Ponto de Vista de Annabeth

Amigos frustram às vezes. Frustram muito.

Tudo começou essa manhã. Percy faltou à aula hoje. Peguei-o jogando Angry Harpies na cama. Foi um belo flagra.

Entrei no chalé de Percy sem chamar por ele.

– Percy, o que...

Encontrei o preguiçoso estirado na cama com um tablet nas mãos.

– Ah, oi Annabeth... – cumprimentou ele, ligeiramente envergonhado.

– Oi, Percy – devolvi o cumprimento – sabe, quero muito acreditar que você está apenas fazendo uma pesquisa na internet do Olimpo, e não que está jogando Angry Harpies porque eu estou ouvindo a catapulta do nível 9 lançar...

Depois de minha voz subir alguns níveis, demonstrando o quão brava eu estava, Percy largou o tablet na cama e levantou rapidamente com as mãos na frente do corpo como se fosse um gesto de rendição ou talvez um pedido para que eu me acalmasse. Considerei que fosse a segunda alternativa.

– Tudo bem, tudo bem. Vai com calma, eu... eu só estava...

– Matando aula? – ofereci.

– Não, quer dizer, sim, mas...

– Mas você tem uma ótima explicação – sentei-me em uma cadeira – comece.

Ele suspirou.

– Eu... não tenho uma explicação, só não quis ir a aula hoje – admitiu ele.

– Por que? – questionei.

– Por que eu iria? Muitos devem estar falando ainda sobre a final do Torneio – respondeu ele.

– Percy, eu não ouvi ninguém comentar nada sobre esse assunto, e mesmo que estivessem falando alguma coisa, e daí? Você chegou a final, a maioria deles não chegou nem perto – disse a ele – você vai se arrumar agora para irmos a aula de Grego Antigo ou vou arrastar você do jeito que está.

Ele olhou para cima como se dissesse: “Eu mereço”.

– Sabe, você devia tomar mais cuidado quando entra aqui, algum dia você vai acabar me encontrando sem roupa – disse ele.

– Se pelo menos você estivesse sem roupa porque estava se trocando para ir a aula – retornei.

– Ah... – Percy tentou começar, mas eu o cortei.

– Esquece. Anda, rápido. Vou esperar você ali fora.

E deixei o chalé.

Depois do Grego Antigo, aproveitei a aula de arco e flecha para procurar por Quíron na Casa Grande. Mas ao invés do centauro, encontrei Sr. D guardando uma caixa de vinhos. Revirei os olhos. Ele não podia tomar vinho, muito menos tomar jeito.

Pigarreei.

– Hum – o deus se virou para ver quem era – ah, é você Annie Bell.

Fechei os olhos com força e suspirei. Acho que quando conheci o Sr. D deveria ter me apresentado como Annie Bell, talvez assim, sem querer ele me chamasse de Annabeth.

– É Annabeth, senhor – corrigi.

– Tanto faz – disse ele franzindo a testa – apenas me diga que não está me procurando, tenho alguns vinhos para degustar.

Ergui uma sobrancelha para ele. Vinhos para degustar? Acho que talvez não.

– Não senhor, procuro Quíron, sabe onde ele está? – perguntei.

– Ah, ele foi até o sótão ver como está a múmia... quer dizer, oráculo – respondeu ele.

– Certo, vou esperar por ele – disse eu.

Sr. D continuou a guardar os vinhos, ele notou que eu o observava.

– Está curiosa, é claro. Estes vinhos aqui são em maioria espanhóis – ele pegou uma garrafa – este é um Cune Rioja imperial, um dos melhores aromas, os mortais estão evoluindo com os vinhos, mas sabe, um bom vinho é aquele envelhecido. Esse outro aqui é um francês Château Canon-La originário de Bordeaux...

O Sr. D me deu uma palestra maçante sobre vinhos, sendo que eu só tomei vinho uma vez na vida. Ele não parava de falar, e eu não poderia interrompe-lo. Quando ele não conseguiu colocar uma garrafa na caixa, ele parou de falar por dois segundos, aproveitei a brecha.

– Ah, Sr. D, eu vou subir até o sótão e... encontrar o Quíron – disse rapidamente.

– Sótão... Quíron... ah, esse vinho não vai caber aqui...

