Ponto de Vista de Percy

Eu já havia sido castigado por Quíron antes, apenas por um reles incidente que até não me lembro mais. Naquela circunstância, minha penitência só havia durado dois dias. Mas dois meses? Quíron foi um pouco impetuoso.

E como sempre, eu não provoquei o castigo, muito menos aquela luta. Quer dizer, nós lutamos, sim. Mas achei que Thalia estava tentando capturar a bandeira e eu tentava impedi-la. Por um momento foi apenas isso, mas aquela garota queria meu sangue!

Eu não disse nada a Quíron porque ainda estava tentando descobrir o que havia acontecido. E eu também estava desorientado com o que eu acabara de fazer. Aquele ciclone de vento que eu criei surpreendeu meus padrões de poder. E é claro, os raios de Thalia também foram chocantes. Sem trocadilhos.

Eu desejava ter uma conversa com a filha de Zeus, mas nada poderia fazer em relação a isso. Esperaria o dia de amanhã, confinado em meu chalé. E como suas estruturas são abertas, eu teria que observar o brilho e a fumaça da fogueira ao longe, onde estariam meus amigos e todos os outros. Tentei não me sentir satisfeito pela falta de celebração já que não haveria o que comemorar.

— Vai ficar bem ai, cara? – perguntou Grover, antes de me deixar para ir “encontrar as ninfas”.

Tudo bem, eu mesmo fiz questão que ele fosse. Eu estava de castigo, não ele. Grover também disse que levaria Tyson com ele, o que era ótimo. Eu só esperava que Annabeth aparecesse por aqui, mesmo que fosse para me dizer “oi”. Ou também, talvez, que ela ficasse comigo, fazendo-me companhia.

— Vou. Divirta-se – respondi.

Ω

A pior parte nem era o isolamento, mas o déficit de atenção não deixava com que mantivesse-me parado por mais de um minuto. E os objetos a minha volta, como os mapas antigos de navegação em cima da minha mesa de escritório, o globo terrestre, o telescópio, o barco de madeira que servia como ornamento, até o tridente que eu segurava estava me deixando aflito. Eu tentei de tudo, deitar na rede de balanço, jogar Angry Harpies, mas era em vão. E Quíron deixou bem claro, antes que eu retornasse ao meu chalé, que o lago estava vedado aos meus mergulhos. Então, apenas o que poderia me livrar dessa condição era a presença sólida de alguém, qualquer um, mas de preferência, Annabeth.

Ficar detido aqui me ofereceu tempo para refletir. E a minha reflexão foi que eu estava sentindo falta de minha melhor amiga. Muita falta. Talvez porque agora Thalia havia voltado e eu teria que partilhar a atenção de Annabeth com outra pessoa, e a nossa missão atrás do Velocino nos deixou, se for possível, ainda mais próximos. Isso me fez lembrar do que ela me disse sobre meu destino. E o meu destino me fez lembrar da profecia. E a profecia me fez lembrar de... Thalia.

Eu disse à mim mesmo que não voltaria a me preocupar com profecias. Escreveria meu próprio destino como aconselhou Annabeth. Mas a dúvida de quem seria o meio-sangue que a profecia citava não saía da minha cabeça.

— Toc toc – ouvi uma voz dizer, do lado de fora do meu chalé. Tinha 99,9% de certeza que pertencia a uma garota. E a mesma porcentagem se aplicava a certeza de que, para minha infelicidade, não era Annabeth.

— Quem é? – mesmo que meu chalé fosse aberto, ainda havia as grandes lonas brancas cobrindo parte do lugar, como cortinas. Então não havia muita visibilidade para que pudesse identificar a pessoa.

— Camareira – retrucou a voz. A voz pertencia à Clarisse, disso eu tinha quase certeza. Mas o que ela fazia aqui?

— Entre – pedi.

A filha de Ares surgiu, iluminada pela claridade que os lampiões lhe ofereciam.

— Você parece entediado – observou Clarisse.

— Estou aqui há quase duas horas, sem nada para fazer – “e ninguém que se importe com isso” era o que eu queria complementar, mas eu teria soado frágil aos ouvidos de Clarisse.

— Parece maravilhoso. Eu tenho que voltar, aqui, seu jantar – ela deixou uma bandeja com comida, algo que eu não havia reparado ao vê-la entrar.

— Trouxe meu jantar? Quanto pagaram à você? Mil dracmas?

Clarisse ergueu uma sobrancelha, mas a expressão era séria, sem vestígios de graça.

— Foi um favor – respondeu seca.

— Um favor? Você me fazendo um favor?

Ela permaneceu ainda séria, mas indecifrável.

— Eu tenho que ir – ela andou depressa até a saída antes de parar bruscamente e se virar com um olhar ardil – Annabeth pediu para avisar que estará aqui em trinta minutos – e saiu.

— Obrigado – murmurei.

Inacreditável.

Por que Clarisse me faria um favor?

Até a ideia de ela ter aceitado dinheiro para isso fugia à realidade.

