Leo

Quando chegamos perto da enfermaria ouvimos uma discussão e admito que a ideia de que uma briga entre os legionários e semideuses estivesse começando me dar um frio na barriga.

— Ninguém entende o que está acontecendo aqui — Pudemos notar um filho de Apolo falando com outro semideus que estava muito exaltado — Só por favor, essas pessoas precisam da nossa ajuda, nós deixe trabalhar.

— Eu não me importo, eles sabem de algo sobre Jason, tem que saber e vão me falar — Era Dakota, o amigo romano de Jason, não sei como havia esquecido dele, desde que havíamos levado os legionários abordo ele tinha sumido e pelo que parecia tinha dado um jeito de arranjar suco Tang, ou até mesmo vinho pelo jeito que os passos vacilavam — Agora me deixa passar.

Ele tentou empurrar o outro garoto para o lado, mas tudo que conseguiu foi errar por um bom espaço e cair no chão, se Dakota não estivesse tão fora de si teria passado por cima dele com facilidade. Eu e Ana ajudamos Dakota a sentar encostado em uma parede, ele vestia a camisa do acampamento Júpiter e uma calça jeans, ambas estavam com várias manchas e não queria saber nem o que nem como ele havia tomado, com certeza ele não estava lidando bem com o sumiço de Jason, na verdade, ninguém estava.

— O que devemos fazer? — Eu perguntei quando Dakota quis tentar se levantar — Faltei a aula sobre bêbados em navios voadores.

— Não acho que ele esteja realmente bêbado — Ana disse com um olhar penetrante e jurei que aqueles olhos verdes estavam carregando uma mensagem que não pude entender — E você deveria estar no comando.

— Tenho uma ideia só segurem-no um pouquinho — Amber disse e quando seguramos Dakota ela tocou a testa dele e em menos de dez segundos caiu para o lado roncando — Nossa, que bom que funcionou, na última vez que tentei isso a pessoa teve um ataque de vômito.

— Olha, muito obrigado, mas na próxima vez que tentar algo que possa fazer alguém vomitar em mim eu gostaria de um aviso — Eu disse, me afastando de Dakota o mais rápido possível.

— Concordo plenamente — Ana também estava mantendo uma distância segura — Mas não podemos deixa-lo aqui, acho que o quarto dele não está ocupado, alguém vai ter que leva-lo até lá.

— Ah, olha só que horas são, tenho algumas coisas de filha de Hécate pra fazer, até mais — Amber disse se afastando rapidamente com sua gata logo atrás.

— Tenho que ver se ainda temos alguns medicamentos — O filho de Apolo que estava atrás de nós disse sumindo rapidamente dentro da enfermaria.

— Ah, não, não, não mesmo — Ana reclamou quando nos entreolhamos e apesar da suplica e da cara de nojo ela sabia que eu tinha outras a fazer — Hah, tudo bem, mas fique sabendo Leo Valdez, não me importa se você foi um dos sete, capitão desse navio ou se driblou a morte, vai ficar me devendo essa e vai me pagar.

Assim ela começou a tentar puxar Dakota pelos pés e ele começou a arrotar o que era muito nojento, antes de entrar na enfermaria ouvi alguns xingamentos bem interessantes quando Ana teve que segura-lo ao seu lado, com certeza aquilo não ficaria por isso mesmo, mas não dava pra me preocupar com isso no momento. Na enfermaria cinco legionários estavam sendo tratados além de Nicholas com seu pé enfaixado e Edgar que estava respirando através de uma pequena maquina ao lado de sua cama. Quando passei pude notar o Filho de Apolo de antes se encolhendo atrás da cama de uma garota que tinha mais faixas que uma múmia. Quando parei ao lado da cama de Edgar uma garota usando a camisa do acampamento Júpiter veio falar comigo e seu semblante não era dos melhores.

— Ele está estável agora, mas não sei dizer o que ele tinha ao certo — Ela tinha minha altura, cabelos castanhos claros em um corte curto e usava óculos, então olhou pra mim e estendeu a mão — Ah, desculpe Leo, meu nome é Cecilia, não nos conhecemos, quer dizer, você não me conhece, mas eu te conheço... de qualquer forma, eu estou ajudando na enfermaria, meio que no comando dela, a situação está sob controle, mas o fato de não podermos usar ambrosia nem néctar dificulta.

