Notas iniciais
Autora: é segredo!!! x3
Beta Reader: Blietizkrieg
Presente para: Asuka Maxwell, que eu não conheço, mas achei que tem um excelente gosto e espero agradar com esse presente! ^_^
Fandom: Death Note
Par: Near x Mello x Matt
Gênero: Drama/Angst/Fluffy/Shonen-Ai
Observação: Essa fanfic se passa antes da morte do L, na época em Near, Mello e Matt viviam no orfanato. Segundo o volume 13 - DN: How to Read - eles tinham, respectivamente, treze, catorze e catorze anos.

Pequenas Obsessões

Pequenas obsessões. Doces, chocolate, cigarros. Tiques nervosos. Dificuldades comunicativas. Tudo o que os fazia humanos. Havia uma necessidade por essas pequenas coisas, algo que os conectasse ao mundo real, pois de outra forma a mente abstrairia-se para sempre em um universo de porcentagens e probabilidades, especulações sobre casos cuja importância era apenas numérica. As pessoas se tornariam apenas dados em uma planilha, meras peças de xadrez.

Mello sabia o quanto todos ali eram semelhantes, pois haviam sido escolhidos a dedo por Watari, o diretor do orfanato. Ali apenas recebia o incentivo para que desenvolvessem essas características mais arraigadas. Mello suspirou. Queria chocolate. Não conseguia dormir, sentia-se até um pouco irritado com os barulhinhos noturnos que povoavam o orfanato. Grilos, a tubulação enferrujada, dobradiças rangendo, a respiração suave dos meninos adormecidos. Incomodo. Estava sentado em sua cama, joelhos dobrados contra o corpo, braços estendidos. Sentia-se sufocado, morrendo de tédio.

Passou um tempo com os olhos fixos em uma tábua solta sob a cama de um jovem de cabelos avermelhados, chamado Matt. Ele gostava de video-games, falava muito pouco. Tornaram-se amigos porque Mello o havia descoberto fumando escondido. Na verdade, talvez fumo fosse um hábito que a diretoria do orfanato não quisesse para seus jovens alunos, inclusive porque Matt tinha apenas catorze anos. Lembrava de cada detalhe daquele dia.

Surpreendera-se que Matt não havia reagido de qualquer forma a sua aproximação. Apenas baforou fumaça no ar e virou o rosto para não encará-lo. Em resposta, Mello sentou ao lado do rapaz e estendeu a mão, pedindo um cigarro.

"Por que você fez isso?" Matt havia perguntado, a voz baixa, ainda sem olhar para o outro órfão.

"Agora somos cúmplices." Mello respondeu àquela pergunta de maneira sincera, fazendo sinal que precisava de fogo. Detestava o sabor do alcatrão. Teria que devorar algumas barras de chocolate para compensar aquele gosto horrível.

Depois de firmado uma espécie de pacto entre eles, Matt havia mostrado ao outro garoto onde escondia seu hábito compulsivo. Uma tábua solta sob sua cama no dormitório dos rapazes. Passou também a chamá-lo para assistir enquanto jogava em um console portátil. Matt não era um grande especialista em interação social, afinal.

– Você está acordado. – alguém disse, obrigando Mello a abandonar o estado contemplativo. Near estava parado a pouca distância da cama do garoto de cabelos loiros.

– Não é óbvio? – Mello retrucou, mal disfarçando o tom de desprezo. Desgostava mais de Near a cada vez que falavam-se. Achava-o irritante, devido ao seu modo infantil, sempre vestindo aquele pijama branco e por ser um grande presunçoso. Embora tivesse apenas treze anos, era um prodígio e o primeiro na linha de sucessão do detetive L, o que acentuava ainda mais sua arrogância. Além disso, sabia o quanto Near podia ser traiçoeiro e malicioso, induzindo seu adversário a cometer erros e o irritando com provocações.

– O que há na tábua solta sob a cama de Matt? – Near tornou a perguntar, estreitando os olhos e ignorando completamente o tom sarcástico de Mello.

Mello fez uma careta para o colega. Não iria responder a essa pergunta.

– Você estava olhando para lá e parecia estar refletindo sobre algo.

– Vá dormir, Nate. – Mello respondeu, sabendo que isso atacaria a aura impassível de Near. Dava-se grande importância para a adoção de codinomes no orfanato.

– Você sabe que não deve usar meu nome verdadeiro.

– Não aja como se você já fosse sucessor do L. – Mello respondeu, prontamente. Havia esticado as pernas e agora estava amassando o travesseiro em um sinal que pretendia deitar-se. – Ele está lá fora e pode ser que nossa ajuda nunca seja necessária.

Mello atirou-se contra o travesseiro e puxou a coberta até as orelhas. Achou que Near havia dito algo como "entendo" e ouviu o som dos passos dele se distanciarem. Fechou os olhos, procurou uma posição confortável. Queria chocolate e estava sentindo muito tédio.

– Já pensou em deixar o orfanato? – Mello perguntou de repente para Matt. Estavam sentados lado a lado em um banco de madeira localizado em um ponto mais reservado do bonito jardim da mansão de Watari. Matt demorou um pouco de tempo para registrar a pergunta e desviar os olhos amendoados do video-game em suas mãos.

– Você diz... ir embora? – Matt falou, fechando a tampa do joguinho. Parecia ter considerado a pergunta. Pescou um cigarro de dentro do bolso da calça e o colocou na boca. – Não sei... Eu penso nisso, mas... Não sei.

– L está demorando para resolver esse caso do Kira. – Mello insistiu – Ele nunca demora assim. Nós devemos fazer alguma coisa.

