Capítulo 12

Catarina

A viagem tinha sido particular para dizer o mínimo, a Serrilha começou a emitir um brilho azul de sua lâmina destacando os desenhos feitos sobre o fio reto dela, como triângulos dourados em sobre o fundo prata escurecido imitando uma serra, um confortável calor emanou através do longo cabo que parecia feito de Aurantio com adornos em ouro e o que parecia ser um tipo de cristal prateado, logo a arma nós envolveu em sua aura e nos içou pelos ares e com algum tempo aquilo se tornou em um turbilhão de correntes de ar, como o que Neftera havia feito para nós carregar antes, mas os ventos eram realmente violentos a nossa volta como um pequeno tornado sem nada da graciosidade que a deusa das brisas tinha providenciado e mais do que isso, era muito mais rápido, quando eu e Jason percebemos que a Serrilha começava a nos puxar cada vez mais rápido não pudemos fazer muito antes além de nós entre olhar e segura-la o mais firme possível o que quase não foi suficiente quando ela disparou pelo céu, as correntes de ar atingindo provavelmente velocidades supersônicas enquanto a nossa volta nuvens, pássaros, montanhas, árvores e o deserto passavam em um borrão cada vez mais indistinguível.

A Serrilha nos deu um outro susto quando parou abruptamente e fiquei feliz por itens divinos não respeitarem a lei de inércia ou então eu e Jason teríamos continuado nossa viagem como a trajetória de uma flecha com um doloroso fim, ao invés a esfera de ventos a nossa volta começou a deformar, balançar e se mover para qualquer direção sem sentido como uma criatura feroz.

— Mas o que essa espada tá fazendo agora? – Jason perguntou enquanto lutava para se manter firme segurando o cabo junto comigo.

— Eu não sei – Disse enquanto tentava mudar a forma que a empunhava, o calor confortável tinha sido substituído por uma sensação de repúdio, como se eu estivesse segurando um gato aborrecido – Ela.. ela parece aborrecida, com raiva.

Jason olhou seriamente para a Serrilha por um momento e o olhar dele logo seguiu para o cenário à nossa volta, tentando me manter firme em uma massa de ar descontrolada enquanto segurava uma espada rebelde eu não consegui ver muito, mas pude ver que havia um largo vale a nossa volta, alguns bosques a distância e próximas estavam marcas claras de batalha recente, o chão revirado, estruturas derrubadas, armas de cerco destruídas, armas e armaduras quebradas e amassadas pelo chão agora alguns metros abaixo de nós e a nossa frente, alguns quilômetros provavelmente, uma imponente montanha envolta por uma estranha estrutura, um muro talvez.

— Ela não está só com raiva – Jason cortou o silêncio, me surpreendendo um pouco com o fato de estar considerando a espada ter sentimentos – Ela deve estar reagindo ao nosso redor, revoltada que não pode fazer nada.

— Espera você acha mesmo que.. – Comecei a falar, mas Jason me interrompeu.

— Você não estaria? – Ele disse virando para mim, mas parte da espera de vento que estávamos começou a se desfazer e ele estendeu a mão para fechá-la novamente – Você vai ter que convencê-la a seguir em frente, eu vou tentar manter isso inteiro se não vamos acabar caindo, e se temos que chegar naquela montanha prefiro evitar um campo de batalha.

Jason estendeu as mãos para os lados, fazendo com que os ventos tomassem novamente a forma de uma esfera, mas era claro que aquilo estava sendo um esforço e eu não sabia o quanto o choque da arma antes permitia que ele se esforçasse, eu segurei a Serrilha com mais firmeza e fechei meus olhos, eu não tinha ideia de como convencer uma espada mágica, mas isso era a ideia que eu podia ter, depois de alguns segundos constrangedores senti como se estivesse em um elevador descendo rapidamente, o medo de que a esfera de ventos tivesse se rompido quase rompeu minha concentração, mas logo me vi em uma cena diferente sem a espada em mãos. O local era o campo abaixo, mas o céu estava completamente envolto por nuvens vermelhas e laranjas pelas quais violentos raios corriam, sob a luz vermelha do céu a minha volta era como se a batalha estivesse ocorrendo naquele momento, batalhões lutavam contra diversos tipos de monstros, pelo céu enormes pássaros atacavam outras criaturas voadoras ou davam rasantes levando monstros em suas poderosas garras, apesar das táticas do exército e sua organização o número dos monstros era muito grande e a batalha cansativa.

