Percy Jackson Filmes
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Notas iniciais
Ponto de vista de Luke Castellan
Estava dirigindo pelas ruas de Cleveland, Tennessee. Havia acabado de roubar uma van de transporte Ford E350. You’re Going Down do Sick Puppies tocava ao rádio como trilha sonora. Estava satisfeito, muito. Olhei para trás, para o meu carregamento. Caixas com produtos alimentícios, refrigerantes, cervejas, um caixão dourado contendo os restos de um Titã, vinhos... tudo o que um semideus vingativo precisa para uma viagem. A casa de Silena ainda era o meu destino circulado no mapa.
Mas espera, como eu consegui o caixão de Cronos?
É uma longa história.
Flahback On – Profundezas do Mundo Inferior – Tártaro – Há um dia.
Cronos me mandou até o Tártaro, onde fiquei cercado de monstros adoráveis. Usei minha diplomacia, me apresentei, disse meus propósitos e como isso os favorecia. Claro que eles... tentaram me matar. Lutei com alguns deles. Quase morri. Eles até fizeram um corte no meu rosto. Mas acho que a soberania de Cronos os intimidou um pouquinho. Um semideus no Tártaro a mando do Senhor do Tempo tinha que ser levado a sério. Então fiz um acordo com eles: se me levassem até o caixão dourado e ajudassem a tira-lo de lá, depois de minha vitória contra os deuses, todos seriam libertados do reino de Hades. Caso eu não conseguisse essa vitória, eles poderiam me encontrar e fazer o que bem entender comigo, o que pra mim era um bom acordo, considerando que se eu perdesse contra os deuses, provavelmente morreria de todo jeito. E eles não tinham nada a perder, só a ganhar.
Com alguns monstros voadores, sobrevoamos o Tártaro por dois dias inteiros, e depois de todo o cansaço, a fome, e a sede encontrei o caixão nas profundezas daquele lugar.
Sair seria a parte difícil. Cronos não podia me mandar de volta, suas forças já tinham sido esgotadas quando me trouxe. Eu já tinha feito um favor a Hades antes levando-o a obter o Raio, não tenho culpa se o incompetente não conseguiu mantê-lo. Mas havia o fato de que ele provavelmente não sabia da minha participação, e ainda que se soubesse estava cagando pra isso. Por tais motivos, pedir permissão para atravessar seu reino levando o caixão de seu pai estava fora de cogitação. Tive que pensar muito até que uma ideia me ocorreu. As pérolas de Perséfone. Tinha que torcer para que ela estivesse com um dos amantes dela agora... tudo o que eu precisava era chegar aos aposentos da deusa, era a minha única chance. Os monstros não podiam chegar até lá, pois estavam presos magicamente no Tártaro e só podiam sair se Hades permitisse, o que ele fazia quando dava vontade. Mas eles poderiam me transportar com o caixão perto da borda, o suficiente para me arremessar até ela, e então estaria no Mundo Inferior.
Foi o que fizeram, segurei firme no caixão enquanto me arremessavam, e depois tive que superar o estado de zonzeira infligido pelo impacto com as pedras na beira do precipício que dava no Tártaro. Tudo bem, já tinha passado por uma etapa, agora faltava ir até o quarto de Perséfone esperando que ela esteja... hum, ocupada e roubar a pérola. O caixão teria que permanecer aqui por enquanto, não conseguiria carrega-lo sozinho e ele estava bem escondido atrás das pedras. Olhei para cima, ao longe se via o imponente castelo de Hades, seria impossível chegar lá andando, mas de acordo com as histórias que eu já ouvi, havia um barqueiro que transportava quem quisesse em troca de dracmas, e a minha sorte era que eu sempre guardava os meus dracmas no bolso interno da jaqueta. Examinei em volta, nenhum sinal de barco.
Andei por uma trilha, quando o avistei descendo remando para onde presumi ser os Campos de Asfódelo, por causa da forma do local: muito quieto para ser os Campos da Punição, e muito feio para ser os Campos Elísios... o que me fez pensar em Thalia imediatamente. Será que sua alma tinha vindo para o Mundo Inferior receber os méritos pelos seus atos heroicos, ou estaria presa á aquela árvore nas fronteiras do Acampamento?
Eu não sei. E isso me fez parar na hora. Uma súbita vontade de visitar o Elísio me atingiu, só para ser ignorada pela lembrança dela sendo transformada em uma árvore por Zeus. Era isso. Eu estava na direção certa. Vingaria Thalia primeiro, depois não haveria deuses que me impedissem de vê-la.