Ao menos Annabeth viria me visitar, isso era ótimo. Vê-la é sempre ótimo.

Agora eu apenas precisava esperar por alguns minutos.

Annabeth sempre foi pontual, o que me preocupou. Se algo aconteceu com ela?

Era a única explicação para ela não ter aparecido ainda, pois já haviam se passado mais de cinquenta minutos. Nenhum sinal. E o meu sono aumentava me deixando letárgico. Desabei na rede de balanço e fechei os olhos...

...para depois abri-los, ao ouvir o despertador ressoar, indicando que a manhã já havia chegado. Para a minha sorte era sábado, não haveria aulas teóricas hoje.

Andei quase como um zumbi até o banheiro. E dez minutos depois retornei, pronto para mais um dia no Acampamento Meio-Sangue.

Ω

Pensei em demonstrar que estava um pouco magoado com Annabeth por não ter aparecido na noite passada, mas eu não fazia a menor ideia de quais eram seus motivos. Então comandei a mim mesmo para agir como se tudo estivesse bem, pois era desse jeito que deveria estar. Ás vezes eu me surpreendia com as minhas próprias expectativas em relação à Annabeth. Não tinha porque exigir explicações dela se somos apenas ótimos amigos.

Ela me cumprimentou quando alcancei a mesa do refeitório para tomar café da manhã. Grover e Tyson já estavam ao seu lado, mas Thalia não se encontrava.

— O que houve com você? – o plano de não exigir explicações caiu por terra.

Annabeth não pareceu surpresa com a minha pergunta, como se já a receasse.

— Percy, desculpe por ontem. Eu estava ajudando... Thalia com uma coisa.

Teria sido melhor se ela dissesse que simplesmente mudou de ideia e não desejava me ver ontem.

A parte mais estranha foi que isso me enciumou. Eu estava com ciúme de Annabeth com outra garota. Tenho quase certeza de que isso não é normal.

Annabeth notou que me retesei.

— Realmente, me desculpe. Eu prometo...

— Tudo bem. Eu preciso ver Quíron, ainda tenho muito castigo para cumprir – levantei-me da mesa. Annabeth me olhou como se estivesse um pouco entristecida com o meu comportamento.

— Nem sequer vai terminar o café da manhã? – perguntou Grover, ao lado de um Tyson confuso.

— Estou legal – deixei o refeitório sem ao menos olhar para trás.

Ω

Tentei não me sentir ainda mais ressentido com Thalia. Era uma tentativa falha.

Havíamos tido uma luta hedionda e agora eu me sentia postergado pela minha melhor amiga. Eu nunca faria Annabeth escolher um lado, mas a situação era tensa.

E como a sorte anda de mãos dadas comigo, eu teria que encontrar Thalia assim que chegasse à Casa Grande, pois teríamos que efetivar nossa punição juntos. Eu só esperava que se tivéssemos que conversar, seria algo mais ameno.

Quando cheguei ao escritório de Quíron, Thalia já estava sentada em uma das poltronas marrons.

— Vejo que mais alguém também resolveu pular a refeição matinal. Não é algo que aconselho fazer antes de um castigo extenso. Mas espero que meditem sobre isso, hoje é sábado e ambos não precisavam estar aqui – palestrou Quíron.

Toda vez que eu pensava sobre meus castigos, a perplexidade me alcançava. Eu era no mínimo 90% inocente em todos os casos. Aquela pessoa errada, no lugar errado, na hora errada.

— A punição de vocês hoje será a seguinte: Ambos vão percorrer a floresta do Acampamento à procura de...

“Que pelo menos sejam monstros. Um pouco de ação seria ótimo” pensei.

— ...lixo.

— Oi? – ao meu lado, Thalia perguntou.

— Exatamente. Muito do lixo mortal acaba parando nas fronteiras do Acampamento, e as ninfas, sátiros e espíritos da natureza são encarregados com a função de limpar a flora. Hoje esse cargo é de vocês. E como estarei muito ocupado com os treinos dos outros campistas, deixarei que outra pessoa supervisione vocês – o centauro olhou para a porta dupla do escritório – Entre, por favor.

Annabeth entrou no aposento, decidida. Seus olhos passaram de Thalia para mim, antes de se virar para o nosso mentor.

— Annabeth? – exclamei, confuso.

— Eu queria ter avisado você antes de ter deixado a nossa mesa. Quíron me solicitou para acompanhar vocês dois.

— Você quer dizer supervisionar – corrigi. Olhei de relance para Thalia. Ela não estava surpresa, provavelmente porque já fazia conhecimento de tudo.

— Ela apenas irá conferir se tudo vai corretamente. Ela não poderá ajudar vocês com nada. Conto com você, Annabeth – falou Quíron – Podem ir.

Ω

Onze minutos de caminhada nos levaram até a floresta ao leste do Acampamento. Onze minutos de silêncio nos levaram até uma posição grupal desconfortável. Thalia e eu não nos olhávamos enquanto tudo o que Annabeth fazia era nos observar.