Comecei a caminhar e fui pega de surpresa por um daqueles pássaros caindo em minha direção, o susto de ter uma criatura enorme caindo sobre sobre mim em alta velocidade me fez ter uma reação da qual não me orgulho, mas logo percebi que ele havia me atravessado como se não estivesse lá, realmente era algum tipo de visão, eu me aproximei do animal caído e notei que uma mulher o montava de alguma forma, a situação em que ela estava não havia dúvida que dava seus últimos suspiros e nesse momento pude jurar que vi um tipo de gás escuro deixar o corpo dela, mas um flash de luz chamou minha atenção, vi uma figura que se movia como raios indo sem direção pelo campo de batalha, me voltei novamente para a soldado caída, mas ela já não estava mais lá, nem nenhuma marca da queda do pássaro sobre o chão, parte de mim começou a desconfiar no que eu estava e olhando em volta comecei a notar os sinais, movimentos sendo repetidos pela batalha, estruturas caídas que apareciam em pé novamente, soldados mortos que voltavam a lutar sempre da mesma forma, apertei os lábios e fiquei ainda mais nervosa entendendo que estava em um tipo de egrégora e se não saísse logo as coisas podiam ficar bem ruins para mim.

Decidi que a figura saltando pelo campo era minha melhor opção para ter respostas e corri para intercepta-la, a visão que tive vai ser algo a gelar meus pensamentos por muito tempo, eu a abordei em frente a um soldado caído e eu vi a mim mesma, mas ainda assim não era eu, estava usando as mesmas roupas com a diferença de correntes elétricas correndo pelo corpo dela, os olhos pareciam estar faltando substituídos por esferas azuis que soltavam pequenos raios para todos os lados e olhando para a figura ela parecia errada, com os ângulos difíceis de olhar.

— O que você quer, estou ocupada e se não for não ajudar não atrapalhe – Disse a figura que pelo menos não tinha minha voz, parecia o som de um rádio velho e descalibrado, mas ela foi me dando as costas logo em seguida.

— Espere, você… você é a Serrilha não é? – Eu disse já imaginando que estava certa quando ela parou e voltou a se virar para mim – Eu, olha, eu não sei que você está fazendo aqui, mas…

— Eles tem que acordar, eles tem que parar – A Serrilha disse apontando para o soldado no chão, mas logo ele sumiu, voltando a encenar seus últimos momentos então a Serrilha se materializou a alguns centímetros de mim – Por que eles não param? Por que eles não seguem?

O tom dela era cheio de raiva e rancor, mas eu também pude notar que ela estava desesperada, ela não sabia o que fazer provavelmente porque não entendia a situação.

— Eu entendo você, que se sente impotente, mas ainda responsável e que isso dói – Respondi com sinceridade e olhando bem para as esferas azuis que soltavam descargas que deviam poder me matar com o toque – Apesar disso você tem que entender, não tem o que fazer, isso é uma egrégora, pode acontecer quando muitas pessoas morrem em situações similares e traumáticas, elas ficam assim por um tempo, mas seguem em frente… eventualmente.

Serrilha baixou o olhar enquanto pareceu considerar o que eu disse, preferi deixar de fora o fato que poderíamos ficar presas ali, mas antes que eu pudesse dizer algo ela sumiu e reapareceu no ponto que estive antes ao mesmo tempo que o pássaro caía, ela me fitou silenciosamente como se pedisse para que me aproximasse e quando cheguei ao lado dela, Serrilha apontou para a soldado e disse

— O que é essa coisa, a fumaça.

Novamente eu pude notar um tipo de gás deixando o corpo caído, agora com mais atenção percebi que ele percorria um caminho que parecia ir em direção até a montanha, mais que isso todos os soldados que caiam pareciam produzir a mesma coisa, me movi para um pequeno monte e pude ver trilhas do gás percorrendo o chão e indo em direção até a montanha, eu não tinha muito contato com os grupos da Legião que lidavam com esse tipo de coisa nem tinha muito além do básico em estudo do etéreo, mas eu tinha certeza que aquilo não era normal.

— Isso… parece que algo está se alimentando do que aconteceu aqui – Eu disse voltando para Serrilha.

— Então faça parar – Ele respondeu com raiva, os raios de seus olhos se intensificando.

— Eu não posso, mas se… – Comecei a falar, mas Serrilha bufou e apareceu próximo de outra soldado que estava caída, ela tentava reanimar a soldado, mas suas mãos também a atravessavam e isso a deixou cada vez mais frustrada até que ela bateu com as duas mãos sobre o chão liberando uma onda de eletricidade no impacto, o corpo caído já não estava mais lá voltando a repetir como o resto – Por que… por que eu não consigo fazer nada?

A cena de ver a consciência de uma arma mágica que tem quase a mesma aparência que você sofrendo me deixou bem atônita no primeiro momento, mas logo respirei fundo buscando trazer meu foco novamente para a situação como um todo, ainda precisava resolver isso ou então ficaria presa ou estaria ao caminho de uma dolorosa e provavelmente mortal queda e acima de tudo isso ao colocar meu olhar novamente sobre a Serrilha comecei a imaginar o porquê de termos aparências iguais.

