Percy Jackson - O guerreiro da escuridão
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Pov. Percy
Quando Ártemis nos teletransportou, aparecemos no meio da floresta, um pouco antes do início do acampamento das caçadoras, e dava para perceber que elas estavam lá por causa dos sons vindos de lá. Antes de se encaminhar para lá, Ártemis se vira e fala para mim:
— Não sei quem você é nem o que Hades pretende, mas... — Se me permite, Lady Ártemis — digo, interrompendo-a e me curvando, esperando não ser fulminado — sei muito bem que as caçadoras, nem a senhora, precisam de proteção, e nem sei o que meu pai Hades quer com isso, mas irei fazer o meu trabalho. Farei assim que me permitir ver o perímetro em até cem metros, e não se preocupe, ficarei a cinquenta metros das caçadoras e de seus acampamentos, pois sei que a senhora não permite homens na caçada, e nem quero forçá-la a isso, então ficarei longe, mas perto o suficiente para vir distrair uma ameaça para que vocês possam acabar com ela, mesmo que isso não seja necessário. — Bem — ela falou, surpresa — pode fazer isso, mas, quando terminar, envie-me uma mensagem para que eu possa te chamar e te apresentar às caçadoras, e nem precisa ficar tremendo assim, e nem pense em pedir para não te apresentar, pois farei isso, sim. E bem, não quero saber o que vai fazer, vire-se e me envie a mensagem.
Dito isso, ela sumiu para ir ao acampamento. Virei-me ao contrário, subi numa árvore e fui fazer a ronda. Vi vários animais que, tenho certeza, seguem a caçada; vi alguns monstros, mas todos evitavam a caçada, com medo evidente em seus olhos. Bem, esses eu não devia me preocupar, mas ficaria de olho, para ver se nenhum deles resolvia ficar corajoso de uma hora para outra. Depois de verificar tudo e ter certeza de que a área era segura para as caçadoras fazerem o que quisessem, olhei um lugar para que eu pudesse ficar, seguro, longe das caçadoras, mas perto o suficiente para poder ir ao seu socorro se algo acontecesse. Bem, agora só faltava falar com Ártemis para que ela pudesse me apresentar à caçada, mas só de pensar já ficava com receio. Thalia é a tenente da caçada e, bem, minha prima querida, mas, mesmo depois de sair do Tártaro, eu não falei nada com ela, não avisei que tinha saído de lá. Estava com receio de ir até lá e me apresentar, e ela descobrir que era eu, mas não podia fazer nada em relação a isso, fiz o que fiz e tenho que aguentar as consequências. Bem, agora só faltava ver como enviaria a mensagem para Ártemis. Enquanto pensava, uma coruja-das-torres pousou perto de mim e veio pedir carinho. Estava fazendo cafuné nela quando tive uma ideia, virei-me para ela e disse:
— Oi, corujinha, poderia me ajudar? — ela pareceu bem animada com isso. — Você poderia levar uma mensagem minha para a deusa da lua?
Ela se mexeu animada, e, antes de qualquer outra coisa, mostrou-me a pata, onde estava presa uma mensagem. Peguei-a, e, ao ver o que continha, fiquei surpreso, além de feliz, pois, na carta, dizia:
Olha quem resolveu voltar para casa, rsrsrsrs, como vai, cabeça de alga morta? Bem, esta é Edwirgens, uma coruja-das-torres que eu queria ter te dado no dia em que você foi condenado ao Tártaro. Bem, eu sei que você voltou, assim como Hera, Hestia e Hades, e sabemos que não podemos manter contato, mas não podia deixar de dizer que senti saudades. Sim, eu, a deusa da sabedoria, que é só razão, fiquei com saudades de você, que é um irmão para mim. E bem, estou te mandando a Edwirgens para que você tenha como conversar com os amigos sempre que precisar, e até mesmo comigo. E não se preocupe se alguém quiser se intrometer nas mensagens que recebo de você: direi que corujas são os meus símbolos, e que posso muito bem recebê-las quantas vezes eu quiser. Então não se preocupe com isso. Espero que ainda esteja inteiro. Da sua querida irmã, Atena.
