Pequenos Cuidados
1 Childhood
Notas iniciais
Ir ao parquinho com o tempo se tornara a hora mais esperada do dia para Todoroki. Corria em passos curtos a segunda esquina perto de casa, avistando o amplo lugar para crianças divertirem-se.
Estava lotado, tendo algumas nos escorregadores e outras mais aos balanços. Procurou com os olhos rapidamente uma figura em especial, a qual se aproximara no primeiro dia que foi. Bem, ele se aproximou de si.
Viu seus fios loiros arrepiados mais ao longe, brincando com as mãos mesmo ao ter um baldinho azul com água e uma pazinha dentro deste ao seu lado. Fazia castelinhos na areia do parquinho dentro de uma caixa grande quadrada para esta não se espalhar.
Ambos tinham certas semelhanças, a principal era que não tinha nenhuma outra criança que tivesse a coragem brincar com nenhum dos dois. Shouto por conta de seu pai e os vários problemas que sua aparência trazia.
Sofria bullying por conta da cicatriz ao rosto sendo julgado como esquisito e feio pelos outros meninos, acabando por se afastar deles antes mesmo de qualquer interação a mais.
E em um dia que isso estava acontecendo fora que aquele menino apareceu.
≥ῷ≤
— Me solta! Isso dói! — A voz chorosa infantil era alta, tendo as crianças próximas preocupadas com a cena.
— Saia daqui e não chegue mais perto de mim! — Um loiro gritava, estando em cima do peito de um menino ao agarrá-lo pelo cabelo com uma das mãos enquanto a outra estourava em leves explosões perto do rosto dele.
Não era grande coisa, mas queimava aos poucos a cada faísca próxima que atingia-o. O que estava embaixo começou a pedir desculpas e chorar até que o outro saiu de cima, vendo ele se afastar correndo.
As outras crianças ao redor encaravam o loiro como se ele fosse um monstro, com medo e receio estampados a face.
— O que estão olhando?! — Ele lançou ao ar, vendo praticamente todas se dispersarem pra bem longe de si.
Deu uma bufada irritada, olhando para o motivo de tudo aquilo ter começado. A única criança que ainda tinha talvez a coragem de permanecer perto de sua pessoa.
— Desculpe... — Todoroki pediu, tentando segurar o que parecia que se transformaria num choro.
Tinha o cabelo bagunçado e a roupa suja, estando ambos no mesmo barco.
— Pelo o que? Você não deveria deixar eles fazerem o que quiser. — Vendo que o desconhecido ainda estava no chão o loiro se aproximou lhe puxando pela mão até ficar também de pé. — Bakugou.
Shouto soou confuso, recebendo um olhar impaciente do outro.
— Meu nome, Bakugou Katsuki. — Ele se viu tendo que completar, soltando a mão alheia.
— Todoroki Shouto. — O meio albino engoliu as lágrimas, olhando-o ele se aproximar de si e erguer a mão para seu rosto.
Fechou os olhos por instinto, todavia apenas sentiu um toque rápido na sua cicatriz.
— Pode brincar perto de mim, duvido que eles vão querer mexer comigo de novo.
Katsuki tinha um tom orgulhoso e um sorriso de que era o mais forte quando Todoroki o viu de novo. Bakugou voltou para sua areia, sentando-se largadamente ao voltar a fazer seus castelos. Ficou sendo encarado por Shouto por um bom tempo, tendo este não sabendo o que fazer ao certo. Ele também brincava sozinho? Era muito solitário...
— Posso brincar com você? — O meio ruivo se acanhou de início, mas perguntou enfim com evidente esperança no rosto.
Katsuki o olhou como se aquela indagação fosse completamente desnecessária, contudo ao mesmo se sentia em algo novo. Ninguém nunca quis brincar consigo antes, até porque não dava brechas para isso com seu temperamento.
— Pode, só toma cuidado pra não derrubar aqui. — O loiro indicou os castelinhos que estavam de pé bem formados.
Shouto concordou ao sentar-se ao seu lado, contente, começando a montar com ele novos e maiores castelos de areia.
Agora os dois tinham com quem brincar.
≥ῷ≤
Carregava uma bola pequena em mãos, tendo se aproximado em passos tímidos da silhueta loira a mexer na areia. Esse o notou de imediato, vendo que o garoto de duplos tons ainda era um pouco acanhado consigo.
— Oi. — Todoroki disse ficando a um metro dele.
— Vai querer jogar bola hoje? — Bakugou largou a pazinha ao cravá-la metade na areia, levantando-se.
Tinha areia lhe acompanhando nos calçados até seus joelhos marcados, não ligando muito para isso. O meio albino assentiu tendo o loiro a pegar a bola de suas mãos ao jogá-la no chão, afastando-se ao levá-la em passadas largas, sorrindo ao olhá-lo.