– Sem as ordens de Watari? – Matt retrucou, tornando a abrir o joguinho depois de apagar o cigarro fumado pela metade no banco e arremessá-lo dentro de um arbusto de hortênsias onde jamais seria encontrado. – Como poderíamos fazer alguma coisa? Não temos nenhum tipo de informação sobre as investigações, além de mera especulação.

A verdade é que Mello conhecia Matt o suficiente para afirmar que ele não se interessava pessoalmente pelo caso. Na verdade, ele se interessava por pouca coisa além de sua obsessão por tecnologia. Por isso que, apesar de ser indiscutivelmente inteligente e capaz de resolver um caso difícil se fosse incentivado a isso, estava atrás de Near e Mello na "linha de sucessão".

– Near nunca deixará que tomemos o lugar dele. – Mello falou, sem saber ao certo se o amigo ainda estava prestando atenção no que dizia.

A despeito da musiquinha monofônica produzida pelo gameboy, Mello ouviu uma bonita música de piano escapar de uma das janelas da enorme mansão e espalhar-se pelo quintal. Sabia que havia uma garota no orfanato que era uma exímia pianista, sem dúvidas deveria ser ela que estava tocando. Não havia ninguém ali naquele orfanato que não tivesse alguma grande habilidade, talento ou inteligência. Ainda assim, Mello fora capaz de superar a todos, até mesmo Matt ali ao lado. Restava apenas Near. Era tão estranho observar que o garoto de quem costumava ser um bom amigo desde a tenra infância havia se tornado um competidor e um obstáculo para que Mello pudesse deixar o orfanato como um grande detetive.

– E ele não precisa realmente sair daqui. O que ele teria para fazer lá fora? – disse em voz alta, mal conseguindo esconder sua frustração.

Sem maior explicação, teve seu discurso interrompido por uma atitude inesperada e surpreendentemente empática por parte de Matt. Ele havia deitado no banco e resolvera usar o colo de Mello como apoio para a cabeça. Isso tudo sem distrair-se um minuto sequer do jogo.

"Esquece aquele babaca." ouviu Matt murmurar. "Você é melhor que ele."

Mello tentou a todo custo seguir o conselho do amigo, mas era muito difícil ignorar Near com seus brinquedos e quebra-cabeças complicados. Watari não aparecia no orfanato fazia alguns meses, pois tinha viajado para o exterior para ajudar L Em ocasiões como essa, o diretor comunicava-se com os órfãos através de um notebook — da mesma maneira que o próprio L costumava fazer, quando desejava conhecer aqueles que poderiam ocupar seu lugar. O velho diretor sempre pedia também um tempo a mais com Near e Mello, os dois melhores estudantes, os questionando sobre seus últimos feitos e desempenho escolar.

"Oh, Mello tem feito pouca coisa ultimamente."

"Você precisa controlar sua ansiedade, rapaz!"

"Muito bem, Near. Sempre sem falhas, perfeito."

Era um grande esforço conter a vontade de destruir aquele quebra-cabeças de peças monocromáticas que Near havia montado durante a audiência com Watari. Queria pisar nas peças, amassá-las e atirá-las contra a expressão fria de Near. Ele sequer parecia contente em receber elogios!

Mello pegou uma barra de chocolate que Ruvie* havia deixado sobre a escrivaninha e rasgou a embalagem de qualquer jeito. Mordeu um pedaço, o som do chocolate maciço partindo-se era quase um deleite. Quase sentia a calma renovada quando o sabor artificialmente produzido espalhou pelo interior de sua boca. Sem despedir-se de Watari e ignorando Near por completo, partiu do escritório administrativo o mais depressa que pode.

Alguns anos atrás, ele e Near eram quase como irmãos. Muito jovens, ambos demonstraram capacidade que deixava para trás até mesmo as demais crianças de Wammy's House. Suas notas, prêmios e descobertas eram sempre comparáveis e pares, igualmente superiores. Havia dias que acabavam dormindo na mesma cama, debruçados sobre um livro de química avançada. Mello engoliu o pedaço mal mastigado de chocolate. Até que Near fora se tornando um malicioso colecionador de resultados. Mello sabia que era tão bom quanto ele, mas por uma pequena fração de diferença que havia surgido entre os dois, Watari já mostrava preferência por apenas um deles. Mello acreditava que cada vez mais não haveria espaço para si.

– Dia ruim? – Matt perguntou, quando Mello lançou o corpo ao seu lado, em um sofá da sala de música, vazia naquele horário. O som de um objeto sendo arremessado cortou o ar e o papel amassado da embalagem de chocolate acertou em cheio uma lixeira em um canto do espaçoso cômodo. Através dos janelões envidraçados, entrava a luz fraca do luar.

– Uma merda. – Mello respondeu. Não lembrava onde havia aprendido palavrões. Sabia que Watari não gostava que usassem esse tipo de palavra e elas nunca eram ditas ou consideradas necessárias nas simulações de investigação que realizavam. Esticou os braços no encosto do sofá e deixou a cabeça pender para trás.

Ouviu um "clique" e o ambiente ficou um pouco mais escuro, pois Matt havia desligado o gameboy. Sentiu um arrepio percorrer a espinha quando algo macio encostou em seu pescoço. Foi um beijo rápido e estalado, Matt recuou ao mesmo tempo em que Mello levantou depressa, os olhos muito abertos e cheios de surpresa.