Athena, minha querida irmã, eu te amo, sério mesmo, você sempre me protegendo. Bem, mas agora é melhor guardar essa mensagem e enviar uma para Ártemis. Convoquei um papel e uma caneta e escrevi, dizendo que o perímetro estava seguro, informei sobre os animais e monstros que habitavam a área, e informei que tinha achado um lugar onde poderia ficar, mas não disse onde — querendo ou não, não daria chance para as caçadoras me pegarem com mais facilidade.
Enviei a mensagem por Edwirgens e fiquei esperando uma resposta de Ártemis. Enquanto isso, fiquei olhando a floresta e sentindo o seu cheiro, o cheiro do mundo normal, mas, ao mesmo tempo, do mundo mitológico, um mundo que sou obrigado a dizer que senti falta, tanto que, quando estava sozinho em casa, treinava com Contracorrente para não perder o jeito e ficar enferrujado. Colocava pesos para que ficasse mais difícil, pois, depois que treinei com a espada de Estige pura, Contracorrente ficou muito mais leve, e meus movimentos com ela ficaram mais velozes. Mas era um mundo que me trazia muitas lembranças ruins e dolorosas, mas também trazia lembranças boas e felizes, e bem, realmente senti falta disso, mas não iria admitir isso, principalmente para Caos e Nix. Ao pensar nisso, veio-me à mente que não poderia usar Contracorrente, pois as caçadoras a conheciam, principalmente Ártemis e Thalia. Então eu teria que invocar uma espada de ferro estígio para poder lutar, o que seria realmente um incômodo, porque, se eu não a usasse contendo um pouco o meu poder, ela explodiria, e isso seria bem difícil, pois, como treinava com a Estige pura, eu meio que tinha me acostumado com isso, mas faria o meu melhor.
Ao decidir isso, recebo uma mensagem mental de Ártemis, dizendo que era para eu ir para o acampamento. Desci da árvore, invoquei uma espada de ferro estígio, que se transforma em um anel para que eu possa usá-la sem precisar ficar invocando-a toda hora, e me preparei para aparecer na sombra de Ártemis. Mesmo ela tendo dito que era para eu entrar pela porta da frente do acampamento, não cairia nessa armadilha, e bem, até que seria bom dar uns sustos nas caçadoras. Fui até a sombra de uma árvore e viajei até o acampamento das caçadoras.
Pov. Ártemis
Guardião, como ele prefere ser chamado, saiu para fazer a ronda depois que eu disse que o apresentaria às caçadoras. Senti que ele queria dizer que não, mas fiz questão de dizer que não abriria mão disso, e fiquei feliz com o seu incômodo. Disse-lhe que deveria me mandar uma mensagem, e saí para o acampamento. Chegando lá, Thalia veio para perto de mim e me perguntou:
— My Lady já voltou? Poderia saber qual era o assunto que o tio Hades queria tratar com a senhora? — Reúna as suas irmãs caçadoras, Thalia — respondi a ela — pois o que ele queria se refere a todas elas, e quero falar com todas ao mesmo tempo.
Ela saiu sem perguntar mais nada, mas, pelo seu rosto, dava para ver que estava curiosa para saber o porquê de tudo aquilo, mas resolveu esperar para saber junto com as outras. Demorou um pouco, mas ela reuniu todas as caçadoras, que estavam em diversas atividades, e, quando eu ia falar com elas, uma coruja apareceu e veio voando até mim. Quando chegou, pegou com o bico um bilhete que estava em sua perna e o estendeu para mim. Assim que o peguei, ela voou para uma árvore ali perto e pousou. Resolvi lê-lo, pensando que fosse de Atena, mas, quando o abri, descobri, com surpresa, que era de Guardião. Nele, ele explicava que tinha feito a varredura, falando dos animais e monstros na área, e também dizia que tinha achado um lugar onde poderia ficar, mas não mencionava o lugar, e, bem, eu cobraria isso.