— Por que não? — Perguntei.

— No que pudemos ver até agora eles são pessoas comuns, mortais, não tem nada de sangue divino, então achamos que era melhor não arriscar a, você sabe, incinera-los — Ela falou dando de ombros com uma cara confusa.

— Ah, entendo, realmente é melhor mesmo, não sabia que tínhamos um desses — Disse apontando para a máquina que ajudava Edgar a respirar.

— Não temos .. — Cecilia começou a dizer, mas foi interrompida por alguém vindo falar conosco.

— Mas nós temos — Era Evan, ele ainda parecia um pouco abatido, mas parecia estar ajudando.

— Realmente — Cecilia começou a falar ajeitando seus óculos — A ajuda desses... hum, deles, tem sido muito útil, afinal tudo que temos aqui é voltado para semideuses e eles obviamente não são.

Só quando Cecilia falou notei que havia pelo menos mais dois legionários ali além de Evan.

— Legionários, pode se referir a nós como legionários — Evan disse para ela e a cara dela me disse que ela já sabia disso, não que gostasse da ideia, afinal os semideuses do acampamento Júpiter também eram chamados de legionários, daí a recusa dela de usar esse nome, sentia que ainda haveriam algumas barreiras para se superar e não achava que teríamos o luxo do tempo para isso — Bem, temos alguns equipamentos para tratamento e também formação para isso, eu por exemplo sou especializado em enfermagem.

— Legal pra você — Cecilia disse parecendo chateada — Sabe, acho que vou checar os outros, boa sorte no que quer que queira Leo.

— Verdade, o que veio fazer aqui Leo? — Evan perguntou.

— Precisava falar com Edgar, esperava que estivesse em melhores condições, mas acho que não vai dar — Comecei a falar, então me toquei de uma coisa que havia deixado passar — E você, desde quando está aqui?

— Não muito tempo — Ele respondeu dando de ombros notei que ele usava apenas uma camiseta branca por baixo de um avental de enfermeiro e ele ficava parecendo um dentista desleixado — Depois que você saiu do interrogatório eu fiquei um tempo na sala e quando sai não havia ninguém, passei pela enfermaria para checar Edgar e decidi ajudar por aqui.

— Ah, desculpe, eu deveria ter mandado alguém te levar até um quarto mas acabei esquecendo, essa coisa de comando total e nova pra mim.

— Eu entendo, com Edgar nesse estado e sem Catarina aqui quem fica no comando sou eu, mas não sei muito bem o que fazer agora — Ele deu um pequeno sorriso sofrido.

— É, estamos os dois no mesmo barco.

— Literalmente — Ele respondeu — O que você queria falar com Edgar afinal?

— Era sobre isso, estava com ele quando passaram por aqui logo que vieram abordo — Dei a ele o lenço com as pedrinhas — Talvez sejam um jeito de achar meu amigo e sua tenente.

— Eu agradeceria isso — Ele me devolveu o lenço — Acho que são os fragmentos da pedra portal, mas só quem sabe dizer é o Edgar, ele é o especialista em portais.

— Cara, será que você pode me explicar isso? — Eu perguntei porque realmente não estava conseguindo entender muito — Como assim especializado e qual é a das patentes?

— Vocês não têm hierarquia? — Evan me olhou como se perguntasse de que mundo viemos — Seja como for, a legião da luz tenta funcionar como um exército, todos começam no treino e depois que atingem uma certa patente podem buscar algum curso de especialização, e quando alguém pede baixa pode requerer um diploma para exercer a função.

— Nossa que legal, passe uns anos matando monstros e costurando seus amigos e depois costure idiotas que se arrebentaram em uma briga de escola — Disse tentando descontrair, me perguntava se era dessa forma que a universidade em Nova Roma funcionava.

— É mais ou menos isso — Ele riu um pouco.

— Mas e ele? — Apontei para Edgar — Ele é especializado em fazer picolés com o cajado?