Para Mello, a ideia de carinho era um pouco estranha, assim como devia ser para a maioria dos órfãos. Muitos nunca tiveram uma família, outros vieram de lares problemáticos. Não era costumeiro para a maioria das crianças e adolescentes que viviam ali receber abraços e beijos. Claro que assistiam a filmes e liam livros, então muitos eram levados a crer que a ausência de família era uma falta terrível. Isso era compensado de várias maneiras, seja escolhendo uma atitude solitária e retraída ou apegando-se excessivamente aos amigos. Com frequência, aconteciam incidentes dos mais diversos: beijos roubados, relacionamentos complicados com colegas do mesmo sexo e, em alguns poucos casos, arroubos depressivos. Os jovens inteligentes não eram imunes às dificuldades emocionais, afinal. Mello enquadrava-se em uma categoria de gente que, a todo custo, procurava não se importar. Diria que o orfanato era sua casa e gostava muito daquele lugar quando ele e Near eram como irmãos. Agora, porém, via crescer diariamente sua indiferença pelo lugar que aprendera a chamar de lar.

Os olhos de Matt estavam pregados no chão e ele parecia envergonhado e arrependido do que havia feito. Mello percebeu que ele não conseguiria decidir o que dizer ou fazer. Dessa forma, necessitado daquela atenção, de alguém que o admirasse e inegavelmente agradecido pelo carinho do amigo, curvou-se e beijou Matt nos lábios.

Não era a primeira vez que fazia isso. Já havia ganho um beijo recatado sob o visgo como presente de Natal de uma garota cujo nome não havia permanecido em sua memória. Claro que o esquecimento devia-se ao fato de que nomes possuíam pouca importância em Wammy's House. De qualquer jeito, nunca havia beijado da maneira que ele e Matt estavam fazendo. Com as bocas coladas por tanto tempo e se movendo. Os lábios abrindo e as línguas se tocando. Deviam estar trocando um monte de bactérias, com toda aquela saliva. Cigarros e chocolate. Aquele gosto desgraçado de tabaco e o doce açúcarado do chocolate. Ficava amargo, muito amargo. E gostoso. Quente. Viciante.

– Ai...! — Matt murmurou. Mello havia mordido os lábios dele. Precisava sentir a textura. Oh, Deus! – Mello acreditava muito em Deus naquela época – Os lábios haviam sido criados para que fossem mordidos. Mordeu de novo. Nem havia questionado-se que Matt era um garoto, isso não tinha importância. Isso era bobagem, detalhe. Ele fazia um som gostoso cada vez que tinha os lábios mordidos e Mello precisava de mais para entender o que estava sentindo. "Excitação sexual". Ele sabia o que era, óbvio, mas não "sabia". Estava aprendendo naquele momento. E como o cabelo ruivo dele era macio!

Matt interrompeu o beijo, murmurou que precisava respirar. Não tirou a mão de Mello apoiada em sua nuca, agarrando o cabelo vermelho. Trocaram olhares. Em algum momento, houve um acordo que ninguém deveria saber daquilo. Matt recolheu o gameboy e foi embora, deixando Mello no sofá, sentado daquela forma espaçosa que tornaria-se tão característica.

Naquela noite, dormiram juntos. Na verdade, Matt havia aproximado-se sorrateiramente do leito do jovem de cabelos loiros quando Mello chegou ao dormitório. A principio, não achou uma boa ideia.

"Estamos velhos para isso, as pessoas vão notar..." tentou argumentar, mas a verdade é que estava com muita vontade de passar a noite acompanhado. Disfarçaram o ímpeto de simplesmente abraçarem-se quando o dormitório começou a encher de garotos. Matt sentou sobre a cama do amigo e ligou o joguinho. Mello fingiu que estava prestando atenção, embora seu olhar convergisse todo instante na direção de Near, que por sua vez encenava muito bem o despeito, sequer olhando para os outros dois.

Não demorou muito para que Mello sentisse sono de verdade. Virou para o lado e deitou, como se não fosse importante que Matt ainda estivesse ali. Logo as luzes do dormitório apagaram e alguém mandou que Matt parasse de jogar, pois o som de seus dedos batendo nos pequenos botões eram um barulho intolerável. Mello esboçou um meio sorriso satisfeito quando sentiu o colchão afundando um pouco e, em seguida, o calor confortável das costas de Matt contra as suas. Deram as mãos por baixo das cobertas. Mello adormeceu logo, achando que os próximos dias seriam muito interessantes.

"Ninguém pode saber." Ainda que fossem descuidados e fingissem adormecer sem querer na cama um do outro, Mello repetia a si mesmo essa espécie de mantra com quase a mesma obsessão que devorava chocolate e desejava vencer Near. Pensava nessas palavras cada vez que apertava Matt contra um canto escuro e mordia com força a pele tenra dele. Prensava os braços dele e escorava-se no corpo esguio do jovem. Como se quisesse obrigá-lo a ficar imóvel, para que não houvesse a menor chance dele fugir. Não que Matt pretendesse algo do gênero. Ele obedecia serenamente aos beijos exigentes, deixando escapar suspiros rendidos às carícias que estava recebendo. Embora jamais fizesse qualquer comentário sobre isso, estava claro para Mello que o outro órfão gostava muito daquele "jogo".

Em outros momentos, era um grande calmaria. Matt achegava-se em silêncio e deitava a cabeça no colo de Mello e ficava lá por horas, recebendo carinho no cabelo enquanto jogava. Mello sabia o quanto era estranho e ainda assim, surpreendia-se que os demais órfãos não haviam mudado em nada sua atitude para com eles e sequer pareciam cientes de que cada vez mais marcas arroxeadas tornavam-se presentes nos ombros e pescoço de Matt.

