Notas iniciais
Uma ótima noite a todos e boa leitura ; D

TAINARA

A visão acabou.

O quarto iluminado apenas pelas velas começou a se materializar na minha frente.

Ainda estávamos apenas nós três. Nada de deuses, monstros, caçadoras, pessoas mortais e principalmente, nem sinal da presença de Luke. Só eu, Júlio e Naiá ou como era chamada agora, Edvine.

Olhei ao redor para ter certeza de que ele não estava lá, por algum motivo pude senti-lo naquelas lembranças, como se fosse um telespectador assim como nós... e ao julgar pela maneira como Júlio vasculhava com os olhos roxos arregalados todo o perímetro do quarto, sabia que ele também havia sentido.

-Por favor digam alguma coisa.

Naiá... Quer dizer... Edvine nos encarava com um olhar suplicante, o mesmo olhar que ela direcionou a Júlio quando ele a deixou naquela caverna...

Eu simplesmente não sabia o que falar, foram tantas lembranças e pontos de vistas diferentes que ainda me sentia em um sonho. Nem ao menos sabia dizer por quanto tempo ficamos "fora do ar".

Já era dia?

Será que os outros haviam acordado e se perguntavam onde estávamos?

A única coisa que tinha certeza naquele momento era que eu havia acabado de conhecer a verdadeira história de ambos. E por mais que entendesse seus motivos ainda não estava pronta para conversar abertamente sobre aquilo, meus sentimentos estavam todos misturados e simplesmente não era capaz de proferir em palavras essa confusão interior...

Mas um de nós tinha que quebrar aquele silêncio, porém a postura de Júlio e o olhar frio que ele estava lançando a ela deixava claro que para ele a conversa já havia acabado.

Ela também sabia disso e parecia prestes a dizer qualquer coisa que o fizesse mudar de ideia, mas então um grito agonizante cortou o silêncio e nos trouxe de volta á realidade.

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THALIA

-Nã-na-não...Não... –Encarei Ártemis que ainda sorria diabolicamente e isso despertou um pouco de força em minhas veias, então gritei com todas as minhas forças.

-NÃO!!!

Nossos gritos se misturaram e quando levantei não sabia ao certo se ainda era um sonho, porém eu o havia escutado, claro e nitidamente. Alguma coisa estava acontecendo e precisava descobrir o que era.

Abri a porta e sai em disparada pelo corredor. Não fiquei surpresa quando encontrei Andressa, Edvine, Júlio e Tainara também indo em direção ao quarto de Tobias.

Fui a primeira a chegar, mas assim que vi o motivo todos os meus sentidos de batalha estagnaram juntos com meu corpo.

Aquilo só poderia ser outro sonho, a qualquer momento Artemis, Zeus ou Hécate apareceriam e os matariam bem diante dos meus olhos...

Annabeth e Percy seriam os primeiros por estarem em posições mais vulneráveis ajoelhados ao lado da cama. Então seria Tainara por correr até ele e abaixar a guarda...

-Por Anhangá! -Ela o abraçou e começou a beijar sua face molhada de suor. -Você está vivo!

Ergui a sobrancelha e olhei para Annabeth, mas apesar dos dois terem levantado, ainda olhavam fixamente para Tobias e sua respiração ofegante, o rosto pálido, os cabelos pretos desgrenhados e os olhos castanhos expressando confusão, surpresa e dor, como se ele soubesse que aquilo era uma ilusão e também estivesse esperando pelo pior...

Ou como se não conseguisse acreditar que isso poderia ser real.

Mas o choro de Tainara era real. Os sorrisos bobos e olhos marejados de Júlio, Percy e Annabeth também eram reais.

Andressa e Edvine apareceram ao meu lado e sorriram balançando a cabeça como se para confirmar que aquilo realmente estava acontecendo, não era um sonho dessa vez.

Segurei o soluço enquanto observava seus amigos se aproximarem e o abraçarem novamente. Podia sentir pequenas lágrimas de alívio escorrendo pela minha face, mas não me preocupei em tentar limpá-las.

-Tai... Júlio... Eu... Vocês...

Sua voz estava rouca e Júlio materializou um copo cheio de água o entregando a Tobias que apesar de hesitante, sorveu todo o líquido de uma só vez.

-É bom vê-lo acordado novamente irmão.

Tobias deu o copo a Tainara e passou as mãos no rosto como que para ter certeza. -Eu tive sonhos estranhos... –Ele franziu a sobrancelha. –Certeza de que não estou morto?

