Pequeno Segredo

4 Assumindo a Gravidez


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"Just keep breathin' and breathin'

and breathin' and breathin'

And oh, I gotta keep, keep on breathin'

Breathin — Ariana Grande

ASSUMINDO A GRAVIDEZ

Cris Scott

Olhei à minha volta tentando entender o local que eu estava. De alguma maneira tinha vindo para o meu apartamento, nesse momento estava sentada no meu pequeno sofá que tinha na minha sacada. Sentada ao chão lendo uma revista se encontrava Emilly.

— Emm? — chamei e ela me fitou.

— Ainda bem que você voltou — ela disse fechando a revista.

— Como vim parar aqui? — perguntei confusa. Ela começou a narrar os acontecimentos assim que terminou, dei um longo suspiro.

— O que você vai fazer? — Ela perguntou.

— Arrumar minhas malas e viver vendendo bijuterias na praia — respondi e ela gargalhou.

— Mesmo que eu aprecie o seu senso de humor — ela disse se recuperando da crise de riso. — Quero saber sobre a criança.

— Eu ainda não sei — respondi e as primeiras lágrimas se formaram. — Ficar grávida era um sonho meu desde pequena, sempre quis ser mãe e sabia que um dia isso aconteceria, mas não nessas circunstâncias.

— Vai dar tudo certo, amiga — ela disse me abraçando forte. Retribui o abraço.

— Como pode ter certeza? — perguntei.

— Ah não querendo me gabar — Emm disse. — Mas essa criança vai ter a melhor madrinha do mundo. — Acabei sorrindo um pouco, mas logo voltei as minhas lamúrias.

— Por que a minha vida é tão complicada? — perguntei olhando para ela — Estou no último ano da faculdade, perto de finalizar o estágio e o pai do meu filho é o cara que assina a minha folha de pagamento — disse. — Como vou passar por isso tudo sem ninguém para me apoiar?

— Amiga, você tem a mim, a Vivian e o Luke e nunca iremos te abandonar — ela disse. — Vamos pensar numa solução, mas agora, você precisa tomar um banho enquanto preparo um sanduíche gostoso para a gente.

— Emm, acabamos de almoçar — disse.

— Cris você ficou aérea quase duas horas e você passou mal, então não há nada no seu estômago — ela disse. — Banho, lanche e festa do pijama é o que você irá fazer hoje.

— Você é a melhor amiga do mundo — disse me levantando com ela.

— Eu sei — ela disse sorrindo.

O banho demorou mais que o normal, lágrimas se misturavam com água e meus soluços eram abafados pelo som do chuveiro. Dizer que eu estava perdida era elogio, eu não tinha ideia do que iria fazer. Muitas vidas seriam destruídas por eu não conseguir controlar o meu desejo. As batidas na porta me tiraram do meu torpor, chorar não iria resolver muita coisa, agora mais do que nunca precisa ser forte. Saí do banho e coloquei o pijama que estava ali, ao entrar na cozinha Emm havia montado a mesa para comermos.

— E agora o que você quer fazer? — perguntou pegando a jarra de suco.

— Terminar de comer e se deitar na cama com você fazendo um cafuné — respondi sincera.

— Acho que posso fazer isso por você — ela disse.

Após terminar de comer tudo, fomos para a minha cama, ela colocou um filme qualquer na televisão e acabei adormecendo

O despertador tocou fazendo com que eu acordasse, Emilly não estava deitada comigo, mas sabia que ela se encontrava ali, pois um cheiro gostoso vinha da cozinha. Peguei o celular que estava na mesa ao lado da cama e para a minha surpresa havia uma mensagem do meu chefe.

"Cris, fiquei preocupado, espero que esteja tudo bem com você e o bebê. Caso não se sinta bem, tire o dia de folga novamente, nenhum trabalho é mais importante que a sua saúde e agora você precisa pensar por dois hahahaha. Tenha uma boa noite!"

