Percy Jackson - Uma Nova Profecia
24 XXII - Recebemos ajuda de Mortais
Notas iniciais
Depois daquela rápida revelação todos nos reunimos na cozinha para sabermos mais sobre esse misterioso casal.
Tainara e Thalia haviam terminado de fazer os cookies, muffins e até cappuccino de chocolate, o cheiro nos alcançou assim que entramos no barco e meu estomago me denunciou acabando com toda aquela pose de sério que eu estava fazendo até então.
-Fiquei imaginando quando os dois parariam de tentar bisbilhotar o navio e entrariam logo de uma vez.
Júlio já estava sentado e levou a xicara de cappuccino aos lábios tomando um gole demorado enquanto nem mesmo se dava ao trabalho de encarar Larissa e Carlos.
Os dois pareceram travar apenas um segundo antes de continuarem nos seguindo e cumprimentar a todos que estavam lá, apesar de ninguém estar realmente surpreso por aquela visita.
Tainara repreendeu Júlio com o olhar, mas ele ignorou. Começamos a nos servir e não tinha palavras para explicar o quanto tudo estava maravilhoso.
-Então quer dizer que vieram em nome do “amigo mensageiro” de vocês. –Júlio enfiou todo o muffin na boca enquanto os analisava de forma indiferente.
Olhei para Annabeth que me encarou de volta e deu um sorriso de lado.
O homem ajeitou a barra de seu paletó, apesar dele continuar impecável, então tentou sorrir. -Meu nome é Carlos e essa é minha esposa Larissa.
-Tudo bem. –Júlio os cortou. –Vamos pular as formalidades, pois duvido muito que teriam vindo até aqui sem fazer uma pesquisa do que e de quem enfrentariam. –Ele bebeu outro gole de seu cappuccino ainda os encarando. –Agora o que são e por que vieram até nós?
Eles encararam Júlio um pouco atordoados e Larissa tentou. –Bem, nosso amigo nos mandou para ajudarmos na missão...
Júlio levantou suas sobrancelhas a fazendo se calar.
O silêncio reinou por alguns segundos antes dele começar a falar.
-Que tal começarmos de uma forma diferente? –O garoto apoiou os cotovelos na mesa ainda sério. -Vocês não são monstros, caso contrário às armadilhas já teriam lhes mandado de volta para o Tártaro e sem sombra de dúvida não são deuses, pois o barco está completamente camuflado. –Ele fez uma pausa pegando um dos muffins e o analisando como se houvesse uma câmera escondida. –Poderia dizer que são espíritos que precisam de ajuda, mas não teria lógica já que está claro que foi Hermes quem os mandou.
Olhei para o teto por impulso imaginando que apenas mencionar o nome de um dos deuses fosse invoca-los ou trazer mais um ataque até nós.
–Isso significa que vocês são apenas mortais, o que me leva á uma segunda pergunta. –Júlio comeu o bolinho. –Por que estão arriscando suas vidas para nos “ajudar”, se esse realmente for o motivo.
Todos ficamos em silêncio. Annabeth o encarava como se acabasse de encontrar outro desafiante a altura para discussão de estratégias de guerra (além de Thalia e Reyna).
Larissa deu um longo gole em seu cappuccino, Carlos limpou a garganta e sorriu.
-Hermes estava certo sobre vocês, é um grupo... interessante...
O garoto cruzou os braços sob o peito voltando a ficar com o semblante indiferente.
-Realmente Júlio. -Carlos provou a teoria dele, mas Júlio nem mesmo se mexeu diante da pronuncia de seu nome. -Somos apenas mortais, mas tivemos a sorte de conhecer um deus muito generoso e sempre que possível retribuímos o favor, como agora.
Analisando os outros na mesa, pude ver que Tainara segurava o riso (aparentemente ele já havia feito isso antes), Thalia me cutucava com o cotovelo enquanto sorria, e Annabeth ainda encarava Júlio, o estudando e provavelmente analisando a melhor hora de entrar em jogo. O que aconteceu logo em seguida.
-E como exatamente vocês conheceram Hermes?