Todos riram, uma mistura de alívio e felicidade por estarmos juntos de novo, ainda respirando.

–Não foi por falta de tentativas, pode ter certeza. -Percy cruzou os braços.

-Mas agora você está aqui e é tudo o que importa.

Tainara passou a mão desocupada por seu rosto de forma carinhosa e Tobias a encarou sorrindo tão intensamente que me obriguei a desviar o olhar.

Não deveria me sentir incomodada, eles eram amigos e passaram por muitas coisas juntos, e mesmo que sejam mais do que isso, novamente, não deveria me importar...

-Aqui, deixe que eu levo isso. -Edvine se aproximou dos três para poder pegar o copo da mão de Tainara e permitir que eles se abraçassem novamente.

Júlio e Luke ficaram tensos no mesmo instante o que fez com que ela parasse com a mão estendida. Franzi a sobrancelha quando Tainara pressionou os lábios e hesitou em entregar o copo, mas aquele desconforto dos quatro durou apenas um piscar de olhos, e então Edvine já havia se afastado com o copo em mãos e voltado para o meu lado.

A interroguei com o olhar, mas fiquei surpresa ao reparar em seu traje de dormir. Era um vestido de pano branco e simples, porém o que realmente me chamou a atenção, foi ver seu símbolo de líder enrolado ao redor da testa, com os cabelos negros completamente soltos. Parecia mais uma fantasia de índia do que um pijama, não que Edvine realmente usasse roupas específicas para dormir, na verdade geralmente ela se deitava pronta para enfrentar uma batalha ou para partirmos no dia seguinte.

A líder das caçadoras notou meu olhar e sem dizer absolutamente nada, saiu apressadamente do quarto.

Pressionei os lábios e pensei em segui-la, mas então Annabeth riu de algo que estava acontecendo me fazendo voltar a focar neles.

Tobias também sorria e olhava atentamente para o rosto da loira, como se quisesse memorizar seus traços. Então seu olhar foi de encontro ao Percy e também se demorou lá. Um por um Tobias olhou, sorriu e respirou aliviado, como se aos poucos começasse a se dar conta de que realmente éramos reais...

Nossos olhares se encontraram e permaneceram fixos um no outro por mais tempo do que com os demais. Mas não me sentia incomodada ou receosa com aqueles olhos castanhos que me analisavam tão atentamente e com tanto fervor que era impossível pensar em qualquer outra coisa, ou sequer que haviam mais pessoas naquele quarto... Tudo o que importa era que Tobias estava bem e parecia feliz por nos ver bem também, poderíamos lidar com o resto depois.

Como se para confirmar o que pensei, ele sorriu e balançou a cabeça.

Sim, estamos vivos.

Sim, vamos conseguir.

Soube naquele instante que tudo que passei não fora real, e que as lembranças eram apenas isso e deveriam continuar assim.

Nós escolhemos nosso destino e o meu seria diferente.

Então sorri de volta.

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LUKE

-Bom dia dorminhoco!

A imagem de Tainara foi à primeira coisa que vi assim que abri os olhos. As janelas estavam abertas, mostrando o lindo dia que amanhecia do lado de fora, que só não estava tão perfeito quanto o sorriso verdadeiro que ela me direcionava enquanto se aproximava.

Nada da mágoa e dor que estavam estampados em sua face durante o sonho... Ou Visão...

-Tome isso e depois vá para a cozinha, eles estão esperando por você. Será nossa primeira refeição com todos juntos de novo. –Ela me entregou um copo de chocolate quente. –Foi Thalia quem fez e pediu que lhe desse, apesar de eu ter certeza de que você preferia que a garota trouxesse... –Tainara riu. –Devia ter visto a cara dela quando eu disse que você ficaria MUITO mais feliz caso ela lhe entregasse... -Seus olhos castanhos brilharam de alegria. -Na verdade você deveria ter visto como Thalia ficou quando... -A garota pressionou os lábios tentando segurar o riso. -Melhor eu não estragar a surpresa, teremos chance de conversarmos todos juntos no café da manhã.

Pisquei algumas vezes tentando assimilar todas as informações que Tainara falara, mas foram tantas coisas ao mesmo tempo que meu cérebro recém ressuscitado só processou uma delas.

Chocolate Quente!

Segurei a xícara com ambas as mãos e a fiquei encarando. A temperatura estava morna, não tão quente a ponto de quase queimar, o líquido era muito mais denso e aquilo eram pedaços de Chocolate e Marshmallow flutuando e não almas torturadas... E o cheiro...

