Percy Jackson E A Legião Da Luz
21 Episodio 2 Capitulo 11
Ana
Apesar de estar com fome o efeito do sonífero tinha deixado meu estomago embrulhado ao ponto de que tinha que empurrar pequenos pedaços de comida garganta abaixo e esperar que eles não decidissem voltar para dar um “oi”.
Dessa vez não houveram grandes preparativos ou discursos, os que ficaram encarregados da cozinha trouxeram várias tigelas e pratos com uma incrível variedade de comidas, aparentemente a travessia do portal tinha encurtado nosso estoque de pratos mágicos então estavam improvisando de alguma forma, mas de qualquer maneira cada um só pegou seu prato e sentou no seu canto para comer ou então se juntaram a Dakota para discutir planos ou algo do tipo, Edgar estava mais afastado, próximo a escada do navio, junto ao tal de Raimos, me perguntava o que estariam discutindo, o general Rilvar e os outros soldados de Echnnoi já haviam partido, Jonathan havia sumido dentro navio depois de dizer que ia buscar algumas só para precaução, exatamente o tipo de coisa que se quer ouvir quando se está prestes a embarcar em uma canoa voadora não testada.
Quando terminei meu prato continuei olhando para o estrago que estava o convés, neve e gelo derretiam e escorriam pelo mastro, talhos e buracos decoravam o chão, mas apesar de tudo o Argo III ainda continuava no ar, apesar de eu não compreender o navio nem metade do que Leo e Jonathan conseguia sentir o estado dele, um pequeno bônus de ser filha de Poseidon, então eu tinha certeza de que o navio ainda aguentaria bastante, mas quando olhava para os outros reunidos, gregos, romanos e legionários que a esse ponto já estavam trocando piadas e histórias enquanto comiam, nenhum deles devia entender muito da situação e ainda assim pareciam não se importar com a tensão, ou talvez fosse apenas eu que estivesse tensa demais, enquanto observava a cena meu olhar se cruzou com o de outra pessoa, Evan, o garoto ruivo pareceu olhar diretamente para mim por alguns momentos antes de desviar a atenção, queria acreditar que ele estivesse apenas me analisando porque estaríamos lutando juntos, mas desconfiava que não.
Decidi me levantar para checar a invenção de Jonathan que continuava ao lado do navio, talvez eu pudesse prever alguma falha ou sei lá o que, o tempo que estive no acampamento meio-sangue foi suficiente para aprender que os campistas de Ares são doidos, que nunca se deve apostar com filhos de Nice, que os Stolls são uma ameaça à segurança pública e que as invenções dos filhos de Hefesto podem ter tendência explosiva. Antes de chegar ao barco notei Amber atrás de uma balista, quase como se estivesse escondida, e tive o impulso de me aproximar dela.
— Amber, tudo bem? — Perguntei ficando ao lado dela.
— Ah, oi Ana, estou bem sim, só... pensando um pouco — Ela respondeu, então notei que pela primeira vez desde que a conhecera que a gata dela não estava por perto.
— Você certamente escolheu um lugar diferente para pensar — Eu disse ao sentar tomando cuidado para não bater no prato dela cheio de sanduiches intocados — Não está com fome? Depois de bancar uma sacerdotisa imagino que você precise recuperar as forças.
— Por favor, não me lembre disso — Amber respondeu amargamente.
— Então é isso? — Eu disse começando a entender o que estava acontecendo com ela — Está se sentindo mal por essa história de magia sagrada ou sei lá o que.
— Não... — Ela começou a falar, mas então começou a chorar — Quer dizer, sim, ah, por que isso tem que ser tão complicado?
— Tenta me falar, o que exatamente está te deixando assim?
— É que... — Amber parecia querer lutar contra as lagrimas, mas com pouco sucesso — Desde o general até os outros soldados de Echnnoi, eles vieram até mim, daquele jeito, como se eu fosse uma pessoa sagrada, a forma como me olhavam... é até difícil de dizer, você viu que antes de partirem eles vieram pedir minha benção, pedir que eu lhes desse proteção, eu disse que daria, mas agora me sinto péssima por ter mentido para eles, droga, eu não sei nem se vou conseguir encobrir o Argo como me pediram.
— Amber... — Até aquele momento não havia passado muito tempo com ela, mas mesmo assim sentia uma grande empatia por ela, passei meu braço sobre os ombros dela e a envolvi em um abraço — Ei, você não falhou com eles, não tem que se sentir assim.
— Como assim? — Ela perguntou.
— Sabe, eu não sei realmente como eles se sentiam, mas sei o que é se sentir sem esperanças e... — Por um momento minha voz falhou, percebi que já havia escutado essas palavras e as lembranças que despertaram não foram boas, mas ainda assim continuei — O que eles estavam buscando antes de tudo devia ser isso, esperança, e isso eu posso garantir que você deu a eles.
— Mesmo? — Amber disse olhando fundo nos meus olhos e notei que ela havia parado de chorar e parecia estar tentando por um sorriso no rosto.
— Mas é claro que sim, não tem como olhar pra essa sua carinha fofa e não sentir esperança — Eu disse e ela começou a rir.
— Eu não sou fofa — Ela disse limpando o rosto.
— De qualquer forma, você deu àqueles soldados a esperança que eles buscavam — Continuei — Que tal dar a si mesma um pouco de esperança também e confiar que vai conseguir fazer o que for preciso?
— Eu vou tentar — Amber respondeu.
— Bem, que tal comer agora? — Eu disse soltando-a do abraço — Você ainda precisa se alimentar se quiser repor as forças.
— Hã? — Amber pareceu confusa por um momento e olhou para o prato cheio de sanduiches — Ah, na verdade eu já comi bastante, inclusive esse seria o meu terceiro prato de sanduiches.
— Ah, tá bom — Tentei disfarçar o quanto isso havia me impressionado já que ela não parecia ser capaz de comer tanto.
— Se quiser pode pegar os sanduiches — Amber disse estendendo o prato, apesar de me sentir tentada tinha medo de que o enjoo piorasse.
— Não, obrigada, já estou cheia também — Respondi, olhei para o barco de Jonathan e notei que havia alguém de cabelo ruivo dentro dele e imaginei que devia ser Evan — Fico feliz de termos conversado Amber, mas se puder me dar licença.
— Tudo bem, acho que achei alguém que vai querer os sanduiches — Ela respondeu jogando um pedaço da comida em direção a gata dela que se aproximava, por algum motivo me senti aborrecida com o animal por não estar ali quando Amber precisava e só aparecer pra comer, mas aí lembrei que gatos podiam ser assim mesmo e dei de ombros ao me levantar.
Enquanto andava até Evan imaginei diversas coisas que ele poderia estar fazendo, algumas das quais eram desconfianças não muito fundadas que talvez eu tenha vergonha de admitir, mas eu nunca teria sido capaz de imaginar o que ele realmente estava fazendo, ele estava apoiado sobre a amurada no bote que dava para o céu e para minha surpresa estava vomitando.
— Ah minha nossa, o que você está fazendo aqui? — Evan disse se assustando ao me perceber, ele também pegou rapidamente lenço para limpar o rosto.
— Sabe, semideusa, navio voador — Eu disse indicando ao redor, mas havia ficado perplexa com aquilo e talvez um pouco aliviada — Eu que perguntaria isso pra você, mas já tenho a resposta.
— Achei que aqui ninguém ia notar — Ele disse sem graça ao se levantar.
— Não foi dessa vez — Respondi e estendi a mão para ajudá-lo a passar por cima de volta para o Argo — Mas me diz uma coisa, como que você não teve enjoo quando passamos pelo portal e está tendo agora?
— Você que pensa que não tive enjoo — Evan disse — Vou tirar navios gregos voadores da minha lista de transportes.
— Eles podem ter esses efeitos nas pessoas — Respondi dando de ombros.
— Seu nome é Ana, não é? — Evan perguntou, mas algo na forma com que ele me olhava denunciava que ele já sabia disso.
— Exatamente — Eu disse sendo direta.
— Então me diz, como que alguém do Brasil vem parar aqui? — Evan perguntou e de repente eu me senti exposta, eram poucas pessoas com quem falava que sabiam de onde eu vinha e ele não estava entre elas.
— E quem foi que te disse que eu sou do Brasil? — Questionei na defensiva.
— Ah, ninguém — Evan respondeu — Só percebi que enquanto você fala algumas frases saem em inglês e outras em um português típico do Brasil.
— Ah, entendo — Me senti mais aliviada com o que ele disse já que parecia estar dizendo a verdade — E é por isso que você estava me observando antes?