Os dois desviaram o olhar e tentaram sorrir.
Aquilo seria divertido.
-Bem, foi há uns três anos, nós moramos em Nova York e na época não tínhamos absolutamente nada, lembra amor? -Ele concordou e engoliu seu cookie. –Foi uma época difícil, estávamos com um negócio falido e não sabíamos mais o que fazer. Mas então um belo dia fomos pegos de surpresa, ele simplesmente trombou em nós, literalmente. –Ela fez uma pausa tentando transmitir o humor da história. -Aquele foi o melhor dia das nossas vidas, ele nos convidou para um almoço como pedido de desculpa, e contamos nossa história. Era um bom ouvinte e estava passando por dificuldades na família... Porém ele não nos contou muita coisa não é Carlos?
-Sim, o homem parecia distante naquele dia, mas nos ofereceu uma aliança entre as nossas empresas, mesmo ela falida.
-E com o que vocês trabalham? –Annabeth terminou seu cappuccino.
-Com entregas, de tudo, desde eletrodomésticos até artigos de semideuses, quer dizer depois do acordo com Hermes, claro.
-E como vocês descobriram que ele era um ser divino? –Júlio agora analisava um cookie.
Fiquei com dó do olhar que ele direcionava aos alimentos.
Larissa deu um sorriso de lado. -Nós viramos sócios e durante um jantar de negócios ele passou dos limites na bebida e bem... Acabou nos contando.
-Claro que não acreditamos, mas digamos que passar da conta na bebida é pouco para a situação em que ele se encontrava... –Carlos sorriu para a esposa com a lembrança. -Então Hermes nos mostrou seu poder e bem... se não fosse por Larissa, eu provavelmente teria fugido apavorado diante de toda aquela loucura.
A mulher sorriu para ele de forma amorosa e entrelaçou a mão de ambos. –Me querido, você tem muitas qualidade, mas sempre soube que se encontrássemos um deus seria eu a protetora da relação.
Carlos riu na direção de Larissa, e mesmo sabendo que eu deveria vê-los como supostos adversários, era impossível não achar a relação que ambos demonstravam bonita e apaixonada.
Acabei olhando para Annabeth que deveria ter pensado o mesmo, pois me encarava com um sorriso de lado. Pisquei para ela e voltei a prestar atenção na conversa.
-Hermes teve que nos esconder por um tempo para convencer Zeus de que não iriamos contar á ninguém e fomos obrigados á prometer pelo rio Estige. -Carlos continuou.
-Mas isso já não é um problema, depois de um tempo acabamos conhecendo outros deuses e nos aprofundamos ainda mais neste fantástico mundo de mitologia. Hermes foi tão bom com a gente sem termos feito nada e agora sempre que possível ajudamos o nosso amigo.
Eles terminaram e relaxaram em suas cadeiras, Larissa pegou um cookie sorrindo.
-Está tudo uma delicia. Os responsáveis estão de parabéns.
Tainara e Thalia agradeceram com acenos de cabeça, mas a expressão de Annabeth deixou claro que havia pontas soltas.
-E por que Hermes resolveu ajudá-los?
-Isso é algo que até hoje não entendemos, Carlos acha que por conta dos problemas que Hermes estava enfrentando na época ele sentiu pena da nossa situação. Eu concordo e tenho minhas duvidas de que tenha algo relacionado á um de seus filhos semideuses, mas nós nunca perguntamos sobre nada que acontece, não acho que temos esse direito.
Annabeth enrijeceu do meu lado e Thalia arregalou os olhos. Comecei á fazer as contas e juntar as peças. Hermes os conheceu no final da guerra contra os Titãs, seu filho estava com problemas e ele ficou abalado, mas ao invés de extravasar sua raiva ele ajudou as pessoas que precisavam... Isso é algo que eu nunca imaginei que um deus faria por “simples mortais”.
Claro que eles poderiam estar mentindo, mas Hermes os mandou aqui e pareciam dizer a verdade.