Cacau e Chantilly

Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo aquele aroma até que as dúvidas sobre se aquilo realmente era real, se eles estavam mesmo bem e por quanto tempo fui um peso morto na missão se acalmassem dentro de mim...

Levei a xicara aos lábios e sorvi um longo gole do líquido o que fez com que todo o meu corpo esquentasse.

Mas não queimasse...

-Ainda não consigo acreditar que você acordou, achei que perderia toda a diversão.

Sorri me sentindo inebriado pela fumaça que subia preguiçosamente do copo. -Isso com certeza é muito melhor do que o Flegetonte...

Imagens brotaram em minha mente como um alarme, mas nenhuma fazia realmente sentido, de repente toda sensação de conforto foi embora tão rápido quanto apareceu e me vi tremendo da cabeça aos pés.

Tainara aproximou-se e pegou a xícara de minhas mãos á colocando na escrivaninha.

-Luke, o que aconteceu?

Ela sussurrou para que apenas nós dois ouvíssemos, mas sua voz estava rouca e dolorida, como se o ar ácido a estivesse sufocando...

Arregalei os olhos e a olhei de cima á baixo procurando por qualquer sinal de ferimentos ou hematomas. Mas ela não estava usando sua roupa de caça esfarrapada, ou o vestido de pano, com pés descalças e desenhos indígenas pelo corpo... não...

Naquela manhã, Tainara usava calça jeans, camiseta laranja do acampamento e tênis. Também nada de tiaras floridas em volta dos longos... Pera... Curtos?

Foi então que soube que aquilo era real, o que me deixou aliviado e intrigado ao mesmo tempo. Ela notou meu olhar e passou as mãos por todo o cumprimento de seu cabelo, que agora, chegava á altura dos ombros.

-Eu cortei ontem á noite logo depois que você despertou... A felicidade foi grande demais. –Ela sorriu, mas continuei esperando por respostas, então respirou fundo e falou tão baixo que quase não foi possível ouvi-la. –Cansei de viver presa ao passado, Luke.

Apesar de surpreso pela mudança, seu rosto ficava ainda mais destacado e chamativo, realçando sua beleza, porém antes que pudesse proferir esse pensamento em palavras, tudo ao meu redor começou a girar e fui obrigado á levar ambas as mãos á cabeça na tentativa de fazer com que ela parasse de latejar.

Suas mãos apertaram meus ombros. -Luke? –Não respondi. Ela começou á levantar. –Vou chamar ajuda...

Segurei seu pulso o que a fez parar. –Eu vi tudo. -Engoli em seco. -Sinto muito... Eu...

Tainara me analisou e voltou a sentar. -Do que você está falando?

Abaixei a cabeça e fechei os olhos, as imagens voltaram de uma só vez e fui obrigado e vivencia-las novamente, era como se ocorressem naquele instante.

-Queda... Água... Escuridão... –Apertei as têmporas. –Dor... Dor... Dor... Tortura... Lem... –Olhei em seus profundos olhos castanhos, que á luz do dia ficavam quase da cor de mel. –Lembranças... Uma porta... Única saída... Vozes... Sinto muito...

Ela levou ambas as mãos á boca e arregalou os olhos. –Então aquilo não foi só pressentimento.

Encarei as cobertas e balancei a cabeça. –Sei que aquele era para ser um momento apenas de vocês, mas é que eu não fazia ideia para onde aquela porta me levaria. Ela simplesmente apareceu, não havia mais nenhum lugar pra ir... Então ouvi a voz de uma garota e depois você e Júlio... Sinto muito... Achei que tivesse ocorrido algo...

Ela pousou suas mãos em cima das minhas, fazendo com que olhasse em seus olhos marejados. –Eu sabia que havia sentido sua presença lá, mas como não o vi e você estava de cama, achei que fosse apenas fruto da minha imaginação. Júlio também sentiu... Agora tudo faz sentido.

-Eu...

-Nem pense em se desculpar, nós acabaríamos lhe contando uma hora ou outra. Você nem faz ideia do peso que tirou das minhas costas, estou tão feliz que as coisas estejam finalmente claras! -Foi sua vez de encarar o cobertor. –Eu que peço desculpas, você sempre foi tão honesto com a gente, e mesmo assim não fui capaz de confiar totalmente... Só o fato de pensar em fazer parte de uma família novamente já me deixava desconfortável... -Ela engoliu em seco. -Porem depois de tudo que passamos não podia ter escondido isso de vocês... Devia ter contado quando perguntou, mas é que também só ficamos sabendo de toda a história ontem á noite e...