— Eu sei como é… angustiante, mas antes de tudo você tem que reconhecer que tem dado seu melhor – Eu disse tentando ter firmeza enquanto me aproximava por trás dela e arrisquei colocar uma mão sobre seu ombro que por sorte não a atravessou ou então teria sido um momento estranho.

— Eu deveria estar nas mãos de Noretae, assim eu os teria protegido, mas agora estou com dois estrangeiros que parecem mal saber o que estão fazendo e nem ajudar os espíritos daqueles com quem falhei posso – Serrilha disse com amargura e decidi não levar para o pessoal a sua crítica especialmente quando ela se levantou e olhou para mim, era dificil dizer entre as correntes de energia em seus olhos, mas podia quase jurar ter visto lágrimas mesmo que apenas por um breve momento.

— Você está no caminho para isso, mas se mantiver esse peso sobre si estará dificultando seu caminho e… – Eu disse tentando coloca-la na direção apropriada e calar a parte do meu subconsciente que se questionava “Estou mesmo tentando animar uma espada?”, mas Serrilha me cortou rispidamente.

— Suas palavras não tem peso ou valor, como quer dizer isso pra mim se você faz o mesmo ou pior.

— Como disse, eu te entendo, sinto o mesmo que você – Busquei me defender tentando um tom mais amigável – Eu perdi companheiros recentemente também e temo pelos que ainda tenho, mas eu não carrego essas perdas e esse temor como um peso.

— Mentira – Serrilha disse, as esferas azuis de seus olhos parecendo desembrulhar minha alma e o que ela disse a seguir me fez perceber que talvez as aparências fossem sinal de uma ligação maior – Do contrário você não teria o peso da perda dela.

De repente senti como se o chão já imaterial sob meus pés se tornasse uma versão bizarra de areia movediça, meu coração se contorceu como se estivesse arrumando para de se demitir e eu não julgaria, coloquei minha mão sobre minha boca aberta junto com minha cabeça que passava a pender para a frente e as lágrimas a cortar meu rosto, quando meus pés fraquejaram e caí de joelhos no chão me sentindo completamente exposta, de repente eu precisava não estar ali, não estar em outro mundo e muito menos na frente de uma aparição que parecia ser capaz de ler minhas piores memórias, entre minha respiração ofegante e meu corpo tremendo parte de mim se lembrou de um dos possíveis efeitos de uma área como a que eu estava, mas eu não podia fazer nada para impedir a torrente de memórias e emoções que me tomava naquele momento.

De repente eu estava em um galpão abandonado, ainda sentia levemente o chão do campo de batalha em Echnnoi, mas era como uma leve brisa sobre minha pele comparada à tempestade dessa memória avivada. O galpão de dois andares era iluminado precariamente por algumas lâmpadas e tudo em volta apresentava sinais de desgaste pelo tempo, eu me sentia caminhar ao longo da grande estrutura, o desespero e o medo da memória se somando ao atual e fazendo com que sentisse meu coração na garganta, corpos pontilham o cenário, monstros, Legionários e outros inimigos, o cheiro de morte tomando a atmosfera e mesmo assim continuei correndo dessa vez para o lado de fora do galpão onde clarões iluminavam a noite e o galpão através dos buracos nas paredes e explosões podiam ser sentidas fazendo tudo tremer, do lado de fora a imagem que martirizou meu coração durante antes, sobre o gramado que envolvia o galpão no meio de algumas colinas minha irmã mais velha, Isabel, lutava contra uma criatura na forma de um furioso tornado de ouro, jóias misturados com todo tipo de coisa opulenta ou representações delas, o fenômeno tinha cerca de quatro metros de altura e acima dele uma esfera de luz púrpura era envolta por réplicas dos rostos de pessoas influentes e de vidas luxuosas como atores e atrizes, cada um deles com expressões de ira e os olhos substituídos por um brilho roxo doentio, ao me ver chegar na cena os rostos de fixaram em mim e sorriram.

— Catarina!? não, vá embora! – Isabel gritou virando para mim, seu rosto uma mistura de sangue, cortes e hematomas emoldurados pelo cabelo castanho, a roupa similar ao comum de escritório estava em frangalhos e ela segurava o sino de prata que usava para conduzir sua magia na mão esquerda pois seu braço direito estava quebrado.

— Catarina! fique, esperávamos você – O demônio zombou com uma dezena de vozes inumanas em uma harmonia bizarra – Afinal, isso é tudo graças a você, isso é tudo por você.

Eu peguei meu antigo arco e comecei a disparar desesperadamente contra a criatura, mas nenhum dos disparos sequer chegaram perto dele o fazendo gargalhar e avançar, Isabel reagiu brandindo o sino em uma série de tons enquanto entoava um encantamento, uma barreira prateada se formou no caminho da criatura, mas a magia estava fraca e ao contato com a criatura explodiu em uma onda de energia que jogou nos fez recuar.

