Percy Jackson Filmes
43 Uma Outra Divindade Dá As Caras
Ponto de Vista de Percy
A noite pareceu cair tão rápido quanto Talo depois de ser eletrocutado. Nenhum de nós estava com ânimo para se mexer, mas foi o que fizemos, depois de horas enquanto tentávamos nos convencer de que Bianca realmente se fora...
Zoë não deixou que eu me aproximasse dela quando me ofereci para ajudá-la a andar, já que sua perna estava ferida. Eu só não sabia se o motivo era por eu ser homem ou se ela me culpava por Bianca da mesma forma que eu me culpava. Thalia a ajudou. Grover e eu procuramos por combustível, alertas para um segundo gigante. Encontramos 3 galões de gasolina dentro de um caminhão de entrega antigo. Certamente poderíamos rodar por mais alguns quilômetros.
Pegamos nossas mochilas, e retornamos até a saída do Ferro Velho.
— Precisa de ajuda? – Grover perguntou à Zoë, que se mantinha em pé por um braço ao redor de Thalia.
A Caçadora grunhiu um “não”.
A estrada era um breu, apenas o brilho das estrelas nos permitia ver o que havia à frente. Estava suficientemente frio para que voltássemos a nos agasalhar.
Chegamos até o carro e a van em 25 minutos. Grover e eu abastecemos o tanque. Dei a partida, e então estávamos todos de volta a rota original.
Ω
— Esses postos de gasolina são um insulto! – Zoë resmungou – não faz nem 50 minutos de estrada e já encontramos dois!
Depois disso ela exclamou um sonoro “Ai”, quando esbarrou a perna avariada contra o banco da frente.
Eu não poderia discutir. Sacrificamos demais por 3 galões de gasolina. Eu não conhecia Bianca muito bem, mas já estava sofrendo com os efeitos da ausência dela. Não estava disposto a perder mais ninguém.
Rodamos por mais 4 horas, seguindo a Rota 40. São Francisco não parecia estar tão longe agora, pelo menos era o que o mapa indicava.
— Que ótimo... – Thalia murmurou, enquanto analisava um GPS portátil. Era pouco mais de meia noite.
Grover e Zoë tentaram encontrar a melhor forma possível para dormir no banco de trás.
— O que foi?
Thalia suspirou, olhando para a estrada antes de responder.
— Vamos ter que seguir pela 93 quando alcançarmos Kingdom. A Rota 40 ficará fechada por horas.
— Estamos falando de quanto tempo perdido? – perguntei. Um desvio por uma rota longínqua estava fora de questão.
Thalia largou o GPS no painel do carro.
— 20 minutos, no máximo. Mas, como você se sente sobre Las Vegas?
— Hum...
Um turbilhão de memórias preencheu minha mente, e eu quase podia sentir o gosto indescritível das Flores de Lótus no meu paladar. Dança, música, jogos, diversão, cassinos, despreocupações... ficar preso no tempo... Annabeth...
— ...Como podemos contornar essa tragédia... quero dizer, essa cidade?
Thalia quase riu. Aparentemente, Annabeth havia contado tudo à ela sobre nossa primeira missão, e as pequenas confusões no caminho.
— Relaxe. Não vamos chegar ao interior de Vegas, temos que seguir pela rodovia principal.
— Certo...
Chegamos até a cidade de Kingman, deixando a Rota 40 para seguir pela 93.
— Como você está? – Thalia questionou.
Olhei para ela. Seu olhar estava baixo como se procurasse por algo no carpete do carro.
— Fazendo o possível para não desabar – confessei. Perdemos Bianca, ainda não havíamos encontrado Annabeth e eu já me perguntava o que fiz ou estava fazendo de tão errado para tudo isso acontecer em volta de mim.
— Você não vai desabar. Tem que encontrar sua namorada – Thalia firmou, encostando a cabeça na janela, pronta para um cochilo.
Continuei dirigindo em silêncio. O tráfico de carros era médio, mas não servia para desviar a minha atenção dos meus problemas.
Ω
A região que atravessávamos estava ficando cada vez mais montanhosa, para qualquer lugar que olhássemos. Grover acordou quase 1 hora depois da minha conversa com Thalia.
— Aí, cara. Vamos trocar, você não dormiu ainda – ele parecia sonolento demais para se confiar à um volante, mas eu estava relativamente pior. Algumas horas de sono não me fariam mal.
