Pequenas Coisas

26 Eu te amo, Renê!


Renê narrando- É óbvio que a Helena ficou chateada comigo, não tiro sua razão, mas a minha filha não tem depressão, ela é muito nova pra isso, é impossível. De qualquer forma, não quero ficar brigado com ela, então fui até o quarto, mas ela já tinha dormido com a Lê.

–- Meu amor me descupe, eu não quis ser grosso com você.- Sussurrei temendo acordá-la.

Letícia narrando- Elas estão aqui, dentro da minha cabeça, fazem questão de me perturbar, o que falam fica girando e girando e cada vez mais fazem sentido.

–- Me deixem em paz!- Gritei.- Qual o problema de vocês? Eu tenho mãe sim, a melhor do mundo e me ama de verdade.

–- Ah por favor ratinha, quem é a louca que vai te amar?- Ela debochou e riu de mim.- Você não serve de nada, a prova é que até sua mãe não te quis, morreu assim que você nasceu, e foi sorte dela não ter que precisar conviver com você.

–- Para! Você não conheceu a minha mãe, não pode falar por ela.- As lágrimas estavam aqui, mas eu tentava desesperadamente afastá-las, não podia chorar, não na frente delas.

–- Por que você não aceita a verdade? Você é feia e burra, ninguém gosta de você.

–- Pra quê ser tão mal? O que você precisa provar? Que é melhor que eu? A minha mãe e meu pai me ensinaram que não existe uma pessoa melhor que outra.

–- A sua mãe tá morta garota!

–- Não, mãe é a que você escolhe ter, minha mãe biológica está morta, mas minha mãe de coração está viva!

–- Como você é burra ratinha, você não passa de um desperdício de oxigênio, as pessoas conseguirem te suportar não significa que elas te amam, só que te suportam.- Ela fez questão de repetir, só pra me deixar triste, e infelismente conseguiu. Isso significa que o meu pai e a minha mãe não me amam? Mas eu amo eles. Então, não prendendo mais o choro, desabei. Senti duas mãos me chacoalhando, abri os olhos e vi a Helena, minha mãe.

–- Minha princesa o que houve?- Ela enxugou minhas lágrimas com seu polegar, sussurrei um 'nada' e ela me encarou confusa.- Como 'nada'? Amor você chorou enquanto dormia. Me diz, o que você está sentindo?

–- Eu me sinto sozinha.- Mais lágrimas caíram, percebi que a Helena também chorava.- Não chora, não gosto de te ver chorando.

–- E como você acha que eu me sinto te vendo desse jeito? Letícia você não está sozinha, você é a coisinha mais importante da minha vida, eu te amo mais que tudo.- Abracei a minha mãe, muito, muito forte, eu sei que ela está falando a verdade, pois eu também sinto isso, por ela e pelo papai.

–- Eu também te amo mamãe!

–- Eu e seu pai temos uma novidade pra te contar.- Talvez seja isso que eu mais amo nela, não importa como eu esteja me sentindo, ela sempre da um jeito de me colocar pra cima.

–- O que? Conta mamãe! Você está grávida? Ai que tudo vou ter uma irmãzinha.- Abri um sorriso de orelha a orelha e a mamãe gargalhou.

–- Claro que não Letícia. Eu conto se a mocinha me ajudar a preparar o jantar, já que dormiu a tarde inteira e nem almoçou.- Então eu não vou ter uma irmã?

–- Eu ajudo, e prometo comer tudinho.- Nós fomos direto pra cozinha, o papai trabalhava na sala, preparando aulas, acho que nem percebeu quando passamos. Eu e a mamãe fizemos uma lasanha, meu preto preferido, e pra sobremesa mousse de chocolate. A mamãe me contava história de quando ela e a tia Alice eram crianças, e nós duas dávamos boas gargalhadas. Ela me disse que uma vez a tia Alice subiu na árvore do jardim da vó Cristina, a mamãe berrava pra ela descer, mas ela teimou que só descia se a vovó comprasse uma boneca nova pra ela, então a mamãe também subiu na árvore e anunciou que só descia se ganhasse livros novos, elas deixaram a vovó de cabelo em pé. No final as duas desceram, pois o vovô chegou e ficou muito bravo. Eu queria ter uma irmã, deve ser muito divertido.