—Ei, não há nada do que se desculpar... -Apertei sua mão. -Desde o começo eu já sabia que vocês não haviam contado toda a história e mesmo assim não me importei, pois tinha certeza que contariam quando estivessem prontos e sei como o passado pode ser perturbador... Nenhum de nós foi realmente honesto uns com os outros.

Ela me abraçou e não hesitei em retribuir. –Obrigada... Eu os amo muito... Vocês são meus irmãos, minha família e não os trocaria por nada!

—Também amo vocês...

—Opa! É hora do abraço? Também vou ganhar?

Separamo-nos e encaramos Júlio que havia acabado de fechar a porta atrás de si. Ele estava de calça jeans e uma jaqueta de couro por cima da camiseta laranja do acampamento. Fazia muito tempo que não o via usar essa blusa, o deixava com cara de Badboy, com o cabelo desarrumado e postura descontraída, se não fossem por essas cores chamativas ele realmente poderia facilmente assumir esse papel.

Agora que sabia da verdade e o havia visto em carne e osso (mesmo em lembranças), apesar do visual completamente contraditório, era possível enxerga-lo como um oficial do exército e não como um monstro que passou mais de sessenta anos delirando e se escondendo.

Júlio andou descontraído em nossa direção. –Ei! Olha quem voltou dos mortos pela segunda vez. Você acabou de bater um recorde, meus parabéns.

—Obrigado... Eu acho. -Sorri e ele deu de ombros.

—Disponha... Mas é serio. É bom vê-lo novamente.

—Igualmente. Acho que já estourei minha cota de mortes por um bom tempo.

Eles riram, e Júlio ficou sério logo em seguida. –Tem mais uma coisa. -O encaramos confusos. –Resolvi deixar a parte dramática para Tainara, mas mesmo não tendo contado toda a verdade, não estou arrependido de minhas escolhas, pois foi graças á elas que eu os encontrei no tártaro e passei a reconstruir minha vida... O grande tempo em que fugi foram piores que a morte, conheci muitas pessoas e fiz centenas de coisas das quais me arrependo e que talvez um dia tenha coragem de enfrentar e reviver aquelas lembranças... mas então vocês apareceram e... –Ele nos olhou, estava prestes a ficar muito emotivo, então fez sua melhor carranca. –A vocês entenderam, como disse a parte emotiva ficou por conta de Tainara e... –Ele á olhou como que só naquele momento tivesse notado seu novo visual; suas sobrancelhas se arquearam. –Deixo vocês sozinhos por dez minutos e já começam a aprontar?

Levantei as mãos em rendição. –Em minha legitima defesa eu também não sabia de nada dessa vez!

—Poxa Tainara se você queria um novo corte era só pedir pra mim, era eu quem cortava o cabelo dos meus soldados. Tenho certeza de que você iria adorar.

Ela deu um tapa em seu braço e ele resmungou, o que me fez rir da cena, e Júlio me lançar um gesto nada educado com o dedo, apanhando de novo. Dessa vez cai na gargalhada com a expressão de indignação dele e a de repreensão dela.

Júlio também começou a rir e Tainara o acompanhou, então todos nós estávamos rindo descontroladamente e sem motivo nenhum, como nos velhos tempos...

Mas então aos poucos as risadas foram sessando conforme nos lembrávamos de que não estavámos mais sozinhos na floresta onde ninguém poderia escutar. O silêncio recaiu sobre nós e Tainara cutucou Júlio com dúvida no olhar.

-Pode perguntar.

Ela levou a mão ao pescoço, mas abaixou logo em seguida, apesar de agora saber o verdadeiro motivo de sempre fazer isso quando estava ansiosa. -O que iria fazer conosco quando nos encontrou?

Júlio ficou sério. -Só tinha dois motivos para haverem semideuses lá embaixo, ou saltaram por conta própria e eram tão insanos quanto eu. Ou haviam feito algo que os tornara o brinquedo de tortura especial de algum Monstro... -Ele limpou um fiasco invisível de sua roupa. -No primeiro caso, seria interessante descobrir mais sobre os motivos que os levaram a insanidade e me divertir um pouco com isso...

Tainara concordou como se já esperasse por essa resposta. -E no segundo?

Ele sorriu da forma que fazia quando estava prestes a nos meter em enrascadas. -Então depois de acabar com as bestas, eu descobriria mais sobre vocês e decidiria se deveria ou não tomar o lugar delas.

