Notas iniciais
Fic escrita para um pequeno momento de distração. Nada além disso. Em algum instante no final da 4ª temporada da série.

— Dean, faz direito... Segure na base e deslize para cima. – A voz de Sam saiu irritada e um pouco mais alta que o normal.

— Nunca diga isso para mim de novo, principalmente se estivermos em um local público. – Dean falou levantando os olhos do objeto entre suas mãos e observando o irmão por um momento, com a luz do isqueiro bruxuleando entre eles.

Estava irritado. Em vista do local em que se encontravam, talvez à mercê do monstro que detectaram naquela cidade e perseguiram sem muito critério daquela vez, ziguezagueando sem rumo ali embaixo... “Merda!”... Deveriam ter pensado melhor antes de descerem ali e num impulso de loucura e afobamento atacarem sem muita preparação, correndo atrás do maldito e acabando perdidos ali naquele labirinto escuro, fétido e nojento. Por isso não era para menos o caçador mais velho estar com os nervos à flor da pele.

“Droga!”— Pensava – “Não voltei do Inferno para morrer perdido nas galerias de um esgoto de Austin, Flórida.”

Tentando ser mais objetivo e obedecendo a voz da razão, fez o que o irmão falou e com um click alto que ecoou pelo recinto por alguns segundos, a pequena tampa lateral da lanterna enfim foi aberta lhe dando acesso as baterias.

— Troque a posição... – Começou a pedir Sam num tom impaciente.

— Tenho certeza de que posso fazer isso sozinho. – Cortou o mais velho com voz de birra, fazendo um bico involuntário e característico seu, enquanto tentava o que o mais novo disse. — A lanterna só pode estar quebra...

Tão logo falou, um feixe de luz atingiu o rosto de Sam levando-o a colocar a mão em frente ao rosto para proteger os olhos.

— Eu disse...

— Tá, tá, tá, deixa isso para depois que sairmos daqui senhor “eu-pensei-que-você-tinha-pego-o-mapa” – Cortou Dean apontando a lanterna para os lados minuciosamente observando ao redor. Mentalmente se culpando, como sempre, por não ter seguido seus instintos e detido o irmão antes dele sair correndo feito um louco atirando a esmo e os colocando naquela enrascada.

Com cuidado voltaram sobre os próprios passos, observando como as galerias onde estavam, um nível abaixo do esgoto, eram largas a ponto de deixar um carro passar com facilidade. Os arcos altos, de uma beleza austera, pelo pouco que podiam discernir com a fraca luz da lanterna, eram construídos com um cuidado artístico exagerados para a função nada honrosa de receber dejetos de toda espécie.

As paredes limosas e aquela água suja em que pisavam por falta de um local seco em que se escorar, estavam lhe dando ânsias de vômito. E o cheiro não ajudava nenhum pouco a aquietar o conteúdo sortido de seu estômago.

Por mais de uma vez na última hora em que estavam ali chafurdados na sujeira e detritos fisiológicos, se arrependeu amargamente de ter comido dois x-tudo, regados a batata frita e uma mega coca-cola. Sentindo desgostoso como aquele cheiro pútrido estava tão entranhado na sua pele que nem todo o sabão do mundo iria conseguir limpá-lo.

— Correr atrás do metamorfo no escuro, não foi uma de suas idéias mais brilhantes Sam. – Dean falou dirigindo a luz para seu próprio rosto, enquanto parava por um momento em uma bifurcação.

Sam ficou lhe observando, dando-se conta pela primeira vez em como Dean parecia mais velho e cansado. Seu rosto estava abatido e macilento, seus olhos tinham um tom apagado e uma expressão de vazio, mesmo com o sorriso de sarcasmo ali embaixo, muito forçado na maior parte das vezes, tentando sustentar todo o resto de sua face... Um alicerce frágil demais na verdade, Sam dava-se conta o observando com clareza, mesmo naquela escuridão.

Desviou os olhos do rosto do irmão antes de responder como se tudo estivesse bem.

— Já lhe disse que é um ghoul.

— Semântica Sam... Praticamente eles são a mesma merda.

— Não são nada. — retrucou — Ghouls não são afetados por... – Sam parou assustado, franzindo a testa e estreitando os olhos – Você ouviu?

Dean meneou a cabeça, abriu os braços e levantou os ombros encarando o mais alto sem entender de que barulho ele estava falando.

Preocupado Sam tomou a lanterna da mão do surdinho, dando um passo para o lado de onde tinha certeza o barulho viera.

Quando correram atrás do ghoul tinham vindo pelo túnel da esquerda e era justamente dali que o som saíra.

— Sammy, quer me dizer...

— Shhhh!

— Shhhh? Vá fazer shhhhh para o... Mas que diabos foi isso? – Dean falou ouvindo o barulho dessa vez, dando um passo na direção do irmão.

Parados quietos e silenciosos observavam a escuridão do largo túnel à frente, tentando enxergar além do perímetro iluminado pela lanterna.

Cinco segundos depois deram um passo para trás juntos. O barulho estava mais alto, ecoando pelo túnel e se aproximando. Parecia com o motor do Impala, só que mais grave, profundo, rascante e muito, muito aterrorizante. E isso não era algo que pudessem dizer de muita coisa nessa vida, acostumados como estavam a coisas que fariam Chuck Norris chorar como um bebê.

De repente algo parou sob o feixe de luz da lanterna... Parecia com pedra cinzenta, ou melhor, couro curtido... Úmido... E o pior de tudo, estava lentamente se deslocando na direção deles.

Dando outro passo para trás, Sam manteve a mão firme enquanto a criatura se revelava. Seus olhos fixos nela e seu cérebro sem realmente acreditar que aquilo estivesse bem diante deles.

