Percy Jackson Filmes
46 Tudo é mais intenso no Olimpo
Notas iniciais
Ponto de Vista de Annabeth
Artémis aterrissou a carruagem com cautela no terraço do Empire State. Com a noite, aquilo me trazia lembranças pouco agradáveis, mas duvidava que Luke apareceria por ali com seus tênis alados.
Percy parecia estar pensando o mesmo, já que olhava ao redor com ar de recordação.
Thalia e Grover saltaram da carruagem logo atrás de nós dois.
Artémis olhava para o céu com a testa franzida antes de descer. Seguimos ela enquanto se direcionava para uma porta que abria para um cômodo onde o zelador do prédio mantinha os produtos de limpeza e esfregões. Lá dentro, a deusa fez um gesto com a mão e alguns disjuntores de um painel preso à parede desceram. Um magnifico e secreto elevador de mármore branco com o símbolo da vigésima quarta letra do alfabeto grego – o Ômega, Ω – entalhada em dourado apareceu brilhando como se fosse eternamente polido.
— Entrem e segurem-se firme nas laterais – Artémis ordenou, já entrando no elevador.
— Nem precisava avisar – murmurei baixo, mas observei Grover e Thalia se entreolharem inseguros – Pensando bem...
Agarrei com uma mão o suporte lateral para me equilibrar, e com a outra mão segurei a de Percy. Havia algo de bom em retornar ali mais uma vez: ele estava ao meu lado assim como antes.
E é claro, eu não poderia conter a inquietação em rever minha mãe pela segunda vez. Não era aquela ansiedade do primeiro encontro, mas eu queria relembrar nitidamente como eram os traços do rosto da deusa Atena.
Artémis apertou um botão acima do suporte, o elevador deu aquele solavanco extremo que eu já esperava, o teto brilhou e tive a sensação de estar decolando dentro de um foguete sem o cinto de segurança.
Percy apertou um pouco mais minha mão enquanto apoiávamos nossas costas na parede de mármore. Grover foi para o chão e quase levou Thalia junto. E Artémis estava sendo, como sempre, uma deusa: a gravidade não alterava sua postura e nem sua elegância. Ela estava de pé no centro do elevador, sem se mexer ou se preocupar com a velocidade com que subíamos.
Com um tranco abafado, chegamos. As portas se abriram para revelar o lugar mais majestoso que os olhos humanos poderiam registrar.
O Monte Olimpo.
— Uau – Grover expressou, sonhador.
“É, Grover, uau” – pensei – “espere até ver os deuses”.
— Tenho que me apressar até o Salão dos Tronos. Anunciarei a chegada de vocês – Artémis olhou para nós quatro – Seguirão sozinhos agora.
Ela se dissolveu em pó prateado e se elevou ainda mais no espaço olimpiano, flutuando rapidamente para o topo do monte. Imaginei que aquela escadaria nunca fora tocada pelos pés de um dos deuses.
— Por que tantos degraus? – Thalia resmungou.
— Vamos lá, gente – Percy se encaminhou à frente, ainda segurando minha mão.
Ω
— Em decorrência de quê!? – gritava um deus. Discutir talvez fosse o passatempo predileto dos deuses. Porém reconheci aquela voz quando alcançamos alguns metros do salão dos tronos: era Hermes – Foi meu senhor que proibiu que eu o visitasse. Como eu poderia garantir que meu filho não nos traísse!?
— Está culpando à mim, Hermes? – era Zeus, com seu tom grave e autoritário.
— Não, meu senhor e pai – a voz do deus mensageiro se tornou mais baixa, serena e cautelosa – Eu apenas... gostaria que me permitisse a chance de falar com ele, cara a cara, eu poderia convencê-lo...
— Não – a voz de Zeus tornou a reverberar — A lei olimpiana deve ser respeitada. Está vedado à todos os deuses o contato com seus descendentes mortais. Seu filho precisa aprender a nos venerar. Não seremos influenciados pela ira de um meio-sangue.
— E pela ira de nossos inimigos titãs? – argumentou a voz de Artémis.
