Pequenos Momentos Winchester e Cia

19 Um verão para Bobby Singer


Notas iniciais
Esse é o complemento e finalização da fic "Entre um sanduíche e outro".

Bobby olhou para a sala e suspirou desolado.

Livros em todo o canto, papel de parede sujo e descascando, móveis malcuidados e sem brilho, tons de cinza, marrom, um branco encardido... Não havia cor em sua casa... Pelo menos não uma cor alegre e convidativa... Para todo o lado que olhasse tudo parecia velho, acabado e decadente como ele próprio se sentira por anos.

Certo que tentou melhorar a aparência pelo menos da sala e da cozinha, mas estar preso a maldita cadeira de rodas não ajudou muito... Quanto a uma empregada, nem pensar, não queria ninguém fuçando suas coisas ou tendo ataques histéricos se por acaso encontrasse seu arsenal no armário da cozinha.

Olhou para as suas roupas pela enésima vez. Escolhera a calça jeans e a camisa social do melhor que havia em seu parco guarda roupa. Seus sapatos estavam engraxados e os cabelos ainda um pouco molhados e penteados para trás, lhe davam um ar mais sério e respeitável do que normalmente possuía quando usava um dos seus inseparáveis bonés.

Sobre a mesa de centro arrumada com uma graça e delicadeza nada natural do caçador, estava um conjunto de porcelana antiga muito bonita e delicada, ladeada por alguns livros do seu mais seleto acervo. Edições verdadeiramente raras e de valor inestimável para o seu trabalho, agora mais ativo, de pesquisador e apoio, principalmente para os garotos Winchester.

De repente ouviu o barulho de um carro estacionando e se sentiu muito nervoso, seus olhos percorreram a sala e resolveu se contentar com o que poderia oferecer. Além do mais, aquele era ele, aquela casa refletia muito da sua vida e personalidade e quem quer que fosse deveria gostar do que via... Por que poderia melhorar, mas nessa altura da vida, mudar não seria algo possível ou desejado.

Pensou que ouviria uma batida na porta, entretanto ela foi aberta antes que saísse da sala.

— Olá Bobby, desculpa ir entrando assim, mas não dava para esperar um ano para você deslizar essa velha cadeira de rodas até lá. — Dean falou sem muito tato se jogando no sofá e se recostando cansado.

— Desculpe meu irmão retardado, Bobby.

— Deus, eu preciso de uma cerveja bem gelada. — Dean notou o recinto limpo e organizado. — O que você fez com a casa?

— Olha rapazes no momento estou um pouco ocupado, ok. — Bobby respondeu fugindo da pergunta.

Dean e Sam olharam então para o velho caçador... Olharam realmente para o Bobby... Percebendo que o amigo desleixado dera lugar a um senhor asseado, arrumado, aprumado, parecendo alguns anos mais jovem, e...

— Você está usando perfume? — Perguntaram juntos sentindo o queixo cair.

Bobby estremeceu. Mais alguns segundos e sua vida seria um inferno por pelo menos um ano.

— Olha garotos adorei rever os dois e uma outra hora podemos colocar a conversa em dia, falar sobre a última caçada e todo esse blá blá blá de Apocalipse. Mas agora, realmente, vocês precisam...

Bobby fechou os olhos desalentados ao ouvir à leve batida na porta. O rosto assumindo um tom avermelhado ao perceber o olhar dos Winchesters percorrendo novamente a sala, sua aparência, o serviço de porcelana arrumado para dois sobre a mesinha de centro, e juntando dois mais dois como só a inteligência de Sam e a esperteza nata de Dean podiam fazer voltar a encará-lo incrédulos.

Tentou deslizar a cadeira em direção a porta, contudo Dean foi mais rápido e em um instante de horror, Bobby escutou a voz grossa e levemente sedutora do rapaz responder a voz macia e rouca de uma mulher.

— Ele está sim, por favor, entre.

Som de passos.

Bobby prendeu a respiração e lá estava ela, tão bonita quanto se lembrava da lanchonete, até mais, se seus velhos olhos não lhe enganavam.

— Olá Robert!

— Olá Summer!

Dean e Sam ficaram curiosos com aquela troca intensa de olhar, pois o “casal” agia como se nenhum dos dois estivesse ali na sala.

— Hã, hã! — Pigarreou Dean tentando chamar a atenção dos dois.

Levou alguns segundos para que Bobby percebesse seu alheamento. Se sentido envergonhado, corando como um adolescente, ele saiu em parte de seu encantamento com o firme propósito de se livrar dos dois intrometidos.