Júlio tentou parecer aquele mesmo garoto insano e perigoso que vimos nas lembranças, mas ele não era assim, já havíamos visto aquela parte de nosso amigo centenas de vezes ao longo do tempo em que ficamos vagando juntos. Mas nunca direcionada a qualquer um de nós, sempre aos monstros ou ameaças.

-E o que o fez mudar de ideia?

A verdadeira pergunta que Tainara queria fazer ficou pairando no ar como um peso entre a relação de ambos, como se uma simples resposta pudesse mudar tudo o que eles viveram e sacrificaram juntos.

Mas mesmo sabendo que Júlio sentira aquilo, ele se recostou na parede parecendo descontraído.

-Levou apenas um segundo para eu saber que você não era ela. -Ele deu ombros. -Apesar da leve semelhança nas fisionomias, não há mais nada de igual em vocês duas. E no momento em que a vi jogando o próprio corpo para impedir que Luke fosse morto... Simplesmente soube.

Tainara pressionou os lábios. -Naiá... Edvine, ela... ela não deixaria...

A garota engoliu em seco sem saber como terminar a frase. Ela queria acreditar que sua irmã jamais deixaria outra pessoa morrer se pudesse evitar. Que apesar de ter colocado as próprias necessidades na frente da irmã, da família e do noivo, nunca teria feito isso caso soubesse o que aconteceria.

Por Tainara também queria acreditar naquilo, afinal de contas as pessoas mudam e ela morreu lutando por uma causa, para defender sua nova família, aquela que escolheu proteger...

E eis a diferença que Júlio deixou implícito sem precisar falar nada, a garota era capaz de matar e morrer por aqueles que escolhia, um garoto qualquer que conhecera no Tártaro não estaria em sua lista de prioridades. Já Tainara tinha em conta a Honra e a afeição em primeiro lugar, e no momento em que prometemos proteger um ao outro até sairmos daquele inferno, ela manteria aquilo a qualquer custo, mesmo que isso significasse que apenas um de nós sairia.

O breve silêncio que pairou no ar foi o suficiente para que Tainara concordasse com aquilo, apesar de ainda parecer doloroso para ela aceitar.

Ela então passou a mão nos cabelos e respirou fundo antes de continuar. -Você nunca nos disse como as matou sem que as maldições delas fizessem isso primeiro...

Um sorriso sem emoção alguma despontou em seus lábios antes de nos encarar novamente. -A intenção não era ir junto com vocês.

-Você já as havia enfrentado. -Conclui quando Tainara ficou em silêncio.

-Elas foram as primeiras. -Júlio ficou com o olhar distante como se a imagem ainda estivesse gravada em sua mente. -Imaginei que seria justo ter uma morte na mão das Maldições daqueles que pereceram pelas minhas, mas...

-Não funcionou.

Pela primeira vez Júlio pareceu hesitar. -Se eu morresse no Tártaro tudo acabaría ali, nada de punições eternas ou perturbações, simplesmente o fim... -Ele riu amargamente. -As Carpas sabiam que estariam me fazendo sofrer muito mais se segurassem com força minha linha de vida e por mais que tentasse... elas eram espertas e nunca conseguia encontrá-las no mesmo lugar...

-Você tentou destruí-las. -Tainara arfou, mas Júlio não respondeu.

Ele agora parecia cada vez mais inerte em lembranças, em todos aqueles fragmentos que não quisera nos mostrar e que poderiam estar o corroendo por dentro, mas que ele temia soltá-los e ficar sozinho novamente...

Tanto eu quanto Tainara sabíamos como era essa sensação, lutávamos contra ela todos os dias, e a única coisa que não me fazia desistir era a certeza de que eles também estavam lutando por mim, que me aceitavam mesmo depois de tudo que fiz e da dor que causei...

E sabia que eles sentiam o mesmo por mim.

Peguei a xicara de Chocolate quente de novo e a encarei me lembrando do que Tainara dissera...

“Devia ter visto a cara dela...”

Céus.

Nunca pensei que iria almejar tanto uma coisa novamente como ansiava por aquele sorriso da noite anterior... Mesmo que para Thalia eu fosse apenas mais um membro da equipe, daria tudo para que ela sorrisse para mim de novo...

Mas sabia que isso não se repetiria...

Não para Tobias.

E nunca mais para Luke...

Respirei fundo e bebi um longo gole do Chocolate. -Sabe, isso tudo é um porre! -Ambos riram surpresos e me encararam. -Estou falando sério. As coisas são um tremendo Porre.

-E qual parte. -Tainara tentava se manter seria. -Exatamente é um porre?