Continuei meu caminho até o barqueiro encapuzado. Ele mantinha seus olhos nas almas em volta. Objetos de todos os tipos flutuavam acima. Queria mais do que nunca sair daqui, então me aproximei do barqueiro, que ainda olhava em volta para depois fixar seus olhos negros em mim.
– Me leve ao castelo de Hades, e lhe darei meus dracmas como pagamento – disse a ele. Ele me fitou em silêncio por um instante.
– Os vivos devem pensar que o submundo é algum tipo de ponto turístico agora, pois recentemente três não-mortos visitaram esse lugar – ele continuou me olhando sinistramente – mas de qualquer forma, Hades não está em seu reino no momento, e não sei para onde foi.
Hades não estava? Isso era ainda melhor. Não correria o risco de ser encontrado por ele, e isso também significava que Perséfone deveria estar... acompanhada.
– Tudo bem, não vim para vê-lo, mas Perséfone – disse eu. Ele me encarou por vinte segundos antes de responder.
– Dois em um dia, acho que Perséfone não anda muito satisfeita com apenas um – disse ele. E entendi imediatamente. Bingo. Eu teria a minha pérola. O barqueiro estendeu a mão, e entreguei os dracmas a ele – Pode subir agora.
A viagem não foi tão longa quanto parecia, mas naquele lugar, segundos eram minutos. Ele parou o barco na entrada lateral do castelo, como disse sempre fazer com os amantes de sua senhora. Perséfone deve pagar bem ao barqueiro por seus serviços.
– Eu só venho até aqui – anunciou ele. Espero nunca mais precisar ouvir a voz grave e cavernosa desse cara. Desembarquei e logo o barco se afastava com seu dono.
Estava diante de uma porta dupla alta feita de madeira vernizada, desenhada com detalhes de cães infernais, candelabros a iluminavam fazendo-a parecer mais medonha do que já era. Esperava que ela não fosse dar no canil do Mundo inferior porque se não...
Abri a porta com cuidado, e adentrei o local com meus passos de gatuno, ninguém poderia me notar. Vaguei pelo castelo até encontrar um jardim. Perséfone é a deusa da primavera, ela deve gostar de ficar perto das flores, sendo assim seus aposentos devem estar por perto.
Andei um pouco mais até que...
– ... Oh Lady Perséfone, tu és tão maravilhosa. Quero passar a eternidade deitado junto a ti. Oh, oh... – caramba, cheguei na hora H.
– Meu marido não vai demorar a eternidade a retornar, querido... Ah, vamos aproveitar – conseguia ouvir tudo isso através da porta do quarto. Seria difícil passar por eles sem ser visto e achar a perola.
O lado bom é que presumindo-se que estavam nus, a perola deveria estar em algum bolso da roupa do amante que estaria jogada em algum lugar. Eu não podia contar com a possibilidade deles adormecerem depois, Perséfone não dormiria com o risco de ser encontrada por Hades. Era tudo ou nada. Abri a fresta da porta, o quarto era enorme, e estava quase escuro com apenas a iluminação da vela acesa em uma cômoda ao lado da cama com dossel. A minha sorte eram as cortinas vermelhas sangue no dossel, que impediam que me vissem e vice-versa. Só conseguia distinguir as sombras: Perséfone estava claramente por cima de quem quer que fosse por baixo e pelos gemidos já estavam... ah, preciso achar a pérola. Adentrei o quarto silenciosamente, como um ninja, olhei tudo em volta até fixar os olhos em um blazer jogado em uma cadeira perto de um piano vitoriano negro. Me esgueirei até lá sem o mínimo barulho, sempre agachado, enfiei a mão nos bolsos: nada. Olhei em volta, a calça estava jogada no centro do quarto, cheguei até ela praticamente me esfregando no chão. Tateei os bolsos até sentir, um caroço do tamanho de uma burca, tirei a pérola com cuidado para não deixa-la brilhar na escuridão do quarto. Pronto. Voltei com o máximo cuidado até a porta. Refiz meu caminho de onde tinha começado. Passando pelo jardim. Encontrei a saída pelas portas duplas. Agora...
Como chegaria até o caixão de novo...
Caramba... a fome e o cansaço não me deixavam pensar.
Estava sem dracmas e não tinha nada que levasse até lá embaixo.
“Use o... artefato mágico de Hades... nos aposentos dele”
Essa voz... Cronos. Ele parecia mais sem forças do que nunca agora. Provavelmente pelo esforço de me trazer para cá.
– De que artefato você se refere, meu senhor? – perguntei a ele.