Nós quatro aparecemos na entrada do imenso salão, e algumas cabeças divinas se viraram para nós, já outras simplesmente olharam de relance e voltaram a fitar, entediadas, o marcador de solstícios circular que havia no centro da área dos tronos. Os olimpianos alcançavam 10 metros de altura fácil.
Automaticamente, os olhos de Poseidon se fixaram em Percy, e o deus teria sorrido se não fosse pela expressão séria no rosto do filho. Percebi que minha mãe emitira um suspiro quase imperceptível quando olhou para mim. Seria aquilo uma reação de alívio? Ou eu estava vendo coisas demais?
Os deuses não haviam mudado tanto fisicamente desde a última vez que os vira, eles apenas pareciam menos... tensos. Exceto por Zeus, é claro. Ele falhava na tentativa de não olhar intensamente na direção de Thalia, e também não era muito sutil quando lançava espiadelas ligeiras na deusa sentada ao lado dele que presumi ser Hera. Nunca presenciei ninguém em uma saia justa daquelas – figurativamente falando -, mas era nítido o desconforto.
Artémis, a única olimpiana à estar de pé, se virou. Ela vestira uma túnica grega impecável, mas aquilo não era sua maior mudança. A deusa envelhecera magicamente uns bons 10 anos, não era mais uma adolescente, se transformara em uma mulher adulta perto da casa dos 30 anos. O que pensando bem, era exatamente a forma que ela possuía da primeira vez que visitei o Olimpo com Percy.
Artémis deu um pequeno aceno de cabeça em nossa direção.
— Estes jovens enfrentaram provações extenuantes recentemente – até a voz dela se alterara – Isso levanta assuntos, no mínimo, discutíveis. Se os titãs estão recebendo fontes de ajuda, é necessária uma intervenção de nossa parte. Atlas conseguiu se soltar, momentaneamente, mas conseguiu – Artémis olhou em volta, para seus companheiros olimpianos – Se os outros seguirem o exemplo dele...
— Serão novamente derrotados – Zeus simplificou, mas viu que Artémis argumentaria – E se isso lhe deixar tranquila, permito que verifique pessoalmente as múltiplas prisões nas quais nossos inimigos foram jogados – ele se levantou do trono e caminhou para o centro do salão. Zeus deixou de olhar para Artémis, redirecionando sua atenção para os seres de menor tamanho por ali: nós – Eu diria que fizeram um bom trabalho, embora aquele garoto de Hermes ainda esteja... lá fora.
Entendi “lá fora” como “vivo”. Thalia abaixou a cabeça ao meu lado. Ela tinha arremessado Luke longe, mas eu sabia que talvez não tivesse coragem para mata-lo. E acho que ela não se importava se seu pai não apreciasse tal indulgência.
Quando Zeus olhou para ela, a expressão séria dele suavizou gradativamente, e até era perceptível os cantos da boca se erguendo em um sorriso.
— Olá, Thalia.
Thalia olhou para ele, mas nada respondeu. Era perfeitamente normal, eu estava ali, de frente para minha mãe, e não achava nada que valesse a pena ser dito.
— Então, imagino que nossa outra questão esteja anulada, não? – disse uma voz conhecida. Havia me esquecido completamente que o Sr. D fazia parte do conselho dos doze olimpianos. E para minha surpresa, ele estava sentado em seu trono trajando uma armadura grega prateada. Ele manteve algo familiar: sua expressão entediada.
Nós quatro teríamos sorrido. Quem diria que Dionísio seria um alivio de tensão?
— Ela já estava fora de cogitação – disse o deus Poseidon, bem convicto. Ele se aproximou de Zeus.
Observei o semicírculo de deuses sentados em seus tronos. Eles alternavam olhares nervosos entre Percy e Thalia.
— Qual questão? – meu namorado perguntou.
Zeus e Poseidon se entreolharam.
— Ah, – Sr. D começou, monótono — estávamos discutindo se manteríamos vivas as duas... hã – ele olhou para um deus sentado ao lado dele que presumi ser Hefesto – Como Ares havia chamado eles mesmo? Ameaça iminente?
