Ponto de Vista de Annabeth

Os campistas geralmente traçam uma rotina aqui no Acampamento Meio-Sangue, acordamos as 6:00 horas, tomamos café até 6:30, depois temos aulas como o Estudo da Mitologia e Matemática, realizamos as atividades físicas. Das 12:00 até 13:00 horas almoçamos, depois Grego Antigo, arco e flecha e esgrima. Temos um tempo livre depois. Todos tomam banho e jantamos.

Alguns semideuses não seguem essa rotina muito bem ou não querem. Por exemplo, os filhos de Afrodite participam uma vez por semana das atividades físicas, os filhos de Ares odeiam os estudos teóricos e botânica.

Em todo caso, a maioria de nós acorda cedo. Seja para treinar ou vadiar.

Mas alguns semideuses criaram a terceira opção: dormir até tarde.

Estava eu, caminhando até a área de estudo, já eram 9:00 horas, teríamos Matemática agora. As salas de estudos são bem abertas, por isso é um lugar bem arejado. Onde eu estava, havia quase 60 campistas. A aula se estendeu por quase uma hora. E em nenhum momento Percy apareceu. Onde ele estava? Até Clarisse veio para a aula, na metade dela pelo menos.

Quando a aula terminou fiz meu caminho pela praia, direto para o chalé de Percy. Alguns campistas cavalgavam, outros já corriam para pegar as armaduras de treino.

O único problema do chalé é que fica muito perto do ponto onde as filhas de Afrodite ficam se banhando e fazendo topless. Não que isso me incomode de alguma forma... mas penso eu que... sei lá, incomode o Percy.

Já havia chegado ao chalé, andei só até a entrada que era aberta e chamei por Percy. Nada. Talvez ele não estivesse ali. Ou talvez...

Dormindo. Claro.

Percy dorme até tarde e depois pergunta por que o chamo de cabeça de alga. Não tem despertador? Fala sério. Será que é tão difícil configurar o alarme do celular?

Sempre que encontro Percy dormindo ao invés de estar fazendo algum progresso, acordo ele da forma mais suave possível. Mas isto está para mudar.

Caminhei até a cômoda ao lado da cama de solteiro dele, peguei um copo vazio de Macchiato de Néctar, andei até a pia do banheiro e enchi o recipiente de água, voltei até a cama. Ele adora água, que diferença vai fazer agora, não é mesmo?

— Ah! – exclamou Percy depois que o encharquei. Ele passou a mão no rosto e nos olhos, depois me avistou parada ali com uma expressão séria.

— Melhor assim? Acha que suas energias voltaram? – perguntei. Ele suspirou.

— Qual é, Annabeth. Foi meio desnecessário – respondeu ele. Ergui uma sobrancelha.

— Foi? – questionei. Joguei o copo em um balde de lixo do outro lado da cama – Você faltou à todas as aulas dessa manhã. Dá última vez, foi porque estava jogando Angry Harpies. Agora, dormindo. O que? Você acha que as aulas teóricas não servem para nada...

— Não é isso, Annabeth – cortou ele. Depois suspirou mais uma vez – eu... perdi a hora, só isso. Pega leve.

Foi a minha vez de suspirar, me sentei na beirada da cama, de frente para ele. Desde o Torneio, tudo ficou estranho. Percy já não é o mesmo. Não sei o que está acontecendo com ele.

— Percy... você quer conversar? Se você quiser... – tentei oferecer, mas ele começou a balançar a cabeça.

— Não, não – ele olhou para mim – obrigado Annabeth, você está aqui comigo, e me escuta quando preciso conversar, isso já é o bastante. Muito diferente de... dos outros.

— Que outros? – franzi a testa – você se refere ao Grover? Os outros campistas? – respirei fundo – você está falando de Poseidon. Claro – olhei para baixo.

Era fácil entender Percy, principalmente agora que não conseguia me comunicar com Atena desde o Olimpo. Sempre fui acostumada a não precisar da atenção dela, muitos campistas aqui são assim com os outros deuses. Mas Percy só descobriu que é um semideus há cinco meses, ou ainda, só descobriu a identidade do pai dele há cinco meses. Não é estranho ele querer manter um certo contato, mas vai precisar se acostumar a não ter isso. Pelo menos não na hora que deseja.

— Seria bom se ele me enviasse algum sinal, sabe? Eu envio orações a ele, faço as oferendas com as refeições todos os dias em nome dele. Mas... não há nada. Ele está me ignorando, e eu não sei porque – desabafou ele.

— E sobre o que você tenta conversar com ele que não pode conversar comigo e com o Grover? – perguntei. Ele inclinou a cabeça para cima.