Havia uma pessoa que Mello logo entendeu que estava muito consciente do que se passava entre os dois amigos. Near. Ele os encarava deliberadamente, sério e sem piscar. Era quase possível ler sua mente. "Ele sabe." E Mello tinha certeza de que Near não gostava de vê-lo tornando-se tão íntimo de outra pessoa, uma vitória que ele não poderia rivalizar.

Mello sorriu para Near e abraçou Matt sem o menor pudor. Estavam sentados lado a lado em um dos bancos do jardim. Near estava a poucos metros dali, os olhos quase escondidos pelos cachos claros.

– Ele está se sentindo provocado. – Matt murmurou, como se isso tivesse pouca importância, quando Mello apertou o rosto contra seu pescoço.

– Eu sei. – Mello respondeu, sorrindo ainda mais contra a pele de Matt, ao notar um rubor rosado surgir no rosto pálido de Near e ele se afastar, parecendo um pouco derrotado.

Não que estivesse usando Matt para provocar Near deliberadamente. Não o tempo todo, para ser mais honesto. Via essa atitude mais como uma compensação. Sentia um grande interesse por Matt e apreciava muito sua companhia silenciosa e um pouco distante. Gostava muito que ele não reclamasse de nada e estivesse satisfeito em deixar-se ser abraçado, beijado e mordido.

– Eu me importo com você. – Matt murmurou um dia, entre um cigarro e outro.

Mello respondeu com uma breve exclamação de satisfação e o agradeceu com mais beijos.

Os resultados de Near decaíram alguns milésimos. Quase nada, mas o suficiente para uma pequena mácula em sua busca por perfeição. Mello passou por ele, pouco disfarçando um riso zombeteiro e a sensação de triunfo ao ver o garoto derrubar uma por uma as peças de xadrez enfileiradas em uma mesa. Era divertido vê-lo frustrado por tão pouco.

Naquela noite, para a grande satisfação de Mello, Near passou em frente à sala de música justamente quando ele e Matt estavam lá, ocupando o confortável sofá próximo às janelas. Não conteve-se em agarrar Matt da maneira mais possessiva que era capaz. Procurou o corpo dele por baixo da camisa listrada e o trouxe tão para perto, que podia sentir a intimidade dele contra a sua própria, algo que causava arrepios e fazia necessitar que a proximidade não terminasse nunca. Quando olhou novamente para a porta, Near não estava mais lá, mas tinha certeza que ele havia visto o suficiente.

– Amo você. – Mello disse para Matt enroscado em seus braços, sabendo que não faria diferença que isto não significasse muita coisa.

Enfileirados nas mesinhas da biblioteca, os jovens dedicavam-se a estudos avançados em suas áreas de destaque. Mello estava quase terminando uma série de exercícios envolvendo o cálculo de funções diferenciais. Na verdade achava aquilo bastante tedioso, mas gostava muito da boa impressão que causava ao mostrar sua habilidade matemática. Ouviu uma cadeira mover-se ao seu lado e um pequeno sorriso malvado brincou em seus lábios. Pensou na brincadeira divertida que era roçar bem devagar os pés descalços entre os tornozelos de Matt. Porém, para seu desapontamento, descobriu que era Near que havia sentado ao seu lado.

Em silêncio, Near abriu uma cópia do mesmo livro de cálculos com o qual Mello estava trabalhando. Estava pela metade de um exercício a mais que o outro. Mello engoliu em seco. Encarou Near, que por sua vez respondeu com um olhar gélido.

– Eu e você podemos, juntos, superar L. – Near disse, por fim. Sempre falava muito baixo, em um tom cadenciado e sem emoção, mas Mello teve a impressão que havia captado algo um pouco diferente na forma que o outro órfão havia se expressado.

Ainda assim, retrucou com um suspiro desinteressado. Curvou-se sobre a página quadriculada cheia de pequenos números e começou a preenche-la, deixando claro que sua intenção era alcançar Near.

Podia sentir o calor e a raiva emanando do garoto mais jovem. Ele havia sacado um lápis e agora estava escrevendo depressa e com tanta força que era possível ouvir o som do grafite apertado contra o papel.

Mello beliscou os próprios lábios com os dentes até sentir o gosto férreo de sangue. Com o canto dos olhos, viu que uma das mãos de Near estava enroscada nos anéis quase brancos do próprio cabelo, enquanto a outra mão desenhava pequenos algarismos incansavelmente.

Repreendeu-se por estar perdendo tempo. Near parecia ter esquecido completamente dele. Respirou fundo e começou a trabalhar nas expressões numa velocidade tão impressionante quanto a do colega.

Como o estalar de dedos de um mágico, Mello despertou do transe auto-induzido pelos cálculos quando o lápis que Near estava usando rolou pelo chão e parou perto da porta da biblioteca. Near havia terminado. Ele havia terminado primeiro e, sem dúvidas, com correção total. Mello abriu a boca, sentindo um grito reprimido formar-se nas cordas vocais.

Para sua surpresa, Near saltou da cadeira onde estava empoleirado daquele jeito estranho e abraçou Mello o mais apertado que era capaz. Mello sentiu a vontade de gritar morrer e ser substituída por um soluço frustrado e cheio de rancor. Empurrou Near e foi embora, deixando em branco a resposta da última expressão, apenas a dois algarismos de um empate.

Encontrou Matt atrás do campanário que havia no orfanato. Ele estava encostado na parede de madeira, terminando um cigarro e olhando para além dos muros verdes de maneira contemplativa. Sem aludir sua presença, Mello simplesmente tirou o cigarro das mãos de Matt e jogou a bituca no chão, apagando-a com uma pisada.