Nem era preciso somar 1 + 1. A conclusão era óbvia: os deuses consideraram a ideia de destruir Percy e Thalia. As duas pessoas mais próximas de mim. Olhei na direção de minha mãe, me perguntando qual teria sido a opinião dela.
— Minha nossa, que surpresa – exclamou Thalia, o tom de voz demonstrava que ela não estava nem um pouco surpresa – Fizeram uma assembleia para ver se nos matariam.
Os olhos dela repousaram em Zeus. Ela nem sequer piscou ao encará-lo. Para um primeiro encontro entre pai e filha... aquilo não ia bem.
Percy baixou o olhar para o chão, suas sobrancelhas estavam franzidas. Eu nem percebera antes, mas inconscientemente meu polegar desenhava círculos nas costas de sua mão. Era bom que ele soubesse que eu sempre estaria ao lado dele.
— A votação foi desconsiderada logo após ter sido realizada – Artémis manifestou enquanto se voltava para nós. Ela deu um aceno confiante em nossa direção e como havia feito antes, se transformou em pó prateado num piscar de olhos e se materializou ao lado de Thalia, redimensionada em nossa altura desta vez – Nós, olimpianos, precisamos ser justos. Vocês fizeram um bom trabalho. Devem ser congratulados, e não punidos.
Os deuses pareciam ansiosos para que aquilo terminasse logo. Acho que eles se sentiam um pouco intimidados quando Artémis tomava as rédeas das coisas. Zeus assentiu minimamente para a deusa, e então ele caminhou para a frente de seu trono, a capa branca esvoaçava nas costas de sua armadura.
— Os negócios desta assembleia estão terminados. Que se iniciem as celebrações.
Os deuses se levantaram e começaram a se dispersarem. O mais rápido deles foi Dionísio, pois deveria estar ansioso por uma comemoração. Após ele, reconhecei Hermes com uma armadura dourada, deixando o salão dos tronos pelo lado direito. Ele parecia bem aflito, muito provavelmente por causa de Luke.
Poseidon lançou um olhar significativo para Percy, antes de seguir pelo mesmo caminho que Hermes. Minha mãe já havia saído pela lateral esquerda. Isso me entristeceu. Eu nem sequer havia trocado uma palavra com ela.
E então a única que restara ali fora Artémis. Ela analisava nós quatro, procurando por alguma reação de desânimo. Sinto em dizer que ela encontrou várias.
— Peço que entendam, jovens heróis. Meus companheiros haviam se convencido de que eliminar os supostos semideuses da grande profecia era uma estratégia sábia. O que não deixa de ser verdade. Mas isso não seria... – ela procurou uma palavra que se encaixasse – adequado.
Bem, Percy e Thalia estavam vivos porque era adequado.
— Agora, eu peço mais uma coisa à vocês. Juntem-se a nós na celebração.
Ω
Passei todo o caminho até o suposto salão de celebrações processando o convite de Artémis. “Não sintam-se intimidados” dissera ela, “É apenas uma festa olimpiana”.
Depois de um “sim” gaguejado de Grover – que secretamente ansiava por conhecer as deusas menores do Olimpo – seguimos atrás da deusa.
Não soltei a mão de Percy nem por um segundo. Ele parecia mais confortável assim.
Também tive que fazer uso da mão livre para arrastar Thalia, quando ela sugerira teimosamente que era melhor que ela esperasse do lado de fora. Artémis parecia satisfeita com isso.
A deusa nos encaminhou até uma grande porta incrustada com outro símbolo Ômega. Quando a porta foi aberta, um majestoso e enorme salão foi revelado. Os deuses, agora em tamanho humano, circulavam de canto em canto, de uma roda de conversas até outra. Eram como os campistas do Acampamento faziam depois de todo Capture a Bandeira, aglomerando-se em volta da fogueira para tomar alguns goles de néctar.