— Lembre-se desse momento – O demônio tornou a falar e antes que alguma de nós pudesse fazer algo de uma de suas bocas um feixe de luz cinzenta atingiu minha irmã e a fez ser jogada para trás caindo sobre a grama queimada – Hoje, amanhã e em cada momento da sua existência pois eu te amaldiçoou assim.

Eu corri até Isabel e me ajoelhei a seu lado, uma expressão de confusão em seu rosto enquanto percebia o pedaço do tórax que faltava, a expressão se tornou uma de pavor compartilhada entre nós quando vimos uma tonalidade cinza se espalhar sobre a pele morena dela, tentei segurar sua mão, mas sob meu toque ela começou a virar pó, com um olhar de choque e terror enquanto suas últimas lágrimas corriam ela tentava falar algo, mas antes de manejar qualquer som seus olhos perderam o foco e logo ela não era mais que cinzas no ar e uma marca de sombra no gramado, atônita eu mal conseguia raciocinar o meu entorno, sem as forças para nem ao menos me erguer olhei fracamente para o assassino de minha irmã, incapaz de abandonar minha expressão de terror ainda mais com o medo de que ele me tomasse novamente, algo no qual ele pareceu se deleitar.

— Você começou isso Catarina, você me rejeitou e é essa sua sina como prêmio, no fim eu lhe dei o que desejou, você é a melhor da sua família e a última – Com aquelas palavras o demônio abandonou o lugar me deixando solitária com minha perda.

Tomada pelo choque de reviver uma memória de forma tão vívida não percebi quando meu pulso e minhas pernas começaram a queimar e só despertei quando me senti voar, de repente estava abraçada com Serrilha planando sobre o ar da atmosfera avermelhada, o susto só não foi maior pois precisei arfar já que aparentemente eu não estava respirando, já em pé ao lado dela precisei de alguns momentos para recobrar minha percepção e notei que na pele de meu braço queimaduras extensas haviam se formado, olhando em volta percebi que no local onde a visão tinha iniciado havia um amontoado daquele gás escuro.

— O que é aquilo, o que houve? – Perguntei perdida

— Se formou depois que você caiu, seu estado atraiu essa névoa ao seu redor e decidi te tirar de lá quando começou a queimar – Serrilha disse com um tom triste e no fim mostrou as mãos, também levemente queimadas.

— Eu… Obrigada – Disse vacilante.

— Não agradeça – Serrilha respondeu séria, mas ainda pesarosa – Eu causei isso, estamos ligadas, mas eu não sei como lidar com isso, minha ligação com Noretae nunca foi tão profunda, ela nunca permitiu que nossas memórias se misturassem e muito menos sentimentos, algo que você não deve ser capaz de controlar.

Eu apenas assenti, ainda me sentia zonza e com a visão dobrada entre o agora e a memória. Antes que alguma de nós pudesse dizer algo um som como atrito sobre uma superfície áspera cortou o ar seguido de uma explosão que quase nos jogou para longe, mas ficamos firmes e vimos que onde antes houvera o amontoado do gás agora havia uma rasa cratera, mas tudo em volta estava diferente como um filtro escuro na forma de uma esfera irregular, era como se aquele espaço na realidade chiasse queimando com um calor sobrenatural, mesmo os espíritos da egrégora que se aproximavam era queimados.

— Acho que foi bom ter saído de lá – Serrilha disse surpresa e se houvesse uma forma dela arregalar os olhos imagino que o faria.

— Se apenas essa quantidade causou aquilo... – Eu murmurei com um mal pressentimento se formando – Não importa o que seja temos que impedir.

— Sim… – Serrilha disse ao cruzar os braços e curvar a cabeça, então ela voltou para mim e disse – Mas você precisa… sabe, lidar com isso, estamos ligadas e eu senti o que você sentiu, mais do que eu gostaria se eu puder ser honesta, e eu não vou dizer sobre culpa, você parece já ter uma opinião bem firme sobre esse ponto, mas o que posso dizer é vai se sair bem melhor nesse teste atual se não tiver parte da cabeça no passado, além disso você merece o melhor de si mesma.

Ao dizer essas palavras Serrilha colocou a mão sobre meu ombro como o gesto que fiz com ela antes, devo dizer que foi uma demonstração inesperada de simpatia, eu acho pelo menos, mas bem-vinda sem dúvida me ajudando a colocar a mente em foco novamente.

— Então, será que podemos seguir para montanha sem ziguezaguear como estava? – Eu disse.

— Assim você acabou aqui não é? – Serrilha disse e olhou em volta aparentando pesar – Na verdade eu não sei bem como sair daqui, nem como entrei aqui só vi esse cenário e acabei na situação que nos encontramos.

