Percy Jackson Filmes

45 Fúria De Um Titã


Ponto de Vista de Annabeth

Qualquer outra pessoa sentiria uma espécie de lisonjeio ao conhecer Atlas. Não necessariamente no bom sentido, é claro. Ele era um tirano imbecil.

Eu senti o incomodo crescente de estar na presença dele. As promessas de poder, a visão distorcida do sucesso que ele atribuía à eliminação dos deuses, e periodicamente, os humanos. Tudo bem que as promessas surgiam da boca de Luke. Mas eu ainda não entendia como ele poderia ser tão iludido.

Me preocupei demais quando ouvi o eco da voz de Percy exigindo de Luke meu paradeiro. Ele estava aqui por minha culpa, e se algo acontecesse com ele, seria novamente minha culpa. E agora que sua presença era tão necessária em minha vida, eu não queria me imaginar vivendo sem ele...

Eu o abracei de forma intensa quando o encontrei, apenas para redescobrir o que era a sensação de estar em seus braços e recordar que ainda existia calor no mundo. Era tão reconfortante quanto voltar para casa depois de estar fora por tanto tempo.

Uma parte de mim sentiu felicidade por rever meus melhores amigos. Outra parte teve pena daquela garota que estava com eles. Ter Atlas como pai deveria ser pior que segurar o céu. E eu sabia bem como era a sensação.

— Espera... você é filha dele!? – Percy perguntou, ao meu lado. Uma de suas mãos se ocupava em segurar sua espada de bronze. A outra repousava firmemente em meu ombro, como se ele temesse ter que reviver qualquer segundo em que estivemos longe.

— Infelizmente, não se escolhe a família em que nascemos! – a garota com o arco proferiu, ainda tendo como alvo o rosto de Atlas.

O titã pouco se importou para tal situação. Seu semblante se mantinha indiferente apesar do descaso, contendo o mesmo tipo de olhar severo e arrogante que antes eu presenciara em Luke, só que com um toque bestial adicionado.

Há poucos metros dali, a aura divina prateada que rodeava Artémis começou a abrandar, sumindo aos poucos. A deusa estava profundamente enfraquecida. Atlas notou isso, ele olhou na direção da olimpiana ajoelhada.

— Mas pode se escolher o lado a qual servirá em uma guerra. Querem morrer aqui, em uma tentativa falha de salvar... – ele olhou novamente para Artémis – essa escória ou se juntarão à mim?

A filha de Atlas soltou o dedo, a flecha indo e direção ao rosto do pai, apenas para ser interceptada pela mão do titã, como se fosse uma bola de tênis arremessada na menor força possível.

Atlas ergueu uma sobrancelha, quase surpreso, mas um sorriso cruel brincou em seus lábios.

— Você fez sua escolha, afinal. Agora... morra! – uma lança surgiu na mão do titã, no mesmo momento em que a filha dele preparava uma nova flecha no arco.

Da forma que a situação se desenrolara, todos ali começaram a tomar partido. Thalia puxou um escudo dourado que... – Ei! Aquele era o maldito escudo de Luke!— abriu em espiral, e com a outra mão ela sacou a adaga de prata que sempre carregava no bolso da jaqueta. Luke se lançou para a frente, visivelmente desprovido de armamento. Mas ele provara tantas vezes que sua habilidade em luta corpo-a-corpo era tão avançada, que não fazia sentido o uso de nada além dos punhos.

Atlas apontou a extremidade afiada da lança para o rosto da própria filha... e atacou.

— Vamos! – bradei para Percy, enquanto corria na direção de Luke e Thalia. Meu namorado, aparentemente tomou outro curso, ele avançou na direção de Atlas. Tudo que me restou foi confiar nele, e rezar aos deuses que ele ficasse bem.

Grover saiu disparado atrás do melhor amigo, ficando apenas alguns metros recuado, onde a lança do titã não o alcançasse de súbito.

Eu já estava ao lado de Thalia, e nas mesmas condições de Luke: sem arma alguma.

Luke estendeu os braços para o lado teatralmente conforme abria distância da adaga de Thalia, um grande sorriso no rosto que não condizia com a atual circunstância. Ele estava em declarada desvantagem, e não teria sequer a chance de nos menosprezar.