— Minhas caçadoras — disse, virando-me para elas, abaixando a carta — como é do conhecimento de vocês, Hades, o senhor do submundo, pediu que eu comparecesse a uma reunião sobre um assunto de extrema urgência. Bem, esse assunto era que certamente uma nova guerra está para se erguer, pois os monstros, como nós mesmas temos constatado, estão realmente ficando mais fortes, e ele, com a preocupação de haver baixas entre as caçadoras — que ele diz ser um grande trunfo para a guerra, por sermos as mais fortes guerreiras existentes atualmente —, pediu que eu considerasse ter um protetor para a caçada, um semideus filho dele, que ele diz ser o mais forte e capaz para isso. Não que precisemos, como ele mesmo afirmou, mas por prevenção, para que não ocorra nada com nenhuma caçadora. E, bem, a carta que acabo de receber é um relatório desse protetor, informando como está o perímetro de cem metros do acampamento. — Se ele acha que não precisamos de proteção, por que então mandou um porco nojento para nos proteger? — disse Febe, uma das caçadoras mais antigas. — Ei, eu sei que você não gosta de homens — respondeu Thalia, nervosa — mas meu primo Nico é diferente, ele nos respeita e nunca faria mal a nenhuma mulher, e, mesmo achando que não precisamos de proteção, principalmente dele, não precisa xingá-lo assim.
Ao ela dizer isso, percebi algo que eu não tinha percebido antes: Hades disse que o semideus era filho dele, mas ele não tivera filhos semideuses depois do juramento. E, mesmo que ele tivesse quebrado o juramento, esse semideus tinha, no mínimo, a idade de Perseus, e poderia muito bem ser o semideus da primeira profecia — e, mesmo que não fosse, não poderia ter sobrevivido até hoje. Então, só poderia haver uma única explicação: Hades trouxera de volta à vida um antigo filho seu, o que era totalmente proibido, uma regra que ele mesmo tinha imposto quando assumiu o submundo. Então, quando Guardião chegasse, eu o questionaria sobre isso.
— Ele não é o Nico — digo, deixando todas surpresas — e, pela sua idade, não pode ser um garoto que Hades teve, pois, se fosse, já estaria morto, sem contar que seria mais um a concorrer à penúltima grande profecia. Nem poderia estar trancado no cassino Lotus, pois sabe muita coisa, sem contar que parece saber muito bem lutar, pelo seu físico de guerreiro. Acho que ele é um antigo filho de Hades que ele trouxe de volta dos mortos, indo assim contra a sua própria lei, mas, seja quem ele for, irei indagá-lo assim que chegar ao acampamento. E, se quiserem ver se ele tem bons reflexos, podem atirar à vontade nele, garotas — termino, dando um sorriso sinistro que foi compartilhado por toda a caçada, até mesmo por Thalia, que estava curiosa para saber quem era aquele herói.
Ao ouvirem um barulho, todas as caçadoras se viraram imediatamente e atiraram suas flechas contra a entrada do acampamento, esperando ouvir o som delas batendo em algo, ou o som de dor, mas o que ouvimos foi um som diferente, que assustou a todas, já que veio do meu lado: era um suspiro, e alguém dizendo:
— Eu sabia...
Pov. Percy
Teletransportei-me para o lado de Ártemis, usando a sua sombra, e, na hora em que saio, faço um barulho e vejo todas as caçadoras lançando flechas na entrada do acampamento, sorrindo, esperando ter acertado algo — ou melhor, alguém, mais especificamente, eu. Ao ver isso, só pude suspirar e dizer:
— Eu sabia, vocês queriam mesmo me matar, ainda bem que resolvi vir pelas sombras — mas fui obrigado a rir da cara de susto delas, e arrisquei ser morto mais uma vez, dizendo: — Creio que vocês deveriam guardar essas flechas para os monstros, e usá-las quando forem necessárias, e não em brincadeiras bobas e idiotas.
Elas olharam furiosas para mim, mas, antes que qualquer uma fizesse alguma coisa, Ártemis me olhou com uma cara assassina e disse:
— Eu não mandei você chegar pela entrada? E que lugar você arranjou para ficar, que não disse na sua carta? E como conseguiu uma coruja como a de Atena para me mandar a carta? E quem realmente é você, pois tenho certeza de que não é filho de Hades — pois, se fosse, já estaria morto há tempos —, e o único filho de Hades ainda vivo é Nico di Angelo, e você não é ele, nem um pouco.