“Meu filho têm um... argh objeto que o faz aparecer... e desaparecer... onde bem entender”
Fechei os olhos com força. Se tinha um artefato que pudesse fazer isso, eu tinha perdido tempo com a pérola.
– Se eu soubesse disso... – comecei para ser interrompido.
“Se você soubesse de muitas... coisas... filho de Hermes.”
Cerrei o maxilar. Odiava ser chamado de filho de Hermes.
– Tudo bem, como posso encontrar este artefato? – perguntei.
“Os aposentos de Hades... segundo seus monstros ficam... no... argh, não importa, use a pérola para chegar até lá, procure um objeto redondo, circulado em ouro e uma esfera verde... no meio... uma corrente... quando o encontrar, segure-o e pense... para onde quer ir...”
E foi o que fiz. Apareci em um quarto um pouco mais grande do que o de Perséfone, só que sem duas pessoas transando na cama. Vasculhei-o até encontrar, era três vezes maior do que um relógio de bolso. Segurei-o e visualizei o caixão dourado, a esfera verde no centro brilhou e então desapareci...
... e apareci perto da beira do Tártaro, o caixão de Cronos ainda atrás das pedras. Eu iria sair desse lugar infernal. Com a mão livre encostei no caixão pronto para desaparecer com ele.
“Luke...”
– Sim, meu senhor.
“Quando meu caixão for para o mundo mortal... não terei mais nenhuma força... não poderei me comunicar com você, exceto ouvi-lo... não me desaponte Luke, sua missão de agora em diante é restaurar minhas forças... com magia poderosa, a magia poderosa do Velocino de Ouro.”
– O Velocino de Ouro? Tudo bem, entendo meu senhor, não o desapontarei, terá sua vingança e eu terei a minha – afirmei a Cronos – vou leva-lo a um lugar mais seguro agora...
Pensei em ir para onde estava indo antes de vir parar aqui, mas teria que ser um ponto estratégico, onde eu poderia usar algo para transportar o caixão. Puxei o mapa do Tennessee dobrado no meu casaco. Perto de Cleveland havia uma cidade pequena chamada Hopewell... era isso.
Então me transportei com o caixão só para me encontrar em um armazém fechado. Ótimo, assim ninguém me veria e não precisaria responder porque carregava comigo um caixão dourado de dois metros. Uma van preta um pouco suja de barro estava rodeada de caixotes. Algo me diz que esse lugar ainda estava em recente uso. Eu tinha o caixão, transporte, comida e motivação, só o que precisava agora era chegar no local certo para me organizar.
A casa de Silena ainda era a melhor opção. Eu não tentaria avisa-la da minha visita, ela poderia não estar mais jogando no meu time, avisaria o Acampamento antes da minha chegada e isso poria tudo a perder.
Teria que surpreende-la. Então assim eu fui...
Flashback Off
E aqui estou eu a caminho do sucesso.
Silena morava em uma casa moderna, dois andares, o muro elevado não permitia ver muita coisa, mas via-se que o granito branco cobria a parede da casa inteira, as janelas de vidro do segundo andar com cortinas brancas. Praticamente tudo branco. O pai dela deve ser cirurgião ou algo relacionado com isso.
Estacionei na frente da casa, sai da van e olhei tudo em volta. Calmo. Toquei a campainha eletrônica do elegante portão. Segundos depois uma voz de homem perguntou:
“Quem é?”
– Ah, Luke Castellan, amigo da Silena – respondi em tom de voz casual. Um minuto depois, um clique no portão. Acho que alguém desejava me ver. Entrei e o portão se fechou atrás de mim.
Andei pelo calçamento de pedra branca que daria até a porta dupla dourada na entrada. Antes que a alcançasse, ela se abriu e um senhor aparentando ter meia-idade saiu.
– Olá, senhor Castellan, sou o mordomo da família Beauregard, Silena pediu que eu o acompanhasse até seus aposentos – então eu o segui entrando na casa, mortalmente sofisticada e bem decorada. Ele me guiou por uma escada de aço negra, viramos em um corredor com oito portas, eu contei – o quarto da senhorita é o segundo a direita, ela está a sua espera – e com isso ele voltou e desceu as escadas.
Fui cuidadosamente até a porta, não sabia o que esperar. Não bati para entrar, apenas girei a maçaneta, entrei e...
... Uma mochila quase acertou a minha cara. Assim, simplesmente.
– Quem...? – indaguei desviando da mochila e segurando o braço do agressor – Silena – soltei-a, olhando ameaçadoramente.