— É tão... estranho, não acham? – ele apontou rapidamente para nós duas – Nós três aqui. Não temos que lutar uns contra os outros, sabem, podemos ser um trio novamente.

— Eu te disse antes, Luke: Você era um de nós. – lembrei-o, como no momento em que ele amarrara eu, Percy, Grover e Clarisse em postes na ilha de Circe.

O sorriso dele se dissipou.

— Agora chega – e ele atacou. Nos velhos tempos não tínhamos muita diferença quando se tratava de perícia em duelo, mas cheguei a duas alternativas: ou ele estava mais habilidoso ou eu estava perdendo o jeito.

Luke me fez passar direto por ele quando desviou de um chute na altura do peito. Deslizei alguns metros morro a baixo, mas me recompus a tempo de ver ele se lançar de ombro no centro do escudo que Thalia colocou à frente do corpo, forçando-a a recuar. Com uma mão, Luke brigava pelo domínio da adaga de Thalia. Ela abaixou, fisgando uma perna de Luke, e o derrubou em um puxão estilo golpe de judô. Thalia teria feito bem mais do que apenas derrubá-lo, mas ele rolou para o lado ao evitar a lateral do escudo que descia para lhe acertar a garganta.

Thalia atacou justamente com a adaga, mas Luke se esquivou rápido e a fez rodar no ar quando agarrou-a pelo braço. Ela caiu com um baque no solo duro. Corri em direção à Luke, pensando na melhor tática para neutralizá-lo. Percebi quase tarde demais que ele não estava mais desarmado. Ele golpeou de lado o que teria sido meu pescoço, mas recuei ligeira de forma que a adaga passasse a pouco centímetros da minha artéria. Foi como rir na cara da morte.

— Annabeth! – era Thalia. Ela perdera sua lâmina para Luke, mas arremessou o escudo na minha direção, no qual peguei pela borda e encaixei no braço direito, para me proteger de outra investida de Luke.

Ele ficou parado, a adaga de prontidão na frente do corpo, sem deixar saber se estava em modo de defesa ou ataque. Luke optou por atacar.

Escudo contra lâmina. Os golpes do filho de Hermes eram uma combinação de velocidade e força, como se apenas desta forma ele pudesse atravessar, literalmente, a superfície de bronze do meu escudo... da Thalia, ou seria do Luke? Não sei mais.

Estaria brutalmente mutilada agora se não fosse pelos reflexos de semideusa, e os inúmeros treinos de combate.

Thalia tentou interferir com um chute mal aplicado em Luke, no qual ele bloqueou com um braço e a empurrou com o outro.

O cabelo loiro dele estava despenteado, camiseta e calça jeans sujas de terra por conta de ter sido lançado ao chão. Muito provavelmente, Thalia e eu estávamos no mesmo estado.

— Isso poderia ter sido diferente! – Ele olhou diretamente para Thalia, mal separava os lábios para dizer as palavras, os dentes estavam cerrados de raiva, assim como ele também parecia profundamente magoado, como se ela o tivesse traído e não o contrário. Era desconfortável admitir, mas eu sabia que ele sempre gostara dela, ainda que eu nunca havia parado para pensar bem no assunto – Você teria gostado de ficar ao meu lado! Remodelaríamos o mundo, Thalia, à nossa imagem! Ficaríamos juntos!

Não precisava ser uma especialista para entender o que ele quis dizer com “juntos”.

Thalia não esboçou nenhuma reação apropriada. Não sei se era o choque pelas palavras de Luke ou se modelava em sua cabeça uma forma adequada de agir. Temi que ela nutrisse sentimentos positivos demais por ele, e que isso a consumisse, de forma que ela cogitasse unir-se a Luke. Pela primeira vez, desejei que Thalia focasse na própria mágoa e a usasse como gatilho.

O tintilar dos metais e os brados de guerra do outro lado do cume eram intensos. Arrisquei uma olhada no que acontecia, só para ver Grover ser arremessado como um brinquedo de plástico por uma cotovelada certeira de Atlas no estômago.