Matt não disse nada e ainda que pretendesse dizer, isso não foi possível, porque Mello o prensou com força contra a parede e o beijou da maneira mais obscena que já haviam feito. Mordeu os lábios dele até fazer um pequeno corte, igual ao que havia feito em si mesmo.

– Eu nunca, nunca vou fazer o mesmo com você. – murmurou no ouvido de Matt – Nunca seremos concorrentes, você promete que nunca vai querer me vencer?

Respirava pesadamente contra o pescoço de Matt, consciente de que ele perceberia as lágrimas fugindo de seus olhos.

“Eu prometo.” As palavras de Matt, sussurradas enquanto secava as lágrimas do amigo, ficariam guardadas para sempre como a melhor coisa que Mello já havia ouvido. Quase sentia-se menos mal por ter perdido novamente. Odiava que Near houvesse transformado a relação dos dois numa competição. Por que ele fazia questão de ser melhor em tudo? Mello sentia-se quase estúpido em culpar Near por algo que, talvez, ele mesmo havia causado. De qualquer forma, entendia o quanto Near queria ser L, apenas ele, sem dividir o papel com nenhum outro, ainda mais um que não fosse tão bom quanto ele. Destacar-se não era o suficiente. Era necessário que fosse o melhor.

De repente parecia que talvez fosse uma boa ideia convencer Matt a acompanhá-lo em uma eventual fuga do orfanato.

Passou a evitar Near. Se competir era tudo o que ele queria, não daria mais esse gosto ao órfão. Também não queria mais causar ciúmes, exibindo seu relacionamento com Matt. Procurou de toda forma conformar-se que não seria escolhido, ainda que isso causasse muita ira e frustração. Tentava distrair-se com problemas de lógicas complicados e todo o carinho que podia conceder a Matt. Estava muito arrependido com a falta de cuidado que o havia tratado a poucos dias atrás e queria compensar isso agindo da maneira mais gentil que fosse capaz.

Fazia frio na noite nublada em que ouviu uma voz muito baixa o chamando de uma sala escura e aparentemente vazia. Encontrou Near e ele estava sozinho, ao lado de um enorme castelo de cartas erguendo-se do chão até quase a altura da cintura dos jovens. Mello observou Near destruir o castelo com a ponta do dedo, um leve toque para que todas as cartas cascateassem pelo chão.

– Você nunca mais jogou xadrez comigo. – Near disse, enrolando os dedos de forma desajeitada no cabelo muito claro. Estava olhando para baixo. Todos eles tinha o mesmo problema, a incapacidade de olhar nos rostos das outras pessoas. Perdidos em si mesmos, eles eram. Egoístas. De qualquer forma, Mello descartou logo a resposta mais óbvia – que Near sempre vencia as partidas – em troca de algo mais atípico e, sabia bem, desnecessariamente hostil:

– O que? Não me diga que está com ciúmes?

Near soltou a mecha de cabelo entre os dedos e deixou os braços penderem. Não disse nada.

– Não. – ele respondeu, seu olhos indo buscar um ponto distante na parede decorada.

Mello sentiu uma onda de raiva. Não era possível que ele fosse tão incapaz de dizer o que estava pensando, uma vez que o havia chamado. Mal contendo o impulso, agarrou Near pelos ombros e pressionou bruscamente os lábios contra a boca do garoto menor.

– Era isso que você queria, não era, Nate? – provocou.

Near afastou-se, seus olhos revelando choque e as mãos cobrindo a boca. Como se tivesse medo de Mello, fugiu depressa, deixando-o sozinho no salão escuro.

– Mello, Ruvie disse que quer falar com você. – Linda, a melhor desenhista do orfanato, avisou o colega quando cruzaram-se pelo corredor entre a sala de TV e os dormitórios. A garota desapareceu em seguida, cantarolando consigo mesma. Mello engoliu em seco. Será que Near havia dito alguma coisa? Não era do feitio dele ter esse tipo de atitude. Ele era sempre pouco comunicativo, mesmo que estivesse doente ou aflito por algo. Lembrava muito bem de uma vez, quando tinha pouco mais de sete anos, em que descobrira o garoto quase morrendo por causa de uma febre. Por tudo isso, não podia acreditar que Near tivesse ido queixar-se para Ruvie.

Sentiu medo. Talvez não tanto medo quanto acreditava ter causado a Near a poucos momentos atrás, mas tinha consciência que havia cometido um ato de violência ao beijá-lo a força. Sentiu um afluxo de impulsos nervosos cruzarem sua espinha ao pensar nisso. Era sempre uma sensação interessante esse pequenos flertes com violência. Naquele dia, em que estava com a boca cortada e cheio de rancor, havia quase derretido ao sentir o sangue de Matt misturar-se ao seu. Lutou contra um novo arrepio. Estava errado, sabia. Não podia agir assim. Havia recebido algum treino de controle emocional, não o treino ideal, porque ele nunca aprenderia a lidar com nada daquilo, mas trancar a vontade inexplicável de cometer algum mal, ele estava aprendendo. Não sabia o que faria quando não fosse mais possível conter-se.

Considerou o que faria se fosse expulso do orfanato e concluiu que isso não seria tão ruim assim, pois estava certo de que Matt o acompanharia. Com tal pensamento em mente, dirigiu-se ao escritório do vice-diretor.