— Não.. se bem que nunca perguntei a ele — pude ver que Evan estava começando imaginar as besteiras que eu estava falando, talvez fosse melhor maneirar com ele — Edgar é um mago, não é uma patente nem uma especialização é mais como um talento, alguns legionários tem habilidades especificas, mas nosso pelotão não tem ninguém com poderes, facilita para rastrear algo e passar despercebido.

Depois disso continuamos falando sobre várias coisas e quase podia jurar que a cara dele estava dando um ataque quando comecei a falar que no acampamento meio-sangue não tínhamos quase nada de hierarquia, acho que realmente devia ser algo importante para ele, a conversa fluía bem, era quase como falar com alguém que já conhecia há mais que algumas horas, quase não nós tocamos quando Edgar começou a resmungar por baixo da máscara do aparelho.

— Ei, calma, mantenha-se quieto — Evan falou enquanto tirava lentamente a máscara do rosto de Edgar — Como está se sentindo, er, senhor?

— Como se um caminhão tivesse me acertado no meio de um tufão — Edgar falou parecendo confuso — Só me dê um minuto pra processar tudo o que está acontecendo.

— Tudo bem, vou procurar uma garrafa de água ou alguma coisa assim — Evan disse enquanto se distanciava de nós.

— Caramba, me desculpe eu entendo como é ruim apagar dessa forma, tenho amigos que fazem isso constantemente — Eu disse tentando não forçar Edgar a gastar energias, apesar de parecer melhor ainda tinha a cara bem como ele mesmo descreveu — Mas tem coisas que precisamos conversar, hã.. o que exatamente te deixou assim?

— Ehh, digamos que esse foi o maior descanso que tive nos últimos dias — Ele parecia meio tonto, mas conseguiu se sentar na cama — Além de que eu tive criar um portal irregular e mantê-lo estável tive que lutar contra um mago parasita e invocar uma parede de gelo, acho que não esqueci nada.

— Ah, nossa — Fingi que entendi o que ele dissera mesmo não tendo entendido nem metade, precisava ser objetivo — Mas e sobre isso aqui, Evan disse que podem ser fragmentos da pedra sei lá o que, mas que só você poderia dizer, o que sei é que quando essas pedrinhas formam um círculo o que jogamos no meio desaparece.

— Ótimo, isso é muito bom — Edgar pegou o lenço com as pedras e começou a mexer nelas, senti vontade de dizer para não fazer isso pois seu dedo podia desaparecer, mas acreditei que ele sabia o que estava fazendo — Se elas ainda estão sumindo com as coisas quer dizer que ainda há energia latente nesses fragmentos.

— Hã, desculpe, mas não estou entendendo nada — Falei na hora que Evan apareceu com o copo de água.

— O que aconteceu é que esses fragmentos juntos formam uma pedra portal, muito peculiar por falar nisso — Edgar falou devolvendo o copo vazio para Evan e acenando com a cabeça em agradecimento — Resumindo as coisas essa pedra estava com Cauis Leisser, um criminoso fugitivo e mago muito experiente, ele estava lutando com a tenente Catarina e seu amigo, Jason, quando a pedra entrou em reação e isso a fez explodir, mas antes criou um portal que levou os três para algum outro lugar, possivelmente outro mundo.

— Então podemos usa-la para resgata-los? — Evan perguntou antes que eu pudesse falar alguma coisa.

— Sim, supondo que ainda estejam vivos — Edgar falou em um tom sombrio que quase me fez para de respirar, não poderia voltar para o acampamento sem o Jason, ou mesmo com o cadáver dele, eu nunca me perdoaria e Piper apesar de tudo que ela e Jason estavam passando me mataria.

— Não — Eu disse interrompendo e quebrando o clima pesado — Jason é meu melhor amigo, já passamos muita coisa juntos, não é isso agora que vai derruba-lo, não me importa quem é esse Caius, mas sei que não vou arriscar deixa-los a mercê dele.

— Muito bem então — Edgar falou me devolvendo o lenço com os fragmentos — É melhor que todos descansemos essa noite, o que precisamos fazer vai requerer o máximo de cada um de nós e talvez mais do que isso.