Percepções
1 Único
Percepções
Quando Ino se levantou para ir ao banheiro lançou um olhar significativo para Sakura, que entendeu a mensagem e imitou o gesto. Tão logo deixaram a mesa de amigos que haviam se reunido para beber e comemorar a happy hour no pub estilo ocidental, a primeira não resistiu:
— Você não está achando aqueles dois estranhos? — perguntou assim que entraram no banheiro feminino e viram que estava vazio. Já era um tanto tarde, logo seria a hora da despedida.
— Ah, não, Cara de Porco. O que mais tem na nossa mesa é gente estranha.
Ino girou os olhos ao ouvir o apelido de infância e respirou fundo, aproveitando a oportunidade para retocar a maquiagem. Pegou o estojinho de dentro da bolsa a tira colo e focou no longo espelho ao longo da parede. Estava solteira e não tinha interesse em ninguém atualmente, mas vai que...
Sakura apoiou o quadril contra a bancada de mármore por onde se estendiam três pias contiguas e cruzou os braços, observando a amiga. Como o silêncio se estendeu por um tempo, se impacientou:
— Que dois, Ino?!
A jovem de cabelos loiros sorriu por trás da longa franja parecendo esperar a pergunta de milhões:
— O Shino e o Kiba! — respondeu como se fosse uma grande revelação, num tom fácil de ler as entrelinhas insinuadas.
Sakura demonstrou toda a sua força de vontade evitando girar os olhos com enfado, pois se o fizesse era capaz de enxergar o próprio cérebro, tamanha besteira havia ouvido.
O grupo reunido naquela noite se conhecia desde a época do colégio, antes do exame Chuunin, quando eram menos do que moleques brincando de ninjas. Foi por essa época que se formaram times equilibrados com três pessoas de acordo com as habilidades de cada integrante. E esses três acabaram se aproximado e desenvolvendo uma amizade mais profunda, como era o caso de Ino com Shikamaru e Chouji; Sakura com Sasuke e Naruto. Hinata com Shino e Kiba.
— Esses dois se grudaram na época da escola, Ino. Zero surpresas.
As amizades continuaram pela vida adulta, mesmo com alguns abandonando as missões e seguindo caminhos adversos. Inclusive no amor! Naruto e Sasuke estavam juntos há pelo menos uns cinco anos (e faziam umas missões em dupla que demoravam mais do que o padrão), Sakura trabalhava com jutsu medicinais no hospital de Konoha, Ino cuidava da floricultura dos pais, assim como Kiba seguia com o treinamento de ninken. E Shino tentava se tornar professor.
— Mas dessa vez é diferente, Testuda! Notei na última reunião do grupo: os dois ficaram num mundinho a parte, é quase uma bolha separando eles da gente. Presta atenção — terminou de retocar o batom e guardou o estojinho.
— Você tá vendo coisa onde não tem.
— Repara nos dois, só digo isso — ela ajeitou os fios loiros e indagou: — Vai usar o tolete?
— Não, estou bem.
— Então vamos voltar e vê se disfarça! — riu ao se lembrar que a melhor amiga era muitas coisas, exceto discreta.
Sakura ainda ficou um tanto incrédula. Estava tão acostumada a ver os dois amigos sempre juntos, sem qualquer conotação romântica, que tinha dificuldade de acreditar nas palavras de Ino. Aliás, Kiba era tão imaturo e infantil, que às vezes se esquecia que tinha a mesma idade de todos do grupo. E Shino... bem... tirando o jeito peculiar de todo Aburame, realmente não se lembrava de vê-lo envolvido com outra pessoa. Não seria estranho se o rapaz se assumisse arromantico ou algo do tipo.
Mas agora que sua curiosidade foi despertada, Sakura resolveu regressar à mesa e prestar atenção na dupla de amigos!
Num primeiro segundo, nada havia de errado. As meninas voltaram para junto do grupo, duas mesas haviam sido unidas, onde Naruto, Sasuke, Hinata, Chouji, Shikamaru, Shino e Kiba conversavam sobre banalidades. Em cima do tampo da mesa, guloseimas e bebidas, já na segunda ou terceira rodada. Eles costumavam se reunir durante sextas-feiras e podiam aproveitar bastante.
Com discrição, Sakura passou a acompanhar a interação de duas pessoas específicas. Não viu nada além do usual, exceto que tinha algo diferente nesse usual. Ela não saberia colocar em palavras, mas a partir do momento em que se olhava com mais atenção, era algo que até mesmo se sentia. Talvez estivesse na postura de Shino, levemente reclinado na direção de Kiba, um tiquinho mais próximo do que o rapaz costumava se aproximar das pessoas. Ou, quem sabe, fossem os olhares que Kiba enviava na direção do antigo companheiro de time, demorando alguns segundos a mais na face alheia antes de desviarem depressa para pontos aleatórios do estabelecimento.
