Pequenos Momentos Winchester e Cia
10 Sob a palma de uma mão estendida
Notas iniciais
Sobre a palma de uma mão estendida...
... Estava um apelo... Em sua palma repousando pesado um grito de ajuda, que eu fitava com olhos em que a incredulidade, a raiva e o desespero eram mais que latentes... Ali, brilhando sob a luz fraca da manhã, estava a decisão que mudaria minha vida... Pousava ali serenamente o fim de meus sonhos... A aceitação de meu destino... Meu momento divisor de águas.
Olhei para ela por trás das lágrimas que subiam aos meus olhos. E vi naquela mulher, na dona daquela alma desesperada e suplicante, muito mais do que a sua beleza física. Algo nela ia além daqueles enormes olhos escuros e expressivos em que tinha me perdido e me encontrado há poucas horas atrás. Uma beleza sensual e ao mesmo tempo quase divina. Onde uma alma pura, forte e desprendida habitava. E isso, tinha me atraído mais que tudo.
Soube quase no instante em que a vi que poderia amá-la e que esse amor não seria possível, de uma forma ou de outra. Não foi algo que pudesse entender... Não naquele instante... Mas me bastou um par de horas, uma noite, um sorriso para me perder completamente em um amor sem futuro.
Agora ali estávamos os dois, frente a frente... Caçador e caça. E ela estendia a mão em minha direção em busca das minhas, em um pedido incrivelmente doloroso e cruel.
E seus olhos me diziam todo o resto que as palavras não conseguiam expressar. Seus olhos eram mais eloqüentes que qualquer coisa que seus lábios pudessem me dizer. Neles eu podia ler medo, amor, receio e uma profunda compreensão do que ela tinha se tornado, do que deveria e precisava ser feito e mais que tudo, quem deveria fazê-lo.
Não existiam meio termos naquele momento, nem outras opções. Ela não poderia viver daquela maneira e eu não poderia deixá-la sofrer aquela aflição. Ou pior, partir pelas mãos erradas, pelas mãos de outro, sob os olhos de alguém que não tinha lhe entregue o coração.
Algo dentro de mim morreria no instante em que aceitasse seu apelo de ajuda. Eu sabia e ela também. Foi a completa certeza e compreensão disso, mais que a indecisão, que me impediu, por tão breve instante de aceitar matá-la.
Mesmo um irmão amado e solicito não poderia ajudar... Foi a mim que ela solicitou... Foi a mim que seus olhos imploraram... Foi a mim que sua mão esperou estendida com a arma brilhando mortífera e agourenta.
Madisson deveria morrer, não por uma ação metódica e altruísta, mas com e por alguém que real e para sempre se importasse com a sua partida.
Deus! Precisávamos estar um nos olhos do outro no fim... E eu era egoísta o suficiente para querer ser sua última lembrança dessa vida.
E sim... Fiz... Com a arma nas mãos, deixei que o inevitável acontecesse.
Quando tomei a firme decisão e fui ao seu encontro ela estava ali... Parada... Quieta... Nem um pouco temerosa. Apenas me olhava e sorria.
As primeiras luzes da manhã ainda frescas e vermelhas douravam sua silhueta, lhe dando uma aura de pureza e serenidade que eu nunca mais possuiria. Seus olhos estavam secos, os meus não... Seus lábios úmidos me murmuraram um adeus antes que o estampido rasgasse o ar e os nossos corações.
Uma dor aguda invadiu o meu peito... Não a olhei... Não podia encarar o que fizera. As lágrimas me cegavam, minha mão tremia, meu peito arfava e o grito que queria explodir não saiu... Preso na minha garganta para sempre.
Ergui a mão por um breve instante e a lembrança de alguém na outra sala a quem não saberia como encarar dali para frente sem sentir que, de alguma forma o havia decepcionado, mas que me amava mesmo assim, me fez desistir.
Devagar deixei que meus olhos pousassem sobre a figura no chão.
E ao ver seu corpo caído... Vazio... O que mais me doeu... Muito mais que apertar o gatilho... Foi não possuir a coragem depois, de disparar novamente e segui-la.
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