De corpo comprido, medindo mais de três metros, recoberto por uma couraça que parecia ser feita de pedra, grande e assustador estava bem na frente dos Winchester uma lenda urbana que acreditavam ser uma das poucas que não tinha nenhum fundo de verdade.

— Isso só pode ser brincadeira. – Dean falou colocando a mão no peito de Sam, o empurrando para trás ante a revelação do monstro. Dando ao seu irmão a ordem mais sensata de toda a sua vida – Corre!

Antes que terminasse de falar os dois já corriam desesperados tendo o crocodilo com todo o seu instinto predador a lhes caçar.

Dean puxou a arma e deu dois tiros para trás sem mirar realmente e acertando apenas as paredes. Vislumbrando assustado a bocarra com fileiras e fileiras de dentes medonhos, afiados e próximos demais dos seus calcanhares.

— Direita! – Ordenou e o irmão lhe acompanhou.

— Corre em zigue-zague! – Sam gritou.

— Como Sherlock? – Dean respondeu arfando. Apesar de largo, o túnel não possuía muito espaço. Mesmo assim, com Sam a sua frente, começou a acompanhá-lo correndo ora de um lado, ora de outro, atrapalhando a percepção do réptil vitaminado que os perseguia.

À frente se depararam com um túnel sem saída. Em segundos a fera estaria em cima deles.

— Aqui! — Gritou Dean puxando o irmão e o empurrando em um vão do lado esquerdo da parede.

— Entra aqui também. – Sam falou tentando puxar o irmão sem conseguir. Mesmo que quisesse não seria possível, pois mal havia espaço para ele. – Deeeean!

O crocodilo jogou-se em sua direção tentando alcançá-lo, dando de encontro com a parede. Não era possível ele lhe alcançar, mas e o irmão?

— Deeeean!

— Estou bem! – Este respondeu com a voz abafada, fazendo com que o mais novo suspirasse aliviado – Tinha uma saliência igual desse lado. – Gritou mais alto.

Com seu corpo grande espremido entre as paredes úmidas e mal cheirosas, Sam mal conseguia respirar, quanto mais se mexer. Agora sim, pensava desolado, ele e o Dean, estavam em uma bela encrenca.

A luz da lanterna, que deixou cair, iluminava precariamente o crocodilo. O animal esperneou por alguns momentos em inúteis tentativas de alcançá-los, até que resolveu usar a tática da paciência. Afastando-se da luz, se deitou e esperou.

— Acho que ele não vai embora Dean.

— Verdade? O que te deu essa impressão?

— Deixa de birra, o que vamos fazer?

— Você não o cérebro dessa dupla? Diz aí.

— Não consigo pensar em nada. E foi você que mandou correr para a direita.

— Agora eu sou o culpado. Ótimo!

Sam pensou por um momento.

— Olha, dá um tiro no bicho. Talvez assim ele se assuste e vá embora.

Silêncio...

— Dean?

— É que... Deixei a arma cair. – O mais velho falou envergonhado.

Sam fechou os olhos e encostou a testa na parede, um dos poucos movimentos que conseguia executar no momento.

— Sammy?

— Estou pensando Dean.

Dean se calou e começou a pensar também em como poderiam escapar daquela situação. Estavam acostumados com fantasmas, lobisomens, vampiros e toda a sorte de coisas paranormais e esquisitas, mas nunca tinham realmente passado por algo tão anormal quanto encontrar um jacaré nos esgotos.

Percebendo a estranheza da situação, Dean começou a sorrir, parte do riso vindo do absurdo de tudo aquilo. Seu riso começou a ficar mais alto e sem querer começou a gargalhar em uma pequena crise histérica nada normal em Dean Winchester.

— Você pirou de vez? – Sam o recriminou com voz dura.

— Cara... Agora sim já nos batemos com quase tudo. Só falta encontramos o pé-grande.

— Idiota! – Sam falou sorrindo e calando por um bom tempo até se lembrar de alguém – Seu anjo da guarda faz falta.

— O Cass? Ele tem coisas mais importantes para se preocupar do que nos salvar de um predador de meia tonelada que quer nos comer no jantar. – Dean falou observando o crocodilo e se assustando ao ver o anjo surgir bem em frente à fera e estender a mão para a mesma como se ela fosse um pequeno poodle.

Ao ver o anjo o bicho se ergueu, abrindo as mandíbulas em direção ao seu braço estendido, parando petrificado antes de completar o ataque.

Castiel ficou apenas lhe encarando com seu olhar vazio de sempre, até que o réptil se arrastou em marcha ré sumindo na escuridão.

— Como você fez isso? Parecia que estava... Falando com o godzilla. – Dean perguntou se esgueirando para fora do vão e se juntando a Sam perto do anjo.

— Vocês precisavam de ajuda. – O anjo respondeu observando o túnel escuro por onde o animal sumia – Não foi como conversar com os leões... Mas convencê-lo não exigiu muito esforço... Ele parecia não ter tanta fome.

— Leões? — Dean falou observando ao redor assustado. Sam lhe deu um tapa na cabeça para que deixasse de idiotices – Ai!

— Tira a gente daqui Castiel, por favor. – Sam pediu balançando a cabeça, envergonhado pela total falta de conhecimento bíblico do mais velho.

— Opa! Opa! E o metamorfo? – Dean perguntou lembrado da caçada que os metera naquela pequena aventura no esgoto.

Como em resposta, ouviram um arroto alto e forte ecoar à distância.

Notas finais
Baseado e inspirado em uma pequena informação que minha amiga Kherryna me forneceu sobre como fugir de um crocodilo. Pasmem: Correr em zigue-zague, como o Sam disse. A referência de Castiel a leões vem da história de Daniel na cova dos leões, da Bíblia.