-Seria mais fácil me perguntar qual não é. -Eles reviraram os olhos, porém continuei. -Mas se tivesse que escolher algumas em específico seriam essas coisas de Destino, Missões, Profecias, Velhas Decrépitas e Fios de lã que “decidem” quem morre e quem vive... enfim, as coisas básicas.

Tainara riu balançando a cabeça. -Só as que envolvem todo o nosso mundo né.

-Ai é que está. Mesmo se fossemos pessoas “comuns” então teríamos que lidar com outras pessoas e com regimes muito mais opressores e as vezes até mais cruéis do que os monstros e seres celestiais. -Encarei Júlio. -Ou se vivêssemos em um Mundo onde fosse possível destruir não só as Senhoras da vida como os deuses e todos os carrascos que se acham no direito de nos controlar, então depois o que? E se não soubéssemos escolher e alguém pior tomasse o lugar deles?

-Está querendo dizer que não adianta lutar por justiça porque no fim das contas podemos estar trocando seis por meia dúzia? -Júlio cruzou os braços e me encarou sério.

-O que estou querendo dizer é que há coisas impossíveis de se controlar e isso é um Porre. -Me acomodei na cama. -Você não pode ter cem por cento de certeza de que a causa pela qual está lutando é realmente valida ou benéfica para a maioria. Assim como não pode saber o quanto aquela pessoa que está apoiando irá mudar ao longo desse processo, ou quais mudanças irão ocorrer em você mesmo e quais serão os arrependimentos e as coisas que faria de novo se tivesse a chance...

Ambos me encaravam agora como se começassem a compreender aonde eu queria chegar. Virei o resto do Chocolate que já esfriara para me manter concentrado, o que parecia estar mais difícil desde que voltei da morte.

-Eu nunca me arrependi de ter tentado tirar os deuses do poder, ainda não acho que seres que pensam mais no bem próprio do que nos demais devam controlar a vida de bilhões de pessoas... Mas não me orgulho por meu ódio cego e frustração terem me levado a fazer uma aliança com alguém muito pior do que eles, e pela pessoa que me tornei, as vidas que tirei e aqueles que decepcionei...

Não precisava falar sobre os próprios arrependimentos deles. Sabia que Tainara iria atrás daquele que destruirá sua aldeia sem pensar duas vezes, porém ela se culpava por não ter obtido mais informações sobre o verdadeiro paradeiro de sua irmã e o que realmente enfrentaria...

Júlio não se arrependia de ter procurado sua noiva que julgava estar em perigo por sua culpa. Mas se não tivesse ficado tão obcecado por isso, teria notado que seu poder estava começando a sair de seu controle e aprenderia mais como controlá-lo antes de mais nada...

Sorri tristemente para eles. -Um conselho de alguém que morreu e voltou duas vezes...

Ambos riram tirando um pouco a tensão de seus ombros. Então me encararam sorrindo.

-Não vivam presos no passado, o que aconteceu passou e não tem como voltar atrás ou refazer tudo. O que lhes resta nesse momento é seguir em frente sem medo de errar, comecem do zero se for necessário, mas em hipótese alguma guardem rancor pelo que aconteceu ou deixem de perdoar... Pois vocês não tem só a própria história como exemplo, mas a de um ao outro e a minha, então sabem o quanto é difícil viver com o sentimento da culpa.

Eles ficaram alguns segundos em silêncio, então Júlio concordou. –Não esqueça de seguir os próprios conselhos também, irmão.

Ri balançando a cabeça. -Acredite, estou trabalhando nisso.

Tainara sorriu e seus olhos brilharam. -Estava com saudades desses nossos momentos.

Nós todos nos encaramos enquanto lembrávamos a última vez que havíamos conseguido ficar tanto tempo conversando sem sermos interrompidos. Mas infelizmente o momento havia acabado e Tainara se levantou ficando ao lado de Júlio.

-Mas se não nos apressarmos alguém irá vir atrás de nós. -Ela me analisou de cima a baixo. -Você tem quinze minutos para tirar esse cheiro do corpo e se encontrar com a gente na cozinha.

Fiz minha melhor cara de indignação. -Acabou de falar que estou fedido?

Júlio torceu o nariz. -Acho que está mais para moribundo.

Lhe lancei um gesto nada educado como resposta.

-Tobias!

Levantei as mãos em forma de rendição. -Foi ele quem começou!

-Mas que Merda é essa?

Tainara ergueu a sobrancelha na direção de Júlio que havia estragado toda a sua pose de Badboy ao levar ambas as mãos na cintura de forma dramática. -Como é?