— Tudo bem – encostei o carro na beira da estrada escura. Alguns caminhões passavam em ambos os sentidos da via. Tive a oportunidade de bocejar pela primeira vez naquele dia.
Grover desceu do carro ao mesmo tempo que eu. Estávamos prestes a trocar de lugar quando ele parou de súbito, bem à minha frente. Usando seu faro hiper apurado, Grover farejou o ar a procura de algo. Isso liberou uma certa adrenalina no meu sangue. Um sátiro alerta nunca é um bom sinal.
— Que foi, cara?
Ele olhou para todos os lados até dizer alguma coisa.
— Não sei. Só... esse cheiro é novo. Não é de um humano, e nem de um deus. E se for de um monstro, não é um dos mais comuns. Deixa pra lá, vamos...
Tump!
Um disparo. Lá se foi um pneu. Tump! Tump! O som da câmara de ar dos pneus da frente murchando preencheram a noite.
— Que porcaria é essa!? – Grover e eu nos colocamos de costas um para o outro. Dei um murro na lataria do carro, forte o suficiente para acordar Thalia e Zoë. As duas se ajeitaram bruscamente dentro do carro, olhando em volta. Quando o vidro traseiro espatifou, Thalia saltou do banco do passageiro dando um chute na porta e se jogando para trás do carro, e dessa vez eu pude identificar a origem dos tiros. Eles vinham da parte mais alta da montanha, como se houvesse um atirador não tão de elite assim, porque ou a mira dele era péssima ou não nos queria mortos.
Zoë abriu a porta de trás com os ombros, como se estivesse arrombando-a por dentro, e mesmo com a perna machucada, ela se jogou ao lado de Thalia. Mais vidros espatifaram, e eu sabia: meu carro... ou melhor, o carro da minha mãe, viraria peneira em pouco tempo.
— Corram! Vão! – gritei para meus amigos. Grover só teve tempo de puxar uma das muletas pela janela do carro, e com o apoio de uma mão, ele passou por cima do teto do veículo com apenas um salto. Thalia se levantou, puxando Zoë por um braço, enquanto eu puxava o outro, e dessa vez, a tenente das Caçadoras não protestou. Nada melhor que uma saraivada de balas para fortalecer dois aliados.
Não havia exatamente um lugar para correr, de um lado da estrada havia montanhas rochosas, e do outro... também.
— Vamos subir! Por aqui! – Grover guiou, subimos por uma trilha entre as pedras e continuamos a correr – estão nos seguindo!
— Como você...
— Estou farejando eles! – Grover respondeu minha pergunta antes de saltar por cima de aglomerados de rochas. Tive que subir primeiro para ajudar Thalia a subir Zoë. Mais barulhos de tiros, um deles acertou o chão há quatro metros de Thalia. Isso só nos motivou a correr mais.
Continuamos subindo a trilha, que agora se tornava íngreme demais.
— Deem a volta nas rochas! – Thalia ordenou. Ela olhou para mim enquanto corria. Estava ofegante e soando litros – vou atrasá-los...
— Nem pense...
— ... e preciso de uma mãozinha.
Imaginei Thalia realizando outro sacrifício em prol dos amigos e se transformando em uma rocha agora, ao invés de um pinheiro. Mas, é claro, com a adição da minha “mãozinha”.
— Ficou doida!? Estão usando armas de fogo lá trás!
Thalia nos forçou a ir para trás de uma pedra avermelhada enorme. E puxou de chofre o arco e a aljava de flechas das costas de Zoë. Depois, ela arrancou da única mochila que conseguira tirar de dentro do carro um objeto dourado que reluzia naquela madrugada de clima temperado. Era uma espécie de escudo portátil... que analisando melhor, eu reconhecia muito bem, pois era o escudo que Luke escondera o Raio de Zeus e me dera quando fugi do Acampamento para salvar minha mãe. O que ela fazia com aquilo?
— Grover, continue à frente com Zoë – Thalia jogou o escudo para mim – Percy, acho que você sabe como usar isso, não? Então, me dê cobertura – ela voltou a olhar para Grover e Zoë – vão, agora!
Zoë estava com uma expressão de: “eu não preciso da sua ajuda”. Devia ser difícil, sempre bater de frente com tudo e todos sem ter medo, e agora ter que correr da briga. Grover ofereceu o ombro para a Caçadora se apoiar, e juntos, eles continuaram pela trilha, fazendo esforço para subir mais e mais.