— Não é exatamente o assunto que é relevante, mas a relação. Ele é meu pai – respondeu Percy. Encarei a expressão derrotada no rosto dele por quase quinze segundos. Depois abri um pequeno sorriso. Ele olhou para mim – que foi?

— Se o assunto é irrelevante, não haverá problema algum em me contar, não é mesmo? Vem – me levantei da cama e ofereci as duas mãos a ele. Confusão passou por seu rosto, mas ele aceitou ser puxado para cima – duas horas, por duas horas vamos esquecer o resto das aulas – olhei para o cais na parte externa do chalé – eu levo tudo para lá enquanto você se troca e escova os dentes. Vinte minutos, combinado? Certo.

Andei até a saída do chalé, deixando Percy ainda com expressão confusa, me virei para ele antes de ir.

— Vinte minutos – avisei. Então me apressei até o refeitório.

Vinte e um minutos e trinta e sete segundos depois estava de volta ao chalé com uma bolsa e um isopor branco nas mãos. Entrei avistando Percy sentado na rede de balanço. Ele havia trocado a roupa de dormir por um short preto e camiseta vermelha, seu cabelo estava quase decente.

— O que planejou? – perguntou Percy divertidamente em dúvida. Fofo.

— Nunca fez um piquenique? – franzi a testa brincando – Sabe, consiste em estender uma toalha em algum lugar ao ar livre e...

— Eu sei o que é um piquenique – interrompeu ele sorrindo – mas por quê?

— Hum, bem. Está vendo aquele cais, – apontei para o local lá fora – é claro que está, já deve ter levado muitas filhas de Afrodite para lá – ele levantou as sobrancelhas sorrindo mais ainda – e você nada naquele lago, então... – fiquei mais séria agora – eu sei, você quer conversar com Poseidon, então enquanto você me conta o que está acontecendo, vai estar falando com seu pai também.

Ele me observou, talvez pensando em alguma coisa.

— Tudo bem. É uma ótima ideia. Que bom que pensei nela, não é mesmo? – brincou ele enquanto eu sorria e respondia com um “Uhum”.

Andamos até o final do cais e nos sentamos na borda.

— Isso é um déjà vu – comentou Percy enquanto eu tirava duas latas de refrigerante de dentro do isopor – exceto pela comida e o pano. O ambiente também está um pouco diferente, mas a água – ele olhou para o lago – e a conversa familiar que estamos prestes a ter...

— Exatamente. Agora conta. Tudo – exigi. Ele suspirou pela milésima vez aquele dia.

Percy me contou várias coisas. Contou como ele se sente mal por perder tantas competições para Clarisse La Rue

— Ah, mas teve aquela... – comecei. Percy negou com a cabeça.

— Clarisse – cortou ele.

Contou que sentia que apenas passou pela nossa missão graças a mim e Grover.

— Qual é Percy, você arrasou naquela missão. Mesmo se não estivéssemos com você...

— Não, não, não. Você mesma disse antes de aparecer do nada naquela noite: Eu só havia ganhado uma batalha, eu precisaria da sua experiência. E precisei mesmo – argumentou ele. Bem, tenho que admitir que não havia dito aquilo só porque queria ir na missão. Seria suicídio ir sozinho. Mas não só para Percy, para qualquer um.

Eu disse isso a ele, que pareceu refletir. Mas não sei em que pé estávamos.

E por último ele contou algo que eu praticamente já sabia: como ficava sentado nas pedras perto do lago tentando contar a Poseidon tudo o que acabamos de conversar.

Eu meio que ponderei as coisas. Pelo que sabíamos, o deus dos mares só tem um filho, Percy, então não deve ser muito difícil coordenar a distribuição de atenção. Diferente de mim que tenho irmãos e irmãs, e nenhum de nós poderia monopolizar Atena. Mas os deuses são seres altamente ocupados tanto quanto egoístas.

Eu só não queria um Luke 2.0 prestes a ameaçar o Olimpo, mas seria besteira considerar isso. Percy não é rancoroso. Eu acho.

— Quíron – exclamei.

— Onde? – perguntou Percy olhando para trás e para os lados.

— Não, acho que você deveria falar com Quíron sobre isso – aconselhei. Percy me olhou de testa franzida.

— Você conversa com Quíron quando tem problemas maternais? – perguntou ele.

— Eu não, mas você não precisa tratar disso como se o problema fosse apenas paternal, sua autoestima está baixa. Quíron é um ótimo conselheiro, você poderia escrever uma carta a ele – respondi. Ele olhou para o lago, esperei ele dizer que consideraria o que eu disse. Mas ele continuou batendo o dedo na mesma tecla.