Só fui perceber que sorria igual uma idiota quando vi o meu reflexo na tela escura do celular, quando apertei o botão de ligar percebi que haviam se passado mais de dez minutos e se eu continuasse assim, chegaria atrasada. Peguei as roupas no armário e comecei a me vestir. Estava quase pronta quando me peguei analisando a minha imagem no espelho para um local muito específico.

Pela primeira vez coloquei a mão sob o ventre, um turbilhão de emoções se formou, dentro de alguns meses, um pequeno ser sairia dali. Eu passaria por uma transformação e sozinha.

Mesmo que essas coisas estivessem acontecendo na minha vida, duas coisas eram certeza absoluta: primeira, abortar não estava nos planos e segundo, o nome do pai dessa criança seria eternamente o meu pequeno segredo, pelo menos nesse momento. Quem sabe quando ele ou ela fosse mais velho e eu estivesse morando do outro lado do país, eu contaria a verdade.

— Cris — me sobressaltei. Olhei para a porta onde Emilly me encarava segurando uma xícara de café. — O que está fazendo?

— Olhando para a minha barriga e pensando se dar para ver o meu ventre — respondi envergonhada.

— Cris você deve estar de um mês e pouco ainda não é possível ver, mas daqui a pouco será — ela disse me fazendo arregalar os olhos. — O que foi? — perguntou confusa.

— Tenho pouco tempo para me tornar forte o suficiente e nos proteger — respondi abraçando o meu ventre.

— Amiga, se alguém ousar machucar você ou a minha afilhada irá se ver comigo — ela disse e eu acabei sorrindo.

— Acredito que você e a Vivi irão duelar para serem madrinhas — disse.

— Minha querida já peguei minha lança — ela disse risonha. — Mas isso não seria necessário se você estivesse grávida de dois.

— Emilly, vira essa boca para lá, bate na madeira ou faça qualquer coisa — disse rindo nervosamente.

— Não custa sonhar — ela disse dando de ombros.

— Como isso aconteceu? — perguntei sentada na cama.

— Então, tudo começou quando você resolveu irrigar a sua semente com um líquido especial e de acordo com suas informações, foram três vezes — ela respondeu rindo. Joguei o travesseiro na cara dela, mas nem isso fez ela deixar de gargalhar.

— Não tem graça — disse tentando não sorrir e ficar vermelha falhando miseravelmente.

— Onde você acha que ele foi germinado, na cama, poltrona ou janela? — ela perguntou debochada.

Levantei-me da cama indo para a cozinha.

— Provavelmente na janela — respondi baixo fazendo ela parar com a xícara no ar e me olhou chocada. — Mas nem adianta perguntar, porque dessa boca não vai sair mais nada.

Sentei a mesa e comecei a preparar o meu prato.

— Agora sem brincadeira — Emm disse séria. — Você se arrepende de algo?

— Fico dividida com isso — respondi sincera. — Você sabe que desde o dia que comecei a trabalhar para ele era um sonho distante que algo assim pudesse acontecer e de vez em quando ainda não parece real — disse e ela levantou a sobrancelha olhando para o meu ventre. — Larga de ser boba — comecei a tomar o suco de laranja.

— Parei — ela disse voltando a ficar séria. — Pergunto isso, por que você vai mesmo esconder a gravidez dele?

— Não quero estragar o noivado deles — respondi suspirando. — Deve ter umas duas semanas que eles reataram.

— Eu entendo, porém a pessoa que pode ficar destruída é esse bebê — Emm comentou solidária.

— Muitas crianças crescem sem a presença do pai — argumentei.

— Sim, crescem, porque o pai morreu ou foi imbecil ao ponto de abandonar — disse. — Bryce Ward está bem vivo e ele não parece ser o tipo de cara que abandona.

— Emilly da minha boca ele não irá saber nada e ponto final — declarei.

— Você às vezes é muito cabeça dura — falou nervosa.

— A única coisa que sei é que devia ter deixado minhas fantasias apenas nos sonhos — disse desanimada.

— Você podia ter dito não — Emm disse irônica.

— Quando o homem dos seus sonhos te seduz, você me diz se consegue negar — falei sincera.