— Não exatamente — Evan respondeu parecendo surpreso com minha pergunta — Nós vamos estar no mesmo barco, literalmente, só quis ver quem seria minha companhia, tenho certeza que você fez o mesmo.
Fiquei em silêncio, Evan estava mostrando ser um grande observador até aquele ponto, lembro de o ver usando arco e talvez isso fosse parte do treinamento dele, e isso não me deixava mais tranquila com ele ou qualquer um da legião.
— Bem, não precisa responder minha pergunta se achar que é muito pessoal — Evan continuou a falar cortando meus pensamentos — Só fiquei curioso, acho que estou até acostumado a encontrar coisas estranhas nos Estados Unidos, sempre foi um país difícil para legião manter bases especialmente nos últimos anos, então não achei algo insano quando encontramos vocês.
— Eu diria que nós que encontramos vocês — Retruquei.
— A questão Ana — Evan continuou — É que a condição da legião no Brasil está muito melhor que aqui e por isso me pergunto como não detectamos alguém como você por lá, eu conheço alguns legionários do Brasil além de Edgar e Catarina, inclusive alguns que são buscadores e só acho isso muito estranho.
De repente tive que fazer um certo esforço para controlar minha respiração parecer o mais calma que podia, tinha deixado essa conversa chegar em ponto complicado e não sabia exatamente como sair dessa.
— Ei o que é aquilo? — Evan disse de repente me deixando confusa, ao lado navio um pássaro enorme surgiu e nesse momento eu jurei que se houvesse um deus dos pássaros gigantes e amarelos eu daria metade da minha próxima refeição como oferenda.
— Calma galera — A voz de Leo soou nos alto-falantes do navio — É só o general que voltou, provavelmente estamos quase chegando.
Dessa vez pelo menos não houveram dardos soníferos, talvez eu tivesse guardado um pouco de rancor, e também o pássaro conseguiu com algum esforço pousar no convés, quando parado era como se ele estivesse em posição de sentido e mesmo que ficasse bem alto ocupava uma área bem pequena.
— Aliados — Bradou o general ao descer do pássaro — Trago boas novas, o exército conseguiu avançar e está alinhado, ordenei que um pelotão de Ushalts ficasse atento a espero do navio, sem dúvida poderemos eliminar o inimigo se abrirmos os portões.
— Fico feliz ao ouvir isso — Dakota disse recebendo o general.
— Eu continuaria feliz se ele não explodisse nada no Argo dessa vez — Leo disse em voz baixa quando passou ao meu lado — Ei Ana, você pode ir falar com Edgar e Raimos, parece que eles estão tendo algum problema.
Não questionei Leo e tomei rapidamente rumo até os dois, mesmo que estivesse trocando um legionário por outro sentia que não podia perder essa chance de desviar de Evan que estava distraído com o general, quando me juntei a Edgar e Raimos me vi novamente em uma situação que me surpreendeu, Edgar usava um tipo pena como as usadas para escrever em filmes da era medieval, mas não havia papel, ele desenhava alguns símbolos estranhos na pele do pescoço de Raimos que não parecia ser capaz de decidir se sentia dor ou ficava assustado.
— Ah, err... tatuagem de guerra? — Eu perguntei confusa.
— Mais ou menos eu diria — Edgar disse sem tirar os olhos do desenho que fazia, foi então que notei que não havia nenhum pote de tinta próximo e a pena parecia na verdade queimar a pele — Eu disse pro Leo que estava tudo bem, que só precisava de mais alguns minutos pra ter certeza de que Raimos não vai explodir ou virar um sapo por acidente.
— Ele só me falou essas coisas depois que começou — Raimos reclamou, ele havia retirado os equipamentos de soldado de Echnnoi, agora usava agora uma calça cargo que parecia larga demais, tênis surrado que devia ter sido emprestado de alguém que havia feito uma maratona em chão e terra recentemente e usava uma camisa do acampamento meio-sangue o que era um tanto quanto confuso.
— Tenho que dizer que evitar a explosões me deixa mais tranquila — Eu disse — Mas pra que a tatuagem?
— Eu não vou para o portão com vocês — Edgar disse como se explicasse e depois de alguns segundos que fiquei calada ele continuou — Se eu não estiver próximo o feitiço tradutor não vai funcionar, para evitar isso estou inscrevendo o feitiço nele, o efeito se torna individual e a duração varia.
— Hum, por quanto tempo poderia funcionar? — Questionei.
— Como eu disse, varia, dias, semanas até mesmo anos sem renovação se a aura mágica do indivíduo for forte o suficiente — Edgar respondeu guardando a pena — Acabei, como se sente?
— Acho que virar sapo não seria uma má ideia agora, pelo menos eles não têm pescoço — Raimos respondeu esfregando a lateral do pescoço bem acima da tatuagem.
— Pelo menos esse esforço elimina algo que poderia nos atrapalhar — Eu disse a Raimos.
— É, que nem um sacrifício necessário — Raimos respondeu me deixando um pouco confusa, o que ele disse não estava errado, mas a frase pareceu um pouco triste demais, me perguntava se era só feitiço de tradução causando problemas, porém notei que ele olhava com rancor para o general que ainda estava no convés.
— Raimos, sei que isso não é fácil, mas a melhor forma de lidar com isso é focar no que há a sua frente — Edgar disse depois de alguns segundos.
— Verdade — Eu disse tentando animar Raimos — Olha, eu posso não saber nada sobre seu povo, mas tenho certeza que nossa missão vai ser contada por gerações, você vai ser considerado um herói acima de tudo.
— Você bem disse, não sabe sobre as pessoas desse mundo — Raimos respondeu desviando o olhar ainda triste — Mas que tal falarmos sobre os portões já que tocou no assunto?
— Está bem — Respondi dando de ombros, o tom dele deixava claro que não havia muita opção — O que tem de tão especial nesses muros e na montanha de qualquer forma?
— Juntos são simplesmente a maior fortificação de Echnnoi — Raimos começou a explicar — A montanha de calcário é um lugar sagrado para todos, praticamente o berço do que Echnnoi é hoje.
— Nossa — Eu disse suprimindo a pergunta de como eles tinham sido expulsos desse lugar se era tudo o que ele estava falando, não me pareceu justo perguntar algo assim — Mas a montanha é uma fortificação também?
— Ela foi no passado — Raimos continuou — Há muito tempo atrás quando haviam vários reinos, todos em guerra buscando poder, ela foi o abrigo para o povo da montanha, aqueles que se recusavam a continuar a guerra, uma vez três exércitos se encontraram aos pés da montanha, temendo que a batalha pudesse destruir seu lar esse povo ergueu o próprio exército e enfrentou os outros três de uma única vez, mas eram em sua maioria apenas fazendeiros e artesãos então eles terminaram massacrados.
— Caramba, por essa eu não esperava — Edgar disse arregalando os olhos e tinha que concordar que aquilo não era bem o que esperava.
— Continuando — Raimos disse chamando atenção — Mas depois que os exércitos derrotaram o povo da montanha os reis olharam a seu redor, para seus soldados misturados sobre o massacre daquele povo que só queria paz, eles poderiam continuar a batalha uns contra os outros, mas então um deles questionou “Esse é o nosso melhor? ” e depois disso os reis fizeram as pazes, se ajoelharam diante de seus exércitos e dos sobreviventes da montanha e juraram proteger aquele povo, aquele lugar e aquele ideal de união que nascia ali, foi desse gesto que os deuses olharam por nós, guiaram a construção do muro e das fortificações da montanha, nos vários anos que seguiram nenhuma força conseguiu dominar aquela área, no final todos os reinos pararam com suas guerras e mesmo que não tenham se unido a paz foi atingida, então Noretae pediu que da montanha fosse feito um palácio e um templo para ela, um templo de testes para aqueles que fossem comandar tivessem as lições do passado sempre em seu coração e nunca mais criassem um mundo de guerra como o que havia antes.
— História impressionante — Eu disse — Mas funcionou?
— Honestamente não — Raimos disse com um sorriso amargo — Meu avô dizia que o templo dos testes havia entrado em decadência, poucos reis se sujeitavam ou respeitavam a tradição, duas vezes monarcas que não aceitaram bem seu resultado invadiram a montanha e atacaram o templo, no final foram derrotados, mas depois disso praticamente apenas os servos de Noretae viviam na montanha e a guarda muro que era composta de soldados de vários reinos para que aprendêssemos o “valor” da união, no fim das contas cada um só ficava em seu canto e tratam a guarda como uma lixeira onde jogavam soldados dispensáveis ou indesejados.
— Parecia bom demais pra ser verdade, é uma pena que governantes devidamente testados pareçam ser só um sonho — Edgar falou.
— Mas Raimos, isso não faria dos portões algo com, tipo, milhares de anos de idade? Como ele ainda funciona? —Perguntei.