Suspirei, resignado, pois sabia que isso iria acontecer cedo ou tarde, mas sempre esperei que fosse tarde, e não cedo. Estava no meio de uma encruzilhada, onde nenhum caminho a escolher levaria a nada de bom, então decidi dizer a verdade, ou parte dela.
— Respondendo às suas perguntas, Lady Ártemis, como disse anteriormente, eu já sabia que vocês iriam querer me matar pelas histórias contadas sobre a caçada: um grupo imortal de meninas que odeiam homens e que certamente odiariam ter um guardião homem, mesmo que isso seja extremamente necessário — mas, como lorde Hades disse, pode ser desnecessário, mas ainda assim uma precaução contra uma possível guerra na qual vocês sejam a chave para a vitória. Não se deve dar a mínima chance ao azar de perder uma caçadora, seja por ela ter se apaixonado, seja por terem sido cercadas por monstros que consigam vencer com algumas baixas. Segundo, não informei o local por carta, e nem tenho a intenção de informar, pois não deixarei espaço para que as caçadoras possam me matar ou ferir, e nem tenho intenção de participar de nada que seja contra as caçadoras ou que lhes faça mal, física, psicológica ou moralmente, e isso eu juro pelo Estige, sendo que estarei sempre a cinquenta metros, para poder percorrer o perímetro e mantê-las informadas de como ele está, e, se necessário, vir em auxílio à própria caçada. Bem, a coruja foi um presente que ganhei, pois ela chegou a mim com uma carta informando que seria para levar mensagens tanto para a caçada quanto para outros aliados que viermos a ter, sem que eu deixe o meu posto, e, pelo que entendi na carta, Lady Atena acha a decisão de lorde Hades realmente apressada e presunçosa, por não a ter apresentado no conselho olímpico, mas concorda com ele, pois há razão no que ele fez, já que a melhor força de ataque dos olimpianos, aceitando ou não, são as caçadoras. E, bem, sim, eu sou filho de Hades, mas não nascido dele, e sim adotado. Sou, na verdade, um humano que enxerga através da névoa, e sempre soube do mundo dos deuses, e sempre tentei ficar longe dele para não sofrer nenhum dano por ver demais. Mas, há quatro anos, duas deusas menores foram para a minha escola, e, antes que me pergunte, não sei quem eram nem o motivo de estarem ali, mas elas viviam se digladiando. E, bem, eu sabia que eram deusas por causa de suas auras de poder, que eu conseguia ver, e bem, eu ficava no meio delas, e sabia tanto sobre mitologia, por ver através da névoa e também por estudos, que elas chegaram a achar que eu era um semideus. E, um dia, em que elas estavam prestes a se enfrentar com os seus poderes na frente de toda a escola, sem se importar em mostrar quem eram, houve um grande terremoto... — Um terremoto que parecia ser de Poseidon? — perguntou Ártemis, interrompendo-me. — Achamos que poderia ser ele, mas ele estava numa reunião do conselho olímpico, e assim soubemos que não era ele. O bastardo arrogante do seu filho Mark pode até enganar alguns dos outros deuses, mas eu sei muito bem que ele não tem poder suficiente para fazer isso, sem contar que estava no acampamento, contando mais algumas de suas histórias ridículas e mentirosas. E o único, além deles, que poderia fazer isso, não está mais entre nós, e isso não é da sua conta — ela disse, me olhando com raiva, e também percebi que Thalia ficou triste na última parte, quando ela falou de mim, o que apertou o meu coração, pois ela ainda sentia a minha falta, e devo confessar que também sinto a dela. — Bem — continuo, de onde parei, sem comentar a última fala de Ártemis — achei, na época, que era Poseidon, e, pelo jeito, as deusas também acharam, e pararam a luta na hora. Mas, com aquele terremoto, o prédio principal foi destruído, e fomos transferidos para outra escola, que, convenientemente, já estava construída para o caso de algo assim acontecer. E, bem, essas deusas saíram, lorde Hades investigou tudo por debaixo dos panos e chegou até mim, que estava, pelo que ele disse, cheirando a semideus por ter ficado tanto tempo perto de duas deusas. E, bem, quando ele chegou, eu estava sendo atacado por monstros que pensavam que eu era semideus, pelo mesmo motivo que lorde Hades me