— Acho que aqui já está bom para começarmos – com “começarmos”, Annabeth se referia à mim e a filha de Zeus – se formos em direção ao sul, quando terminarmos à volta ao Acampamento estaremos...

— Tenho uma ideia melhor – interrompi. Annabeth quase pareceu ultrajada, e Thalia olhou para mim pela primeira vez desde a Casa Grande – Vou por um lado e Thalia pelo outro, assim nos encontraremos no meio do percurso. Vai nos poupar tempo.

— Não há nada de melhor nessa ideia. Eu tenho que ficar de olho em vocês dois. Como farei isso se cada um for para um lado? – perguntou Annabeth.

— O que você receia, exatamente? Que um de nós não cumpra o castigo? – revidei, com certa tranquilidade.

Thalia, que estava às costas de Annabeth, sorriu. Não um sorriso que se dá quando se está de acordo com a pessoa ou achando graça na situação, mas aquele sorriso de “entendi suas intenções”.

— Nós não faremos desse jeito, Percy. Adapte-se ao plano original, pois é a única opção – avisou Annabeth.

“Plano original ou o seu plano?” — pensei.

— Vamos começar logo – suspirou Thalia, pegando uma luva de borracha e um saco preto. Eu segui seu exemplo.

Ω

A cada cinco minutos, eu olhava de relance para os lados para ver se Annabeth e Thalia estavam interagindo uma com a outra. E, é claro, a cada cinco minutos eu me sentia um imbecil. Thalia estava examinando ao redor do terreno, procurando pelo lixo dos mortais ou até mesmo os dos não-mortais. Annabeth apenas nos acompanhava, as vezes anotava algo em um pequeno pergaminho que mantinha no bolso. Da vez que ela me pegou observando-a anotando, acabou sorrindo sem graça.

Calculei que estávamos na metade do castigo quando Annabeth se aproximou de onde eu estava.

— Como vai indo?

— Encontrei algumas sacolas plásticas e latas de refrigerante. Nada mais – olhei para seu rosto. Ela parecia estar esperando que eu acrescentasse algo – desculpe por isso.

— Pelo quê?

— Não precisava estar aqui conosco. Poderia estar aproveitando o sábado, mas Quíron mandou você...

— Ele não mandou, eu pedi à ele para me deixar acompanhar vocês. E você também não precisava estar aqui. Thalia me contou o que aconteceu, não foi sua culpa.

— Por que pediu à Quíron para estar aqui? – perguntei.

— Meus sábados não são tão incríveis quanto você pensa – respondeu simplesmente. Eu a encarei perplexo, fazendo-a sorrir – e andar com meus melhores amigos não é um castigo.

Ofereci, de brincadeira, um saco preto para ela.

— Ah não, não. Esse é o seu castigo – Annabeth riu, o que também me fez rir.

Um clima agradável nos alcançou.

— Então... – começou Annabeth – não sei se já comentaram com você, mas... dia 4 haverá uma comemoração na praia do Acampamento...

— Comemoramos o 4 de Julho? – questionei. Não sabia se semideuses e seres mitológicos comemoravam feriados mortais, ainda mais um feriado nacional.

— A maioria aqui é metade mortal, então sim. E a comemoração é meio superficial se for avaliar. Mas é um jeito de descontrair, eu imagino – esclareceu ela.

Assenti. Annabeth continuou.

— Voltando ao ponto principal, faremos uma comemoração na praia, haverá fogos de artificio do pessoal de Hefesto, e eu gostaria de saber... quer ser meu acompanhante?

Demorei tempo para compreender o que ela estava perguntando.

— O que quer dizer com “acompanhante”?

— Ah, bem, praticamente todos vão na comemoração, mas tradicionalmente em dupla. Tudo bem se não tiver afim... – ela realmente parecia desapontada com a minha hesitação.

— Não! Quer dizer, claro, com certeza, aceito, 100%, pode apostar, vou com você.

— Sério?

— Já estou esperando por você lá na praia.

— Percy, é só daqui uma semana – disse ela.

— Eu sei, foi apenas... força de expressão.

Annabeth sorriu, depois olhou repentinamente para onde Thalia estava.

— Hã, eu tenho que ver como ela está...

— Tudo bem, vai lá – falei, tranquilo. Ela me lançou uma piscadela e andou em direção à amiga.

Dessa vez, não senti descontentamento. Annabeth me convidou para o 4 de Julho, não Thalia.

Notas finais
Oi pessoal, já viram que eu não sou muito de deixar notas, mas eu só queria relembrar (algo que eu já havia dito em um capítulo anterior) que eu possuo essa fic no Social Spirit, e lá ela está (acidentalmente) mais completa, e com um capítulo á mais do que aqui. Então, se quiserem dar uma conferida, este é o link: https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-percy-jackson-os-olimpianos-percy-jackson-filmes-4749209 Anyway, espero que tenham apreciado o capítulo. Dia 7 postarei o próximo.