A aljava da filha do titã estava vazia, mas era notável o esforço que ele impusera ao fazer uso das flechas, principalmente porque Atlas não se dera o trabalho de desencravar dois projéteis fincados em suas costas. Agora, a garota usava o arco de forma alternativa, bloqueando golpes poderosos da lança do titã. Quando ela se virou, observei que seu rosto estava ensanguentado devido à um corte que lhe cobria a testa.

Percy fazia o melhor que podia para monopolizar a atenção de Atlas, mas estava tão desgastado quanto a aliada. Ele se esquivou para o lado quando o titã girou a lança. Foi quando notei...

Percy estava com um corte no estômago, o casaco bege adquirira um contraste vermelho que acionou todos os sentidos fundamentais contidos no meu corpo: correr para ajudá-lo.

Olhei de volta para Thalia. Ela estava com as mãos fechadas em punho. Luke ainda a encarava como se esperasse que a qualquer momento ela, surpreendentemente, corresse para abraça-lo e aceitasse todos os planos ridículos dele. Mas ele voltou à ativa no exato momento em que ameacei correr para outra batalha, se colocou na minha frente e apontou a adaga para o meu coração.

— A filha de Atena abandonando uma luta? – ele zombou.

A raiva por Luke e Atlas comandou minhas ações. Não esperei Thalia agir de forma alguma. Corri na direção do semideus traidor, o escudo à frente, ignorando qualquer movimento hostil por parte dele. Luke ficou no caminho apenas para ser arremessado de lado quando esbarrei contra seu corpo. Não se tratava mais de derrotá-lo, tratava-se de salvar Percy e auxiliá-lo em uma causa maior: parar Atlas e qualquer avanço de qualquer outro titã!

Escutei Luke se revirando no chão para poder tornar a ficar de pé. Contava com a possibilidade de ele voltar a interferir, mas Thalia intercedeu por mim. Ela se colocou entre nós dois, mesmo que desarmada parecia eximiamente intimidadora. Um trovão ribombou no céu e logo ficou claro: Luke levara Thalia ao limite de sua benevolência, se eles voltassem a se enfrentar, o que era muito provável, ela promoveria uma dor chocante nele.

Por outro lado, eu não suportaria ver Atlas infligir mais dor em Percy. Se isso significava lutar contra um titã portando apenas um escudo, então que fosse!

— Você nem sequer consegue me atacar direito – dizia Atlas para Percy, ele olhou calmamente para o céu – Será mesmo este semideus aquele de que a profecia fala? – voltou a olhar para meu namorado, derrubando-o com o cabo da lança – Acho que não, duvido que há alguma chance de chegar aos vinte anos neste ritmo...

— Fique longe dele! – ataquei, e devo dizer, não foi lá algo sábio. Atlas simplesmente moveu a lança de encontro com meu estômago, e mais uma vez eu quase morri por conta dos meus impulsos. Me joguei de lado no último instante, para rolar pelo chão repleto de pedras.

Percy se levantou com um grunhido, correndo na direção do titã. Ele passou perto de obter um ataque bem sucedido quando tentou desferir sua espada diretamente no rosto de Atlas, mas foi retido na velocidade de um raio. O titã forçou Percy para trás, lança contra espada, arrastando-o mesmo que ainda de pé.

— Acha mesmo que por ter derrotado Lorde Cronos em sua pior e mais fraca forma, repetirá a proeza comigo!? – Atlas trovejou – Aquilo que encarou foi apenas uma partícula, um minúsculo fragmento do poder do Rei dos Titãs. Você não tem chance contra nós!

Esperava que Atlas estivesse blefando, porque se aquele Cronos gigante era um “fragmento” da essência do titã, então... bem, estávamos indiscutivelmente lascados.

Aquelas palavras desnortearam Percy. Ele hesitou por um momento ao medir forças com Atlas, resultando em ser derrubado. O titã ergueu a lança, a ponta virada para baixo, para o peito de Percy.

Naquele momento, eu juro, meu coração parou. Não havia mais circulação sanguínea, apenas o medo paralisante. Um grito de “NÃO!” ficou preso na minha garganta.