Ora, ora, ora. Enquanto fingia não assistir os amigos agindo de uma forma quase... íntima, Sakura notou como Shino estava o tempo todo oferecendo petiscos e reabastecendo o copo do homem sentado ao seu lado. Mas só para ele! A gentileza não alcançava aos demais. E não que eles quisessem algo assim: Naruto estava entretido em contar vantagem de algo para Hinata e Sasuke. A jovem Hyuuga ouvia com atenção educada as palavras da antiga paixão enquanto Sasuke parecia enfadado dando golinhos no sake quente. Chouji e Shikamaru relembravam algumas histórias do passado, nas quais os demais integrantes davam palpites. Até mesmo Ino e Sakura se renderam a corrigir uma ou outra memória trazida à tona de modo um tanto equivocado.
Todos participavam animados. Ou melhor, quase todos. Sakura teve que aceitar as ponderações de Ino. Shino e Kiba estavam ali na reunião, embora não de todo. Afinal, pareciam presos dentro de uma bolha, interagindo num mundinho só deles dois.
Foi com um sorriso discreto que deu o braço a torcer. Quando a noite acabava, trocou um olhar com Ino que apenas ergueu as sobrancelhas de um jeito significativo. Shino pagou a parte de Kiba na conta e despediu-se de todos exceto de Kiba, ambos iriam embora juntos.
Mas nessa parte nada havia de suspeito. Eles moravam na região mais afastada de Konoha, os Clãs Inuzuka e Aburame sendo os mais próximos da natureza selvagem. Era esperado que seguissem juntos pelo caminho em comum, não? Foi o pensamento que passou pela mente de Haruno Sakura enquanto ela observava a dupla se afastando, caminhando lado a lado com Akamaru grudado nos calcanhares do dono, quase como se o estivesse protegendo.
Interessante, realmente interessante...
*****
Uma vez que se nota os sinais, é impossível voltar a agir como se nada tivesse sido percebido. Atenta, Sakura podia escrever uma longa lista de “pistas” espalhadas feito migalhas marcando o caminho.
Como da vez que andava pelo centro da Vila, após comprar mantimentos, e encontrou-se com Shino e Kiba vindo em sentido contrário do outro lado da rua. Chegou a acenar para eles, mas Kiba tagarelava sobre algo e Shino ouvia tão atentamente que nem viram a pobre coitada. Sorte que Rock Lee vinha logo atrás e respondeu ao aceno com entusiasmo, salvando a dignidade de Sakura sem nem mesmo saber.
E da vez que Ino compartilhou a... fofoca? Não, informação!! Ino revelou uma informação que observou da porta da floricultura e era até mesmo fofa, sobre uma dupla de amigos caminhando pela rua, compartilhando um guarda-chuvas no fim de tarde chuvoso. Mais do que uma garoa, menos do que uma tempestade. Apressados para chegar logo aonde quer que estivessem indo. E ao final um sorriso suave mostrava como tal lembrança era agradável. Ino terminou com a parte mais significativa da narrativa: apesar dos pingos que caiam firmes e constantes, Kiba estava bem seco e protegido, enquanto um dos ombros de Shino parecia encharcado.
Também teve algumas vezes (não poucas) que Shino e Kiba acabaram faltando à reunião semanal com os amigos. E depois justificaram que imprevistos aconteceram. No dia catorze de fevereiro... no dia sete de julho... um dia antes do aniversário de Shino...
Quanta coincidência, não?
*****
Então Sakura se deu conta de que mais de um ano havia se passado desde àquela noite em que Ino compartilhou suas suspeitas no banheiro do pub. Suspeitas de que algo acontecia nos bastidores e que deveria ser segredo. Algo que no começo era discreto e sutil e que, conforme os dias passavam, tornava-se mais evidente.
— Por que acha que eles não contam pra gente? Não assumem? — Sakura perguntou certa tarde, na floricultura dos pais de Ino, onde tinha ido comprar flores para uma paciente que teria alta depois de uma longa luta contra uma grave doença.
A moça de cabelos loiros perdeu algum tempo ajeitando as gérberas exuberantes que compunham um elaborado arranjo antes de responder:
— Kiba não é o próximo na linha de liderança do Clã Inuzuka? Eu tenho a impressão que Tsume-san espera descendentes... e ela não parece uma mulher fácil de contrariar.
— Ai, Cara de Porco, eu ia dizer o mesmo sobre Shibi-san. Os Inuzuka ainda tem a Hana-chan. Mas o peso de continuar o Clã caiu sobre os ombros de Shino e de mais ninguém.
