Pequenas coisas

1 O rio, o lago, a vida


Notas iniciais
Boa leitura!

Talvez fosse ao contrário, mas, quando o via, sempre achava que era aquele lago que desembocava no rio. O lago era quente e lotadinho de peixinhos. Apesar de maior, o rio era frio, vazio e ainda mais sujo do que o pobre laguinho.

Sempre me sentava no banquinho que a vovó deixara entre um e outro, por respeito a sua morte nunca o tirei de lá, e mais do que isso, era uma boa vista também. Além das águas e da pontezinha que atravessava o canal que as ligava, avistava, ao longe, a estradinha de terra, sabia quem vinha e quem ia; quem voltava ou partia. O banquinho tinha as pernas finas e amareladas como as minhas, porém, eram de uma madeira sem-vergonha em vez de pele, osso e o mínimo de carne que você possa imaginar.

É, verdade. Eu era magra como um palito, um quilo acima do mínimo permitido para o meu tamanho, portanto, mesmo magrelinha e baixinha, era saudável e tinha a saúde de um cão — os meus nunca ficavam doentes, então, não sei outro ser extremamente saudável para fazer a comparação. Me lembro de ter ficado com febre apenas algumas poucas vezes, gripes, resfriados e demais doenças me afetavam com grande raridade, por esses motivos, eu amava a minha vida.

Naquele dia, eu estava muito bem. Me vestia em uma camisa de flanela quadriculada em preto e laranja na qual eu cortei para aparecer minha magra barriga e fina cintura, as já curtas mangas dobradas deixando meus pequeninos braços àmostra. As coxas eram cobertas pela metade por um pequeno shortinho jeans e nos meus pés iam botas pretas até a altura do joelho. Com o chapéu branco que meu avô havia me dado por cima de meus cachinhos amarelados que foram modelados pela empregada da fazenda por meu cabelo ser escorrido e sem graça, eu fiquei a observar a paisagem do campo. Havia vacas, cavalos, porcos e diversos animais clichê que estava acostumada a ver.

Era o primeiro dia de verão e quando olhei para o laguinho e o imenso rio, pude ver que ambos estavam com as águas claras — coisa rara para o rio. Dei um breve sorriso e virei-me para o laguinho.

— Parece que suas águas limpas estão fazendo efeito nesse rio, não é mesmo?

Ergui minha cabeça, quando percebi que ele não me responderia, e vi alguém. Eu nunca havia visto aquele garoto pelas redondezas, ele era baixinho, estranho e usava um chapéu preto e velho que parecia sujo de poeira. E a parte pior não era essa, o pior era que ele vinha em minha direção e eu estava quieta sentada no banquinho da minha falecida avó.

— 'Cê toca banjo?

— Que tipo de pergunta é essa, garoto?

Ele tirou o chapéu e olhou para dentro dele como se procurasse algo. Seu cabelo era mal cortado e preto, parecia que alguém havia cortado contra a vontade dele.

— Tô na procura de alguma alma que toque banjo, 'cê toca?

— Não...

Estava tentando me manter séria, entretanto, o cabelo dele era engraçado demais para eu ignorá-lo. Além do sotaque forçado que ele tentava soltar a cada frase que parecia mais um daqueles imitadores baratos.

— 'Brigado de qualquer forma, moça.

Ele deu as costas, colocou seu chapéu e foi andando na direção da ponte de onde veio. Não consegui conter o riso quando ele já estava longe. É cada maluco, pensei.

O sol estava quente e o vento frio, eu olhava pro céu e as nuvens não tinham formas de bichos ou coisas que eu conhecia, mas sempre podemos inventar algo em nossas mentes. Enquanto inventava raras espécies de animais que ninguém nunca verá apenas para poder observar as nuvens, escutei passos vindo em minha direção novamente.

— O que foi garoto, eu não toco...

Quando olhei para frente, sussurrei a palavra “banjo” como se fosse beijo. Eu não sabia o que fazer naquele momento, tinha uma garoto com tamanho suficiente para eu repousar minha cabeça sobre seu peito, com brilhantes olhos azuis e um cabelo loiro curto e desgrenhado.

— Desculpe, você poderia me informar se a Vivian mora por aqui?

— Mora naquela casa ali — apontei para minha casa. — E você está falando com ela nesse momento — pisquei com um sorriso besta em meus olhos.

— Olá, Vivian — ele estendeu a mão para apertar.

Segurei firme naquelas mãos de pele grossa e áspera, peguei impulso para levantar da cadeira e beijar o seu rosto. Beijando-o na bochecha esquerda, perguntei o seu nome.

— Me chamo Daniel, estive te procurando durante um bom tempo.

— E para que você estava me procurando, hein?

— É que você é tão linda. Eu olho essa sua barriga lisa, essa cinturinha, até mesmo essa roupa extremamente sexy.

— Ai, para. Você está me deixando envergonhada, diga logo o que quer, eu tenho certeza que vou aceitar.

— É que o meu namorado e eu estávamos procurando uma garota como você para ser modelo de nossas roupas, sabe? São coisas super descoladas, mas sem perder esse ar do campo, portanto, precisamos de uma modelo com feições caipiras e urbanas, vimos que você mora perto e juntamos o útil ao agradável.

Minha boca estava no chão, aquele forninho simplesmente era pesado demais para eu conseguir segurar. Um homem daqueles só poderia ser gay em uma ocasião, o namorado dele tinha que ser pelo menos 50% mais gostoso do que ele, caso não fosse, seria inaceitável aquele deus não ficar com uma deusa como euzinha.

Procurei me recompor rápido. Respondi que não faria o trabalho de modelo, pois, a minha mãe não deixava — essa era a minha carta na manga para qualquer coisa que acontecesse que eu não quisesse fazer. Ele foi embora cabisbaixo, e esse foi o segundo garoto que eu rejeitei naquele dia.

Um terceiro que não quero falar sobre, me conseguiu naquele dia. Ficamos juntos por um tempo, mas ele não era o tipo de pessoa boa, era traição atrás de traição, então desisti.

Um feioso e um gay, poderiam ser legais e se tornarem meus amigos, aquele garoto pelo qual me apaixonei por breves dois meses, não. Sabia que o rio não estava para peixe. Na verdade, o rio estava, aquelas águas claras não negavam. Pena que ainda não estava na hora de pescar.

Talvez o problema fosse eu. Quando me mudei para a fazenda, não sabia ser mais do que uma jovem menina mimada da cidade, mas existia algo ali que cidade nenhuma poderia me proporcionar: Belas histórias com ar limpo, um lago que desemboca em um rio e a liberdade de observar tudo que acontece com um belo plano de fundo.

Além da cadeira da minha vó, que era o lugar confortável onde eu aproveitava tudo aquilo que o campo me proporcionava. Era tudo para mim, mas para os outros, pode significar nada.

Assim como o rio e o lago,

a minha vida mudava a cada dia.

Um dia sujo, outro dia limpo.

Às vezes, parecia que eu,

uma garota pura,

guiava a vida mundana vazia e fria,

outras vezes, o mundo que me guiava,

me mostrando que podemos manter peixes em nossos rios da alma,

por mais frios que eles estejam,

aquecerão.

Por mais sujos que possam ficar,

um dia alguém chega e pode limpar,

mas espere a hora certa para pescar em suas próprias águas,

existem muitos peixes que não servem para nada.

Muito menos para amar, isso eu posso confirmar.

Notas finais
Espero que entendam. Nem todo mundo que você conhece pode ser bom para você, mas busque aprender e se apegar as menores coisas, elas nunca te deixam.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!