O senhor Zeus estava sentado em uma poltrona ouvindo alguma coisa que sua esposa Hera lhe dizia, enquanto servos vestidos com túnicas brancas e coroas de folhas cobrindo a cabeça despejavam em um cálice de ouro, um liquido vermelho-púrpura – vinho. O rei e a rainha pareciam estar discutindo alguma coisa, pois nenhum outro deus ousava se aproximar. Era certo de que se tratava de Thalia, por isso a relutância dela em vir.
O deus Apolo estava entretido com uma deusa que reconheci da sala de tronos. Apostava que era Afrodite, pela esplendorosa beleza e tudo mais. Só não entendi porque ela me lançou uma piscadela quando passei. Puxei Percy para mais perto, só por... hã, precaução.
Hefesto sentara-se em um círculo de pedra que rodeava labaredas de fogo verde, ao lado dele havia uma outra deusa que não reconheci.
Um outro deus bebia néctar direto das jarras, virando-as como um bárbaro faria com canecões de cerveja. Ele era musculoso e deixava isso claro pela sua postura, contraindo os braços para deixar evidente o tamanho dos músculos que estavam à mostra fazendo sua armadura prateada parecer justa em seu físico. O deus usava o cabelo negro em corte militar, e quando ele se virou para avistar alguma coisa, pude ver seu rosto com clareza. Era um semblante duro e ríspido, e algumas cicatrizes críticas pioravam isso. Os olhos dele eram castanhos escuros, não do tipo bonito, mas do tipo cruel, e as vezes eles brilhavam como pequeninas chamas esféricas. A expressão “cara de poucos amigos” se encaixava muito bem para ele, mas o deus se concentrava – aborrecido — em ouvir algo que Sr. D dizia à ele. Eu nem precisei associa-lo a Clarisse para chegar à conclusão que aquele era Ares. Segundos depois, uma deusa que presumi ser Deméter, se uniu aos dois, chamando a atenção de Dionísio para alguma coisa.
Um pouco longe dali, avistei minha mãe recostada em um pilar, tomando calmamente um cálice de néctar, enquanto conversava com um deus que estava de costas para nós. Ela estava séria e atenta em cada palavra do companheiro olimpiano.
Chamei a atenção de Percy e apontei para Atena.
— Podemos? – perguntei.
Ele considerou, bem resoluto, mas assentiu devagar.
Nos aproximamos da dupla de deuses. Nem precisei comunicar nossa chegada quando minha mãe desviou os olhos do outro deus para olhar em nossa direção. Ela sorriu, o que me deixou vibrante, e me fez sorrir também.
— Olá, minha filha.
O deus à frente dela se virou surpreso. Meu sorriso perdeu a genuinidade quando vi que se tratava de Hermes.
Ele olhou de Atena para mim.
— Ah, sua filha, é? – perguntou ele, erguendo as sobrancelhas.
Lancei ao deus um olhar fatal. Sabia que aquilo fora uma provocação por ter quase – e sem querer— aberto a garrafa de Hércules Arrebenta-Cabeças com os ventos dos quatro cantos do mundo dentro de sua empresa de correios. Eu havia feito aquilo por impulso, estava curiosa em saber o que continha lá dentro.
— Bem, vocês ainda estão vivos – Hermes continuou.
— É, por pouco – disse Percy.
— E bem exaustos – acrescentei.
Hermes reprimiu um sorriso sarcástico.
— Ainda completam a frase um do outro – ele acenou para minha mãe e se afastou para outro grupo de deuses.
Atena olhou de relance para minha mão entrelaçada com a de Percy. Eu tinha certeza de que diria algo a respeito, mas mudou de ideia na última hora.
— Faz um bom tempo desde que nos vimos. Você mudou – ela olhava diretamente para mim, ignorando Percy completamente.
Não sabia se ela se referia à eu ter mudado a cor de cabelo ou a mudança mais drástica: ter um namorado.
Fiquei sem palavras por alguns segundos. Eu poderia dizer “E aí, mãe, como vai?” ou algo mais original como “Que bom te ver”. Diante de minha majestosa mãe, era um momento errado para falhar com minhas habilidades verbais.