Andei depressa até alcançar as escadas empoeiradas que davam no sótão.

Eu já havia visto o oráculo umas duas vezes, mas ele sempre ficava paralisado como se estivesse dormindo, talvez morto. O oráculo já foi uma bela mulher um dia, mas lançaram uma maldição e então ele, ou melhor dizendo, ela se tornou isso com o tempo. Uma múmia desenfaixada. Assustadora.

Dizem que o oráculo é mais assustador quando está recitando profecias. Ainda não presenciei algo assim.

Perto do oráculo, Quíron estava de costas para mim, ele observava um escudo. Um que eu conhecia bem. O escudo de Luke, aquele que ele emprestou a Percy antes de sairmos em missão.

– Ele foi bem sagaz, não acha? Ardiloso talvez.

Então o centauro não só observava o escudo, mas também pensava em seu antigo dono.

– Ardiloso define-o bem. Assim como imprudente – disse à Quíron.

Ele deixou o escudo ganchado na parede, depois se virou para mim.

– Nunca podemos realmente saber o que se passa na cabeça das pessoas, mas ainda assim tentamos. Você gostava dele – disse o centauro.

Pisquei. O que?

– Ele era seu amigo mais antigo – esclareceu ele.

– Ah, sim, sim. Ele era – confirmei.

– Percy e Grover falaram sobre a atuação de Luke na missão que vocês realizaram. Mas você não se manifestou, apenas voltou a treinar normalmente. Eu gostaria de ouvir, mesmo agora, o que tem a dizer sobre o que aconteceu – pediu ele.

Olhei para o chão. Só o que eu poderia dizer é que eu não esperava que Luke fizesse aquilo. Mas não era só isso.

Suspirei. Vim aqui falar sobre meu amigo Percy, e estamos falando sobre meu ex-amigo Luke.

– Acho que ele estava amargurado com o pai dele. Você sabe, muitos aqui tem esse problema, ele apenas... deixou que isso o consumisse – contei.

Quíron assentiu.

– E você superou bem a partida dele, com a ajuda de uma nova amizade, eu suponho. Como vai Percy? – perguntou ele.

– Era sobre ele que eu queria conversar. Ele está... – suspirei – desanimado. Não quer ir as aulas, e eu sei que ele vai até o lago para tentar se comunicar com Poseidon. O que eu faço para ajudá-lo?

– Você é uma ótima amiga por vir até aqui disposta a ajudar o senhor Jackson, isso já é meio caminho. Apenas posso aconselhá-la a ficar ao lado dele, mostrar que está ali para ele, que irá escutá-lo quando ele quiser conversar, quando quiser se abrir para alguém. Ele está desmotivado. Mas confie em mim– ele olhou para o oráculo — esse período não vai durar muito.

Não me lembro de alguma vez ter escutado Quíron usar um tom de voz tão carregado de presságio.

– O que quer dizer? – perguntei.

– Que você não deve se preocupar com nada no momento, senhorita Chase – respondeu Quíron suavemente – agora, acredito eu, que esteja na hora da prática de esgrima.

– Sim, bem – olhei para o oráculo, depois de volta para o centauro – obrigada Quíron.

Antes que eu alcançasse as escadas, Quíron me chamou de volta.

– Annabeth, gostaria que você me informasse caso Percy permaneça no estado atual, se precisar, peça à ele que me procure – pediu o centauro.

Assenti, e deixei o sótão.

Cheguei a área de treinamento, já vestida com armadura e portando a espada. Comecei a praticar com três campistas ao mesmo tempo, era sempre bom manter certos costumes.

Percy só apareceu trinta minutos depois.

– Oi – cumprimentou ele.

– Oi – cumprimentei de volta, ofegante. Já havia derrotado os outros adversários.

– Ainda está chateada? – perguntou ele.

– Não, não mais – respondi – mas não quero ver você matando aula para jogar Angry Harpies de novo, combinado? E quero que converse mais comigo, principalmente se estiver com algum problema.

– Combinado, e, bem, nesse exato momento, eu estou com um problema – ele olhou em volta – não tenho com quem praticar.

Sorri.

– Coincidência – disse a ele. Percy puxou a espada da bainha e se posicionou na minha frente.

– Manda ver – pediu ele sorrindo.

E treinamos.