contou, e até que me saí bem contra eles, já que eram fracos, e, como conhecia a mitologia e sabia que não cairiam do mesmo jeito que caíam antigamente, consegui enganá-los e escapei, pois não estava conseguindo matá-los. E, no final, lorde Hades se apresentou e me ofereceu ajuda, e, em troca, eu faria alguns serviços para ele, às escondidas dos outros deuses, e, assim, ele me tornou seu filho por meio de uma canção que, segundo ele diz, só os primeiros cinco deuses conhecem. Daí em diante, fiz algumas missões para ele e treinei para me tornar o melhor em todos os tipos de armamento, e me tornar o guerreiro mais perfeito, não por causa do meu ego, mas sim para proteger a minha família e as pessoas que estão sob a minha guarda, já que perdi minha família e grande parte dos meus amigos, e não quero que isso aconteça de novo. Um dia, ele me disse que eu teria que realizar a maior, mais importante e mais mortal missão: proteger a caçada, a todo custo, não importando o preço a ser pago, seja a minha morte ou um castigo pior. E é isso que irei fazer. — Então você é um humano? — perguntou Diana, que parecia ser uma das menos chocadas, mas, mesmo assim, chocada. — Além de homem, é um humano? — Sim — respondo — sou humano e um homem, mas não se preocupem, não irei atrapalhar vocês de modo algum. Como já disse, vocês nem perceberão que estou aqui, e só irei aparecer se for chamado, ou se houver algo muito importante para reportar e que não possa enviar por Edwirgens, ou que ocorra alguma emergência. Agora, se me dão licença, já fiquei bastante tempo sem fazer a ronda.
Dizendo isso, curvo-me para Ártemis e para as caçadoras, e me viro para sumir numa sombra, até que ouço a deusa da caça gritar:
— Pare aí mesmo — ela ordenou. — Como assim, perdeu família e amigos? E qual é o seu verdadeiro nome? — Sobre essa parte do meu passado, me reservo o direito de não falar — respondo, sem olhar para trás, para ter certeza de que não poderiam ver a angústia em meu rosto, ou a lágrima que teimosamente resolvia cair, com as lembranças dos meus amigos mortos e da minha família. E continuo falando, forçando minha voz a sair normal, e não embargada: — O caminho de algumas pessoas é solitário, e há sempre obstáculos a serem vencidos, caminhos de profunda tortura e perigos mortais, coisas com as quais, certamente, vocês, imortais, não precisam se preocupar, mesmo sendo vocês caçadoras que resolveram viver algumas dessas coisas em troca de não viver outras. Não há ninguém para lhes estender a mão, até mesmo porque não há mais nenhum dos seus sobre a terra, são todos pó debaixo da sandália de algum deus. — Ao dizer isso, ouço um relâmpago ao longe, o que significava que algum deus tinha ouvido, e não tinha aprovado, deixando as caçadoras e a própria Ártemis espantadas por eu ter dito aquilo, e com medo de que algo acontecesse. — E não tenho medo de quem quer que seja, pois não há nada pior do que o que já aconteceu comigo. E, se quiserem me conhecer, creio que o máximo seja o nome que adotei, Guardião, pois é somente isso que existe em mim agora. Meu antigo ser se perdeu para sempre, e, mesmo que cheguem a saber, não fará diferença, pois não fui ninguém especial, e, bem, isso pode até fazer com que percamos a guerra, já que seria algo irrelevante que, se receber atenção, pode tirar o foco de algo bem mais importante, mudando assim o rumo de algo importante por nada. — Se eu fosse você, não diria isso — disse Ártemis — pois você não conhece o que alguns deuses podem fazer, ou para onde podem te mandar. — Isso é o que você pensa — respondo, virando-me para ela, mas, ao perceber que uma lágrima estava caindo, viro-me novamente, escondendo o rosto, e termino dizendo: — Eu sou um filho adotivo de Hades, e já passei por lugares que até mesmo você iria temer.
Saí e fui em direção à floresta, voltando assim a fazer a patrulha, deixando para trás a deusa da caça e suas caçadoras pasmas. Distanciei-me cem metros do acampamento e fiquei circulando, concentrando-me na ronda, para assim conseguir controlar melhor as lágrimas e fazer as lembranças voltarem a se enterrar no fundo da minha mente.
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