— Negar não sei, mas grávida não ficarei — Emilly proclamou. — Agora vamos logo se não chegarmos atrasada.

Comi algo e saímos em direção ao metrô. Ele chegou no horário e logo a batalha por um lugar começou. Nós conseguimos um espaço não muito amplo, mas agradável. Afinal não queríamos nenhum engraçadinho passando a mão. Emilly começou a mexer no celular, enquanto eu divagava sobre nossa conversa. Contar para ele era o certo a ser feito, mas precisava estar preparada para receber qualquer tipo de reação. Não era algo simples, tão pouco fácil de ser conversado.

Dei um longo suspiro de aparente cansaço, pensar nessas coisas era maçante, porém precisava ser feito. Eu tinha que antes de tudo me fortalecer para que depois as pessoas soubessem. Mas como estamos falando da minha vida, o destino não concordou.

— Pode se sentar aqui — uma mulher disse sorrindo para mim. Ela se levantou enquanto o sino apitava que a estação estava próxima. Tentei negar, mas ela foi irredutível. — Você parece que está precisando ficar sentada — ela disse me dando tchau.

— Pessoas sendo simpáticas nesta cidade principalmente no metrô coisas assim realmente acontecem — Emilly disse na minha frente em pé. Foi como um clique bem agudo.

— Ela sabe — disse praticamente sem fôlego.

— Sabe do que? — ela perguntou confusa.

— Que estou grávida — respondi obviamente.

— Você enlouqueceu de vez — disse.

— Então como explica a boa ação dela? — perguntei nervosa.

— Talvez ela esteja tendo um bom dia — respondeu.

— Você acredita mesmo nisso? — perguntei cética.

— Melhor que sua teoria louca — ela respondeu. — E o que é que tem? Logo todas as pessoas saberão — ela disse dando de ombros.

Eu tinha noção que todos iriam saber, mas precisava ser um dia depois de eu ter descoberto. Fiquei perdida em pensamentos e só despertei quando Emilly me chamou. Saímos do metrô e no meio daquela correria de pessoas indo e vindo da estação, um homem esbarrou em mim derrubando minha bolsa.

— Me desculpe, querida, culpa minha — o homem disse pegando minha bolsa e me entregando.

— Isso está ficando estranho — disse.

— Vai me dizer que ele também sabe? — Emilly perguntou debochada. Acenei positivamente. Ela balançou a cabeça rindo.

Então para mim todos sabiam agora. Andava olhando para os lados, vendo aqueles rostos desconhecidos que assim que me encaravam se mostravam acusadores. Será que na minha testa estava escrito grávida do chefe?

— O que foi? — Emilly perguntou.

— Todos estão me acusando — respondi começando a andar rápido.

— Te acusando de que? — indagou

— Dá minha gravidez — respondi como se fosse óbvio.

— Não surta — ela disse.

Aquelas palavras não surtiram efeito nenhum. Não estava ficando louca, estava visível que estavam me julgando. Como ela não via isso? Gentileza era algo raro nessa cidade e hoje duas pessoas têm sido gentis comigo. Suspirei de alívio assim que avistei o prédio da empresa. Apertei mais o passo e Emilly me acompanhou. Assim que chegou à porta um homem saía e em vez dele deixar a porta fechar, ele a segurou. Nem agradeci, tão pouco respondi o cumprimento que me deram no hall de entrada ou falei com a pessoa que segurou o elevador para mim.

— Será que dá para me explicar essa sua cara? — Emilly perguntou baixo.

— Não quero que as pessoas sejam gentis comigo — respondi. — Por que elas estão fazendo isso? — ela me olhou como se eu fosse louca.

— Isso é normal — disse.

— Para mim não é — falei. A porta do elevador abriu e eu saí sem olhar para trás.

Minha amiga disse algo, mas preferi ignorar. Seguia em frente de cabeça baixa. Porém um obstáculo apareceu na minha frente. Eu não esperava, então não me culpem por quase cair. Porém os braços me mantiveram de pé. Assim que foquei minha visão dei de cara com o meu chefe.