Uma fotografia, apenas isso. Mello estava segurando a foto tirada com uma máquina polaroide. Fotos dos órfãos, sabe-se lá o porquê. Haviam arquivos, havia alguns documentos requeridos pelo governo britânico. Essas coisas. Watari costumava ser discreto ao máximo, porque resguardar as identidades dos futuros detetives era importante, mas se algum dia um deles quisesse se tornar um cidadão comum – ou o que fosse mais perto de “comum” sendo como eles eram – havia em algum lugar um acervo que permitiria tal transição. Talvez não para Near ou Mello. Até mesmo Matt. Watari certamente já devia ter garantido que eles se tornassem nomes sem face ou qualquer tipo de identificação. Peças de xadrez bem polidas esperando a hora de mover-se. É que Ruvie era descuidado e se estivesse escrito “tirar fotos de TODOS” em sua agenda, assim ele faria.

Mello jogou a foto dentro da gaveta do criado-mudo ao lado de sua cama. Ficou algum tempo sentado, contemplando o móvel de madeira com uma expressão desanimada. Nem tinha vontade de esticar o braço para pegar a barra de chocolate que havia guardado ali. Talvez a foto fosse um recado para que não se preocupasse mais. “Sua identidade não precisa mais ser assegurada, você não será mais o sucessor do grande detetive L”.

– Aconteceu alguma coisa? – Matt perguntou, mais uma vez. Devia estar preocupado, porque sempre aceitava tudo que Mello fazia e silêncio era parte de sua personalidade.

– Não. – Mello mentiu, da mesma maneira que havia feito ao ser questionado anteriormente. Acompanhava os movimentos de Near, que havia acabado de passar por eles, carregando algum brinquedo de montar. Nada havia sido dito entre os dois após aquele incidente há pouco tempo atrás. No dia seguinte, quase morto de arrependimento pelo que havia feito e sentido-se culpado por usar uma estupidez como “eu gosto de violência” para justificar-se, tentou se aproximar de Near com um tabuleiro de xadrez e os modos mais convidativos e fraternais que conseguiu encenar. Porém, havia sido rejeitado.

– Se você continuar mentindo, não vou poder fazer nada para te ajudar. – Matt disse.

Mello riu. Desconhecia esse lado manhoso de Matt. Ele nunca precisava perguntar para saber o que havia acontecido, era óbvio, de qualquer forma. O fato é que Matt queria uma confissão dos sentimentos de Mello. Visto que havia um pacto entre os dois e Matt raramente fazia cobranças de sua parte, atender à curiosidade insistente era até bastante justo.

– Eu não vou substituir o L. Não posso, não sou capaz. – Mello comentou trivialmente, ainda que a dor fosse imensurável.

– Ah! – Matt exclamou, não deixando claro se isso representava surpresa ou se havia acabado de pensar em algo, porque deu um beijo estalado na têmpora de Mello e o deixou sozinho.

“Ótimo. Quem ia querer a companhia de um perdedor que nem eu?” Mello não pode evitar de pensar, enquanto assistia o ruivo afastar-se.

Mello encostou-se na pilha de travesseiros sobre a cama e procurou distrair-se com a vista dos jardins através da janela. Sentia-se solitário, por quase dois dias não havia conversado com ninguém. Esticou as pernas e puxou o livro de cálculo avançado mais próximo, mas não queria realmente estudar. Mal havia passado da segunda página, percebeu que Near havia aproximado-se. Trazia uma miniatura colecionável, mais uma desses hábitos esquisitos comuns aos jovens daquele orfanato. Sem dizer nada, ele deitou sobre o colo de Mello, como se nada demais tivesse acontecido entre os jovens. Pouco tempo depois, Matt entrou do dormitório e sentou na borda da cama. Após trocar um breve olhar com Mello, encostou-se nas pernas dobradas deste e ligou o joguinho.

– Nós, eu e Near, conversamos sobre você. – Matt disse, os olhos ainda fixos no gameboy em suas mãos.

– Ah é? – Mello respondeu, fingindo desinteresse. Não parecia bom sinal que Matt e Near conversassem às ocultas sobre ele.

– Nós discutimos suas opções. – Near completou, deixando o avião cair e virando o corpo para cima, como se quisesse olhar algo no teto.

– Que opções? – Mello perguntou, a tensão crescente quando Matt largou o gameboy e deitou à sua esquerda. Em seguida, Near também desistiu da posição inicial, indo ocupar o lado direito de Mello, que sentiu-se espremido na cama de solteiro.

– Alguém pode aparecer... – murmurou, fechando os olhos ao primeiro sinal de carinho por parte dos outros dois.

"Quem se importa?" respondeu por eles. Um deles havia alcançado o chocolate guardado sobre o criado-mudo. Ouviu um leve "plec" e então um pedaço do doce foi posto em sua boca. Podia sentir a respiração suave dos outros dois, carícias ao longo do braço e mãos atrevidas entrando por baixo da camiseta preta que estava vestindo. Lábios pequenos deixaram um beijo suave em seu pescoço.

Ainda eram adolescentes, pequenas caricias eram como sexo. Achou que iria morrer se Matt e Near continuassem o beijando e tocando daquela forma, como se quisessem que ele escolhesse o melhor. Não podia estar certo, jamais poderia imaginá-los competindo, pois Near não admitia concorrentes e Matt simplesmente não se importava com isso. Tentou concentrar-se apenas nos gestos e toques dos dois garotos.

Near era desajeitado por falta de experiência, mas tinha um toque delicado, remetia à forma cuidadosa como empilhava pequenos objetos ou montava castelos de cartas. Matt era preciso, tinha as mãos habilidosas do incrível jogador de video-games que era e beijava Mello da mesma maneira possessiva com a qual havia acostumado a ser beijado.