Contra a minha própria vontade, afastei o escudo para abri-lo em espiral, e me coloquei perto de Thalia enquanto ela mirava, rígida para a nossa frente, um arco e flecha contra um possível rifle.
Ω
Descobrimos tarde demais que eram 5 atiradores, e não 1. E Grover estava certo em deduzir que havia farejado um monstro incomum. Monstros, no plural. Thalia atirou o primeiro projétil prateado bem na testa da primeira criatura a aparecer entre as rochas. A flecha se cravou, e a criatura arrancou-a no mesmo segundo, como se nada tivesse acontecido, e continuou avançando em nossa direção. Os outros quatro companheiros dela apareceram logo em seguida. Todos usavam enormes e escuros casacos, em que a barra chegava até a canela, toucas negras revestiam as cabeças, e seus rostos aparentemente estavam descobertos. Na escuridão da madrugada, eu só conseguia ver faces magras e ossudas... e quando eles se aproximaram mais, percebi que não havia nada de magro ali. Eram apenas ossudas mesmo. Um crânio esquelético.
— O que...
Thalia disparou mais duas flechas na direção dos esqueletos atiradores. As flechas se encravaram, mas nada aconteceu. Eles continuaram avançando.
Um deles levantou um rifle antigo, parecido com os que eram usados na Primeira Guerra Mundial, e mirou na direção de Thalia. Na melhor atuação do meu reflexo, agarrei a filha de Zeus pelo braço e puxei-a para trás da enorme rocha avermelhada. O tiro se espatifou na pedra em um estouro, com o som de vários grãos de areia se espalhando ao vento.
— Temos que sair daqui! – segurei Thalia para ajudá-la a se levantar, mas a expressão irada e determinada em seu rosto me dizia que ela não queria correr – Thalia...
— Vou atrasá-los... – ela murmurou novamente.
Puxei-a pelo ombro com toda força, tirando a escolha dela de permanecer ali.
— Eu posso não ter visto esse filme pessoalmente antes, mas sei como ele termina – falei à ela – vamos!
Ela pareceu desistir da ideia de ficar para trás. E com isso, arrancamos em uma carreira para o topo da montanha. O terreno íngreme parecia estar acabando, e já se tornava plano quanto mais corríamos, sem saber onde estávamos ou para que direção íamos.
Por um momento, eu achei que estava imaginando sons de água correndo por perto, mas eu senti que havia algo aqui, um riacho, uma cachoeira ou um rio, para o lado norte. Com meus poderes desenvolvidos, tínhamos uma chance de lutar com os esqueletos indestrutíveis.
— Thalia, por aqui!
Corremos para a direção norte e... se Thalia não tivesse me parado, eu teria rolado morro abaixo em um desfiladeiro de pedras que terminava na beira de um rio. Me equilibrei de volta para a parte plana da montanha. Os esqueletos estavam pouco mais de 100 metros atrás de nós.
Me virei para Thalia.
— Podemos atravessar o rio, eu posso...
— Mas e os outros!? Não sabemos para que lado Zoë e Grover foram!
Droga.
Eu estava a ponto de surgir com alguma ideia quando Thalia me empurrou para baixo, salvando minha vida, enquanto um projétil de chumbo pegou de raspão no meu ombro. Os esqueletos atiraram na minha direção.
Eles se reuniram em volta de nós, dois em cada lado e um em nossa frente bloqueando qualquer trajeto escapatório.
Recuamos até a polpa do desfiladeiro, de costas para o rio.
— Aquela ideia de atravessar o rio me parece ótima agora – Thalia murmurou entre dentes.
Se eles iam nos matar, não poderiam aguardar tanto tempo, pois eu já estava colocando meus poderes de filho de Poseidon para trabalhar. Sutilmente, é claro, para não levar um tiro antes. Eu conseguia sentir cada litro de água subindo o desfiladeiro, ao meu comando, mas receei não ter a chance de usá-los quando o esqueleto da frente apontou o rifle na minha direção. Morreríamos ali mesmo. Rezei pelo auxílio dos deuses, mesmo sabendo que era em vão.
Digamos que aquela foi a minha primeira prece respondida em todo esse tempo que descobri ser um semideus. Quais eram as chances de acontecer de novo?
