Peras

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Headcanon da vez: desde o episódio 5, Karamatsu detesta peras. (Entendedores entenderão).

Kara estava se observando no espelho quando ouviu Choromatsu abrir a porta com força.

— Temos um problema! — Choromatsu anunciou com a respiração acelerada.

Até aí nada fora do normal. Quer dizer, quando se tinha cinco irmãos com alguma peculiaridade perigosa, não era incomum que algo acontecesse. Entretanto, quando Choro viu que apenas havia Kara ali o rosto dele ficou mais pálido do que antes, como se visse algum fantasma. Pensando nisso, o segundo irmão mais velho olhou por cima de seu ombro, temendo o desenrolar daquela situação. Contudo, não havia nada atrás de si.

— O que houve, brother? — Kara se obrigou a dizer, colocando o espelho sobre a mesa.

Choro pareceu voltar a si com aquela pergunta. Tossindo para disfarçar um nervosismo indisfarçável, se tinha uma coisa que sabia de Choromatsu era que seu blefe era pior que o dele, o terceiro irmão mais velho acabou por dizer:

— Então, Karamatsu-nii-san... seria melhor que me acompanhasse.

Karamatsu não tinha muita ideia do que estava acontecendo, mas se seu irmão precisava mesmo de sua ajuda não negaria. Na verdade, isso acabou por empolgá-lo além da conta.

— Só espere um pouco, ‘cause eu tenho que me vestir apropriadamente...

— Você está bem assim. — Choromatsu pegou seu pulso com urgência. — É uma questão de life and death!

Life and death? — Karamatsu teve que repetir, pois não poderia acreditar! Algum ferido? Uma batalha mortal? Muitas coisas passaram pela sua cabeça. — Então, não devemos perder nosso tempo aqui, brother!

— Se entendeu, rápido... — Choro disse com desespero em sua voz.

Contudo, antes que pudessem sair da sala, os outros irmãos apareceram de lugares inesperados: Ichi de uma passagem secreta no chão, Oso por detrás da televisão, Jyushi por um buraco que o próprio fez na parede. Enquanto isso, Totty vinha pela porta junto com Matsuyo, que trazia nas mãos uma bandeja cheia de pedaços de pera.

— Meus queridos Neets — Matsuyo anunciou com um sorriso. —, nossos vizinhos nos deram mais algumas peras...

Então, tudo aconteceu tão rápido que pareceu tão lento ao mesmo tempo. Karamatsu teve um estalo de entendimento, ou desentendimento, que acabou por fazê-lo sacar a sua metralhadora. Choromatsu, que tinha previsto esse comportamento do outro desde que viu as peras na cozinha, disse para que Kara se acalmasse, ainda que o próprio Choromatsu não estivesse calmo com a situação toda.

Osomatsu soltou uma exclamação de surpresa enquanto Totty colocava as mãos nas bochechas e observava Karamatsu com espanto. Ichi parecia intrigado com o que via. Jyushi tinha um sorriso congelado no rosto em confusão.

Karamatsu destravou e usou a arma, um sorriso insano enfeitando sua face. Totty puxou Matsuyo consigo para o lado para que ela não se ferisse. Então, uma a uma as peras foram massacradas pelas balas que as acertaram, o bastante para que fosse difícil dizer se elas estiveram mesmo ali ou se tratasse de algum sonho. Um suspiro de alívio deixou os lábios do segundo mais velho quando percebeu seu trabalho concluído.

Até que ele voltou ao seu estado de lucidez e acabou por dizer, colocando uma das mãos atrás da nuca, sem jeito:

Oops! ... I did it again.

Os quatro irmãos não sabiam do que tinham mais raiva: do inglês fora de hora, ou que as preciosas peras terem sido dizimadas sem que eles dessem uma mordida sequer. Choromatsu apenas suspirou enquanto via Kara ser encurralado pelos quatro munidos de suas armas mortais, mais uma vez. Já estava imaginando do que iria precisar. Então, tranquilamente, após ajudar Matsuyo a se levantar, seguiu para o banheiro em busca da caixa de primeiros socorros.

Quando voltou a sala não foi nada diferente do que previu: havia o corpo ensanguentado do segundo mais velho no chão, largado a própria sorte. Ichi, Jyushi, Todo e Oso deviam estar de volta a suas atividades de antes do lanche interrompido. Sentou-se ao lado de Kara, começando desde logo a cuidar dos ferimentos. O irmão lhe devolveu um sorriso fraco, sem nenhum enfeite.

Choromatsu acabou por sorrir também.

Sorry. — Karamatsu disse com dificuldade.