Mello tinha que admitir que sentia sua moral muito alta diante da forma que Near e Matt haviam decidido disputá-lo. Aproveitava-se disso, agarrava um e depois o outro, mordendo-lhes os lábios da forma que mais o agradava. Era particularmente delicioso ver Near, sempre tão fleumático, quase ronronar ao ser abraçado e apertado. Os lábios quase invisíveis dele ganhavam um tom sanguíneo que contrastava fortemente com a pele muito branca. Matt, pelo contrário, parecia ainda mais blasé enquanto afastava o cabelo de Mello para que pudesse mordiscar a orelha do rapaz. Ele reagia a cada suspiro de Mello, aconchegando-se mais e o abraçando tão forte que quase deixava-o sem ar. Pernas entrelaçadas, ereções mal disfarçadas sob as roupas. Não era o único que estava gostando daquilo.

Mello sabia que em breve seria obrigado a escolher um deles, mas queria retardar ao máximo essa decisão. Principalmente agora que podia ter os dois.

Em algum momento, adormeceu enroscado entre seus jovens amantes.

“Matt?” chamou baixinho. Não houve resposta. Sentiu um corpo menor aninhado ao seu. Tratava-se de Near e ele estava profundamente adormecido. Remetia à figura de um querubim adornando os vitrais de uma catedral. Porém, Mello não permitiu-se distrair com a presença do outro garoto. Tinha certeza que havia adormecido entre os dois órfãos e Matt não estava mais lá.

Olhou a redor, a cama que pertencera ao ruivo estava desocupada e não estavam lá os pertences pessoais que costumavam ficar sobre a mesinha de cabeceira. Mello levantou e foi direto até a tábua solta sob o leito de Matt. Cigarros e fósforos haviam desaparecido. Matt havia levado também o pouco dinheiro que haviam subtraído da gaveta de Roger Ruvie, carta vez em que o homem esquecera de trancá-la. Mello riu brevemente dos segredos e pequenos crimes que compartilharam pelo pouco de tempo em que estiveram juntos.

Deixou escapar um suspiro pesaroso. Seus olhos voltaram-se para a figura pálida e adormecida que era Near. Lentamente, Mello retornou para a própria cama e tornou a deitar junto de Near, apertando-o entre seus braços, para que ele ficasse o mais próximo possível de si.

Os outros adolescentes conversavam em voz baixa entre si, mas Mello era capaz de entreouvir os comentários abafados. “É, foi embora. Fugiu.” Sempre que alguém abandonava o orfanato era uma grande comoção. Muitos ali havia conhecido à vida nas ruas e a insegurança de não ter um prato de comida quentinha e um lugar confortável e seguro para dormir, então estranhavam aqueles que decidiam abandonar um ambiente tão bom. Ainda que houvesse algum traço de saudades pela liberdade de fazer tudo conforme o próprio julgamento, não era uma escolha racional quando aquele orfanato em especial oferecia uma estadia tão cômoda. Era um lugar maravilhoso, nem de longe lembrava orfanatos comuns, de onde muitos ali haviam sido resgatados e onde haviam conhecido apenas dor e abuso. Dessa forma, a atitude de Matt era encarada quase como incompreensível.

Ruvie chamou policiais e procurou fornecer toda informação que pudesse para que re-encontrassem Matt. Mello não podia evitar de achar engraçado, pois sabia que Matt, ainda que jovem, havia recebido treinamento suficiente para não ser encontrado por policiais comuns se assim quisesse. Sem falar que, por mais esforço que Ruvie tivesse em auxiliar a busca, os dados pessoais dos jovens eram altamente confidenciais e não podiam ser abertos sem expressa autorização de Watari.

Mello resignou-se em ansiar por alguma notícia sobre o paradeiro do amigo. De onde estava, não possuía recurso algum para rastreá-lo. Restava-lhe contar com uma tímida esperança de que Matt deixasse alguma pista para quando quisesse revê-lo.

Procurou consolar-se com Near. Por algum tempo, pareceu que haviam voltado àquela época inocente, em que partilhavam um amor quase fraternal. Não que Mello desejasse mais esse passado. Queria que algumas coisas voltassem a ser como eram, porém não podia fingir que seus sentimentos por Near fossem repletos de sutilezas que os tornavam qualquer coisa, menos fraternais. Embora Near tivesse uma atitude arredia, como se deixar-se levar pela trivialidade arrebatadora de toques e beijos fosse distraí-lo de sua busca por perfeição, permitia que Mello o prensasse contra a parede de um corredor solitário ou mordesse a pele muito branca em lugares onde as marcas resultantes ficariam muito bem escondidas do olhar de terceiros.

O que mais agradava a Mello, porém, era que Near não falou mais uma palavra sobre competições ou qual deles seria mais apto em dar continuidade ao maior detetive do mundo.

Seguiram dessa forma por quase duas semanas.

– Insisto que se nos unirmos, poderemos ser melhores que o L. – Near interrompeu o longo silêncio entre ele e Mello. Era comum que passassem horas sem dizer nada um ao outro, apenas aproveitando a companhia mútua.

– Você acha? – Mello disse, algo entre ceticismo e sarcasmo em seu tom de voz.

– Sim. – Near respondeu, sério. – Ainda mais agora que você não está mais perdendo tempo com pessoas inferiores.

No mesmo instante, Mello pôs-se de pé e, trêmulo de fúria, encarou o garoto mais jovem. Near fugiu do contado visual, baixando a cabeça e escondendo-se atrás do braço que havia movido-se quase automaticamente em busca do tique de enrolar os cachos de cabelo nos dedos.

– Não fale assim sobre Matt! – Mello repreendeu-o. Sentiu as unhas machucando a palma quando cerrou os punhos. Mal conseguia controlar a vontade irrefreável de socar o garoto em sua frente. – Ele nem está mais aqui!