É sério. Os deuses não apareceram para nos salvar, mas alguma coisa divina aconteceu. Em um turbilhão de fogo, os esqueletos foram arremessados há metros de distância. O jorro de fogo irrompeu do céu, onde duas figuras indistintas desciam se aproximando, iluminadas pelas estrelas. Quando chegaram mais perto, escutei o som de grandes asas batendo e relinchos estridentes.
— Pégasos! – Thalia exclamou.
Os dois corcéis alados pousaram um pouco adiante de onde estávamos, eram belos seres brancos com crinas longas e de aparência sedosa. Eles relaxaram suas asas, enquanto batiam de leve as patas na superfície rochosa que era o solo, como se esperassem por algo.
Ao mesmo tempo, um objeto se mexia em meio a escuridão. Demorei segundos para perceber que era um crânio chamuscado rolando pelo terreno, indo de encontro à um braço.
Thalia arfou ao meu lado.
— Estão se reconstituindo!
Um dos pégasos relinchou alto, virando o pescoço em nossa direção, para depois fazer um movimento de cabeça, como se nos chamasse.
— É uma boa hora para sumir daqui... – murmurei – Thalia! Suba em um deles!
Corri para um dos pégasos, ciente de que talvez tivesse uma chance de ele me considerar hostil e atacar. Mas não aconteceu.
Thalia só conseguiu se mexer depois que viu que saltei com sucesso por cima do lombo do pégaso. Ela, relutante até demais, correu para o outro corcel, montando-o com pouca perícia.
Aqueles seres fantásticos começaram a correr pela montanha, galgando pelas rochas com alta velocidade, ao passo em que segurávamos firme em suas crinas. Então eles decolaram, como um avião perto do fim da pista do aeroporto. Em meio à qualquer caos, aquilo nunca poderia deixar de ser uma experiência maravilhosa.
Thalia emitiu um grito abafado no processo. Sobrevoamos pelo traçado do rio, alcançado altitudes consideráveis. E logo à frente, comecei a me preocupar com a minha própria sanidade, ou na veracidade de minha visão. Cortando o rio ao meio, entre as duas montanhas, estava o que parecia ser uma enorme fortaleza de concreto ou a ponte mais estranha já construída. Além de exageradamente iluminada.
— É a Barragem de Hoover! – Thalia declamou, voando há quase 7 metros de distância para que os nossos pégasos não acertassem as asas um no outro.
Eu tinha um conhecimento remoto sobre a represa Hoover, mas geograficamente eu era péssimo.
Agora era fácil compreender porque aquele lugar era um dos pontos turísticos mais visitados do país. O lugar era impressionante e a construção continha detalhes únicos. E, é claro, também... tinha uma ponte por ali.
Mas o que me deixou mais alarmado, era o fato de ambos os pégasos, o meu e de Thalia, estarem descendo em direção à barragem de Hoover. Olhei para Thalia.
— O que acha?
Era possível ver um certo tom pálido preencher o rosto dela, apesar da noite. E sua expressão estava morbidamente séria. As palavras saíram complicadas de sua boca.
— Não... não temos muita opção...
Eu queria perguntar qual era o problema dela, mas desviei minha atenção quando os pégasos aterrissaram bem acima do concreto da barragem. Olhei em volta antes de desmontar o paciente corcel, não tinha ninguém, nenhum guarda. Nenhuma alma naquele lugar além de nós. Fazia sentido não haver turistas, pois o local estava fora do horário de visitas, mas tinha que existir algum modo de segurança ali. Saltei do Pégaso, e me virei para Thalia, que já desmontara bem antes.
— Deveríamos nos preocupar, não?
Thalia não parava de olhar para os lados.
— Com toda certeza. Eles devem ter um radar aéreo ou câmeras de segurança em cada canto. Como não viram dois pégasos montados por duas pessoas? Cadê o alarme? Onde estão os policias, ou os funcionários?
Isso apenas somou aos nossos problemas maiores.
— Temos que encontrar Grover e Zoë.
Thalia chegou ao meu lado, segurando uma adaga tão firme que seus dedos estavam brancos.
— Antes, precisamos saber porque viemos para cá – ela lançou um olhar desconfiado para os pégasos, que farejavam inocentemente o concreto.
— Vamos ver se encontramos algo.
Ω
— Percy! Thalia! – estávamos andando pela barragem, quando a porta de vidro de um edifício se escancarou e Grover surgiu de dentro, parecendo muito aliviado em nos ver. Zoë apareceu atrás dele segundos depois, apoiada na muleta de Grover, e estava bem despreocupada.