-Então... –Me ajeitei na cadeira. –Agora que as duvidas foram esclarecidas, qual é a ajuda que pretendem nos oferecer?
Os dois voltaram á sorrir novamente. Larissa tirou um envelope do bolso de seu sobre tudo. –Os deuses estão prestes á descobrir o plano de vocês, como devem ter notado, o ataque das harpias foi apenas o começo, se quiserem ter sucesso na missão terão que trocar o modo de viagem... Claro que infelizmente com os ocorridos não seria seguro manda-los pelo ar.
Ela me encarou e eu concordei com a cabeça. O fato de ser filho de Posseidon já me impede de entrar nos domínios de Zeus com muita frequência (á não ser que eu esteja embarcando em uma viagem direto para a minha morte, dai ele não se importa) ainda mais agora que o senhor dos céus está caçando os próprios filhos, não quero nem pensar no que aconteceria comigo.
Larissa entregou os envelopes á Tainara que estava do seu lado, a garota pareceu relutante, mas os segurou firme como se á qualquer momento o papel fosse sair voando.
-Ai dentro há seis passagens de ônibus para Paris, ele sairá daqui amanhã bem cedo, ás 8:00, mas acho melhor vocês chegarem pelo menos vinte minutos antes para receberem as recomendações.
Os olhos de Annabeth brilharam em aviso. –Como assim?
Carlos colocou uma das mãos no ombro da esposa e sorriu. –É que esse ônibus os transporta em um piscar de olhos. –Ele piscou para que entendêssemos a referência.
-Não é só isso. Querido, pode dar á eles. –Carlos mexeu em seu terno e tirou um papel dobrado o entregando á Annabeth. Larissa esperou que ela lesse. –Assim que vocês chegarem à estação peguem um taxi e vão direto para L'Empire Paris.
-Empilhar o que em Paris?
Todos na mesa riram (exceto Júlio) e Thalia revirou os olhos. — L'Empire Paris, seu cabeça oca.
-Ei, não tenho culpa se eles colocaram um nome estranho nesse... -Olhei confuso para Larissa. –O que é isso exatamente?
-É um hotel meu jovem.
-Não acredito Percy! Você já foi para Paris e não sabe de nada. –Thalia arrancou mais risadas dos outros. Dei de ombros e esperei que Larissa continuasse.
-Mostrem essa carta para a recepcionista e ela saberá o que fazer.
-Se aceitarmos o que irá acontecer com o barco? –Júlio esperou, enquanto fazia seu copo voar em círculos.
Larissa ficou impressionada e acabou deixando que seu marido respondesse enquanto olhava atentamente para o copo.
-Presumo que ele não seja de vocês?
-Não. –Tainara bateu na mão de Júlio o que fez com que ele perdesse a concentração e o copo caísse, a sorte é que estava vazio. -Foi um amigo de Percy que nos emprestou, e não acho que vá gostar de saber que seu barco sumiu.
Fiquei surpreso por eles estarem preocupados. Durante o almoço eu havia lhes contado algumas partes da conversa com meu pai, que era o motivo de terem nos emprestado o barco.
-Nós já pensamos nisso. –Carlos entrelaçou os dedos e olhou para os dois. –Assim que vocês saírem, iremos navegar de volta para os Estados Unidos com esse barco. Tudo que precisamos é que nos deem o endereço e nome do dono.
Os dois assentiram. –Há mais uma coisa. -Larissa mexeu em seu outro bolso, tirando um pequeno frasco com um liquido da cor de seu sobre tudo.
-A cura do médico?- Annabeth olhava fixo para as mãos de Larissa que a encarou e sorriu.
-Então vocês conhecem Asclépio?
Nós dois concordamos com a cabeça. Não o havíamos visto pessoalmente, mas nossos amigos Leo, Piper e Jason relataram sua experiência na sala de espera da morte e como conseguiram convencê-lo de lhes dar a cura, que no fim acabou não servindo para absolutamente nada.
Até hoje fico imaginando o que teria acontecido caso algum de nós estivesse lá na hora...
Mandei esses pensamentos para longe, não era o momento certo de ficar se lamentando por algo que aconteceu um ano atrás.