— Às vezes me perguntava a mesma coisa — Ele respondeu — Mas quando as correntes eram baixadas dava para ouvir o ranger por todo o vale, talvez esse tenha sido um dos motivos de muitos terem abandonado a montanha.
— Ei, Jonathan já está no barco, vocês já estão prontos? — Leo disse se aproximando de nós, a história de Raimos havia nos distraído tanto que nem percebemos como estava a movimentação no convés, Jonathan parecia mexer em algumas peças do barco e Evan estava perto aparentando estar reunindo coragem para segui-lo.
— Já estamos indo — Eu disse seguindo caminho para o barco, naquele momento passamos por algumas nuvens finas de baixa altitude, nada que atrapalhasse a visão no navio, mas não era possível ver nada muito além do convés, imaginei que esse fosse o motivo de Leo e Rilvar estarem conversando na cabine de controle.
Devo dizer que para tudo que estava havendo ainda houve uma pequena aglomeração para nos ver partir, a plateia uma mistura de gregos, romanos e legionários sem esquecer o general Rilvar e seu pássaro gigante. Enquanto passava Amber veio correndo até mim e me envolveu num caloroso abraço, ela me desejou boa sorte e pediu que tomasse cuidado, em seus olhos agora havia um belo brilho de alegria, eu disse que tomaria, mas não considerava seguro nem subir no barco, lembrei que também havia prometido a mesma coisa a Percy quando embarquei no Argo e desde então sentia como se só tivesse quebrado essa promessa, não que fosse algo que me fizesse sentir mal, mesmo que eu tivesse adorado encontrar o acampamento meio-sangue e mais ainda descobrir que eu tinha um irmão, mas Percy precisava relaxar, o cara tinha quase se transformado em uma babá de tanto que ficava de marcação em mim e por isso eu devia a Jason, pois havia me dado espaço para respirar.
— Me dá licença? — Eu disse chegando ao barco e passando à frente de Evan, decidi que era melhor subir de uma vez antes que quisessem um discurso ou algo tipo. No barco Jonathan estava apenas limpando alguns monitores a frente de onde ele estava sentado, havia também um manche que devia controlar o movimento do barco, só naquele momento percebi que a disposição interna era como a de um carro, ao lado e Jonathan também havia uma grande bolsa de viagem escura com o símbolo de Hefesto bordado em fios e bronze — Bolsa legal o que tem nela?
— Hã? — Jonathan virou para trás parecendo confuso, não sabia dizer se era só porque não havia me percebido até então ou algum outro motivo — Ah, oi Ana, na bolsa tem algumas ferramentas e outros protótipos meus, além de néctar e ambrosia, sabe, o básico para missões assim.
— É, claro — O fato de Jonathan estar levando outras invenções para um teste de campo em tal situação me deixou meio preocupada, mas também sentia que precisaríamos de qualquer ajuda que pudéssemos conseguir.
Evan subiu em seguida, parecia preparado e focado na missão a frente, ou talvez só estivesse fazendo pose por causa da situação do vômito antes já que ele sentara ao meu lado, fiquei mais confortável com o fato de ele não querer continuar nossa conversa de antes e esperava que ele esquecesse o assunto. Raimos foi o último a subir e sentou ao lado de Jonathan, no que seria o banco do carona, ele estava com um gladio de ouro imperial em uma bainha na cintura e uma besta que devia ser a dele mesmo, era estranho que tenha sido a única peça que havia decidido manter.
— Acho melhor irmos logo, ainda não estamos tão próximos, mas se partimos agora o navio tem mais chance de preparar sua camuflagem — Raimos falou em voz alta para que todos ouvissem, olhando pelo convés notei que havia concordância, Amber que pareceu estar muito aliviada.
— Já que vocês concordam eu irei chamar o pelotão até aqui — O general disse subindo no pássaro gigante e partindo rapidamente entre as nuvens, apesar de ficar calada quis reclamar pelo fato dele não dar credito nenhum a Raimos pela ideia, me perguntava do que vinha tanta implicância.
— Ei Leo — Jonathan teve que quase gritar para chamar a atenção dele e então o vi tirar algo parecido com um celular da bolsa e jogou para Leo — É um os protótipos o sistema Iris que eu alterei, usando o outro que tenho aqui deve servir para nos comunicarmos.
— Certo, eu prometo tentar não gastar a bateria com joguinhos — Leo respondeu já mexendo freneticamente nos botões do aparelho.
— Tudo certo então — Jonathan disse se ajeitando no banco do motorista, ou piloto nesse caso eu imagino — Todos prontos?
Um a um todos assentimos e então Jonathan acionou alguns botões que fizeram o barco começar a tremer e fazer ruídos, mas ele agia como se fosse normal então relaxei em meu banco, antes de partimos todos no convés se reuniram e colocaram a mão sobre o peito em um sinal para afastar o mal em seguida Dakota deu um passo à frente e disse:
— Que os deuses estejam com vocês, que tenham sucesso e abram o caminho para a nossa vitória.
Depois disso com alguns aplausos e vivas da tripulação o barco de Jonathan se desacoplou do Argo e voou livre entre as nuvens. Não havia imaginado que a luz do sol era tão fraca em meio aquelas nuvens, quando ficamos ao ar livre nossos olhos reclamaram, mas quando minha visão se adaptou pude ver o que havia a nossa volta, centenas de metros abaixo o solo carregava a marca de batalhas recentes, colunas de fumaça subiam ao céu, havia o que devia ser restos de acampamentos e armas de cerco espalhados por toda parte, olhei para trás e realmente só era possível ver um imenso muro de nuvens, pelo menos o Argo estaria seguro por enquanto.
— Ali está ela, a montanha de calcário — Raimos disso apontando para um ponto distinto na paisagem, a montanha se destacava sem dúvida já que era o ponto mais alto no vale, mas também pelo brilho que emitia ao refletir a luz do sol, não sabia dizer ao certo, mas chutaria que aquela montanha devia ter pouco mais de 1000 metros de altura, não era tão grande se considerasse uma perspectiva da Terra, mas com certeza tinha um ar majestoso único.
— Aquilo em volta dela, são os portões? — Jonathan perguntou e Raimos assentiu, envolvendo a montanha havia uma grande construção escura que aquela distancia parecia muito que a montanha estava usando um cinto — Para onde fica essa passagem que você mencionou, a porta da frente já parece ocupada.
Olhando pela lateral do barco podia ver que haviam batalhas ocorrendo naquele exato momento, não chegava a ser um cerco ainda e nem sabia dizer qual lado estava levando a melhor, mas quis acreditar nas palavras de Rilvar de que o exército deles poderia derrotar os monstros de Azalas se abríssemos os portões, pensava em Jason, e por mais que o admirasse, aquele cenário me deixava preocupada, não queria ter minha primeira perda no acampamento meio-sangue, não queria nunca mais perder ninguém na verdade, mas sabia que isso estava além do meu controle.
— Aquele pequeno arvoredo ali — Raimos apontou para o que parecia um aglomerado de pontos verdes de tão distantes que estavam, na verdade estavam pelo menos alguns quilômetros a esquerda dos portões — Depois deles há uma pedreira abandonada, a essa altura deve parecer um grande sulco na terra.
— Parece bem longe — Evan disse ao meu lado de braços cruzados, estreitando a visão pra ver melhor, o que eu imaginava não ajudar realmente — Imagino que o caminho por dentro dessa pedreira tenha tuneis longos e não exatamente convidativos não é?
— Como adivinhou? — Raimos respondeu.
— Só um palpite mesmo — Evan disse parecendo desconfortável, então ele olhou para a montanha e fez uma careta como se ela fosse um desenho de mal gosto — Então, Ana, aquele tal de Bolgin confirmou que Jason estaria nessa montanha é?
— Sim.. — A pergunta me pegou de surpresa.
— Então você tem certeza que ele é capaz de sobreviver isso tudo? — Evan questionou apontando para os portões e a batalha que se estendia pelo vale, pensei que ele estivesse tentando me pressionar de alguma forma, mas olhei bem para ele e vi que na verdade estava preocupado, me lembrei da conversa com Amber e em como havia dito que esperança era importante e só quis ter a força de dela para transmitir esperança naquele momento.
— Ei cara, você tá de brincadeira? — Jonathan exclamou desviando de uma coluna de fumaça — Jason é um dos semideuses mais experientes entre os dois acampamentos, sem falar que ele foi um dos sete e mais umas coisas aí, ele tem currículo para essas coisas.
— Bem, eu já o vi lutando e ele é bom no que faz — Evan disse — Mas o que quer dizer com “um dos sete”?