— Este é Percy – “nossa, Annabeth...” pensou meu subconsciente.
Mas Atena fez a gentileza de dar um aceno de cabeça educado para Percy.
— É bom te ver de novo, senhora – disse ele – E obrigado mais uma vez pelos pégasos.
Atena assentiu.
Espera. Que?
— Ahn? – questionei inteligentemente – Pégasos?
Percy se virou para mim.
— Ah é, quando estávamos atrás de você, sua mãe enviou a ajuda dela. Nós chegamos a conversar. Me desculpe por esquecer de contar...
Meu cérebro imaginou tudo, uma cena nítida de Percy conversando com Atena. Na mesma hora fiquei com medo da realidade. E se minha mãe fora rude com ele? Ou até mesmo jurado ele de morte?
Ela me prometera no meu aniversário de 18 que não se incomodaria tanto com meu relacionamento. Agora eu estava ligeiramente disposta a descobrir a definição de “tanto” dela.
Talvez Atena fosse ótima em ler mentes, pois ela parecia saber o que se passava na minha. Ela ergueu uma sobrancelha para mim, e um mínimo sorriso de canto situava seus lábios. Era uma expressão que dizia “Não se preocupe. Ainda”.
— Mãe... – repreendi sem querer, e sem saber o que exatamente estava repreendendo. Então pensei em outro ponto de vista: ela ajudara Percy porque se preocupava comigo – Obrigada.
Eu acabei suspirando com aquilo. Era um agradecimento por todos os momentos em que ouvira a voz dela, quando era pequena e estava abatida e frustrada por perder alguma luta no Acampamento, ou por se sentir sozinha outras vezes.
A deusa abriu os braços. Soltei a mão de Percy, reduzi a distância entre nós duas e pela primeira vez na minha vida toquei e abracei minha mãe.
— Eu sei que disse isso antes, mas vou repetir – Atena murmurou em meu ouvido – Estou tão orgulhosa de você.
Pisquei porque meus olhos ardiam. Devia ser um cisco ou algo do tipo...
Quando me afastei, analisei o rosto da deusa da sabedoria. Era a segunda vez que estava vendo aquele rosto e receava que fosse a última. Por que eu não poderia estar com ela mais vezes? Era injusto.
Mas precisava lembrar que ela era uma deusa e não uma mãe mortal. Meu relacionamento com ela nunca seria do tipo convencional. Me contentei com a ligação que já tínhamos.
Percy pigarreou.
— Hã, eu vou... ver onde Grover está. Te encontro depois, pode ser? – perguntou ele.
Ele estava tentando nos dar um tempo para conversar. Eu o adorava por isso.
— Tudo bem, vai lá.
Percy se foi, atravessando o centro do salão.
— Não posso dizer que estou satisfeita – começara Atena, algo que já esperava que ela dissesse – Mas você já é uma mulher, toma suas próprias decisões. E meu departamento não é o amor, não devo interferir como Afrodite faria com os filhos dela.
— Isso decepciona você?
Atena sorriu e colocou a mão sobre o meu ombro.
— Você continua me dando orgulho, minha querida. Eu queria poder visita-la, e seus irmãos também. Mas não posso – a deusa parecia triste de verdade.
Um pensamento me ocorreu.
— Mãe, acha que agora que Thalia voltou, Zeus pode reconsiderar a lei?
Ela suspirou.
— Acho muito difícil. Zeus não aprecia quando precisa voltar atrás em alguma decisão. Mas nunca vou deixar de observá-la, filha. Sempre vou estar com você.
Sorri para ela, ainda que não estivesse completamente feliz com aquilo.
Olhei em volta. Meus amigos estavam espalhados pelo salão. Grover estava numa roda de deusas menores e ninfas do Olimpo, ele sorria entorpecido e haviam colocado uma coroa de folhas em sua cabeça, apoiadas contra os chifres. Percy conversava com Poseidon, e parecia não ser um papo muito descontraído. Ele pouco olhava para o pai, na maioria das vezes assentia para alguma pergunta do deus enquanto procurava por algo muito interessante no fundo de seu cálice. Não sabia dizer se ele estava passando por um processo de ressentimento ou se estava tímido demais para conversar abertamente com o pai.