E então... alguém impediu o que teria sido o maior tormento da minha vida – ver Percy morrer!— e colidiu com Atlas. Demorei alguns segundos para ver que era a própria filha do titã que havia voltado para a luta. E que timing!

— Você ousa se levantar contra mim, Zoë. Várias e várias vezes! – o titã exclamou – Vamos colocar um ponto final nisso.

Ele atacou a garota que eu descobrira se chamar Zoë. Ela não recuou, apenas ergueu o arco para repelir os golpes rápidos do pai, e cada vez mais a estrutura do arco ia se deformando até o ponto onde partiria e então sua dona teria que procurar outro meio de se defender.

Percy se levantou em um salto. Corri para o lado dele.

— Tenho que ajudá-la – ele agarrou firme o cabo da espada.

— Temos— corrigi.

Ele olhou para mim, as veias de sua testa pulsavam, não sei se por raiva de Atlas ou por dor. Possivelmente os dois. Havia tanta coisa a ser dita um para o outro ali, mas ninguém fez as honras. Unidos, nós atacamos.

Grover se juntou ao grupo, ainda que resoluto. Pequenas rajadas de raios clareavam a montanha, e eu sabia que Thalia finalmente se cansara de ouvir Luke.

Bem, éramos quatro contra um, sem incluir Thalia. Me pergunte se deu certo. Não exatamente...

A cada golpe que Zoë tentava desferir em Atlas ela exclamava um xingamento. Um dicionário de insultos.

Alguns de nós já estavam feridos e exaustos e Atlas... ele estava despenteado. Era um grande progresso.

Mas realmente demos trabalho ao titã. Isso ficou claro quando conseguimos fazê-lo recuar para trás mais e mais. Éramos uma ótima combinação armada com um escudo, uma espada, um par de sais e um arco entortado desprovido de suas companheiras flechas. E uma ideia se formou em minha mente, apenas faltava organização e comunicação.

Percy quebrou o bloqueio de Atlas quando fez um rasgo no paletó do titã. Isso pareceu distrai-lo, o que nos deu uma pequena chance de sucesso. Aparentemente, Zoë pensou a mesma coisa quando ela usou o arco como um bastão de beisebol ao mesmo tempo em que eu atacava com o escudo.

Aquilo foi um grande erro.

Quando golpeei com a superfície de bronze, Atlas segurou meu escudo e apunhalou a lança de lado. Naquele momento, eu teria morrido se a garota Zoë não tivesse interferido novamente.

A má notícia foi que ela não desviou ou bloqueou a lança. Ela simplesmente se colocou na minha frente. Fiquei paralisada demais para agir. A garota se inclinou para trás, indo de encontro para os meus braços.

— Zoë! – Percy gritou. Aquilo o deixou irado. Ele se lançou em dupla com Grover para cima do titã.

O titã não percebeu de imediato, mas se afastou demais para esquivar-se dos golpes. Percy atacou novamente, mesmo sabendo que não machucaria Atlas em circunstância alguma.

O titã cambaleou para trás e então algo despencou por cima de sua cabeça, seus joelhos envergaram. Ele tentou levantar o peso, mas sei por experiência própria que isso era impossível. O titã emitiu um grito carregado do mais puro ódio enquanto Artémis rolava para o lado, livre ainda que profundamente exausta.

Artémis estava ofegante, porém sua aura prateada voltava a circular seu corpo. Mesmo não estando em situação impecável, a deusa era intimidante de se olhar.

Ela olhou na direção de Atlas, há poucos metros de nós. Nenhum sorriso vitorioso ou expressão triunfante era registrado em seu rosto, como se ela não visse glória alguma em ver seu inimigo derrotado.

Artémis se levantou com dificuldade, mas sem ajuda. Grover e Percy voltaram correndo, focados na garota encharcada de sangue que eu segurava.

Eu mal a conhecia e já lhe devia minha vida. Tentei fazer pressão em sua ferida e lhe dizer que ela ficaria bem, mas percebi que teria sido uma mentira quando os olhos dela começaram a se fechar, e sua vida fluir para fora de seu corpo.

Artémis se ajoelhou ao meu lado.