– Ele foi embora... – Near falou, ainda sem olhar para Mello – ...porque sabia que nunca seria tão bom quanto você. Ele sabia que estava te atrapalhando, Mello. Você, que poderia ser alguém mais próximo do que eu sou... Estava apenas equiparando-se a algo relés como ele.

– Não ouse... – Mello respondeu, bastante alterado.

– Ruvie quer falar com vocês! Na sala dele, agora! – um garotinho havia surgido diante dos dois, gritou o recado e correu dali, assustado com a briga entre os adolescentes.


L estava morto.

A primeira reação de Mello foi o ceticismo. Não podia ser verdade. L era invencível, sempre imaginou que seriam chamados quando o detetive resolvesse se aposentar ou algo assim. Então deu-se conta como isso era tolo, que aquela era uma profissão de futuros mortos em combate.

Olhou do vice-diretor a Near. Não havia sequer tempo para digerir aquelas mortes. No plural, sim, porque o velho diretor Watari havia sido morto também e Mello não sabia como reagir a isso. Uma onda de fúria atravessou seu corpo. Maldito, maldito Kira. Desejava com todas suas forças vingar-se daquele assassino desgraçado. Não conformava-se com a frieza de Near, remontando o velho quebra-cabeça todo branco, adornado apenas por uma única letra no canto direito superior.

– Qual de nós irá substituir o L? – Mello perguntou, antes que pudesse conter as palavras.

– Receio que ele não te-teve tempo de escolher um de vocês. – Ruvie respondeu. Por alguns instantes, ele pareceu perdido e desconsolado, então uma ideia pareceu iluminar a face envelhecida – Por que vocês dois não trabalham juntos?

Ruvie insistiu na pergunta.

– Por mim, tudo bem. – Near disse, seu tom de voz carregado de indiferença.

– Mello?

– Eu não vou trabalhar com Near. – Mello respondeu, amargo. – E estou indo embora.

– O que? Mas, por que? – Roger Ruvie disse, confuso com a reação do jovem.

Sem dignar-se a oferecer qualquer explicação, Mello deixou o escritório de Ruvie. Antes que pudesse dar-se conta do que fazia, estava diante do grande portão do orfanato. Não olhou para trás ao atravessá-lo.

“Near, eu vou ganhar de você. Vou provar que você está errado e é um arrogante. Você vai ver.” Foi o juramento que fez ao deixar o orfanato para sempre.

Quatro anos depois. Base da SPK.

Near havia devolvido a foto de Mello. Aquela que havia sido tirada a tanto tempo e esquecida no dia em que fugira do orfanato. Não havia sido, porém, a fotografia ou a dedicatória que Near preocupara-se em escrever que haviam causado algum sentimento a Mello. Fora seu olhar.

Near jamais olhava na face de outra pessoa. Nenhum deles o fazia com frequência, mas havia algo de particular nos olhos distantes e estranhos do rapaz. Depois de quatro anos, ele não havia mudado em nada. Talvez tivesse crescido um pouco, mas era exatamente o mesmo, com as mesmas obsessões que o prendiam à condição de um gênio esquisito.

Os olhos dele demoraram-se um pouco mais na cicatriz facial recém adquirida por Mello. Por fim, olharam-se francamente nos olhos e Near estendeu a velha fotografia para o outro órfão em um gesto repleto de significados.

“Nós poderíamos superar ao L.”

Mello detestou Near ainda mais, se fosse possível. Se um dia realmente acreditara nessas palavras, agora ele dizia essas coisas por verdadeira simpatia, quase por pena. Entendeu algo sobre ambos: Mello era só um garoto cheio de inseguranças quando deixou o orfanato, havia perdido a inocência ao longo do caminho tumultuado que escolhera para si. Envolvimento com criminosos, assaltos e assassinatos. Às vezes apertava o rosário que carregava ao redor do pescoço, irracionalmente arrependido por ferir os mandamentos morais que um dia havia acreditado acima de tudo.

Near era diferente. Com seus olhos fugidos e malícia estrategista. Nada para ele era importante ou sagrado, exceto as regras do jogo que o conduziriam para a vitória. Por isso acreditava ser tão melhor, tão mais apto a substituir o grande detetive que haviam sido educados para admirar. Near jamais havia sido inocente de fato e como isso não era um grande problema para ele, mantinha-se calmo e disciplinado.

– Near, eu vou ganhar de você. – respondeu à provocação, perguntando-se se não estavam tornando-se um pouco repetitivos. Sequer desejava mais que tornassem a ser como irmãos ou iguais. Talvez Near ainda sentisse falta desse tempo, mas não dava importância para isso. Para Mello, o passado havia acabado de morrer, tal qual a fotografia que queimou sem maiores cerimônias.

Não foi realmente difícil localizá-lo. Na verdade tinha um palpite que ele havia usado os próprios métodos para ficar por perto de onde o amigo estava, esperando para ser chamado. De fato, Matt não parecia realmente surpreso quando abriu a porta do apartamento alugado no Japão para que Mello entrasse.

– Dia ruim? – o ruivo perguntou, tocando na cicatriz de Mello quando a luz incidiu sobre o rosto do rapaz.

– Uma merda. – Mello respondeu, um breve sorriso zombeteiro brincando na face semi-destruída. Matt também sorriu, entrando no apartamento logo em seguida. Queriam apenas ficar juntos e isso era mais importante que todo o resto.

Notas finais
Notas Finais:
*Roger Ruvie: diretor substituto da Wammy's House.
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