Thalia conversava com Artémis, e parecia mortalmente séria.
Por mais que estar há menos de um metro de minha mãe fosse um sonho que pensei nunca ter a chance de realizar, eu estava sobrecarregada com tudo e não conseguia aproveitar nada daquele ambiente. Os servos dos deuses iam e vinham oferecendo aperitivos que eles determinavam como “divinos”, sommeliers giravam pelo salão com bandejas carregadas de néctar e vinho. O próprio Ganímedes me ofereceu uma taça. Mas aquela celebração parecia inadequada para mim, ou a minha presença era inadequada ali.
Me virei de volta para Atena. Ela me estudava com expressão intrigada.
— Preciso tomar um ar – juntei as mãos em minha têmpora – Tudo o que aconteceu hoje... volta em minha mente ainda que eu tente esquecer por um segundo.
Fiquei feliz de contar isso à minha mãe. “Desabafar” ganhava um novo significado.
— Está bem, filha — Atena colocou uma mão em minha testa como num gesto de carinho, e com um olhar que eu esperava que fosse de “vejo você daqui a pouco” ela saiu, indo em direção à Zeus.
Atravessei o salão inteiro, procurando por um lugar menos movimentado, onde eu poderia clarear meus pensamentos, mesmo que só por alguns minutos.
Ω
— Muito intenso lá dentro, não é? – disse uma voz que eu conhecia bem.
Não fazia muito tempo que havia saído. Eu estava recostada com o ombro em um dos pilares de pedra branca do palácio de festas olimpiano, observando tudo que estava abaixo das nuvens. Acho que era fácil se sentir intocável e majestosa quando se mora literalmente no céu. Os grandes prédios de Nova York pareciam insignificante agora, mas suas luzes brilhavam como estrelas distantes.
Percy se aproximou, inclinando o pescoço por cima do meu ombro para olhar lá embaixo.
— Oi – sorri.
— Isso é incrível – ele disse, maravilhado.
Concordei de cabeça. Percy me abraçou pelas costas, expelindo ar quente em minha nuca. Aquilo era adequado e aconchegante.
— Como foi com Atena?
— Estranho, em um sentido bom. Sempre imaginei como seria nosso encontro. Um encontro de verdade, onde poderíamos conversar. Mas...
— ...mas você não sabe o que dizer à ela – ele completou – É, sei como é.
— O que disse ao seu pai? – fiquei de frente para ele.
Percy suspirou.
— Contei à ele sobre meu tempo no Acampamento, como estava Tyson e também... você.
Ergui uma sobrancelha.
— Ele deve ter ficado tão satisfeito quanto minha mãe.
Percy olhou ao redor, com um sorriso cansado.
— Acho que Poseidon não se importa.
Passei os braços ao redor de seu pescoço. Naquele momento, ele parecia um pouco menos exausto do que antes.
— Espero que tenha corrido tudo bem com ele. Tenho certeza de que seu pai defendeu você quando...
— Fizeram uma votação para me matar?
Assenti.
— É, também acho que sim – Percy concordou.
Puxei-o um pouco mais para perto. Ele beijou meu rosto.
— Sabe, fiquei preocupado – ele começou – Esse tempo em que você estava desaparecida... só conseguia pensar em você, a todo momento. Você literalmente morreu nos meus braços uma vez... – ele fechou os olhos por alguns segundos, como se imaginasse a cena – Não suportaria passar por aquilo de novo...
— Ei – sussurrei, tocando seu rosto – Ainda estou aqui.
Eu nunca havia visto ele tão emotivo assim.
— Sim, está. Mas se Luke tivesse machucado você...
— Ele não teria conseguido. Eu chutaria a...