— Ah é, desculpe, esqueci que você é da legião e não tinha como saber disso — Jonathan disse apertando alguns botões no painel de controle e acionou os limpadores de para-brisa se livrando de restos de insetos e fuligem.
— Eu não sou legião e eu também não sei disso — Raimos disse se segurando fortemente ao assento e a amurada do barco, me perguntava se ele estava segurando o nervosismo até então, mas notei que eu involuntariamente enfiava as unhas no estofado do meu banco.
— Ah cara, alguém deveria escrever uma cartilha sobre isso, seria bem mais fácil — Jonathan disse balançando a cabeça — Estamos chegando perto, Ana, pode por favor contar a versão resumida?
Talvez pela primeira vez me senti incomodada de falar sobre essa história, mas ainda assim contei da forma mais rápida possível e o tempo todo Evan manteve o olhar fixo em mim e aqueles olhos azuis penetrantes realmente dificultavam minha concentração.
— Ali — Raimos exclamou pouco depois que terminei de falar, ele apontava para logo após as árvores, para uma área de depressão cheia de lama cujas bordas eram um amontoado de pedras e rochas.
— Certo, preparem-se — Jonathan disse puxando uma alavanca que fez o barco parar flutuando vários andares acima da pedreira — Essa parte de pouso eu ainda não aperfeiçoei, então vamos só descer o barco devagar até próximo do chão.
— Isso não vai nos deixar expostos? — Perguntei olhando desconfortável para as arvores que seriam o lugar perfeito para uma emboscada.
— Não acho que haja inimigos nessa área — Raimos disse tentando ser tranquilizador.
— Espero que esteja certo — Evan se armou com o arco, mas parecia distraído e ainda mantinha uma expressão de “isso é serio?” desde que lhe contara sobre Gaia e os gigantes, não podia culpa-lo já que minha primeira sobre aquilo não havia sio tão diferente.
A descida do barco não deve ter levado mais do que cinco minutos no máximo, mas mesmo assim a tensão fez parecer muito mais tempo, meus dedos chegaram a doer de tão forte que segurei o cabo de minha espada. Pouco antes de chegar ao chão Jonathan ativou o que disse ser os trens de pouso do barco e o impacto no chão foi mínimo, gerando apenas o som da lama sendo movida.
— Eu realmente gostava desses tênis e dessa calça — Disse antes de saltar do barco para o chão fazendo com que lama espirrasse para todos os lados, em seguida ajudei Raimos a descer enquanto Jonathan mexia nos controles e Evan estava com uma flecha preparada e apontada para as árvores as nossas costas.
— Vai demorar muito ainda? — Evan perguntou a Jonathan — O que você está fazendo afinal?
— Já terminei, só estava programando o barco para voar próximo a nossa localização, assim se precisarmos ele chega muito mais rápido — Jonathan disse pegando a bolsa de viagem dele e depois desceu do barco também ficando sujo de lama — Alguém me lembre de instalar uma escada retrátil depois que voltarmos.
Com todos fora do barco ele levantou voo e fomos deixados ali com muita lama e pedregulhos que pareciam querer nos derrubar.
— Para onde agora? — Evan disse depois de olhar em volta — Não vejo nenhuma passagem.
— É essa a ideia de ser uma passagem secreta — Raimos disse inspecionando algumas pedras e tomou alguns minutos nisso até que exclamou — Aqui, encontrei a passagem.
Nos reunimos em volta dele desafiando a lama para podermos andar, ele limpava o pó da lateral de uma pedra revelando uma cavidade de formato estranho, então ele se virou para nós e sorriu colocando a besta na cavidade, imediatamente toda a pedreira começou a tremer enquanto aquela pedra se recolhia no solo, quase caímos na lama com pedras rolavam a nossa volta, mas quando tudo se acalmou uma escadaria havia aparecido misteriosamente próximo a Raimos.
— Aqui está, uma entrada secreta como o prometido — Raimos disse convidativo.
— Eu esperava algo diferente — Jonathan disse — Talvez com mais pistões e um elevador.
— Vocês de Hefesto põem pistões no café da manhã por acaso? — Perguntei rindo, talvez fosse só o nervosismo, mas achei engraçado — De qualquer jeito, vamos em frente logo, não quero que meus sapatos absorvam mais lama que o necessário.
Senti falta da lama enquanto andava por aqueles tuneis. Eu e Raimos estávamos a frente iluminando o caminho com o brilho de nossas espadas o que não era tão difícil pois as paredes eram cobertas por um musgo pulsante muito suspeito que refletia a luz, a simples ideia de tocar em uma parede dava ânsia de vômito.
— Então as armas de vocês sempre brilham? — Evan perguntou — Não que eu esteja invejando nem nada do tipo.
— O material delas faz isso — Jonathan respondeu mexendo na bolsa causando um som parecido com um triturador de lixo que ecoava pelos corredores — Vocês não têm esse tipo de coisa na legião?
— Sim, mas não é algo tão comum assim, costumamos usar lanternas ou magia para luz — Evan disse.
— Não se preocupem, os tuneis passam por um salão de onde é possível iluminar todo o caminho — Raimos disse nos chamando a frente, percebi que ele balançava o gladio de um lado para outro em versões sutis de golpes.
— Isso parece ser interessante — Jonathan disse.
Talvez Raimos devesse ter mencionado que esse salão ficava na metade do caminho, passamos tanto tempo segurando as espadas para iluminar que comecei a alternar em que mão levava a minha, Evan havia colocado o arco nas costas e Jonathan estava criando um pequeno aparelho com peças que pegava da bolsa, uma equipe com foco total.
— Atenção, há uma escadaria bem aqui — Raimos disse se abaixando para iluminar os degraus que desciam para o breu.
Descemos lentamente e da forma mais segura possível apesar de ninguém se apoiar nos corrimões de pedra que estavam cobertos por aquele musgo cintilante, antes não quis julgar por ser uma passagem secreta, mas alguém tinha que ter o mínimo de cuidado com o lugar de tempos em tempos, se empilhássemos todo aquele musgo poderíamos criar a montanha da nojeira e derruba-la em cima do exército de Azalas.
— Cara, vocês realmente precisam de um herbicida tamanho extra gigante — Jonathan disse quando chegamos ao salão, mas Raimos o ignorou indo ao centro do salão.
— Acho que ele não sabe o que é um herbicida — Eu disse.
— Ana, pode iluminar aqui? — Raimos disse em frente ao que devia ser um tipo de braseiro.
Ergui minha espada sobre o braseiro revelando em seu interior um tubo que devia levar ainda mais para o subsolo, Raimos havia deixado o gladio sobre o chão iluminando os desenhos talhados nas pedras do piso e do braseiro que em outros tempos deviam contar grandes histórias e agora estavam desgastados demais.
— Talvez tenhamos um problema, não consigo achar o mecanismo que ativa o fogo — Raimos disse com uma expressão consternada.
— Acho que eu posso dar uma ajuda com isso — Jonathan disse se ajoelhando e tocando a base do braseiro.
— O que está fazendo? — Evan me perguntou.
— Observe — Jonathan respondeu, depois de alguns segundos sons de pedras se movendo preencheram o salão e uma coluna de chamas se ergueu do braseiro, todos recuamos com o susto, mas logo o fogo diminuiu para o tamanho de uma fogueira grande o suficiente para iluminar o salão.
Agora com as chamas iluminando o salão era possível ver as quatro colunas enormes que sustentavam o teto de rocha, além disso havia três aberturas de tuneis, uma de cada direção sem contar a escadaria.
— Aí — Jonathan reclamou com uma das mãos massageando a testa — Mecanismos de pedra são mais difíceis de mover, sabe, não senti nenhum tipo de alavanca por perto, o que você estava procurando?
— Mas eu tenho certeza que havia uma alavanca bem aqui — Raimos exclamou ao se levantar e guardar o gladio na bainha.
— E eu posso te dar certeza de que não há — Jonathan reclamou.
— Que tal irmos em frente de uma vez? — Evan disse cortando a conversa — Algo sobre esse lugar me deixa nervoso.
— Calma, o fogo vai chegar ao corredor em alguns instantes — Raimos disse se aproximando de um túnel, quando ele ficou a alguns passos do arco dois braseiros pequenos se acenderam na entrada e outros foram acendendo mais para o interior do túnel — Agora podemos continuar.
De repente um guincho ensurdecedor ecoou pelo tuneis, todos tapamos os ouvidos tentando bloquear o som, mas parecia inútil, Jonathan que já estava mal quase foi ao chão, mas consegui segura-lo, o chão e teto tremeram fazendo uma chuva de poeria cair sobre nós.