-Por que eu apanhei quando fiz esse mesmo gesto e ele só tomou uma advertência? Onde está a justiça nisso?

Ela deu ombros. -Você não morreu e voltou duas vezes.

Júlio a fulminou com o olhar. -Então quer dizer que preciso parecer com um cadáver para receber tratamento especial?

-Sim.

-Ei! -Chamei a atenção de ambos. -Tenham ao menos um pingo de decência e finjam que se importam com os sentimentos do cadáver moribundo aqui!

Ambos riram enquanto começavam a sair do quarto. -Foi mal cara, vamos continuar a discussão sobre a preferência a mortos vivos no corredor.

Tainara deu um tapinha na cabeça de Júlio que resmungou enquanto saia. Ela porém parou uma última vez.

—Dez minutos...

A porta se fechou, levantei-me em um salto e corri para o banheiro. Sentindo-me vivo como á muito tempo não acontecia.

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PERCY

-E vocês fizeram tudo isso em dois dias?

Tobias perguntou com os olhos arregalados, enquanto tomava seu quinto copo de chocolate quente. Não o culpava, as caçadoras sabiam como prepara-los; e eu nunca deixava de tomar pelo menos seis (pode me chamar de guloso, mas é porque você ainda não experimentou, é quase tão bom quanto néctar).

-Você não faz ideia. -Annabeth falou sorrindo.

Aquele era um dia feliz para todos, pois iriamos completar a missão com todos os campistas. Nós havíamos acabado de terminar o relato dos ocorridos, todos ajudaram na narração. E como se fosse combinado ninguém falou do incidente entre Edvine, Tainara e Júlio.

Acho que se eles quisessem já o teriam feito e não seria eu quem discordaria, principalmente sem sabermos o motivo.

Tobias terminou seu quarto croissant e já foi pegando uma fatia de pizza. Jasmim resolveu deixar um enorme banquete pra nós de café da manhã como comemoração o que não foi má ideia, pois o garoto não comia á mais de 48 horas.

-Fiquei um pouco confuso em uma parte. –Tobias terminou de comer a fatia. –Vocês disseram que precisaram voltar pra me salvar e que eu estava muito fundo. Então significa que já havia me afogado certo? –Todos concordaram e ele pegou mais um pedaço de pizza. –Então como exatamente vocês conseguiram tirar toda a água do meu corpo?

-Percy e Tainara o resgataram da água, Annabeth ajudou com os primeiros socorros, Júlio fez alguns feitiços, Tainara lhe deu néctar e Percy retirou o resto da água de seu corpo. –Thalia explicou tão rápido quanto pode, mas Tobias continuou confuso, pois ela havia omitido algumas coisas.

-Não foi bem assim. –A morena falou com um olhar divertido no rosto. –Annabeth não foi à única que fez os procedimentos de primeiros socorros e Percy retirou apenas o resto da água que sobrou depois de Thalia fazer diversas vezes respiração boca á boca para salvá-lo...

Tobias engasgou com o pedaço de bolo que estava comendo, ele tomou todo o liquido de seu copo para que a tosse parasse. Thalia estava tão vermelha quanto achei que seria possível e todos na mesa, incluindo Edvine e Andressa, tentavam segurar o riso pela expressão de sua ex-líder.

Depois que ele finalmente se recuperou á olhou sorrindo timidamente, desviando o olhar logo em seguida e encarando cada um presente.

—Muito obrigado por terem feito tudo isso, mesmo não me conhecendo a tanto tempo...

—Não tem o que agradecer, você faz parte da equipe. –Annabeth o interrompeu.

—Ela tem razão, temos que confiar um nos outros. –Completei. -É isso que fazem os amigos.

Ele abaixou a cabeça um pouco pensativo, sua expressão parecia de arrependimento e culpa. Olhei para Annabeth para ter certeza de que não havia imaginado, mas ela fez sinal para que conversássemos mais tarde.

***

-Obrigada pela hospedagem. –Andressa agradeceu á Annabeth. –Infelizmente não poderemos ficar para ajudar na missão, pois temos algumas reuniões com nossos fornecedores e precisamos voltar para o acampamento o quanto antes.

-É uma pena que não possam ficar, mas sei das suas responsabilidades e espero que tudo ocorra bem. –Annabeth as abraçou.

-Levem um pouco de comida para a viagem. –Thalia apareceu com dois pacotes na mão, entregando a cada uma delas. –Assim economizarão tempo.

-Obrigada. –Edvine despediu-se das duas e fez um reverência á Thalia. –Nos vemos no acampamento em breve.