Ao meu lado, Thalia soltou um leve suspiro de alivio.
— Como chegaram aqui? – perguntei ao sátiro.
Grover olhou para onde ficava um estacionamento de carros, e apontou para duas figuras aladas. Mais dois pégasos.
Thalia indicou rudemente os cavalos com um dedo.
— Espera... o que está acontecendo aqui? Vocês também...
— Estão prontos? – uma voz de garota perguntou. E definitivamente não era Zoë.
Procurei em todas as direções a origem da voz, percebendo só agora que havia uma garota desconhecida parada um pouco atrás de Zoë. Ela era bonita com seus cabelos ruivos ondulados descendo por um dos ombros e olhos verdes claros, vestia um grande casaco cor pastel e calças jeans rasgadas. A Caçadora e Grover não pareciam surpresos com a nova companhia.
Franzi a testa.
— Quem é você? – minha pergunta soou meio grossa.
Grover se adiantou.
— Pessoal, essa é Rachel. Ela meio que trabalha aqui, e...
— ...e estou esperando vocês entrarem. Ela disse que não tinha muito tempo – Rachel não parecia realmente com pressa, mas estava apreensiva. E sutilmente, lançava olhares ao pégasos a cada 10 segundos.
— Ela quem? – Thalia questionou.
Rachel olhou para ela.
— Nossa coordenadora sênior de engenharia. Ela me pediu para levá-los até a sala dela.
Thalia e eu nos entreolhamos. Nem conhecíamos essa garota. Mas Zoë deu dois passos à frente, mancando.
— Talvez seja uma boa ideia, sabem, seja lá quem for essa mulher, ela nos salvou.
Eu estava relutante quanto a isso, mas concordei.
— Então... me acompanhem – Rachel pediu. Ela parecia mais nervosa do que nós.
A garota nos guiou para dentro do edifício. Subimos uma escada que dava para uma espécie de museu. As luzes estavam acesas, mas parecíamos ser os únicos por ali.
— Onde estão os outros funcionários? E o que faz a essa hora da madrugada aqui? – perguntei à Rachel enquanto caminhávamos.
— Bem, minha chefe, a pessoa que vocês vão encontrar, dispensou os outros funcionários. Eu estava prestes a ir embora, mas ela pediu que eu aguardasse – ela suspirou – justo eu, a estagiária.
— Mas você viu os... os pégasos lá fora. Aquilo não... – deixei a pergunta em aberto.
— Ah, é. Isso é uma longa história. Mas eu sei— ela olhou significativa para mim, e entendi o que ela queria dizer com“eu sei”.
Chegamos em frente de uma porta de madeira escura, onde se lia: “Coordenadora Sênior”. Rachel deu dois toques na porta e se afastou.
— Podem entrar – ela disse para nós.
Zoë tomou a frente do grupo e girou a maçaneta.
Ω
A sala era de tamanho médio, com espaço para duas estantes lotadas de livros. Uma mulher estava sentada em uma poltrona, analisando algo sobre a mesa de escritório. Quando ela levantou o olhar, uma sensação de reconhecimento me atingiu. Ela tinha um porte elegante, possuía abundantes cabelos negros cacheados e conhecidos olhos azuis por baixo dos óculos quadrados.
Ela sorriu um pouco quando Grover fechou a porta depois que nós quatro já estávamos lá dentro, levantou da poltrona e retirou calmamente os óculos. Não me restou dúvida sobre quem era aquela mulher. Até porque ela me lembrava tanto a minha namorada.
— Foram gentis com os pégasos? – a deusa perguntou em tom sereno e acolhedor.
— Ah... sim – Thalia gaguejou – quem é você?
A deusa caminhou para perto de nós.
— Sou Atena, a deusa da Sabedoria – ela respondeu simplesmente.
Atena possuía uma aura tão pacifica e equilibrada que era quase inacreditável que ela também fosse a deusa da Guerra. Mas eu me senti intimidado. Talvez porque fosse... hã, eu.
Grover murmurou quase inaudível as palavras “mãe” e “Annabeth”. Thalia estava processando a informação e Zoë fez uma reverência.
Eu não tinha muito o que dizer. Estava grato pela ajuda, mas me perguntava internamente: De todos os deuses, por quê justo Atena me ajudaria?
