Pequenos Contos

23 Beco abandonado


Eu vejo no canto de um beco
Ao lado da rua um garoto sozinho
Ao lado de outros, em seu canto encolhido

Este em especial me chama a atenção
Não por ser o mais magrinho
Não por ser o mais novinho, nem por ser mulatinho

Pois ele não é
Ele é branco
De cabelo castanho
E nem de longe parece faminto

Eu paro e me pergunto
O que faz aqui este menino?
Com seu lamento soturno
Recluso em seu pequeno mundinho

Sentindo-se observado
Ele ergue o olhar
E em seus olhos compreendi com pesar

Preto e vermelho
Incomum e precioso
Estranho e mestiço

Em seus olhos eu vi a mesma sensação
De abandono e insatisfação
A revolta e a razão
A tristeza e a incompreensão

Esse pequeno de roupas novas
De cabelos macios e pele bem cuidada
Sofria o mesmo que os garotos ao seu lado
Pois ele também foi rejeitado

Tratado com um monstro
Ele sentia fome... De amor
Ele sentia frio... Da dor

Eu lhe estendia mão
Em uma promessa muda
De não deixa-lo ao relento e não abandona-lo

Ele me olhou confuso e surpreso
Com medo e receio também me prometeu
Que se eu o amasse, seu futuro seria meu.