Eu esperava que ela soubesse uma forma de se desligar do local, mas eu já devia saber que essas situações raramente tem um botão de desligar, comecei a tentar lembrar o que nos ensinavam sobre como lidar com essas situações, não eram circunstâncias comuns, apesar disso eu comecei a lembrar algumas peças de informação com algum tempo pensando.

— Certo, já que não somos nós que estamos presas nesse local devemos poder sair com algum tipo de estímulo, talvez meditação aqui, ou um tipo de choque para forçar uma reação do corpo… – Eu disse pensativa, tentando achar uma forma que não envolvesse Serrilha me eletrocutando mesmo que só nesse estado atual preferia evitar.

— Um choque…? – Serrilha disse distraída como se estivesse pensando em algo que precisasse de seu esforço – Como atingir uma parede de pedra de uma sacada?

— Sim funcionaria, mas isso é exagerado talvez se… – Respondi sem entender, mas olhando para ela comecei a ficar nervosa – Espera, por que algo tão específico?

— Você disse que devíamos ir para a montanha – Serrilha respondeu olhando na direção da montanha na visão – Então me esforcei um pouco para seguir até lá enquanto você pensava como sair daqui, mas daqui não tenho tanto controle quanto pensei, hm, tem uma expressão que veio da sua mente… ah é, preparar para impacto!

— Espera não faz… – Eu disse desesperada me perguntando se aquela espada tinha a ideia de que não estava conduzindo imortais que não teriam problema em atingir paredes, mas antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa senti meu corpo se chocar contra algo e a visão se dissipou.

Despertei arfando por ar como se tivesse ficado todo esse tempo sem respirar, a minha frente uma parede de pedra talhado na encosta da montanha, entre mim e ele havia Jason e no pequeno momento que tive antes de terminar de cair para o chão da sacada três metros abaixo quis xingar a Serrilha, mas a dor ao atingir o chão me deixou ocupada, Jason caiu próximo de mim e começou a se mexer tentando se levantar, fiquei feliz de que ainda estava bem, mas quando uma tosse dele veio acompanhada de sangue senti novamente aquela dor no peito.

— Jason, você...– Eu disse me levantando, mas tão rápido quando me levantei minha visão escureceu e caí para frente, tontura fazendo com que o mundo girasse a minha volta.

— Estou...bem – Pude ouvir Jason dizer a duras penas enquanto se escorava na parede para levantar e acabou só escorregando ficando sentado de cabeça baixa e respiração irregular – O que foi que aconteceu? Você apagou e de repente a espada começou a nos puxar para montanha, mas ela não parava ou desacelerava...

— A Serrilha, quer dizer… – Disse enquanto tentava ao menor sentar contra os esforços da tontura, mas já conseguia ver as redondezas sem elas girarem tanto – É complicado.

A sacada devia ter por volta de cinco metros de largura, as paredes a sua volta eram provavelmente dez metros de pedra talhada, símbolos e desenhos enfeitavam a rocha e pareciam contar histórias enquanto se moviam pela superfície, ou talvez fosse só minha situação mesmo, a nossa esquerda um arco de pedras levava a uma escada para o interior da montanha, parte de mim estava feliz de finalmente estarmos ali, apesar de tantas coisas que ameaçaram nossa jornada, ainda assim haviam obstáculos a serem vencidos, entregar a espada provavelmente significava confrontar Caius novamente. Perdida em meus pensamentos havia esquecido de Serrilha, mas a espada chamou atenção lançando arcos de eletricidade para cima de onde estava.

— Você não poderia só levitar até mim? – Reclamei enquanto levantava e pegava a espada do chão.

— Isso é ainda pior daqui – Jason disse em pé ao meu lado, um olhar distante em seu rosto.

Ele fitava além do parapeito da sacada, para depois do muro que envolvia a montanha, para o campo envolto em lutas que ocorriam nas proximidades cujo o som chegava até mesmo ali onde estávamos, a visão me trouxe de volta a sensação da egrégora, lembrando do que vi lá e das palavras de Serrilha coloquei uma mão sobre o ombro de Jason e disse:

— Melhor tentar seguir, talvez possamos ter o elemento de surpresa e isso nos dê alguma vantagem, o quanto antes devolvermos a espada antes isso tudo pode parar.

Ele assentiu sem dizer nada, seu olhar então se voltou para o céu olhando atentamente, mas eu pude ver que não havia nenhum sinal do navio voador que ele buscava. Decidi contar a Jason sobre minha visão com a Serrilha e sobre a egrégora, ele pareceu começar a considerar sobre o que poderíamos acabar achando dentro da montanha, mas também não tinha nenhuma ideia. A conversa nos deu algum tempo para respirar e recuperar algo de nossas forças, apesar de a falta de comida estar atrapalhando, Jason após a conversa se virou para a escada e com uma longa e profunda respiração pareceu se resignar e começou a andar em direção a escada.