— Viu? Nada, nenhuma onda ou borbulho na água...

— Ah, Percy – exclamei.

— Tudo bem, tudo bem – ele respirou fundo – vamos esquecer isso. Eu vou tentar seguir o seu conselho.

Permiti um pequeno sorriso.

— Mas você está errada – disse ele. Meu sorriso virou uma careta. Primeiro: ele disse que eu estava errada. Segundo: o maldito assunto havia voltado – eu não trago filhas de Afrodite aqui. É a primeira garota que vem para cá.

Bufei um meio sorriso.

— Eu sei – afirmei, sorrindo ligeiramente presunçosa. Ele ergueu uma sobrancelha.

— Sabe? – perguntou, guardando o papel amassado do sanduiche dele dentro da bolsa.

— É, sei sim. Filha da deusa da sabedoria – respondi. Ele sorriu. E reparei em uma coisa no rosto dele, clareado pelo sol do meio dia. Percy estava com alguns pontinhos pretos na face. Barba nascendo.

Quando ele chegou aqui, seu rosto era liso como o de um bebê, sem sinal nenhum. Mas como qualquer rapaz de 17 anos, sofreria algumas mudanças, e eu teria que me acostumar. Não só no rosto, mas também no corpo dele. Ele não cresceu, isso realmente não mudou. O que cresceu, eu percebi, foi sua massa muscular, não como se ele estivesse musculoso como os filhos de Ares, mas os músculos do braço aumentaram, principalmente se comparado com seu primeiro dia no Acampamento. Ele estava... fofo, mas longe de ser no sentido de gordura.

Ou eu fiquei tempo demais apreciando as mudanças dele ou eu não fui sútil. Possivelmente os dois. Ele notou.

— O que foi? – perguntou ele.

— Sua barba – deixei escapar – quero dizer, você vai ter que se barbear daqui pra frente.

Ele pareceu confuso, depois colocou a mão direita ao lado do rosto, checando.

— É, já consigo sentir a aspereza. Aqui, senti só – ele pegou a minha mão e colocou-a no rosto dele. Não foi só os pontos escuros ásperos que consegui sentir, a temperatura dele estava quente. Talvez fosse só o sol. Talvez.

A minha mão deve ter grudado no rosto dele, porque ela ficou deslizando por ali por um tempo significativo. Foi então que me lembrei que para ela sair dali, eu teria que retira-la. Eu só não queria fazer isso, Percy já havia fechado os olhos. Não vi problema em puxar de leve o rosto dele perto do meu, também não vi problema em fechar meus olhos, outro problema que eu não via era aproximar os lábios dele até os meus...

— Ei, pessoal!

Desgraça.

Percy e eu nos afastamos depressa para olhar para trás e ver Grover saindo de dentro do chalé, caminhando em direção a nós.

— Gente, eu... – ele olhou para nós – interrompi alguma coisa?

— Não – menti.

— O que aconteceu? – perguntou Percy suspirando. Ele parecia muito desapontado.

— Como já é quase horário do almoço, Quíron vai fazer um anúncio antes, lá no refeitório, sobre o Jogo dos Obstáculos que vai acontecer daqui a três dias. Ele pediu para chamar todo mundo – respondeu Grover.

— Jogo dos Obstáculos? – perguntou Percy.

— É, sabe aquele curso de treinamento que você não fez porque arrumou confusão com a Clarisse? Era para treinar para esse jogo, os competidores terão que chegar ao alto de uma espécie de torre cheia de obstáculos, e pegar um disco de metal. Quem fizer isso primeiro ganha – respondeu Grover.

Percy se virou para mim.

— Você vai participar? – perguntou ele.

— Hã, acho que não. Dessa vez não – respondi. Eu não gostava muito desse jogo, já participei e cheguei a ganhar só uma vez, mas não era a minha praia não.

— Por que? – questionou Percy.

— Porque assistir ao jogo é mais emocionante – respondi. O que é totalmente verdade.

Percy ergueu as sobrancelhas, considerando.

— Vai torcer por mim pelo menos? – quis saber ele.

— Claro que vou – dei um tapinha no ombro dele – agora vamos, temos que chegar ao refeitório.

Grover que estava observando tudo, pegou o isopor para levar de volta. Nós três voltamos conversando sobre o jogo, e eu informava â Percy o que ele precisava saber.

Já tinha quase esquecido o que quase aconteceu no cais. Mas haveria tempo para isso depois. Eu acho.