– Seu idiota, todos estão pensando que você está morto. Já faz seis dias. Qual seu problema? Por que apareceu por aqui... – tapei sua boca com a mão. Ela já estava falando alto demais. E uma súbita vontade de esmagar o seu crânio me invadiu. Ela esqueceu com quem estava gritando?
– Silena, apenas se controle – falei perigosamente calmo – vim aqui porque preciso... – ela tentou se soltar. Aumentei o aperto na minha mão. Não me importava mais se a estava machucando. Na verdade não me importava mais quem eu machucaria para conseguir o que queria — ... da sua ajuda, mas antes só vou falar uma coisa... e não me pergunte porque estou com um enorme curativo no rosto, nada para se preocupar. Escute, tudo vai mudar daqui pra frente. Eu não vou mais te dar motivos para ficar do meu lado, é, exatamente, sem mais persuasão ou ameaças, ou está comigo ou não está. O mesmo vai valer para os outros. E dessa vez Silena... – um sorriso malvado passou pelo meu rosto — ...dessa vez vai ser bem diferente. Sem mais roubos à armas divinas. Sem mais essa de esperar os deuses destruírem uns aos outros. Eu vou destruí-los por minha conta – trouxe a para mais perto – de agora em diante, eu e você não temos mais nada em particular. Aliados em uma guerra, é a única coisa que seremos. Está ou não comigo?
Ela olhou nos meus olhos, que provavelmente refletiam um brilho maníaco. E isso não me importava.
– Estou – respondeu ela por fim. A resposta que eu esperava. Para ela, Afrodite e os olimpianos eram mais merecedores de ódio do que eu. E sei que ela adorava a ideia de ter poder acima dos deuses.
– Ótimo, Silena, agora, o favor que preciso. – sentei-me na cama de casal dela e ordenei que ela fizesse o mesmo, ela se sentou, parecia um pouco abalada, talvez intimidada? – Chris e os outros ainda estão no Acampamento? – ela assentiu.
– Sim, com exceção dos outros que estão fora por causa das férias de verão ou outro fator – informou ela.
– Quantos? – perguntei.
– Acho que só três – noticiou. Ótimo, se estavam fora pelas férias de verão, não eram suspeitos de nada.
– Teve notícias de alguém?
– Sim, Chris soube de sua derrota Luke, e mandou imediatamente os seus pertences mais importantes para mim – ela apontou a mochila que antes havia quase acertado minha cara – seu celular, objetos mágicos e qualquer coisa que eles pudessem confiscar no Acampamento. Ele disse que aquele garoto Jackson e a filha de Atena, Annabeth, aquela metida a boazona... aquela...
– Silena – intercedi.
– Desculpe, então, ele disse que os dois retornaram ao Acampamento, e conversaram com Quíron sobre tudo o que havia acontecido na viagem e a luta no Monte Olimpo... aquele centauro apenas os parabenizou pela missão, e o sátiro chamado Grover que estava com eles voltou um dia depois. Para eles você está morto, Luke. – terminou ela. Me levantei da cama e fui até a mochila. Meu Notebook Apple, meu celular Samsung, minhas adagas, e meus objetos especiais estavam lá dentro.
Peguei meu celular e liguei-o. Uma foto do Acampamento cobria a tela inicial como papel de parede. A lembrança daquele lugar apenas me deixou com mais raiva. Os peõezinhos dos deuses achavam mesmo que seu líder estava morto. Isso só deixava tudo mais interessante. Entrei na minha galeria de imagens. Mais fotos daquele lugar. Eu e os campistas do time azul do jogo Capture a Bandeira levantando a bandeira vermelha. Uma foto de quando tinha 13 anos, Quíron me ensinando atirar com arco e flecha. 14 anos, Annabeth, Grover e eu pertos da fogueira. Outra foto, essa foi tirada a quatro meses, era só Annabeth, os cabelos castanhos avermelhados, olhos azuis topázios, a armadura marrom bem ajustada no corpo deixando-a parecida com uma deusa guerreira, ela estava sorrindo...
Chega. Chega.
Deletando todas as minhas fotos do Acampamento. Quem precisa delas?
Silena me observava, como se esperasse que eu desistisse do meu próprio plano.
– Silena... eu vou ficar aqui por uns dias, até me organizar, arrumar o que preciso, ninguém vai desconfiar de você. Avise a Chris que eu voltei, diga a ele que precisaremos de armas, muitas, mas que seja sutil e cuidadoso, me dê o endereço dos outros que estão fora do Acampamento, vou convoca-los... e vou precisar de um lugar muito seguro para estacionar minha van. Agora.
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