— Então – Jason disse se virando para mim – Você tem alguma ideia de qual caminho seguir?

Eu não tinha ideia de por onde seguir, isso me deixou bem nervosa quando começamos a andar com cuidado pelos corredores circulares após a escada, iluminados por objetos que pareciam ser lamparinas a óleo, salas e mais salas com portas de madeira arrombadas e sinais de luta além do cheiro, infeliz momento de ter olfato, eram sinais de que havia monstros por ali, mais do que isso não havia nenhum mapa ou direções que pudéssemos seguir e isso se mostrou na primeira bifurcação que encontramos, tentei me concentrar em escutar o som que vinha através de cada corredor, mas parecia distante e nada que pudesse decifrar.

— Talvez você possa tentar usar a espada – Jason disse por cima do ombro enquanto guardava minha costa, a espada lançando uma luz dourada sobre as paredes de pedra pintada com padrões em azul, a iluminação alaranjada das lamparinas competia com ela como se fossem rivais.

— Eu não queria arriscar isso novamente – Eu disse hesitante, era verdade, depois do “acidente” com a parede e de quase ficar presa em uma visão, além do quanto aquela arma podia me desgastar só por usa-la, não estava nem um pouco ansiosa para tratar com a espada novamente – Mas se não tem jeito, pelo menos me sacode se eu apagar.

Jason assentiu, não parecendo muito confiante nisso, mas eu também não estava. Toquei o cabo da espada em minha cintura e comecei a removê-la, imediatamente senti uma forte dor de cabeça e minha visão se alterou, comecei a ver em tons de azul como se meus olhos estivessem tomados de eletricidade, tentei soltar o cabo da arma, mas minha mão não me respondia, comecei a me sentir cair, mas Jason me segurou e me balançou, não teve resultado que esperava, continuando naquela situação tentei me concentrar no que via, se Serrilha estava tentando me mostrar algo tinha uma péssima forma de fazer isso, mas consegui notar os rastros daquele gás escuro da visão atravessando o corredor a esquerda, de repente senti que o local que estávamos começou a tremer e Jason notou também, a nossa volta poeira caía do teto e das frestas nas paredes e por um momento uma onda de luz verde mar ondulou através de tudo em padrões como conchas do mar, logo após um grande terremoto abalou a montanha deixando quase impossível de ficarmos em pé, junto aos tremores um som extremamente alto de metal batendo caímos contra uma das paredes, minha mão deixando a espada trazendo a visão ao normal, não que pudesse ver muito com nuvens de poeira nos envolvendo e pedaços do teto caindo a nossa volta.

Puxei Jason para o corredor a esquerda quando ouvimos o som de uma rachadura se abrindo na parede em que estávamos, o avanço foi aos tropeços pelos detritos caindo e no chão, mas Jason estendeu a mão para a frente e a puxou para trás com força, uma corrente de ar seguindo o mesmo movimento liberou nossa visão, teria sido melhor se ele não tivesse tido de se apoiar em mim para continuar, mas isso era uma das coisas pela qual eu estava ali e com o caminho mais claro pudemos continuar mais rapidamente pelo corredor evitando o fogo do óleo das lamparinas que haviam sido quebradas.

O corredor se inclinava em uma espiral para baixo, com um ângulo que não era muito favorável, mas pelo menos logo os tremores pararam, achei rápido a duração daquilo, rápido demais, me preocupava com o que poderia ser a causa, ou se íamos descobrir da pior forma.

— Isso foi inesperado – Jason cortou o silêncio, um pouco ofegante, mas segurando a espada à frente para iluminar o caminho agora com só algumas lamparinas – Quando você pegou a espada o que aconteceu?

— Ela me mostrou o rastro que devia seguir, mas não de um jeito muito confortável – Respondi – Pelo menos conseguimos seguir por aqui, só espero que não acabe em um desmoronamento depois disso.

— Talvez seja melhor não pensar nisso agora, essas paredes não parecem ter nenhuma passagem – Ele disse dando de ombros e por um momento se aproximou de uma das paredes, mas algo pareceu chamar sua atenção.

— Achou algo?

— Não exatamente, olha – Ele iluminou um suporte de metal na parede, provavelmente devia ter apoiado uma das lamparinas, mas Jason correu os dedos sobre ele – Isso foi cortado, mas por que?

Ele tinha razão, parte de mim pensou que monstros às vezes faziam coisas sem sentido, mas por outro lado também nunca é boa ideia ignorar sinais de algo particular, então decidi olhar um pouco em volta, talvez uma passagem secreta pudesse nos levar uma sala segura eu pensei, com bastante comida seria ótimo, mas isso era mais a fome em mim. Haviam outros suportes cortados, na verdade todos os mais baixos haviam sido cortados, mas não havia nenhum outro sinal nas paredes, então uma ideia me ocorreu.