— Mas que porcaria foi essa? — Eu gritei depois que o som acabou, não conseguia me ouvir direito e imaginei que os outros não estivessem em estado melhor.
— Eu não faço ideia — Raimos disse assustado.
— Eu só sei que não pode ser coisa boa então vamos logo — Evan disse passando por nós com passos vacilantes em direção ao corredor.
Nos dirigimos ao corredor ignorando a tontura da melhor forma possível o que não era fácil já que o caminho parecia quase dança a minha volta, quando passei pelos braseiros da entrada o som de passos me fez parar, instintivamente saquei espada e virei para trás, a princípio pensei que era uma criança andando pelo salão, mas ela deu de encontro com uma das colunas e pude notar que tinha um corpo disforme, esverdeado e reluzente, de repente a criatura abriu uma boca escura e engoliu um pedaço da coluna de uma única vez, antes que pudesse entender o que era aquilo Evan passou a minha frente disparando três flechas em direção a coisa, mesmo errando uma ainda transformou a coisa em pó com as outras duas.
— Corram — Evan disse correndo para o túnel onde a nossa volta, o musgo das paredes havia começado a se mover e até mesmo se juntar em montes.
— Mas que droga, monstros de musgo — Jonathan disse enquanto corríamos nos desviando de montes de musgo pelo chão.
— Não é musgo, são solifagos — Evan disse fincando uma flecha em um monte daquelas coisas enquanto corria.
— Piranhas da lama — Raimos disse cortando um tentáculo verde que havia bloqueado a passagem — Mas essas coisas deviam ser apenas mitos.
— Diz o cara que monta em um pássaro azul gigante — Eu disse — Então Azalas estava esperando por nós?
— Duvido muito — Evan respondeu — Essas coisas não têm capacidade nenhuma de inteligência, são puro instinto, na verdade, acho que podem realmente significar algo ruim para nós.
— Conta uma novidade — Respondi cortando um braço disforme que havia surgido da parede e tentava me agarrar, no caminho a frente cada vez mais daquelas coisas iam surgindo o que nos atrasava.
— Estou falando sério, solifagos não são monstros de comportamento agressivo, mas distorções dimensionais os deixam loucos.
— Então...— Respirei fundo antes de continuar e me dei conta do quê ele queria dizer — O alinhamento da Terra e de Echnnoi está ficando mais forte.
— Exatamente, nosso tempo está acabando — Evan disse ofegante — Raimos, quanto falta ainda?
— Há um outro salão no fim desse corredor, depois dele estaremos bem próximos — Raimos respondeu enquanto corria, mas a nossa frente uma barreira de tentáculos se formou bloqueando o caminho — Isso é um problema.
— Nem me fale — Jonathan disse atrás de nós e quando me virei pude ver várias criaturas como a do salão, porém maiores, andando vagarosamente pelo corredor.
— Certo, para trás — Evan disse tomando a frente e disparando nas criaturas que se desfaziam em pó, mas logo outras começavam a surgir das paredes e do chão — Droga, são muitos.
— Então temos que dar um jeito de abrir o caminho — Raimos disse golpeando a barreira e rompendo uma parte dela, mas essa parte reagiu e o acertou no rosto fazendo-o cair no chão e logo após a barreira se recompôs.
— Parece que por aí também, não vamos passar, pelo menos não desse jeito — Jonathan disse ajudando Raimos a levantar.
— O que fazemos então? — Perguntei atenta aos solifagos que se aproximavam e as paredes caso alguma daquelas coisas aparecesse delas.
— Eu tenho uma ideia, mas preciso de um tempo — Jonathan disse retirando diversas peças da bolsa e as encaixando freneticamente.
— É com você dois, eu não tenho flechas suficiente para todos eles — Evan disse puxando uma flecha da aljava, não sabia dizer quantas ele ainda tinha, mas algo no olhar dele me dizia que aquela não era sua maior preocupação — Mas vou me esforçar para dar a melhor cobertura possível.
Raimos e eu então avançamos lado a lado contra os solifagos, enquanto nos aproximávamos eles pareciam farejar o ar a nossa, com mais um pouco de atenção notei que eles tremiam como se estivessem sentindo dor e pelo que Evan havia dito é bem capaz que estivessem e achassem que nós fossemos os culpados, ali ao lado de Raimos notei que a parte do rosto dele que havia sido atingida parecia estar queimada, me perguntei se havia sido da força da pancada ou se era algo mais que essas coisas tinham, mas ele estava calado e focado no inimigo a frente então considerei que não faria nenhum bem perguntar.
— Preparem-se, vou dar uma abertura para vocês — Evan disse e quando demos espaço ele disparou três flechas contra os monstros que já avançavam mais rapidamente, nós avançamos logo em seguida.
Através da nuvem de pó que havia sobrado acertei um dos monstros com a espada arrancando um o que devia ser o antebraço e logo após ele se desfez, Raimos avançou acertando as criaturas com o gladio de ouro imperial, mas os outros monstros reagiram transformando os braços em tentáculos e tentando nos prender, me defendi de um que abriu uma boca que tomou quase toda a cabeça ao tentar arrancar a minha, estávamos sendo forçados a recuar, Raimos havia sido ferido novamente, mas aquilo pareceu não o abalar, na verdade deve tê-lo irritado mais pois tive que puxa-lo pela gola da camisa antes que fosse cercado pelos monstros.
— Ei, se toca cara — Eu disse chamando a atenção dele enquanto atravessava a boca de um dos monstros com minha espada, mas então para o meu azar o solifago demorou mais a se desfazer e não consegui defender um golpe que acertou no estômago, a força da pancada me jogou para trás e senti sangue em minha boca, quando a tontura passou e consegui abrir olhos a visão não das melhores, minha espada havia sumido em meio aos monstros que se aproximavam cada vez mais selvagens, Raimos estava tentando lutar ainda, mas não conseguia dar um golpe sem ter que defender de três.
— Acelera isso cara — Escutei Evan gritar provavelmente para Jonathan, mas eu não tinha coragem de me virar para olhar pois naquele momento Raimos foi derrubado no chão próximo a mim e só não morreu naquele instante por uma das flechas de Evan destruir o monstro.
Olhei a minha frente com o mundo entrando em câmera lenta, me sentia deslizando por um liquido enquanto observava os solifagos se acimarem sobre nós, naquela situação a melhor hipótese seria morrer pisoteada, do contrário só podia imaginar a coluna do salão anterior e o rosto de Raimos, entre as coisas que passavam em minha mente havia também uma sensação estranha, de que estava sendo observada, mas de um forma diferente e familiar, mas não boa, parte de mim quis se indagar sobre isso, porém o resto todo buscava uma maneira de sobreviver ao que estava a minha frente e então meus olhos captaram minha mão levantada pouco acima do chão, me perguntei se a havia deixado assim por acaso ou instinto de alguma forma, não importava muito naquele momento, eu tinha a resposta de como sobreviver, ou pelo menos não morrer por solifagos.
O mundo voltou a velocidade normal e o mais rápido que pude bati minha mão contra o chão com força e nesse momento uma onda de choque percorreu todo o corredor derrubando os monstros uns sobre os outros e então minha cabeça quase entrou em parafuso, senti uma grande parte do que a onda tinha alcançado, desde minha espada sob os monstros, Jonathan lutando para se manter equilibrado com algo estranho nas mãos e até os lençóis freáticos que corriam sob a rocha e tudo isso foi informação demais por um momento.
— Droga Jonathan, termina essa coisa de uma vez — Eu disse ao ficar de joelhos e ergui a mão esquerda novamente fechada como um punho e acertei com força o chão criando outra onda de choque que jogou os solifagos mais para longe revelando minha espada, mas também senti rachaduras se abrirem no teto do corredor, não poderia usar aquilo novamente mesmo que a descarga de informações da onda não tivesse mexido com minha cabeça a ponto de meu nariz sangrar.
Por alguns segundos tudo que pude fazer foi me apoiar sobre o chão e ver as gotas de sangue caírem sobre ele, minha mente estava simplesmente sobre carregada e por isso não gostava de usar esse poder, era debilitante demais, antes que eu estivesse com a cabeça de volta no lugar Evan me ergueu e empurrou contra a parede, algo que em outras condições eu teria feito espeto de legionário, mas logo em seguida uma chama verde cortou o ar e mesmo sob ele ainda pude senti o calor que aquilo emitia, percebi também que ela havia destruído solifagos que estavam a ponto de nos atacar.
— Mas o que foi isso? — Eu disse afastando Evan apesar de ainda estar me recuperando, então vi Jonathan andando na direção dos solifagos e quase mandei ele se ferrar pois não tinha passado por tudo aquilo pra ele se suicidar, mas para a minha surpresa chamas verdes foram destruindo os solifagos na frente dele e só então entendi o que havia acontecido apesar de estar incrédula — Não acredito que ele fez um lança chamas de fogo grego.