Larissa continuou após o silêncio.
-Essa não é a cura de Asclépio, é apenas algo criado por mim, Carlos e Hermes.
-Vocês fizeram o próprio antidoto? –Perguntei um pouco espantado e estando ciente das consequências que isso poderia gerar.
Carlos limpou a garganta na esperança de prestássemos atenção nele.
-Não é o que estão pensando. A cura de Asclépio traz qualquer pessoa de volta á vida desde que seja utilizada logo após o ocorrido. –Ele parou para ter certeza de que tinha a atenção de todos. –E apesar da aparência ser a mesma as semelhanças acabam por ai. Esse remédio. –Carlos apontou para a mão de sua esposa. –Ajuda no processo de cura 10 vezes mais rápido que o néctar, ambrosia ou lascas de chifre de unicórnio que os romanos costumam usar. Ainda não foi divulgado, pois está passando por testes.
-Vocês sabem o risco que estão correndo não é mesmo? –Júlio perguntou, recebendo em troca um sorriso de Larissa.
-Estamos cientes, mas como meu marido disse, ainda não está pronto, precisamos ter certeza de que...
-E vocês estão querendo usar o nosso amigo de cobaia? –Tainara cruzou os braços.
-Claro que não minha querida. –Sua voz assumiu um tom ainda mais doce. -Não acho que essa foi à intenção de Hermes quando nos pediu que os ajudassem, apesar de ainda não estar pronto para as vendas, a cada avaliação avançamos mais para o sucesso e ele já foi testado em venenos, porém não temos certeza absoluta de que irá funcionar, mas levando em consideração a situação em que nos encontramos é a nossa única chance.
Todos ficaram em silêncio, infelizmente ela estava certa, mesmo que houvesse uma porcentagem de erro, havia outras coisas em jogo.
-Eu quero que entendam que não estamos tentando ser o centro das atenções, e também não temos a agilidade, ingredientes e apesar de nosso amigo possuir duas cobras ainda sim não é a que realmente poderia ajudar á criar algo do tipo. –Carlos estava sério.
-É claro que George e Martha são uns fofos, adoro dar rato para eles.
Carlos sorriu para a esposa mais uma vez, porém ficou sério novamente. -Quando tudo estiver pronto não temos certeza se dará para levar ao conselho com as coisas do jeito que estão, mas mesmo assim, nós três concordamos que com a guerra que se aproxima iremos precisar de algo á nosso favor.
-O que os faz pensar que há uma guerra se aproximando? –Thalia perguntou.
-Vão me dizer que não estão contando com uma guerra? –Antes que ela pudesse responder ele continuou. –Vocês não estão com esperança de que esses ataques á seus acampamentos sejam apenas um teste e que tudo logo, logo vai voltar ao normal não é? –Ele encarou cada um de nós, mas não deixou que Thalia respondesse. –Sei que não somos ninguém para falar alguma coisa, mas se vocês acham que nada vai acontecer então não sei por que ainda insistem.
-Eu pensaria um pouco mais nas palavras que diz, senhor Carlos.
Júlio usou o mesmo tom que usara com Hermes naquela manhã como sinal de aviso o que levou o homem a encará-lo e pressionar os lábios em receio. Porém foi Annabeth quem continuou.
-Nós estamos cientes sim do que está acontecendo, caso não tenha notado somos o motivo e definitivamente não saímos aqui para brincar com o destino. –Sua voz estava firme não abrindo espaço para discussão, então Thalia entrou na jogada.
-E pode ter certeza que todos nós estamos preparados para qualquer tipo de ataque independentemente de quem seja o inimigo. –Seu tom de voz era mais descontraído, porém isso apenas intensificava o aviso por trás. -Então acho que você não deve se preocupar com nada além da sua proteção e da de Larissa. -Ela deixou que relâmpagos brilhassem em seus olhos para mostrar do que éramos capazes.
Todos estavam em silêncio, Carlos ficou com os olhos arregalados de surpresa e até mesmo sua esposa não conseguiu manter o sorriso no rosto daquela vez.