— Summer, esses são Dean e Sam, e eles já estavam de saída.

— Que nada, podemos ficar mais um pouquinho. — Dean respondeu se aproximando da garota.

A ruiva, recheando um vestido leve, verde, que solto escondia suas curvas, sorriu sincera em direção aos rapazes. Seu olhar não era de apreciação, apesar dos dois jovens homens serem opostamente lindos.

— Prazer. — Falou apertando a mão dos dois e aceitando o convite mudo do mais novo para que se sentasse. — Dean e Sam. Robert falou muito sobre vocês.

— Mesmo? — Dean perguntou sentando ao lado do irmão no sofá de frente para o “casal”. — Interessante que ele não nos falou muito sobre você.

— Dean! — Sam reclamou ao ver Bobby tossir sem graça.

— Isso não me surpreende. — Summer refutou sem perder a pose ou se deixando melindrar pelo loiro de olhar indagador, durão e debochado. Tão diferente do irmão, que ao seu lado mantinha um ar curioso e sorridente.

— Acho que deve ser estranho para vocês. E bem... — Summer olhou para o caçador na cadeira de rodas com olhos ternos. — O Robert e eu conversamos muito por telefone, mas esse é realmente o nosso... primeiro...

— Encontro? — Sam e Dean completaram juntos, jogando o corpo para frente, com uma sincronia absurda.

Os dois pares de olhos verdes fixos no rosto bonito e levemente rosado do par.

— Rapazes! — Bobby repreendeu recuperando a voz diante daquela descarada intromissão em sua vida amorosa.

Summer sorriu tímida, algo que, normalmente, não fazia parte de sua personalidade. Em um gesto carinhoso e de certa forma possessivo, colocou uma mão sobre a do caçador ao seu lado.

Bobby sentiu o toque terno aquecê-lo e todas as conversas que tiveram pelo telefone ecoaram pela sua cabeça. A voz calma e as observações inteligentes; O modo como seu riso soava com gosto e de forma sincera por mais que a piada não fosse tão engraçada; A maneira rouca como ela dizia seu nome quando a conversa chegava ao fim, sempre esperando um algo mais, aquele convite que até a noite anterior ele não estivera preparado para fazer.

Agora ela estava ali, com a mão sobre a sua, seu cheiro floral impregnando-lhe o olfato, a pele acetinada do pescoço a menos de trinta centímetros de seus lábios, tão jovem e atraente, que por um momento sentiu-se muito velho.

— Robert, não se preocupe, eu entendo a preocupação dos meninos.

Meninos?

Apertando sua mão, a ruiva encarou os rapazes segura, falando aberta e com timidez, mas sem rodeios.

— Trabalho no ramo de livros raros e o Robert é uma figura muito conhecida em nosso meio. Uma lenda na verdade. Encontrá-lo, acreditem, foi um presente.

Sua mão delicada apertou com mais força a calejada em busca de apoio.

— Descobri ao longo de nossas conversas que ele é o homem mais interessante, inteligente e maravilhoso que tive a honra de conhecer... Quero dizer que posso entender o quão estranho para vocês é depois de tanto tempo vê-lo com alguém... O que quero dizer é que... Bem... Não tenho intenção de fazer o pai de vocês sofrer.

Silêncio.

Os três homens se encararam por um instante sem responder. Seus olhos falavam muito mais uns aos outros que milhares e milhares de palavras.

Pai e filhos? Sim. Muito mais do que se laços de sangue os unisse.

— Bem... É bom ver o papai feliz. — Dean falou com a voz um pouco embargada, se recuperando primeiro, o coração aquecido.

— Temos que ir agora... Negócios. — Sam se ergueu puxando o irmão sem noção, que já estendia a mão para um dos bolinhos sobre a mesa. — Nos vemos mais tarde... Pai.

— Isso mesmo papai, comporte-se! Não faça nada que eu não faria.

Levando um tapa na cabeça, Dean foi empurrado sem cerimônia em direção à porta.

— Acho que deveríamos aguardar do lado de fora só por garantia. — Sam disse um pouco preocupado.

Afinal ser caçador significava sempre estar em alerta.

Dean parou e sem aviso puxou o mais alto pela camisa apontando para algo no batente e depois para o desenho no teto da malcuidada varanda.

— O Bobby pode estar apaixonado, mas não é nada bobo. — Dean falou sorrindo do olhar de compreensão de Sam.

Atravessando a linha de sal e sem dar muita bola para a armadilha do diabo no teto, os Winchester resolveram seguir o seu caminho, deixando para trás o som reconfortante do riso satisfeito de seu verdadeiro pai.