Antes de voltar para o que estava fazendo, Choromatsu olhou bem para o irmão e, então, balançou a cabeça em negativa.

— Por que você simplesmente não conta para eles? — Choro indagou em um tom preocupado. — Sei que deve ser difícil, mas uma hora isso tem que acontecer, senão...

— Está tudo bem. Eu detesto pears, não os meus irmãos. — Karamatsu insistiu.

— Você só está desviando do assunto. — Choromatsu disse, e se sentia um hipócrita por falar aquilo, porque havia temas que ele mesmo não gostaria de tocar. — Mas não vou te forçar a dizer isso.

Thanks. — Karamatsu disse baixinho.

Choromatsu continuou a trabalhar nos ferimentos do irmão, desinfetando cortes, enfaixando. Devido ao cotidiano turbulento deles, Choromatsu tinha se tornado um especialista na área médica, não mais que um médico de verdade, mas o suficiente para que os tirasse de algumas encrencas. Todomatsu era tão bom quanto ele. Contudo, o mais novo preferia mascarar isso o quanto podia.

Depois de um bom tempo, Choro suspirou de cansaço. Porém, estava contente com seu trabalho.

— Então? Como se sente? — Choromatsu perguntou por precaução.

Karamatsu ia dizer alguma coisa, mas a porta se abriu tão de repente que se calou de surpresa. Osomatsu apareceu mais animado que o normal, só que fosse o que fosse não parecia ser por causa de bebida.

— Oh, Karamatsu! — Osomatsu disse, esfregando o dedo indicador debaixo do nariz, bem despreocupado para alguém que havia tentado mata-lo um tempo atrás. — Você parece bem!

— Não poderia estar melhor! — Karamatsu respondeu, como se também houvesse esquecido do incidente.

Entretanto, o que mais chamou a atenção de Choromatsu foi que, enquanto falava, Karamatsu tinha os olhos focados nele, não em Oso. Havia também aquele sorriso. Tinha um pouco de gratidão demais, o que acabou por embaraça-lo. Oso parou um pouco onde estava para, dessa forma, dizer com um sorriso venenoso:

— Assim não dá Karamatsu. Primeiro você se declara para mim, depois faz **** com o Ichimatsu, agora quer flertar com o Choromatsu? A próxima vai ser o quê? S&M com o Todomatsu? 69 com o Jyushimatsu?

Aquele dito pegou os dois de surpresa, mas principalmente Karamatsu, que tentou se levantar sem muito sucesso.

— Espera um pouco! — Kara disse nervoso, assim como perdido. — Aquilo com o Ichimatsu foi um engano, understand? E eu não lembro de ter me declarado para você, Osomatsu.

— Assim eu fico ofendido, lembro como se fosse ontem... — Osomatsu parou a si mesmo, ao perceber o que dizia, com um rosto um pouco vermelho. — Digo, esquece o que disse... Haha! Devíamos ir ao Chibita hoje e ter oden pra janta... vou avisar os outros... até!

Osomatsu foi embora como um foguete e, dessa forma, estavam novamente sozinhos. Choromatsu arrumou os itens que usou para os curativos em silêncio. Enquanto isso, Karamatsu pensava em uma maneira de explicar as afirmações embaraçosas de seu irmão mais velho.

— Ei, Choromatsu...

Choromatsu colocou uma palma da mão diante deles para que parasse o outro e o fizesse escutar, falou em um tom neutro:

— Não precisa dizer nada. O que faz no seu tempo privado não é da minha conta... só tenta se cuidar um pouco mais, certo?

Karamatsu sentiu alguma coisa se acender em seu peito quando viu a expressão triste que Choromatsu tinha. Segurou uma das mãos livres de Choro entre as suas próprias. Então, falou embaraçado:

Brother, digo, Choromatsu. — Kara respirou fundo antes de continuar o que dizia. — Eu realmente sou agradecido por aquele dia. Se não fosse por você, eu já estaria arruinado há muito tempo.

“Afinal, foi por sua causa que eu não perdi a fé nos meus irmãos. ”

Karamatsu não tinha para onde ir. Viu como os irmãos se distanciavam até não estarem mais ao alcance de seus olhos, durante todo esse tempo sem deixarem o lado de Ichimatsu. Em seu peito, uma chama queimava, e era uma mescla de irritação, tristeza e indignação. Não repreendia os demais pela preocupação com o quarto filho, ele mesmo ficava aflito com aquela barreira que Ichi mantinha entre eles.