-Perdoe-me se os ofendi de alguma forma, não foi minha intenção. –Carlos tentou sorrir, mas pude ver que se aproximou um pouco da mulher como uma forma de proteção a ela. -Como já disse não somos ninguém para palpitar ou interferir em algo, só estamos preocupados. Ouvi falar de heróis semideuses, ainda mais vocês que conseguiram salvar o mundo duas vezes... e espero que realmente estejam preparados para o que pode acontecer, talvez... o destino das pessoas fiquem em suas mãos novamente...
-Mas isso que está acontecendo é só com a gente não é? Os deuses não se importam nem vão machucar mortais.
Ele me encarou com um olhar melancólico, apesar de ser mortal parecia carregar a experiência de séculos que apenas um ser imortal iria possuir.
-Pode ser que sim, mas todos nós sabemos que a qualquer momento o foco irá mudar.
Ficamos em silêncio com os próprios pensamentos. Depois de alguns minutos Larissa o quebrou.
–Bom, já ocupamos tempo de mais de vocês. Esse é um presente direto de Hermes, claro que ele não deixaria seu filho morrer envenenado. — Ela entregou o frasco para Thalia. -De metade dessa poção ás 20:00, e o resto depois de 12 horas, o deixar novinho em folha. Pelo menos vamos torcer para que realmente aconteça isso.
Thalia guardou o frasco em seu bolso e olhou no relógio da cozinha. Por impulso Annabeth pegou seu celular e me mostrou as horas.
19:50
Thalia se levantou e agradeceu aos dois, depois trocou uma mensagem silenciosa com Annabeth e saiu da cozinha.
-Bom está ficando tarde. Temos que ir para deixa-los descansar. –Ela e Carlos se levantaram o que fez com que todos fizessem o mesmo. –Nos veremos novamente pela manhã antes de partirem. Obrigada pela recepção e por essa comida maravilhosa, Hermes realmente sabe escolher os amigos.
-Nós é que devemos agradecer, vocês não tinham obrigação de nos ajudar.
-Percy está certo, muito obrigada. –Tainara parecia cansada mas muito feliz.
Larissa e Carlos deram um largo sorriso como agradecimento e por notarem que a tensão havia se dissipado, então se despediram.
Annabeth os acompanhou até a rampa de decida, fiquei olhando da janela para ter certeza de que estava tudo bem. Depois que eles saíram ela puxou a madeira para dentro e fechou a grade que dava acesso ao barco. Olhei para a cozinha novamente e encontrei apenas Júlio.
-E Tainara?
-Ela desceu para ajudar a Thalia.
Concordei com a cabeça. Annabeth passou direto pela cozinha e foi até o porão, ou seja, a limpeza sobrou para nós dois. Mas não foi tão difícil e dez minutos depois estávamos todos reunidos no quarto de Tobias.
-Como ele está? –Perguntei assim que entramos.
-Do mesmo jeito. –Thalia guardou o frasco em sua mochila mágica de caça (um dos poucos objetos que ainda tinha, relacionado ás caçadoras). –O que nos resta agora é esperar. Ela se levantou da cadeira que estava ao lado da cama e suspirou. –Bom, temos que decidir quem vai ficar com o primeiro turno de vigília. Se não se importarem eu posso...
-Nem pense em se oferecer. Você foi a que mais fez as coisas hoje e merece um descanso. Pode deixar que nós vamos cuidar dessa parte.
Thalia encarou Tainara com a sobrancelha erguida, a garota ficou um pouco sem jeito e Júlio limpou a garganta chamando a atenção para ele.
-Tainara está certa, na verdade ninguém precisa ficar de vigília, eu reforcei a barreira depois do ataque de hoje cedo... Se você quiser é claro...
Agora ela encarava os dois que estavam claramente desconfortados com a situação. Tirando o cabelo que estava um pouco para baixo dos ombros e era mantido preso na maioria das vezes em uma trança ou rabo de cavalo, Thalia não havia mudado absolutamente nada e seu estilo punk ajudava na sua expressão intimidadora. Naquela noite ela usava jeans surrado, uma camiseta com a estampa da Barbie e uma flecha em sua cabeça, a legenda dizia: “Morte ás Barbie”.