— Jason, ilumina mais próximo do chão – Eu disse me ajoelhando próximo à parede.

Sob a luz da espada varri a poeira do chão com minha mão e descobri marcas escuras, como linhas retas que seguiam para baixo, próximo a outra parede o mesmo, um tipo de carro deve ter passado ali, grande o suficiente pra praticamente todo o corredor e pesado o bastante para marcar o chão. Contei a Jason sobre isso e a descida pela espiral ficou ainda mais tensa, parte mim começou a imaginar o tipo de coisas que poderiam ter colocado no coração da montanha e para o quê, mas não tínhamos a opção de não descobrir.

A descida ainda tomou uns bons minutos, mas após alguns tempos encontramos algumas salas arrombadas, pareciam quartos como os da montanha de Neftera, mas muito menores e minimalistas, me lembrei que Noretae era supostamente a deidade dos testes ali, isso explicaria quartos tão profundos na montanha em um caminho tão inconveniente, devia ser um teste e tanto sair dali todos os dias. Próximos ao fim do caminho a espiral se tornava mais reta e mais ampla, mas começamos a escutar um estranho som rítmico, como um grande tambor, ele ficava mais claro à medida que nos aproximávamos, em um salão após a espiral haviam mesas baixas de pedra, dúzias em fileiras, algumas haviam sido quebradas para abrir caminho para o que havia passado por lá, algo que agora com a clareza do som pudemos saber, Jason e eu nos entre olhamos, a certeza do que havia sido carregado até ali em nosso olhar, afinal aquelas batidas também eram claras em nossos peitos.

Atravessamos a sala e no fim dela as portas duplas que pendiam abertas para um enorme salão circular, pilares subiam até o teto pelo menos vinte metros acima, lamparinas iluminavam o lugar em pequenas alcovas nesses pilares, no meio do salão como se uma peça religiosa em exposição estava uma massa escura e doentia, pulsando com malevolência, um coração do tamanho de um cavalo, em volta daquilo o gás escuro da visão se materializava e a cada pulsação a coisa parecia absorver aquilo, a cena me encheu de enjoo e fiquei feliz de não ter comido nada recentemente. Jason não parecia nada melhor, mas disse:

— Isso é… – As palavras parecendo faltar – Como destruímos isso?

— Boa pergunta – Dentro de minha mente eu tentava ter pelo menos a mínima ideia do que era aquela coisa, mas não tinha sucesso – Talvez se usarmos a espada ou…

— Mas por que destruir a surpresa antes do final? – Uma voz interpôs, nos surpreendendo – Não vamos estragar a festa não é?

Então facas foram atiradas em grande velocidade contra nós vindas de nossas costas, as armaduras evitaram o pior dos golpes, mas ainda tivemos vários cortes, alguns metros atrás de nós surgiu um homem inteiramente pálido vestido em preto, seu cabelo claro como as cicatrizes que marcavam seu rosto, um sorriso psicótico em sua boca ele estendia as mãos em nossa direção, mas as trouxe dramaticamente até o peito, fiquei confuso por um momento, mas segui meu instinto me jogando para o lado quando as facas refizeram sua trajetória até ele, Jason se manteve no lugar, mas usou a espada para defletir as lâminas.

— Ah, desculpe, eu não queria cortar o momento – O homem disse, uma de suas facas em mão enquanto as outras levitavam a seu redor, daquela faca ele lambeu o sangue que manteve nela.

Jason olhou para mim, e em um rápido olhar desenhou uma trilha pela sala até as costas do homem, eu assenti com o olhar, seja quem fosse esse homem era perigoso e Jason decidiu tentar derrubá-lo antes que ele pudesse fazer algo mais, usando os poderes para se lançar em um salto através do ar ele atraiu a atenção e os ataques da figura que lançava facas para enquanto mordia os lábios como se saboreasse a cena, eu corri pelo trajeto buscando não chamar atenção, com o canto dos olhos vi em momentos Jason se defender do projéteis. Em um momento Jason caiu sobre o homem com um corte que ele esquivou com facilidade, mas ficou com a guarda aberta para mim e avancei, só então percebi que ele fazia o sinal de “não” com as mãos e outras facas se materializaram em meu caminho, puxei com velocidade minha própria faca para me defender acabando ainda com um corte fundo no braço esquerdo enquanto recuava, Jason avançou contra o oponente que parecia criar mais facas para se defender e a investida de Jason o deixou aberto ao ataque quando as facas às suas costas voltaram ao homem, os golpes das facas o desequilibraram e o homem o atingiu com um soco no rosto que o jogou ao chão, eu lutava com minha faca contra as lâminas para avançar sem ser atingida, mas quando Jason caiu minha mão livre, apesar do corte e do sangue que escorria por ela, foi até a Serrilha pronta para saca-la.