— É, essa coisa é potente mesmo — Evan disse levantando e notei ele tinha por cima da cabeça algo que parecia um lençol que ele jogou no chão, a poucos metros de distância Raimos que estava no chão também tinha um sobre ele, a nossa volta as paredes estavam chamuscadas e havia pequenos focos de fogo verde em toda parte, aqueles lençóis deviam ser algum tipo de proteção contra fogo grego, ou então teríamos virado churrasco.
Jonathan terminava com os solifagos no corredor, ele fez sinal de positivo mostrando também que estava usando luvas, parecia bem feliz, mas não dava para ter certeza já que ele estava usando uma máscara de solda.
— Vai uma ajuda aí? — Evan disse estendendo mão para me ajudar a levantar e depois que ajudamos Raimos a se levantar fui buscar minha espada que por sorte não havia derretido, mas estava quente como se tivesse saído da forja então tudo que eu podia fazer era chuta-la de um lado para o outro até esfriar se não quisesse encher minha mão de bolhas, enquanto fazia isso Evan voltou a se aproximar de mim — Então, aquilo que você fez, o tremor, foi incrível, nunca havia visto alguém usar magia daquele jeito
— Ah, sabe, não foi magia, ou pelo menos não exatamente — Eu disse dando de ombros tentando fazer aquilo parecer algo comum, mas Evan só pareceu ficar confuso, mas pareia estar se acostumando com aquilo.
— Não devíamos ficar muito tempo aqui, logo mais daquelas coisas podem aparecer — Raimos disse parecendo um tanto o quanto preocupado, ou envergonhado, era difícil dizer exatamente.
— É, acho que você tem razão — o desconforto de Evan ao ver que alivio tínhamos não duraria, então ele gritou para que Jonathan voltasse, provavelmente não querendo se aproximar por trás de alguém com um lança chamas, o que eu sem dúvida eu concordava.
— Wow, cheguei a pensar que não conseguiria a tempo — Jonathan disse ao se aproximar e levantar a máscara de solda, a expressão no rosto dele era de alegria e orgulho — Meu primeiro lança-chamas de fogo grego, ainda precisa de uns ajustes, mas não precisam temer aquelas coisas enquanto eu estiver com isso em minhas mãos.
Quando terminou de falar Jonathan deu um tapinha na lateral da arma que por sorte estava apontada para cima pois ela soltou uma pequena e mortal cortina de fogo para o teto e quase matou Jonathan de vergonha.
— Jonathan, seu maluco de Hefesto, é um prazer te ter conosco nessa missão — Eu disse dando um soco sem força no braço dele, poderia ter sido impressão minha, mas podia jurar que ele enrubesceu.
Depois daquilo seguimos pelo corredor, Raimos parecia ter decidido ficar atrás de Jonathan por motivos bem óbvios, Evan estava carregando a bolsa de Jonathan e os peças de o que quer que estivesse dentro vez ou outra soltavam um barulho como se estivessem se chocando o que não ajudava a deixar o clima mais calmo, especialmente porque tivemos de deixar nossa proteção contra fogo para trás.
— Raimos, quanto falta ainda? — Perguntei preocupada — Perdi completamente a noção do tempo.
— O próximo salão já nos deixa no ultimo corredor que sobe até uma passagem que chega aos aposentos de um dos capitães — Raimos respondeu e pareceu lembrar dos companheiros que havia perdido, mas logo balançou a cabeça ficando com uma expressão determinada — Vamos terminar com isso de uma vez.
Não demorou tanto para que chegássemos ao outro salão, um arco de pedra seguia para uma escada que descia em um espaço retangular iluminado por uma fogueira no centro assim como o anterior, Evan se adiantou e procurou atentamente sinais de alguma ameaça, mas sinalizou para que avançássemos pelo salão, pelo menos dessa vez nenhum monstro surgiu das trevas para nos atacar enquanto passávamos, a luz do fogo não chegava até o corredor e tivemos que usar o que tínhamos para iluminar o caminho.
— Será que você pode iluminar melhor? — Raimos reclamou enquanto tentava achar algum tipo de botão na parede próximo a escadaria, mas o corredor era estreito o que dificultava.
— Não sei se você notou, mas isso aqui não é uma lanterna — Eu disse.
— Que seja, já encontrei — Raimos disse empurrando um pequeno pedaço da rocha talhada da parede, logo o teto acima da parede começou a se abrir de uma forma incrivelmente silenciosa para uma pedra que devia pesar algumas toneladas.
Depois que passamos Raimos
— Bem, só repassando, depois daqui estaremos subindo bem para o meio das forças do inimigo — Evan disse — Acho melhor sabermos previamente o caminho que vamos tomar lá em cima.
— Não é tão difícil, podem confiar em mim — Raimos disse passando a frente.
— É sério, não dá pra ficar se achando agora — Evan disse segurando Raimos pelo braço — Escapamos dos solifagos por pouco, só quero me precaver.
— Esse é uma péssima hora para desentendimentos, por que nós não decidimos isso no caminho, estou com um mal pressentimento — Jonathan disse.
— Ele tem razão, não temos mais tempo de parar e planejar cada detalhe e muito menos de errar — Respondi já indo em direção ao corredor, mas percebi que Raimos apertava os lábios como se tivesse algo queria falar, mas não sabia como — Olha, se você tem algo para dizer é melhor dizer logo.
— É que... — A voz dele falhou um pouco após relutar a começar a falar, mas ele continuou após um suspiro pesado — Tem algo que eu quero pegar de volta, na verdade diria que preciso.
— E o que é isso ? — Jonathan perguntou curioso.
— Não importa — Evan cortou — O que importaria tanto pra você desviar o curso da missão só por isso e supondo que ainda esteja onde você deixou?
— É a espada do meu avô — Raimos respondeu evidentemente triste e envergonhado — Sei que vocês não têm nada a ver, mas ouviram o general, depois que tudo isso acabar, eu vou ser expulso, não vão me deixar chegar nem perto desse lugar, muito menos devolver uma arma e ela é tudo o que me sobrou da minha família.
— Não acredito que vou dizer isso — Evan disse se dando por vencido — Mas vamos em busca dessa arma, você pelo menos tem certeza de onde está?
— Absoluta — Raimos respondeu e passou a frente subindo.
— Ei, Evan — Eu disse quando ficamos para trás no corredor — Acredite, sei que é difícil na nossa situação, mas relaxa um pouco se não vai acabar sangrando pelos ouvidos.
— Hum, interessante — Evan respondeu me olhando nos olhos.
— O que é interessante? — Questionei tentando não demonstrar meu desconforto.
— Isso que você falou, me faz lembrar de uma pessoa — Evan disse parecendo casual, mas o questionamento por trás das palavras deles era claro e tinha que admitir que naquele momento eu realmente tinha dado um tropeço — Mas deve ser só coincidência, não é? De qualquer forma melhor irmos logo.
Naquela hora meu coração devia estar batendo tão rápido que talvez ele fosse capaz de ouvi-lo, não conseguia dizer a que tipo de conclusão ele havia chegado, mas pelo menos ele parecia dar mais importância para a missão e esperava que continuasse assim. A escada terminava numa sala que em algum momento deve ter sido um tipo de dormitório, mas a esse ponto estava completamente em ruinas, o chão estava repleto de pedaços de mobília que talvez provavelmente eram camas, a única luz ali vinha de nossos equipamentos.
— Cuidado para não tropeçarem em nada — Raimos disse tentando limpar o caminho para nós, mas cada vez que ele mexia mais entulho parecia ocupar o lugar do anterior.
— Certo, onde estamos e por vamos, Raimos? — Perguntei.
— Esse era meu dormitório, digo, dos vigias dessa ala, a espada do meu avô está na cabine do nosso oficial, ele tinha algum respeito por mim e quando trouxe a espada decidiu guardá-la por mim, eu não poderia usa-la no trabalho aqui.
— Raimos, me diz — Chamei a atenção dele falando baixo já que estávamos próximos a porta — qual é o problema que parecem ter com você, Rilvar parecia não te suportar e a forma que você fala é quase como se te perseguissem?
— Olha, é complicado, coisa de família ou algo assim, nem eu entendo muito, mas já decidi há um tempo que viveria apesar disso, não posso mudar os outros ou suas ideias no fim das contas — Raimos respondeu — Agora se preparem, vamos pegar o caminho para a direita, a cabine é a terceira sala do lado esquerdo, depois disso a sala das correntes fica no fim do primeiro corredor de onde estamos, então vamos ter que voltar por esse caminho.