E ela, naturalmente, leu meus pensamentos.
— Como deusa padroeira dos heróis, está sobre meu encargo auxiliá-los em sua missão. Independentemente, é claro, de quais sejam suas origens – ela pronunciou essa última palavra olhando de relance na minha direção. Eu traduzi aquilo como “Independentemente de você ser filho de Poseidon”.
— Então... está nos ajudando porque é a deusa dos heróis e não por outro motivo? — “e não por Annabeth?” era o que eu queria dizer.
Atena sorriu, mas sem nenhuma graça no gesto. Seu olhar se tornou vago e por um segundo, pude registrar que ela, de algum modo bem sutil, estava aflita. Como uma mãe ficaria se sua filha estivesse em perigo? O quão perto da humanidade os deuses estavam?
A deusa suspirou.
— Não gosto nem um pouco do fato de minha filha estar desaparecida – ela olhou para mim – compartilhamos isso, ao menos.
Assenti.
— Presumo que você não possa simplesmente trazê-la de volta, não é? – perguntei.
Atena piscou lentamente.
— Não. Além de não poder interferir diretamente no mundo mortal, não posso ir atrás dela. Conhecem a lei, sem contato físico com nossos filhos mortais.
— Mas você é uma deusa. Como uma simples lei pode impedi-la? – Thalia questionou.
Atena olhou para ela.
— Simples? Acho que não. É fundamental que a lei olimpiana seja seguida à risca, principalmente se tal lei estiver vinculada à um juramento solene, como aqueles realizados em nome do rio Estige.
— Então... – Grover começou, procurando por um modo de perguntar o que todos queriam saber.
— Sim, há consequências se a lei de restrição for burlada.
Eu já ouvi sobre a quebra dos juramentos feitos sobre o Estige antes, e que certas maldições conseguiam ser piores do que a morte.
— Até os deuses tem medo de quebrar suas promessas? Vocês são imortais – lembrei.
— Nós somos— a deusa reforçou – mas nossos filhos não.
— Se um deus ou deusa fraudar a lei de restrição, são os semideuses que correm risco de sofrer as consequências – Thalia absorveu.
— Exato – Atena assentiu.
— Mas estamos aqui, dois de nós são semideuses, e você está nos ajudando – apontei.
— Não são meus filhos – a deusa esclareceu, indiferente.
É, fazia sentido.
— Portanto, auxilia-los é a única coisa que está ao meu alcance. Os Esqueletos do Mundo Inferior estão se regenerando e não vão demorar muito à persegui-los novamente, obviamente não podem se aproximar de vocês enquanto estiverem na minha presença, mas terão que seguir caminho. Ofereço meus pégasos como transporte.
— Senhora, quem enviou aqueles monstros? – Zoë perguntou.
Atena esperou antes de responder.
— Você tem esse conhecimento.
Zoë não voltou a se pronunciar. Olhamos para ela, e sua expressão estava abatida como se acabasse de receber uma má notícia. Eu queria perguntar à ela sobre o que Atena havia dito.
— O tempo de vocês está se esgotando – A deusa destacou – tenho que retornar ao Olimpo. Zeus não gostaria de saber que estou influenciando desse jeito a missão de vocês.
— Nós somos gratos, Lady Atena – Zoë fez outra reverência, na qual eu, Grover e Thalia a imitamos.
Eu ainda me sentia estranho perto da deusa. Ao lado de Atena, Annabeth parecia ser a pessoa mais descontraída do mundo. Acho que não importa de qual deus ou deusa você seja filho, ou o quão parecido você possa ser com eles fisicamente, sua essência humana predominará em sua forma de agir.
Thalia abriu a porta do escritório, e meus amigos começaram a sair em fila quando uma dúvida passou pela minha cabeça. Me virei para Atena.
— Hã, senhora? Aquela garota lá fora... a ruiva... ela...? – deixei a pergunta no ar.
— Rachel Dare? Não se preocupe. É uma mortal inteligente e dedicada. E como pode ver, ela tem a mente aberta. Agora, vá rapaz – o olhar da deusa se tornou muito sério – vamos nos ver em breve.
Deixei qualquer pergunta que tenha se formado em minha mente de lado. O tempo era meu adversário em todos os sentidos.
Lancei um aceno respeitoso de cabeça para a deusa da Sabedoria, e saí do escritório.
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