Percy me interrompeu com um beijo. Queria dizer que odiava quando ele fazia isso, mas seria a “Maior Mentira” já contada, digna de Guinness Book. Nossos beijos, em geral, sempre foram calmos apesar de apaixonados. Desta vez, Percy estava ansioso conforme suas mãos acariciavam meu rosto com ternura e sua língua encontrava a minha vez ou outra.
— ...cara dele – finalizei, em apenas um fôlego, minha sentença sobre Luke quando nos afastamos.
Percy assentiu, divertido.
— Chutaria mesmo.
— Você não precisa se preocupar comigo, herói— falei. Ele sorriu. Fazia um bom tempo que eu não o chamava assim.
— Tudo bem, mas não vou perder você de vista tão cedo – Percy afirmou. Seu olhar se tornou mais sério e intenso – Eu te amo.
Ah...
Acho que minha expressão não deve ter passado muita confiança, pois ele recuou alguns centímetros. Agora ele parecia indeciso, e talvez um pouco arrependido. Suas próximas palavras saíram emboladas.
— Eu... hã, eu não estou tentando forçar você a dizer nada, só precisava... queria que você soubesse como me sinto...
Levei um dedo sobre seus lábios, fazendo com que ele gentilmente calasse aquela linda boca. Consegui projetar um sorriso confiante em meu rosto.
— Relaxe. Não vamos ganhar nenhum prêmio de casal mais meloso do momento, mas... eu te amo, também. Você não me forçou a dizer isso.
Para provar minhas palavras, eu o puxei para outro beijo. Demonstrações desse tipo eram melhores do que qualquer argumento ensaiado.
Ω
— Acham que algum dia vamos voltar aqui? – Grover perguntou, enquanto nos direcionávamos ao centro do salão para poder termos uma despedida correta com os deuses.
— Eu não sei, cara – Percy deu um tapa amigável no ombro do sátiro.
Não queria alimentar as mesmas esperanças que Grover, mas me permiti por um segundo imaginar que veria minha mãe novamente após abraça-la uma última vez. Thalia estava mais tranquila quando apertou a mão de Zeus, Percy fez o mesmo com Poseidon.
Estávamos prestes a deixar o palácio olimpiano quando Thalia parou no meio do caminho. Éramos apenas nós quatro ali no meio de um enorme corredor branco.
— Que foi? – perguntei à filha de Zeus.
Ela fitava o chão de mármore, tentando encontrar coragem para dizer alguma coisa.
— Não posso voltar com vocês – ela me olhou direto nos olhos, sem piscar – Tomei uma decisão importante. Vou servir a Artémis, ser uma de suas Caçadoras.
Por alguns segundos, ninguém sabia o que dizer. Percy deu um passo na direção de Thalia.
— Você tem certeza sobre isso? O Acampamento é sua casa. Nossa casa. Somos seus amigos.
— Eu sei. Mas não fiz isso por impulso. Sinto que este é o meu destino. Posso encontrar uma nova família nas Caçadoras, assim como Zoë encontrara – Thalia parecia reprimir algumas lágrimas. Talvez estivesse sendo difícil para ela se despedir, quase tanto quanto estava sendo para mim.
Não queria que ela fosse, e me sentia egoísta por isso. A vida dela já havia sofrido tantas reviravoltas que era de se esperar que ela procurasse por um alivio.
Caminhei até ela e a abracei com força. Eu não era do tipo que se emociona, mas as circunstâncias me obrigavam.
— Você sempre será minha melhor amiga. Caçadora ou não, isso nunca vai mudar – murmurei em seu ouvido.
Quando ela se afastou, um enorme sorriso estampava o seu rosto. Eu nunca à vira sorrir assim. Ela limpou uma lágrima rebelde que escorria pelo rosto e abraçou Percy e Grover de uma vez só.
— Vamos nos ver de novo, pessoal – ela disse, após separar-se deles.
Então Thalia começou a se afastar, voltando para o salão onde Artémis estaria.
Fiquei observando minha amiga desaparecer ao virar outro enorme corredor. Sentiria demais a falta dela, mas compreendia sua busca por paz e um novo lar.
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