Aquela altura, Tainara olhava para todas as direções menos para frente e Júlio apesar de manter o olhar firme parecia estar prestes a desistir.
Annabeth levantou da outra cadeira e deu um tapa de leve no braço de Thalia, tirando sua concentração.
-Pare com isso, está assustando eles.
As duas riram o que fez com que os dois ficassem ainda mais confusos, não consegui me segurar e ri também com a cara que eles faziam.
-Vocês são muito engraçados e tem toda a razão, vou descansar um pouco. –Thalia passou pelos dois ainda sorrindo. -Se precisarem de mim é só chamar.
Ela passou pela porta e Annabeth ficou do meu lado. –Não se preocupem, daqui a pouco vocês se acostumam, ela é assim mesmo.
-Bem que ele avisou sobre o jeito dela.
Júlio sussurrou, mas conseguimos ouvir e os encaramos imediatamente, Tainara deu uma cotovelada no amigo que ficou com a expressão neutra como se não tivesse dito nada.
-Quem falou sobre Thalia? –Annabeth perguntou desconfiada.
-Quiron. –Falou Tainara rapidamente. –Antes de virmos para a missão ele contou um pouquinho de cada um de vocês para que não ficássemos perdidos.
Olhei para Annabeth e chegamos á conclusão de que isso não era totalmente verdade, mas achamos melhor deixar esse assunto para outra hora.
Os dois aproveitaram a deixa e bocejaram, Júlio se espreguiçou.
-Bom, já está um pouco tarde e não sei vocês, mas eu irei dormir para ver se consigo ficar acordado o dia inteiro amanhã.
-Concordo, também estou cansada. Amanhã será um longo dia.
Os dois se despediram e foram para seus respectivos quartos . Ficamos apenas nós três, eu ainda não estava com sono e ia sugerir que fossemos lá pra cima para deixar Tobias se recuperar melhor, mas Annabeth me surpreendeu com um abraço apertado do qual retribui, ficamos assim por alguns segundos até que reparei em seu olhar fixo na cama.
-Está tudo bem, ele vai melhorar, amanhã já estará despencando para a morte novamente.
Ela se soltou para me olhar nos olhos. –Você já falou isso, mas é bom não dizer muito essas coisas nem mesmo de brincadeira.
-Só porque eu sou um especialista nisso? –Ergui a sobrancelha com um sorriso convencido nos lábios.
-Exatamente. É você que adora se jogar direto para a morte.
Dei de ombros. –O que posso fazer? Todos me adoram, até a morte.
Ela revirou os olhos e sorriu, depois encarou Tobias novamente.
-Eu queria que houvesse outro jeito. Não podemos mais dar néctar ou ambrosia e esse remédio apenas ajuda na recuperação.
Concordei e tentei pensar em algo do qual vinha me incomodando o dia inteiro, mas havia ignorado até então...
Imediatamente cenas surgiram em minha cabeça com um flashback, ela se focou em uma imagem que eu não queria lembrar, mas naquele momento poderia ajudar.
-Talvez tenha um jeito...
Não precisei terminar, Annabeth enrijeceu completamente se lembrando do que eu estava falando.
-Sei que da primeira vez agi sem responsabilidade, mas dessa vez é diferente, eu posso fazer isso...
Annabeth me beijou, fazendo com que eu me calasse. –Não precisa me dar explicações, sei que consegue.
Concordei com a cabeça e caminhei até a cama de Tobias retirando as coisas do caminho. O encarei e a imagem de Akhlys (deusa da miséria) apareceu na minha frente, ela estava com uma cara pior do que a habitual e sufocava com o próprio veneno, enquanto eu controlava uma onda enorme de seus líquidos.
Isso me fez parar e tremer, Annabeth havia ficado com medo de mim naquela ocasião e não á culpava, sabia que seria diferente, pois agora era a vida de um amigo que estava em risco e tinha que agir para salvá-lo e não o contrário, mas ainda sim meus pés não saiam do lugar.
