Pequenas Quedas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A primeira coisa que os olhos castanhos vivenciaram ao abrir-se depois desse tempo foi o branco do teto que se estendia sobre o corpo. Esse teto em nada combinava com as cores chamativas e alegres, bem como não o faziam com a baixa idade da menina.
Ou talvez seja necessário dizer “das meninas”, porque a primeira pessoa que Wendy viu ao seu lado quando acordou não foi Porlyusica.
Foi Sherry.
Imediatamente, suas bochechas coraram, e sem saber como reagir, a azulada balbuciou uma pergunta muda em palavras.
A loira, em compensação, apenas riu de leve com o desconcerto de sua amiga.
— Está tudo bem, Wendy?
A dragon slayer franziu o cenho, colocando a ponta do dedo sobre o queixo, em seguida deslizando com a mão em seu próprio rosto. Não parecia estar enfaixado, com exceção de uma parte acima de sua cabeça, que latejava levemente quando a concentração de seu pensamento ia para a região.
— O que aconteceu? – ela perguntou, lentamente sentando-se sobre a maca que temporariamente lhe pertencia.
Sherry pareceu um pouco preocupada com a pergunta.
— Você não se lembra? – ela apertou os olhos, o que fez Wendy pensar que lhe dava um ar bem mais maduro e curioso, corando ao ver como a levemente maior conseguia parecer bem mais interessante que ela. – Você se machucou, Wendy-chan.
— Eu sei... – ela disse olhando para os lençóis que mantinham a cor insistente do resto do quarto – mas eu não me lembro o que aconteceu... Não consigo lembrar de nada.
A reação da god slayer foi apenas uma risadinha, em animação levemente fingida.
— Desculpe... Apesar de termos a mesma magia, eu não sei nada sobre magias de cura. Não consegui resolver isso, então te trouxe para a doutora da guilda. Ela é um pouquinho esquisita, não? – riu levemente, em uma tentativa um tanto falha de mudar de assunto.
— Não tem problema – sorriu para ela Wendy – minha magia de cura não tem nada a ver com a do ar, e de qualquer forma eu não sei grande coisa. No final, só sirvo para usar o Troia e acalmar o Natsu – suspirou.
— Não é verdade! Você é incrível numa batalha! E se regenera muito rápido, sempre corre para ajudar seus amigos. Aposto que trás uma desvantagem enorme ao inimigo em uma batalha!
— N-não acho que seja assim...
— Mas comigo foi!
Os olhos de Wendy pularam em sua direção em choque, distanciando-se dos lençóis pela primeira vez.
— Hã?
— Porque você é incrível, Wendy-chan! – agora a loira voltava a sorrir, se aproximando levemente dela, os olhos apertados pelos cantos da boca. Era um sorriso sincero, e encabulador, como a maioria das coisas para sua amiga corada.
— A-ah... Isso não foi nada demais.
— Besteira!
— B-bem... – a dragon slayer uniu o útil ao agradável na hora de se afastar do assunto que a embaraçava – mas afinal, o que aconteceu comigo?
— A-ah... Nós estávamos em uma luta... Você acabou levando um golpe, foi feio. Depois disso, toda a guilda parou. Corremos em sua direção, até o Natsu e o Gray pararam de lutar. Você parecia meio atordoada, então me pediram para te trazer aqui. Enquanto eu corria, você acabou desmaiando, mas eu pensei que dormia. Mas agora não lembra... Deve ter sido feio então. – disse tudo isso sem jamais procurar pelos olhos de Wendy, confusamente vagueando pela sala.
Mas, novamente, Wendy não estava reparando, e sim corando.
— Ah... Viu... Eu sou um tanto quanto inútil, no fim das contas.
— Não é verdade! – Sherry deu um tapa sobre a cabeça de Wendy, passando longe de seu machucado. – Foi um acidente! Nada disso é culpa sua! Aconteceu, vamos – pegou em suas mãos, puxando-as para si e assim obrigando a azulada a olhar em seus olhos também azulados – pare com essa depressão! O bom é que não foi algo sério e você está melhor. Se faz tanta questão de ver algo horrível, encare como uma forma de crescer e fortalecer-se um pouco, sim? Aposto que essa pancada deixou sua cabeça mais resistente – riu fraco.
— Ah... É verdade, eu acho – o tom era indeciso, mas seus olhos brilhantes. Ela a estava ajudando! Sherry era com certeza a amiga mais legal que poderia querer. Como poderiam compartilhar tantas coisas e serem tão diferentes?
— Pois eu tenho certeza!
O silêncio sobreveio, e por um instante as duas apenas se olharam. Não percebendo, mas sorrindo. Encaravam-se bem nos olhos, vendo a alegria uma da outra. Sherry apertou um tanto as mãos de Wendy, inclinando a cabeça e apertando os olhos.
E então Porlyusica abriu a porta.
— Francamente, ainda aqui? – resmungou a velha, fazendo a loira corar um pouco e virar-se na direção da médica – Eu te disse, não foi nada grave. Falei que ela acordaria em apenas alguns instantes. Só está um pouco atordoada. Por que vocês sempre se recusam a me ouvir, humanos irritantes?
— Ah, gomenasai! – disse a garota, prestativa. – Eu só queria garantir que Wendy-chan estava bem.
— Foi apenas um tombo – continuou a velha, desinteressada, fazendo um gesto de indiferença com a mão espalmada enquanto virava-se para seu caldeirão, preparando algum remédio – logo ela estará bem.
— Tombo? – se intrometeu o assunto da conversa.
— É, oras – a velha não se virou – você caiu.
— Como assim, eu caí?
— Bem, aparentemente, Sherry tinha vindo visitar você, então você saiu correndo na direção dela como uma perfeita estabanada, gritando. No caminho, tropeçou em algum galho e bateu a cabeça nele. Sinceramente, não sei como é que vocês conseguem ser tão estabanados.
A azulada tornou-se avermelhada de rosto ao ouvir essas palavras.
— Sherry-chan! Você tinha dito que eu estava lutando!
— Ah, isso – um sorriso – eu só queria ver se você realmente não lembrava o que tinha acontecido. Seria engraçado se você voltasse para a Fairy Tail achando que tinha participado de alguma batalha.
— Sua máááá! – ela gritou irritada. Sherry apenas riu e se afastou. – Volte aqui! – mesmo em suas condições, não pode resistir a pular da cama. Com isso, sobreveio um pouco de tontura, mas ela logo estava bem para correr atrás de sua quase gêmea de poderes, gritando em sua direção, enquanto a outra soltava risadas para ela. Rangia os dentes. Como ela era tão rápida?
Sherry ria da perseverança da garota, apesar de ter um pouco de inveja. Como se achava inútil? Desde a primeira batalha, ela nunca desistira. E agora a pirralha corria em sua direção mesmo com a cabeça machucada, gritando para ela. A resistência de Wendy era incrível, afinal de contas.
E a estupidez também, pois ao pular sobre Sherry pela segunda vez ao dia, levou as duas pirralhas a caírem, uma sobre a outra, rindo um pouco, Wendy desferindo alguns poucos tapas em seu rosto.
— Idiota, idiota, idiota!
Ao longe, Porlyusica apenas suspirava e voltava-se para o caldeirão.
— Ao menos não fizeram toda essa bagunça no meu covil, as duas pirralhas... Essas crianças são mesmo feitas uma para a outra, não?
E jogou um pouco de ervas na mistura. Afinal, Makarov não ia parar de enchê-la o saco enquanto ela não curasse a tal dor de cabeça.
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