Certos dilemas na vida podiam soar intransponíveis até para quem observava de fora. Se o casal estivesse nesse embate complicado, qual seria a solução? E se ambos tivessem que queimar alguma ponte ao escolher entre família e amor? Uma ponte queimada representava um caminho para o qual não existiria mais volta. Talvez remendos fossem possíveis mas; de qualquer forma, nada seria como antes.
Tais conclusões passaram pela mente de Ino e Sakura, silentes e gêmeas em suas preocupações. Conclusões que acabaram com o clima entre as duas. Elas queriam que seus grandes amigos fossem felizes, mas, se realmente tivessem que enfrentar obstáculos familiares, quiçá esse desejo fosse muito difícil de se realizar.
*****
E os sinais não apenas continuaram, eles se tornaram mais evidentes. Em conversas ocasionais e especulativas, Sakura e Ino concordavam que os amigos estavam cada vez mais confortáveis no relacionamento (não tão secreto).
A cada happy hour acontecia uma ou duas deslizadas. Como se não bastassem se isolar naquela bolha típica de pessoas apaixonadas, acabavam revelando atos e gestos íntimos, focados um no outro. Era o braço que Shino passava pelo encosto da cadeira de Kiba. Era a forma como Kiba esticava o pescoço e cochichava algo no ouvido de Shino, tão invasivo no espaço pessoal alheio que deixava Ino e Sakura impactadas.
Por quanto tempo a situação se desenrolava? Três? Quatro anos? Levando em consideração apenas o momento em que Sakura se tornou consciente de tudo.
Eles não percebiam como eram óbvios?
Estava tão evidente que a amizade infantil, em algum momento, ganhou tons diferentes, recobrindo-se de cores que apenas o amor pode tingir.
A reunião era entre amigos. Conquanto Shino só tivesse olhos para Kiba e Kiba só estivesse disposto a dar atenção para Shino...
— Ei, Kiba!! — Naruto soou preocupado numa noite de sexta-feira qualquer, em mais um encontro do grupinho. Sempre os mesmos rostos familiares — Cê tá bem? Ficou vermelho!! É febre?
A voz do rapaz mostrava preocupação e um tiquinho de álcool além do recomendado...
Sakura viu Sasuke girar os olhos com enfado, enquanto a atenção dos demais se voltava para o casal, ou melhor, “dupla” de amigos. Shino limpou a garganta e afastou-se um pouco enquanto Kiba gaguejava uma resposta, corando até a ponta das orelhas.
— É só cansaço — afirmou nada convincente.
— Ah — Naruto franziu as sobrancelhas.
— Preciso ir — Shino afastou a cadeira e levantou-se — Tenho muitas provas para corrigir — a essa altura já era professor titular de uma classe, realizando o sonho de infância.
Claramente resgatava o outro de alguma situação que o colocasse em xeque.
— Eu também preciso! — Kiba aceitou a ajuda e imitou o gesto — A gente vai pro mesmo lado, facilita — tirou a carteira do bolso, se responsabilizando pela conta de ambos.
— É cedo, caras! — Naruto tentou convencê-los sem sucesso.
— Bom descanso! — Ino desejou com um sorriso, escondendo a irritação pela falta de delicadeza de Naruto.
Shino e Kiba despediram e foram em direção à saída.
— Esses dois... não sei não! — Naruto resmungou se servindo de mais sake.
A muito custo Sakura evitou girar os olhos. Acabou flagrando uma troca de olhares significativa entre Shikamaru e Sasuke. Mais interessada, notou os amigos ao redor da mesa. Não viu surpresa, dúvida ou nada similar. Entendeu fácil: todos ali sabiam. A bolha que envolvia Shino e Kiba não protegia seu segredo. Pelo contrário, quando estavam juntos iam para aquele mundinho cujas portas só se abrem para os apaixonados. Aquele mundinho onde nada ao redor importava, a não ser eles próprios. Dois únicos habitantes nessa terra de amores.
Sorrindo, ainda teve a chance de ver o casal saindo do pub. Lado a lado, uma diferença significativa nas estaturas, nas roupas, no jeito de caminhar... como opostos que se completam. As mãos ao longo do corpo, pertinho uma da outra. Sem que se tocassem.
É. Os sinais estavam todos ali. Por que não contavam nada? Seria o mistério um tempero extra na relação? Seria algum problema com um dos clãs? Ou ambos os clãs? Quem sabe medo da reação alheia?
Sakura não possuía as respostas ainda. Esperava ter um dia. Mas no presente tinha algo muito forte, mais importante do que qualquer resposta: o desejo sincero de que Shino e Kiba fossem felizes!
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