— Espera aí, isso não – O homem disse saltando com agilidade e segurando minha mão com a faca e enterrando os dedos no corte de meu braço me fazendo gritar de dor – Calma, calma, vai passar logo, você não vai sentir mais nada logo, na verdade nem você nem ninguém nesse mundinho de merda, vai todo mundo… Kabum, he-he-he.

Ele disse aquelas palavras com alegria, algo naquilo não estava certo, não era o que Neftera havia dito, mas eu não conseguia pensar bem com a dor que ele estava causando, minha visão começou a ficar turva quando notei por trás do homem Jason se arrastando lentamente e pegando um pedaço maciço de pedra de uma das mesas quebradas e atirou atingindo a nuca do homem que vacilou para frente me soltando enquanto murmurava um xingamento, mas antes de terminar eu finquei minha faca no peito dele.

— Peste! – Ele disse após um momento contemplando a faca em seu peito, seu rosto em uma expressão de dor e ódio, mas ele reagiu me jogando para a parede com força, com o impacto tudo começou a girar e a dor ia ficando mais intensa, o corte continuava a sangrar e comecei a preocupar com perda de sangue.

A minha frente Jason digladiavam com o homem, a arma agora na forma de um tipo de lança para manter a distância contra as facas, eu comecei a me levantar, tentei puxar a Serrilha, mas quando coloquei a mão sobre o cabo senti que se a puxasse nesse estado não conseguiria nem usá-la antes de cair morta no chão, outra coisa, precisava de outra coisa, olhando para o homem vi que minha faca ficara, não parecia haver sangue nele, mas seus movimentos pareciam mais limitados e isso estava dando a Jason alguma vantagem, mas eu precisava fazer, foi então que uma lâmpada brilhou acima de mim, ou melhor, uma lamparina, peguei com minha mão direita ela pelas correntes de metal que a apoiavam no suporte, me voltei para o combate que parecia igualado, antes que o homem voltasse a atenção para mim corri e atirei a lamparina em suas costas, o fogo se espalhando sobre as roupas dele agora encharcadas em óleo, as chamas cresceram com muito mais velocidade que imaginara se tornando de uma cor verde escura enquanto o homem se jogou no chão rolando tentando apagá-las sem sucesso, Jason ergueu a lança para atingi-lo, mas acertou apenas o chão de pedra, a figura pareceu desaparecer, em seu lugar um rato desesperado com chamas verdes que pareciam não cessar, logo ele correu pelo caminho que viemos nos deixando a sós.

— Eu espero que essa coisa não volte tão cedo, vamos, temos que achar um lugar pra fazer um curativo ou…- Eu dizia quando tudo ficou escuro e senti minhas pernas falharem.

— Catarina! – Escutei Jason dizer enquanto os braços dele me impediram de cair.

Sentia meu corpo queimar como se estivesse em um banho de ácido, algo não estava certo, mesmo que fosse um dos dias mais exaustivos e penosos da minha vida eu não devia estar assim tão acabada ainda, então uma lembrança recente saltou em minha memória, recobrei a visão com um tempo sentada com a ajuda de Jason que tinha tosse carregada esporadicamente, coloquei a mão sobre o cabo da Serrilha para me conectar com ela novamente, Jason me segurou caso fosse preciso, mas dessa vez já estava preparada e a troca de visão me mostrou o que já imaginava, aquele gás escuro estava a nossa volta, impregnando como uma mancha, não tínhamos como destruir aquele coração agora, morreríamos antes se tentássemos, me perguntava como sair dali, o caminho pelo qual viemos provavelmente estaria cheio de monstros então não era uma opção, como se sentindo minhas dúvidas Serrilha pareceu fazer a visão focar em uma das lamparinas no salão, após isso a visão cessou.

— Talvez tenha uma forma de sairmos – Eu disse com dificuldade e apontei para a lamparina.

Jason se levantou e foi até ela, ele analisou por alguns momentos e puxou o suporte levemente para baixo, a alcova começou a tremer e as peças dela recuaram sumindo na parede dando lugar a uma passagem escura.

— Realmente temos um caminho para sair – Jason disse me ajudando a ficar em pé depois de analisar a passagem – Mas, vai ter que confiar em mim, porque a passagem é vertical, então vamos precisar voar.

— É nossa única opção, não é? – Perguntei olhando preocupada para ele.

— Sim.

Jason me apoiou até a passagem, um quadrado de 2 metros que parecia subir muito além do que a pouca luz que tínhamos podia iluminar, seguramos firmes um ao outro e saltamos com o ar nos impulsionando para cima, eu tentando não perder a consciência e torcendo para isso não deixar Jason pior como antes, mas a imagem do coração monstruoso me trazia um frio na espinha junto com o que o homem havia dito e meu pensamento caiu sobre os legionários assim como os semideuses naquele navio voador.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.