Senti uma mão em meus ombros e relaxei.
-Percy. Você fez aquilo para nos salvar e não tem culpa de nada... vai dar tudo certo.
Respirei fundo, coloquei a mão no peito de Tobias (tomando cuidado com o ferimento) e fechei os olhos.
Assim como naquela manhã, me concentrei em todo o liquido de seu corpo, com a diferença de que agora queria apenas o veneno. Depois de alguns segundos minha mão começou a formigar e esquentar então fiz com que se localizasse em apenas um local.
Annabeth prendeu a respiração e acabei me desconcentrando com medo de ter feito algo errado, quando olhei para a garganta de Tobias todas as minhas esperanças foram por água a baixo e enrijeci novamente.
Ela estava verde e inchada (quase do tamanho de uma bola de queimada). Fechei os olhos com mais força. Não podia desistir, era a vida de uma pessoa que estava em risco, alguém que já havia provado um pouco do seu valor quando nos tirou daquela lanchonete enquanto eu desfrutava do meu sanduiche sem nem ter ideia do que acontecia.
Com esse novo pensamento em mente, mandei que o veneno saísse de seu corpo e como resposta, ouvi vários gemidos e barulho de liquido batendo em algo. Hesitei em abrir os olhos, mas a curiosidade falou mais alto.
A cena que vi fez com que desse vários passos para trás com a boca aberta, só parei quando senti a parede, procurei por Annabeth, mas ela não estava no quarto, um gemido fez com que eu olhasse novamente para o garoto de cabelos loiros, uma cicatriz na cara e olhos azuis penetrantes.
-Onde estou?...
Ele revirou os olhos nas órbitas e caiu para trás na cama, estava absolutamente sem palavras, não sabia o que fazer.
-Está tudo bem?
Dei um pulo e olhei para Annabeth que estava na porta do quarto com dois copos de água. Como não disse nada ela se aproximou e me entregou um dos copos, minhas mãos estavam tremulas e tomei em um só gole, porém minha garganta ainda estava seca.
-Você conseguiu, mas abusou demais, é melhor ir descansar.
Ela me lançou um sorriso tranquilizador, mas eu sabia que não era aquilo que havia acontecido comigo, o que fiz não me afetou em absolutamente nada, já tinha ultrapassado daquela fase de controle com meus poderes e liberá-los geralmente me deixava mais relaxado.
Porém a cena que vi ainda estava em minha mente. Olhei para Annabeth que pegou um balde prateado e tampado (provavelmente um dos objetos da mochila de Thalia), ela me entregou o outro copo e saiu para jogar o conteúdo fora, não fazia a mínima ideia do que havia lá dentro, apesar de ter meus palpites.
Virei o segundo copo de uma só vez e olhei diretamente para o rosto do meu antigo professor de esgrima, mas prendi a respiração levando minhas mãos à cabeça. O garoto na cama estava com uma expressão serena, seu rosto voltava á cor natural e o cabelo preto estava amaçado de um lado.
Annabeth entrou no quarto novamente e pegou os copos da minha mão, me dando um beijo logo em seguida.
-Sua cara está horrível. Aconteceu alguma coisa?
Demorei alguns segundos para assimilar suas palavras. Eu devo ter visto coisas, era a única explicação para aquilo, pois caso contrario Annabeth não estaria agido de forma tão natural.
Acho que no fim das contas não estava tão avançado com meus poderes. Afastei todas as cenas da minha cabeça e a encarei com um sorriso no rosto.
-Você está certa, acho que preciso dormir um pouco.
Ela sorriu preocupada, mas não me forçou a dizer nada e fiquei muito grato por isso.
Porem por mais que eu quisesse a cena não saia de minha cabeça, os sonhos que andava tendo também não facilitavam.
Poderia ter sido apenas uma ilusão manipulada pala minha mente, mas mesmo assim eu não podia esquecer que, de uma forma ou de outra, Luke Castellan estava envolvido.
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