Passaram a tarde jogando quando notaram que deveriam ir para casa devido estar escurecendo. A bola tinha se perdido para mais ao lado de uns arbustos pequenos, tendo Todoroki indo buscá-la.
O loiro o esperava na saída do parquinho, apressando-o. Shouto voltava abraçado com a esfera colorida nos braços em passos rápidos, tapando a visão do chão e isso o levando a tropeçar num pneu enterrado da gangorra.
A bola escapou das suas mãos de imediato, tendo a criança caindo de joelhos e palmas abertas ao tentar de último milésimo prevenir a queda.
— Todoroki! — Katsuki correu ao garoto caído, preocupado. — Não precisava vir correndo!
Estava se contradizendo obviamente já que tinha falado para ele vir logo, mas não importava. Pegou nas mãos dele ao virá-las para cima, notando estarem completamente raladas. Olhava-o com reprovação em um fundo de preocupação, sabendo que se tocasse diretamente seria pior.
Antes que perguntasse ele levantou-se minimamente mostrando os joelhos que também derrapou. Esses estavam bem piores completamente marcados e a sangrar, devendo estar ardendo horrores e se mover não seria nada fácil daquela forma.
Todoroki ainda quis manter a pose de pé e dar alguns passos, afinal tinha que voltar para casa logo ou ficaria ainda mais tarde, no entanto, foi parado no primeiro mover por Bakugou.
— Sobe. — Ele pediu ao ficar de cócoras em sua frente, indicando suas costas.
— Mas... — Shouto estava tentando conter as lágrimas pelas feridas, tendo a visão embaçada, porém sabendo o que o loiro queria fazer.
— Sobe logo. — Ele praticamente ordenou, sentindo um peso considerável se fazer em si logo após. Os braços circundaram seu pescoço com cuidado, em seguida agarrando-o por de baixo dos joelhos rubros ao içar o corpo tentando manter seu equilíbrio e força ao estar carregando-o. — Você é muito desastrado — reclamou.
— Não achei que tinha algo no chão. — O meio albino parecia um pouco cabisbaixo.
— Devia olhar para o chão.
Bakugou passou o resto do caminho inteiro dando bronca em Shouto, acabando indo para sua casa sem aceitar questionamentos.
— Katsuki, já está tarde pra caramba, você não... O que aconteceu?! — Mitsuki que estava à sala se surpreendeu em ver o filho carregando alguém, e que estava machucado ainda. — O que você fez? — Ela acusou. Conhecia o filho, e esperava sempre encrenca deste.
— Eu não fiz nada! Ele caiu sozinho. — O loiro se defendeu da progenitora, recebendo um olhar de quem duvidava e muito disso, querendo uma confirmação ao olhar para o menino até então desconhecido.
Aproximou-se do sofá ao largar o meio ruivo no estofado num baque leve, saindo sem avisar nem nada. Shouto se sentiu perdido, buscando o outro com os olhos coloridos, só encontrando sua mãe a olhá-lo.
— Desculpe a intromissão, senhora Bakugou... — Ele pediu ao ver um sorriso iluminar a face da mulher.
— Não se preocupe, fico feliz que meu filho finalmente tem um amiguinho. E que gracinha você é. — A loira apertou as bochechas fofas de Todoroki, vendo-o ficando sem graça em ganhar uma vermelhidão pelo rosto infantil facilmente.
— Não incomoda ele, mãe. — Katsuki voltou rapidamente com uma caixinha branca em mãos com um símbolo vermelho desenhado nela.
— Hnn, o que vai fazer? Você nem me apresentou ele, Katsuki. — Mitsuki se sentou ao lado de Shouto, decidindo por apenas observar o que já sabia que seria feito pelo filho. Ah, estava orgulhosa!
— Cuidar do Todoroki. — O loiro matou as duas perguntas numa cajadada só, retirando suas coisas da caixa clara.
— Não quer que eu cuide dele? — Ela perguntou, curiosa, vendo a reação de sua cria ser a melhor possível.
Bakugou torceu o rosto em uma negação palpável, ignorando-a ao se focar em seus pequenos cuidados. Limpou os joelhos ralados tirando toda sujeira e sangue, fazendo curativos simples, mas o suficiente. Afinal, não tinha sido nada grave.
Em suas mãos colocou band-aid de bichinhos, ficando satisfeito em um ar de trabalho feito. Buscou o rosto de Todoroki por instinto, vendo que ele estava seguindo-o com os olhos distintos em cada leve movimento. Seu rosto enrubescido e expressões encantadas lhe enfeitaram ao ponto de até mesmo Mitsuki apreciar a cena dos dois.
Era raro ver o filho feliz em que não fosse levando vantagem sobre outra criança, e era ainda mais raro o ver começar a gostar de alguém.
Ter cuidados para com alguém importante para si era um grande passo ainda mais num começo de uma amizade. Com o tempo estes ganhariam forma, mesmo que fossem pequenos.
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