— Por que não nos dividimos? — Jonathan perguntou.
— Má ideia — Raimos disse.
— Olha, isso nunca dá certo — Respondi.
—Definitivamente não — Evan retrucou.
— Nossa, não tá mais aqui quem falou.
Depois disso Raimos abriu a porta, eu e ele tomamos a frente, Evan e Jonathan logo atrás, parecia que tínhamos dado sorte, não havia um único monstro a vista, mesmo que os braseiros mal acessos do corredor iluminassem pouco dava para ter certeza com relação a isso então não perdemos muito tempo e seguimos o caminho que Raimos havia apontado, quando viramos no corredor da cabine percebemos que havia um sátiro de sentinela ao lado da porta, não dos melhores eu diria já que antes mesmo que ele pudesse se virar Evan o atingiu com uma flecha em sua cabeça e ele se desfez antes mesmo de chegar ao chão.
— Mas é claro que eles vão pegar a cabine que queremos entrar, não é como se tivessem umas dez outras cabines aqui não é — Evan resmungou provavelmente achando que ninguém ouviria.
— Vamos rápido, antes que mais surjam — Raimos correu para a porta da cabine, lá ele bateu a porta, um sátiro desavisado abriu a porta e ganhou um gládio na barriga por isso.
A cabine era grande, tanto quanto o dormitório pelo qual entramos, mas ela estava repleta de caixas e barris de madeira, além de dois monstros muito surpresos dos quais nos livramos sem grandes problemas, depois entramos todos na cabine enquanto Evan ficava próximo a porta entre aberta para tentar ver qualquer aproximação.
— Ana, me ajuda aqui por favor — Raimos disse e juntos movemos uma caixa de madeira que estava próximo a parede, mas ela acabou escorregando de nossas mãos e quando caiu um pedaço dela quebrou além de fazer um grande barulho.
— Mas o que foi isso? — Evan disse se assustando com o barulho.
— Calma foi só uma das caixas que quebrou — Raimos disse distraído em quanto movia alguns tijolos na parede revelando um compartimento de onde tirou uma espada embainhada embrulhada em um pano, ele parecia estar bem feliz e não perdeu tempo em mostrar a espada — Realmente, muito obrigado a todos, cheguei a pensar que nunca a recuperaria.
— É uma bela espada — Eu disse, não que eu a espada fosse algo incrível, era na verdade bem normal, aço, pouco mais que um metro de lamina, uma típica espada que se via em filmes, o que era um tanto interessante considerando que estávamos em outro mundo.
— Se já tem o que queria é melhor irmos então — Evan disse se aproximando, mas então pareceu notar algo que o fez ficar pálido — Ah não.
— O que foi? — Perguntei preocupada enquanto Evan se baixava ao lado da caixa que havia quebrado, dela ele tirou alguns objetos, um tipo de recipiente cilíndrico de metal coberto de escritos.
— Nunca vi esse tipo de escrita antes, o que é isso? — Raimos disse e também tinha a mesma pergunta em minha mente.
— Isso é a confirmação de uma suspeita que a legião já tem há algum tempo — Evan disse enquanto guardava o cilindro no bolso.
— Suspeita de que? — Questionei e tivemos uma troca de olhares estranha, ele parecia estar decidindo se era seguro compartilhar aquela informação.
— Acho que vocês devem saber também de qualquer forma, mas se perguntarem nunca ouviram nada sobre isso, muito menos de mim, certo? — Evan disse e nós concordamos, até Jonathan que parecia mais focado no corredor — Pois bem, na última guerra da legião descobrimos que havia um grupo de pessoas que orquestrava ou auxiliava muitas ações contra a legião, parecia só mais um de vários grupos que buscava nos prejudicar, mas quanto mais descobríamos mais complexo esse grupo se mostrava, contrabando, tráfico humano, caça ilegal, assassinatos e golpes de estado em quase todos os mundos e dimensões que a legião tem conhecimento, eles se denominam a Corte de Decalon e pensávamos ter acabado com eles como consequência da guerra, mas essas runas dos cilindros são a marca deles, devem estar tentando se reorganizar e sem dúvida Azalas é a melhor oportunidade para eles.
— Então, o que fazemos agora? — Perguntei me sentindo extremamente perdida de repente, aquilo tinha passado o limite de informação que eu podia absorver rapidamente.
— Terminamos a missão, sobrevivemos e eu levo isso para a legião, talvez possam fazer algo a respeito.
— Certo.
— Gente, temos companhia— Jonathan disse — Pelo menos sete desses sátiros estão vindo pelo corredor.
— Eles já nos notaram? — Evan perguntou
— Parece que não, por enquanto — Jonathan respondeu — Vai tentar pega-los de surpresa?
— Sim, a melhor opção é eliminar todos bem rápido antes que outros nos notem.
Evan deixou a bolsa de Jonathan próximo a porta e começou uma contagem com os dedos, eu e Raimos preparamos nossas espadas e Jonathan já preparava seu lança chamas. No zero Evan abriu a porta e saltou para o meio do corredor disparando uma flecha no monstro mais próximo, em seguida Jonathan correu disparando chamas nos sátiros surpresos, Raimos e eu lidamos com os que tinham sobrado, ele ficou bem feliz ao usar a espada do avô, estávamos prestes a correr a frente pelo corredor quando algo chamou minha atenção, ou talvez tenha sido instinto, olhei para trás e para cima, havia outros monstros, mas eles estavam nas armações de madeira que atravessavam o teto.
— Cuidado, no teto! — Foi o que tive tempo de gritar antes que um deles caísse sobre Jonathan.
O sátiro que atacava Jonathan se destacava do grupo, usava uma armadura de cota de malha cobrindo o corpo e braços e empunhava uma falcata, os outros eram como os que tínhamos enfrentado até ali, mas dessa vez eles estavam com a vantagem e nos separaram, tentei abrir meu caminho até Jonathan rapidamente, mas era muito difícil, atacar me deixava aberta a pelo menos três ataques, nem ousava olhar para trás em busca de Raimos com medo de ser acertada, aos apertos consegui derrubar um cortando a pata, outro me atacou logo em seguida, mas consegui desviar e acertar um bom corte na coluna dele, era bom ter progresso, mas quando olhei para Jonathan meu coração gelou, ele estava no chão e segurava a espada do sátiro com o lança chamas e então um som de algo se partindo acertou meus ouvido e um clarão de bronze quase me cegou, quando abri os olhos pude ver o que havia acontecido, a espada do sátiro havia partido o lança chamas e agora ele estava se desfazendo em pó, nunca havia visto nada como aquilo acontecer com uma arma de bronze celestial, eu me livrei de meu torpor a tempo de me defender de outros ataques, mas logo um grito cortou o ar, e com o coração pesado vi Jonathan empalado com a espada do sátiro, Evan havia pulado nas costas do monstro e o enforcava com o arco causando uma distração suficiente para que eu abrisse caminho entre os sátiros até Jonathan, ao me ajoelhar ao lado dele sentia lagrimas em meus olhos, mas para a minha surpresa o golpe não parecia ter sido fatal, mas ele estava desacordado, tirei a falcata que estava presa no ombro dele e rasguei um pedaço da camisa dele para estancar o sangramento.
— Ana, Abaixa — Raimos disse e rapidamente me abaixei, pude sentir a espada passando pouco acima da minha cabeça quando ele cortou um dos monstros ao meio, em seguida o som de algo pesado batendo no chão, Evan pulou bem na hora que o sátiro desmaiou.
— Minha nossa, como ele está? — Evan disse se abaixando ao meu lado.
— Não parece nada bem — Eu disse, a pele dele ao redor do ferimento estava ficando escura e eu não sabia o que isso queria dizer.
— Tenta isso — Raimos apareceu com um frasco de néctar da bolsa e rapidamente fiz Jonathan tomar o liquido além de despejar um pouco sobre a ferida, ele pareceu melhorar, mas ainda estava desacordado — O que fazemos agora?
— Vamos completar a missão o mais rápido possível e tratar dele — Evan disse prendendo a falcata do sátiro a cintura — Me ajude a colocá-lo nas costas, minhas flechas acabaram de qualquer forma.
Depois que Evan conseguiu sustenta-lo nas costas corremos o mais rápido possível ajudando-o a apoiar o peso, não havia mais sátiros no caminho, eu tive a ilusão de me aliviar, de que poderíamos sair dali e levar Jonathan até o Argo sem mais obstáculos, mas mais uma vez eu estava errada, quando nos aproximamos da sala das correntes encontramos duas figuras conversando no caminho e era difícil dizer quem estava mais surpreso.