Thalia assentiu. –Não dará nem tempo de sentirem minha falta.

Tainara passou rapidamente por todos, indo em direção aos quartos. Edvine á olhou com o canto dos olhos, depois encarou Júlio por um segundo. Então vasculhou sua mochila á procura de algo.

-Se me dão licença, acho que esqueci a minha adaga reserva no quarto.

Antes que pudéssemos responder ela saiu em disparada. Júlio ameaçou segui-la, mas Tobias o chamou na cozinha para ajuda-lo á limpá-la.

Olhei para Annabeth que parecia tão confusa quanto eu. Essa duvida estava me deixando preocupado.

O que raios eles estavam escondendo que até mesmo Tobias já estava ciente?

A tentação de pedir para Annabeth por seu boné de invisibilidade e os seguir foi grande, mas achei melhor ignorar; tenho esperanças de que na hora certa eles irão contar.

Precisava confiar em meus instintos.

Só espero não estar errando novamente.

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TAINARA

-Sabia que viria.

Falei assim que senti sua presença. Estava de costas pra ela, porem tinha ciência de sua aproximação.

-Eu... Eu... –Ela respirou fundo, sua voz estava trêmula. –Sinto muito... Não fazia ideia de que vocês estavam vivos... Nunca pensei que...

Não a deixei terminar, virei-me e resolvi seguir os conselhos de Luke, nosso tempo era curto e não iria desperdiçar remoendo as lembranças de algo que já havia acontecido á muitos séculos atrás.

A abracei o mais forte que pude, ela retribuiu no mesmo instante, e então nós duas irrompemos em lágrimas, mas não de tristeza.

-Minha pequena... –Ela suspirou. -Senti tanto a sua falta! Achei que nunca mais poderia abraçá-la de novo...

-Eu também achava um sonho impossível... -Mesmo depois de tudo ainda não conseguia acreditar que era real. -Eu sempre te amei...

Edvine me abraçou ainda mais enquanto chorava descontroladamente. –Também te amo pequena. Te amo mais do que qualquer coisa e sinto tanto...

Pressionei os lábios deixando que as lágrimas continuassem a cair. Se ela soubesse o quanto queria acreditar naquilo...

Me afastei e ela me encarou com um enorme sorriso no rosto, passando a mão por toda a minha face e depois pelos meus cabelos curtos.

-Veja só como você cresceu... Está ainda mais linda. –Sorri tentando acompanhar sua alegria e ela continuou. –Agora que lhe encontrei, não tenho vontade de partir...

Não precisei disfarçar a decepção dessa vez. -É tão triste que vocês tenham que ir... Mas seu dever á chama.

Minha irmã concordou tristemente, mas então seu rosto se iluminou. –Há uma solução para que possamos ficar juntas. –Levantei a sobrancelha sem entender, ela pegou um cartão de seu bolso e me entregou.

-O que é isso?

-Uma solução. –Naiá falou animada. No cartão dizia:

Caçadoras de Ártemis.

Para uma vida eterna e sem garotos é só a deusa chamar.

O olhei por alguns segundos, havia mais algumas palavras escritas, mas não conseguia tirar os olhos daquela frase.

-Não seria oficial até que as coisas se resolvam e lady Ártemis volte, mas tenho certeza de que ela adoraria tê-la conosco! Infelizmente perdemos muitas caçadoras nesses últimos meses e toda ajuda é bem-vinda. –Edvine estava cada vez mais empolgada. –E o melhor de tudo é que ficaríamos juntas e você poderia voltar com a gente, já como uma de nós.

Ainda não conseguia desviar o olhar...

Ela é capaz de morrer pela família que escolheu... E agora queria que eu fizesse parte dela...

Ficaríamos juntas novamente... Depois de séculos de angustia e sofrimento... Finalmente á havia encontrado e não queria perde-la jamais...

Então porque essa hesitação em aceitar?

Inúmeras imagens e diversos pensamentos se passaram em minha cabeça.

"Você é única. Os segredos guardados logo serrão revelados. A serpente convida, pois ela é sua única saída."

"O que lhes resta nesse momento é seguir em frente sem medo de errar, comecem do zero se for necessário"...

Aquelas palavras piscaram como um alerta em minha cabeça, elas se encaixavam perfeitamente. Mesmo que não parecendo fazer sentido algum, agora eu entendia o que fazer e que caminho escolher.

Á encarei sorrindo.

Estava na hora de ter o controle da minha vida.

Somos nós quem escolhemos, e eu iria tomar um atalho.

Notas finais
★♡★