sei o normal como namorado, mas não me lembro de muitos momentos juntos”.
Se te lembrasses, eu matava- te, murmurei em pensamentos.
“ – Enfim, Hefesto está à minha espera. Não tenho muita fome”.— Afirmei, levantando- me. Assim que me levantei, o silêncio reinou na sala. Andei no grande corredor entre as mesas das cabanas, calmamente, enquanto todos me olhavam sérios.
Prestes a atravessar a porta de saída, ouvi uma cadeira a arrastar e alguém levantar- se. Olhei para trás, e para minha surpresa avistei Annabeth na minha direção. No trajeto que a mesma fazia, Rachel e Luke seguiram o exemplo. Depois Clarisse, Grover e muitos outros semi- Deuses, até o local ficar vazio.
“ – Eu não confio em ti”.— Admitiu Annabeth, olhando- me com os seus olhos cinzentos calculistas. Esta estava com as mãos na cintura e o seu olhar sério deixava- a linda à luz do luar. — “Não me lembro de ti, não te conheço nem sei quem és. Mas…”. – Ela fez uma pausa, suspirando com um sorriso leve nos lábios. Cruzou os braços e desafiou- me com o olhar. – “Tenho de confiar em ti, obrigatoriamente. Não tenho opção se não o fazer.”. — Ela fez uma pausa, olhando- me de alto a baixo.— "Mas nem te atrevas a tentar enganar- me, idiota. Filhos de Atena são bem mais inteligentes que esse cérebro pequeno!".
Sorri de volta, estendendo a mão para a loira. Ela, meia surpresa, fez uma cara de desaprovação e envergonhada.
“ – O… O que pensas que estás a fazer?!”. — Perguntou, meia irritada.
“ – Preciso de ajuda nisto, Annabeth. Ninguém sabe quem eu sou, ninguém se lembra da verdade. Mas eu sou o ninguém nesta aventura. E não o posso fazer… Sem ti. Eu preciso de ti, Annabeth. De ti e todos estes grandes semi- Deuses que eu conheço e convivi a minha vida inteira com eles. Então, por favor… Ajuda- me”.
O silêncio voltou a reinar. Luke estava um pouco irritado com o meu gesto, obviamente enciumado, mas não fiquei muito preocupado, afinal, não seria por dar a mão à sua namorada, que na verdade era minha e ele estar a viver numa mentira, ter passado cinco anos da minha vida com ela enquanto ela me trocou por ele, que ele ficaria chateado… Certo?
Annabeth suspirou. Segurou a minha mão, ainda meia irritada com o gesto, libertando um sorriso tímido.
“ – Vamos a isto, Jackson”.
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