— Ow, nossa, o que temos aqui, parece nosso tira gosto chegou Abigail — O homem disse, apontando uma faca de prata para nós, seus cabelos eram brancos e caiam sobre os ombros cobertos de roupas pretas e o rosto dele era repleto de cicatrizes marcando a pele branca, o que so não era tão sinistro quanto o sorriso psicopata dele.
— Tenho de discordar, você tem algo a fazer não lembra? — Abigail respondeu, ela tinha pele tom de oliva e cabelos castanhos, usava um vestido vermelho e luvas pretas enquanto cruzava os dedos olhando atentamente para nós, sua voz era fria como o fundo de uma geleira — Cuide para que o garoto do raio não chegue a Caius, o estupido acabou se enfraquecendo de novo.
Apesar do cansaço notei que ela devia estar falando de Jason.
— Ah, sua estraga prazeres, está bom — O homem disse dando um passo para traz e se transformando em uma serpente com asas e voando rapidamente para longe.
— Bem, acho que devo alguma educação a vocês, meu nome é Abigail Thornton, e seria muito bom se não resistissem e me deixassem mata-los bem rápido.
— Thornton ... — Evan começou a falar, ele parecia bem cansado com Jonathan em suas costas — Você é bruxa, sabe que o pacto da convenção agora ordena que bruxas não tomem ações violentas contra legionários em missões oficiais da legião da luz não é?
— Oh minha nossa, pela grande mãe, não me diga, me perdoe então Oh nobilíssimo legionário — Ela começou a dizer fingindo arrependimento com as mãos tapando a boca, mas logo trocou para uma expressão de deboche — Sério garoto, isso já funcionou alguma vez? Poucas de nós vão querer ajudar a legião depois de tantos séculos, e aquelas patéticas “bruxas da luz” que decidiram forçar esse novo pacto sobre nós não sabem nem o que fazem da vida quanto mais o que a irmandade como um todo quer, enfim, hora de dizer tchau.
Abigail se ergueu no ar com uma aura negra emanando dela e apontou a mão em nossa direção, admito que eu estava paralisada e não sabia o que fazer, se havia algo que pudesse fazer, mas então uma onda de fumaça escura nos atingiu nos jogando no chão, o impacto não foi tão forte, mas logo senti sangue em minha boca, minha visão estava embaçada, mas vi Evan e Jonathan, agora acordado, e sofriam com os mesmos sintomas, eu lutei para ficar de pé em meio a fumaça, mas a cada instante era como se minhas forças fossem sugadas, de repente a fumaça começou a se mover, pensei que era outro ataque, porém percebi que minhas forças estavam voltando e logo a fumaça diminuiu o bastante para que eu visse Raimos com sua espada brilhando vermelha e agora com runas que pareciam aspirar a fumaça.
— Mas que diabos é isso? — Abigail disse em espanto e atacou novamente, mas Raimos levantou a espada e o ataque foi absorvido antes de nos atingir fazendo a bruxa recuar.
— Olha só não é, parece que eu posso lidar com a madame — Raimos disse e apontou a espada para Abigail nesse momento uma descarga de energia vermelha disparou da espada até a bruxa derrubando-a no chão — Eu não sabia que dava pra fazer isso, vão pra sala das correntes eu seguro ela.
— Cara, eu não to entendendo o que acontecendo, mas já amei essa espada — Jonathan falou confuso.
Não esperamos um segundo convite e corremos para a sala arrombando as portas duplas a força, mas tivemos um grande choque assim que entramos na sala.
— Não pode ser, eu não acredito — Jonathan exclamou com a mão que podia mover sobre a cabeça ao ver que as correntes estavam todas fundidas como uma gigante barra de metal — Não tem nada que se possa mover nisso, não tem nada que possamos fazer.
— Aquela bruxa filha da... — Evan mal conseguia se manter em pé.
Eu não conseguia acreditar que todo nosso esforço havia sido por nada, tinha que haver um caminho, algo que pudéssemos fazer.
— Vamos lá, temos que pensar em alguma coisa, alguma ideia, gente, por favor — Eu disse tentando chegar a uma solução, mas eles não me responderam — É serio, temos que manter o foco, vamos achar um jeito, gente?
A princípio achei que estivessem em choque ou talvez me ignorando sem saber o que falar, mas depois notei o que realmente estava acontecendo, eles estavam paralisados, não só eles, a poeira caindo do teto e até Raimos sendo atirado pela porta com a espada em mãos, o tempo estava parado, isso só podia dizer uma coisa, ele tinha voltado.
— Olá Ana já faz algum tempo, não é? — Uma voz atrás de mim disse confirmando minhas suspeitas.
— Não o suficiente — Eu me virei para encara-lo, a mesma cara e roupa de antes, careca de pele negra vestindo um paletó e disse olhando fundo em seus olhos castanhos — Não o suficiente para eu superar o que você me fez passar Natanael.
— É, eu imagino — Ele disse tendo a ousadia de sorrir — Mas ainda assim você esta não está, usa a arma que eu te dei, está até em missão com a legião.
— Essa espada é minha! — Eu disse botando a ponta dela bem em frente ao nariz dele — Foi você que me levou ao acampamento meio-sangue não foi?
— Não, essa honra não foi minha, eu seu que tem muitas magoas pelo passado, mas entenda, você não estaria aqui hoje se eu não tivesse feito o que fiz — Ele disse isso tocando na ponta da minha espada e ela começou a encolher até que eu estava segurando uma pulseira de bronze, a forma original da minha espada que não ficava assim há anos, de repente senti lagrimas em meus olhos.
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— Desculpe Ana, eu não sei o que lhe dizer sobre isso — Natanael respondeu parecendo genuinamente decepcionado consigo mesmo — Mas se lhe serve de algo posso te dizer um caminho pelo qual você e seus amigos podem sobreviver e terminar essa missão.
— Como? — Eu disse ignorando todo o conflito dentro de mim, mesmo que o desprezasse nesse momento toda a ajuda era necessária.
— Aceite novamente o presente que lhe dei e também aceite o presente que vem do seu sangue, deixe que o poder de Poseidon corra por seu corpo, mesmo em outro mundo você pode alcançar a força dele e quando fizer empunhe tudo o que tem para abrir o caminho, o que me diz?
— Eu... — Apesar de toda a força que estava fazendo não conseguia evitar de hesitar de ter medo que acontecesse de novo, mas eu tinha que ser mais forte — Eu aceito seu presente Natanael, meu guia.
— Muito bem — Ele disse e a pulseira em minha mão começou a emitir luz e calor como nunca antes — Agora eu tenho que ir, saiba que eu acredito que você é capaz de superar essa e qualquer outra dificuldade em seu caminho, torço por você Ana.
Ao dizer meu nome ele desapareceu e o tempo voltou a correr com Raimos sendo atirado para dentro da porta, mas aquilo ainda parecia ocorrer em outro tempo, eu fechei meus olhos e senti, senti as vibrações que me ligavam a força de Poseidon, emanando desde a Terra até ali através de mim, vi em minha frente o oceano de abrir e sua força fluía através de mim, também senti os olhos de Poseidon sobre mim como se notasse alguém mexendo em sua dimensão de poder, mas ele pareceu permitir, pois quando percebi segurava em minha mão um tridente de bronze.
— Muito bem, agora vocês vão sofrer muito — Abigail disse entrando pelos restos da porta, sua roupa em frangalhos e sangrando pela boca, mas quando ela me notou pareceu perder o ar, quando notei também me espantei, um brilho azul emanava de mim e correntes elétricas corriam por meu corpo — Ah, quer saber vocês não valem o trabalho, fui.
— Certo, todos vocês segurem-se, tenho uma chance de resolver isso, só espero não nos matar no processo — Eu disse
— Vai Ana, confiamos em você — Evan disse e os outros concordaram.
“Muito bem então” eu pensei enquanto erguia o tridente concentrando energia, um terremoto muito forte começou a acontecer e com ele eu consegui sentir tudo o que estava acontecendo ao redor do portões, a construção a nossa volta começou a ruir nos expondo ao sol da tarde, tanto meu corpo quanto minha mente estavam no limite a esse ponto, mas não era suficiente, eu precisava ir ainda mais além, então finquei o tridente no chão de tijolos e todo o vale tremeu, sangrei pelo nariz e por todas as feridas que tinha e outras se abriram, mas aquele era um esforço necessário, muitas partes do forte começaram a ruir, os portões de ferro caíram para frente esmagando dezenas de monstros e soltando um som tão alto que devia dar pra ouvir da Terra, então comecei a perder a consciência, mas ainda pude ver a sombra do Argo sobre nós, havíamos tido sucesso e sobrevivido e isso me deixou com um sorriso no rosto.
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