— Deixe-a comigo – ela puxou a garota pálida para seu colo – Tudo bem, minha brava guerreira. Você lutou muito bem.

Zoë agarrou frouxamente a mão de Artémis.

— Foi uma honra lhe servir... – sua voz enfraqueceu, e seus olhos perderam o foco. Sua respiração cessou.

Olhei para Percy. Ele tentava inutilmente reprimir lágrimas que insistiam em escapar. Grover baixou o olhar para o chão.

Artémis abraçou o corpo inerte da garota, murmurando palavras em grego antigo. Quando ela levantou a cabeça, várias lágrimas desciam até seu queixo. A forma pálida de Zoë começou a tremular e brilhar até se desfazer em pontos de luz como poeira prateada. Os pontos subiram ao céu, e lá no alto ficaram na forma de um desenho: a fisionomia de uma garota com um arco e flecha.

Uma nova constelação, pensei atordoada. Pisquei por alguns segundos, evitando as lágrimas.

Artémis olhou diretamente para mim. Ela parecia desolada.

— Escute-me, não foi sua culpa. Zoë não temia sacrifícios. Mas agora preciso que diga à sua amiga que finalize logo os assuntos dela.

Franzi a testa. E então me lembrei que Thalia ainda estava em um enfrentamento com Luke.

Do outro lado do cume, ela encarava de pé nosso antigo amigo. As mãos dele estavam em posição de rendição, mas sua expressão dizia outra coisa. Ele estava falando alguma coisa para ela, mas era impossível ouvir pela distância.

Percy se levantou tempestuosamente. Eu sabia que ele estava muito zangado. Ele começou a andar na direção dos dois. Era evidente o que ele planejava fazer, mas não poderia permitir. Corri até ele e o agarrei pelas costas. Percy se curvou instantaneamente. Com horror, me lembrei que ele fora ferido no estômago.

— Me desculpe! – abracei-o sem tocar seus cortes. Ele cedeu nos meus braços enquanto dizia que “estava bem”.

— É só um corte – Percy assegurou, mas seu rosto estava pálido. Eu sabia muito bem que um corte nem sempre era “só um corte”. Aprendi isso na minha aventura pelo parque de Circe, quando aquele manticore me empalou.

Não tínhamos um Velocino de Ouro por ali.

— Ei! Ei! – murmurei para ele – Mesmo assim, se acalme. Deixe Thalia resolver... – uma nova explosão de luz iluminou tudo em volta, e Luke foi arremessado para longe, desaparecendo no desfiladeiro – as questões dela...

— Não podemos deixa-lo ir dessa vez, olha só o que aconteceu. Deixei ele escapar duas vezes e ele sempre voltou – Percy forçou, mas eu o mantive no chão.

— Eu não posso deixar você ir – argumentei. Grover se colocou ao nosso lado. Me virei para o sátiro – Tem uma garrafa de água?

Grover olhou em volta.

— Vou conseguir uma – ele saiu correndo.

Thalia atravessou o topo da montanha correndo em nossa direção.

— Você está bem? – perguntei.

Ela ignorou a pergunta. Estava ensopada de suor. Invocar tantos raios deve ter minado suas forças.

— Temos que sumir daqui o quanto antes. Luke disse que estava aguardando reforços, e não demorariam à chegar. O que aconteceu com ele? – ela apontou para Percy.

— Vou cuidar dele, não se preocupe – falei.

Artémis caminhou para perto de nós.

— Providenciei transporte – ela avisou.

Thalia assentiu surpresa, antes de franzir a testa ao olhar para Atlas, há metros dali.

— Pessoal, cadê a Zoë?

Todos olharam para ela. Percy suspirou exasperado. Um “Ah...” escapou pela minha garganta, mas o restante das palavras não saia. Talvez eu fosse péssima em dar notícias ruins.

— Ela se foi, minha jovem. Ela encontrou paz – Artémis assegurou.

Thalia abriu a boca para falar alguma coisa, mas assim como eu, não conseguiu dizer nada. Ela ficou travada por alguns segundos. Eu só à vi com aquela expressão no rosto uma vez: quando contara à ela sobre Luke ter traído o Acampamento. Seus olhos ficaram vidrados, como se acumulassem lágrimas e ao mesmo tempo as reprimissem.