Todavia, não podia ser desonesto consigo mesmo: estava sobretudo com inveja de seu irmão mais novo, da atenção que estava recebendo enquanto Kara ficava na margem. Talvez fosse a primeira vez em que tinha pensado em dizer algo cruel a esse irmão em particular, só para ver se aquela sensação desagradável em seu peito diminuía.

Queria estar lá, queria poder rir e chorar com todos eles. No entanto, sua voz não saía. Tinha vergonha de fazê-lo, insegurança. Os machucados que havia recebido de seus irmãos, mesmo que estivessem melhores, ainda latejavam. Não ajudavam nem um pouco a tontura que tinha pelos sentimentos opostos que interagiam dentro de si. Como um bom irmão mais velho e mais novo, Kara não poderia guardar mágoa de seus irmãos. Ou podia?

Foi quando sentiu uma mão em seu ombro. Karamatsu ficou assustado com a súbita companhia, ainda mais ao perceber que estava chorando.

— Karamatsu. — Choro disse com um sorriso triste. — Vem aqui.

Choro tinha os braços abertos para que pudesse abraçá-lo. Kara podia recusar e tinha direito disso. Mas deixou as lágrimas que acumularam em seus olhos escorrerem pelo seu rosto. Sentir os braços de Choro ao redor de si fez com que um lampejo de felicidade aparecesse naquele mar conflituoso que era agora seu espírito. Um calor se espalhou por suas bochechas além das lágrimas ao perceber que ali poderia se sentir seguro.

Choromatsu lhe pediu desculpas em desespero ao vê-lo naquela instabilidade de comportamento, só que Kara, daquela vez, queria apenas sorrir em meio aquilo tudo que sofria.

Sentiu-se um bobo por querer ficar ressentido de seus irmãos, que eram tudo para Kara além dele mesmo. Era claro que deviam se preocupar com ele, talvez não como eram preocupados por Ichimatsu, mas em algum grau considerável.

Sobraram apenas as peras. Por isso, a culpa do episódio de seu sequestro recaiu sobre elas. Choromatsu demorou um pouco. Porém, acabou por ligar os pontos quando Kara teve seu primeiro ataque contra aquela fruta em especial.

O terceiro irmão mais velho vinha cuidando tão bem dele que Karamatsu, aos poucos, sentia que cruzava uma linha perigosa. Dessa forma, talvez, aquelas afirmações falsas de Osomatsu tivessem sido para o bem.

Choromatsu, entretanto, parecia discordar de sua opinião. Ele ainda continuava triste, ao dizer:

— De nada.

Rosas são vermelhas

Violetas são azuis

Peras podiam ser verdes

Insensíveis, às vezes

Carinhosas, sem dúvida

Choromatsu fez um gesto de que se levantaria em breve. No entanto, Karamatsu, para a surpresa dos dois, continuou segurando a mão de Choro com força.

Talvez Karamatsu não quisesse acreditar em suas próprias conclusões. Afinal, não era ele quem não seguia os ditames da sociedade? O amor, na sua visão de mundo, deveria ser livre, com as engrenagens onde deveriam estar. E elas se encontravam ali ao seu alcance. Por que então não provar daquele fruto, mesmo que proibido?

O terceiro irmão mais velho lhe esperava. Os olhos tinham incerteza, mas não impaciência.

Quando Kara procurou se levantar e conseguiu, ainda que com ajuda daquele que iria embora, tinha um olhar mais determinado. Aproximou o rosto do de Choromatsu, os olhos fechados, de uma forma lenta que permitia recusa. Essa recusa não veio. Os lábios do outro tocaram os seus no mesmo desespero com que Kara usava para se manter em pé. Seu corpo doía, mas a adrenalina que percorria seu corpo facilitava em parte seu trabalho de se manter onde estava.

Choro sorria entre o beijo, era uma cena doce que Kara presenciava. Tão doce quanto... peras.

Uma ocasião inusitada aconteceu no dia seguinte. Kara foi o primeiro a perguntar se ainda tinham peras. Matsuyo, de início, parecia aflita a conta-lo devido ao último acontecimento. Entretanto, todos perceberam de súbito a diferença. Quando a mãe relutantemente contou a Kara o local de esconderijo das frutas, o segundo irmão mais velho pegou as peras, as cortou, e as trouxe em uma bandeja para os irmãos.

Ao provar da doçura da fruta, Kara sorriu de uma forma que deixou duas pessoas em especial bastante constrangidas. Karamatsu não precisava mais detestar as peras, pois elas podiam ser doces, tão doces quanto aquela pessoa era para ele.

Notas finais
Espero que tenham gostado. ♥ Nos vemos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!