— Ela foi nobre ao tentar me ajudar, e tão igualmente nobre em ajudar vocês – Artémis proferiu – Não se culpem – parecia que ela estava dizendo aquilo mais para si mesma do que para nós. A deusa apontou para o alto – Temos que ir, minha carruagem está chegando.

Grover chegou carregando uma garrafa de água pela metade e a entregou para mim de imediato.

Ajudei Percy a se levantar, ele passou o braço ao redor dos meus ombros para se apoiar. Passei-lhe a garrafa.

Um objeto brilhante vindo do céu começou a descer na nossa direção, que no princípio achei ser um carro voador. Mas não.

Era a...

— Carruagem de Artémis – Grover completou, em voz alta. Era uma bela carruagem puxada por quatro cervos.

— Subam à bordo – a deusa ordenou – Vou leva-los ao Olimpo.

— Por que para lá? – questionei. Já tinha estado no lar dos deuses antes e aquela fora uma experiência surreal. Mas o tom de Artémis era tão sério que não achei que teria a mesma sensação em uma segunda visita.

— Meus companheiros olimpianos precisam ficar a par do que aconteceu aqui – A deusa assumiu as rédeas.

Ajudei Percy a subir enquanto seu processo de cura não terminara ainda. Grover e Thalia subiram em um salto.

Artémis guiou a carruagem para o alto, e eu não tinha ideia do quão rápido poderiam ser aqueles cervos.

Ω

Estávamos tão rápidos quanto a própria Carruagem da Danação, isso era óbvio. E a parte boa era que não gastaríamos um rio de dracmas.

A cicatriz de Percy se fechara por completa ao contato com água, mas ele ainda estava um pouco pálido, o que me preocupou.

— Ei – acariciei seu rosto – como está se sentindo?

Ele olhou para mim por um instante antes de passar um braço ao redor dos meus ombros.

— Vou melhorar, não se preocupe – ele garantiu, mas era visível que seus pensamentos estavam longe. Talvez na morte de Zoë ou em seu desgosto por Luke.

Pensando em Luke, olhei na direção de Thalia.

Ela estava sentada na beirada da carruagem, curvada para baixo, o rosto entre as mãos como se estivesse escondendo o choro. Mas eu sabia que não estava chorando, afinal de contas ela era Thalia.

Grover a observava também, sentado comportadamente ao lado dela e sem se mover. Seria quase hilário sua posição no grupo. Ele era o que menos se metia em dramas.

Artémis, quando não estava concentrada em nos guiar para o Olimpo, lançava olhares condescendente para Thalia.

— Sabe, Zoë já esteve na sua situação. Ela se apaixonou por um herói. Um que vocês conhecem muito bem: Héracles, ou Hércules como preferirem – ela olhou novamente para Thalia por cima dos ombros – Ela o ajudou no penúltimo dos Doze Trabalhos de Hércules, no qual ele deveria se apoderar de uma maçã do Jardim das Hésperides. Zoë era irmã das Hespérides, mas foi renegada por elas quando descobriram sua participação no roubo. Atlas a baniu do Jardim para sempre. E Héracles, por fim, a abandonou logo depois de conseguir o que precisava. Zoë veio à mim em necessidade, e eu a acolhi quando compreendi seu potencial – Artémis voltou a olhar para frente, para as nuvens que atravessávamos.

Thalia levantou a cabeça. Seus olhos não estavam vermelhos, mas era como se todo o brilho neles tivesse se apagado.

Eu tinha uma remota ideia das intenções de Artémis, e sua comparação entre Thalia e Zoë que apesar de serem duas situações um pouco diferentes, tinham de similar o elemento principal: Héracles pisara feio na bola com Zoë, e Luke seguiu o exemplo em relação à Thalia.

Voltei minha atenção para Percy. Ele não era como Héracles. Ele valorizava a amizade das pessoas, e faria de tudo por aqueles que ama.

Apoiei o rosto em seu ombro enquanto aguardava até chegarmos no alto do Empire State.