–- Tudo bem princesinha, agora vamos tomar um banho bem gostoso né?

–- Ah não mamãe, vamos jantar primeiro, eu tô com muita fome, por favor?

–- Tá bom, então vai chamar o seu pai enquanto eu coloco a mesa.- Eu corri até a sala e o papai ainda trabalhava.

–- Papai, vem jantar! Eu e a mamãe fizemos lasanha.- O abracei e ele sorriu.

–- Deve está maravilhoso.

–- Você só vai saber se provar, vem logo!- Peguei sua mão e o puxei até a cozinha.

Helena narrando- A Letícia acordou bem melhor, voltou a sorrir e deu umas boas gargalhadas comigo, isso me animou bastante. Ela entrou puxando o Renê, ele sorriu torto pra mim e sentou à cabeceira da mesa.

–- Mamãe você já escolheu o vestido?- Olhei pra ela sem entender, mas ela não continuou.

–- Que vestido Lê?- Ela me olhou horrorizada e eu ri da sua expressão.

–- O de casamento oras, que outro vestido seria?

–- Como assim, amor? Você estava comigo quando eu escolhi o vestido.- Entendi o que ela estava fazendo, com certeza percebeu que eu e seu pai havíamos discutido.- Mas não importa, você quer saber a novidade?

–- Claro, estava mesmo esperando você contar.- Olhei pro Renê esperando que ele falasse, mas permaneceu calado, então eu mesma falei.

–- Bom, eu e seu pai conversamos e decidimos que, se você quiser, nós vamos te matricular na escola onde trabalhamos.- Ela praticamente pulou da cadeira.

–- É sério? Tipo... sério mesmo? -Eu sorri e olhei pro Renê, que tinha apenas um meio sorriso nos lábios, parecia distante, mas que diabos está acontecendo com ele?

–- Então isso é um sim?

–- Claro que sim, mamãe.- Ela deu um beijo no pai que parece finalmente ter acordado, e veio correndo me abraçar.- Obrigada, eu amo vocês.

–- Nós também te amamos minha princesa, agora senta e come, você prometeu comer tudinho.

Renê narrando- Depois do jantar a Helena mandou a Letícia pro banho e sentou no sofá, eu também ia tomar o meu, mas ela me parou antes.

–- Posso saber o que está fazendo?- Ela não me olhou, mas pude sentir pelo seu tom que estava com raiva.

–- Eu só ia tomar banho.- Preciso mesmo ser tão babaca?

–- Acha que ela não percebeu?- Então é isso?

–- Percebeu o quê? Que o pai dela é um tremendo idiota?

–- Do que está falando Renê?

–- Você não me ama, não é?- Ela me fuzilou com os olhos, por um momento me arrependi do que disse.

–- Quer saber? Você tem razão!- Meu coração se partiu.- Você é um tremendo idiota, Renê!- Ela saiu e bateu a porta. Isso significa que ela me ama? Corri atrás dela e a alcancei antes de entrar no carro.

–- Então você me ama?- Ela tentou se soltar dos meus braços, mas logo desistiu.

–- Como você tem coragem de me perguntar uma coisa dessa?

–- Você disse que ama a Letícia mais que tudo, e que ela é a pessoa mais importante da sua vida.

–- E não é a da sua?- Oh meu Deus

–- Sim, mas você também é! — Ela não respondeu, só ficou me encarando.- Não vai falar nada?- Não, ela não falou, larguei seus braços e virei pra entrar.

–- Você tem razão, me desculpe, vocês são o que tenho de mais importante, são a minha família. Eu amo você, Renê.- A beijei com paixão, encostando suas costas contra o carro , tinha seu rosto em minhas mãos, enquanto as dela envolviam meu quadril. Ela terminou o beijo com um selinho demorado.- Da proxima vez que sentir ciumes da sua filha, eu juro que passo um dia inteiro sem falar com você.

–- Você nunca iria conseguir!

–- E como você sabe?- Ela perguntou me desafiando.

–- Sabendo ué, assim que eu fizer isso...- Sussurrei no seu ouvido e beijei seu pescoço.- E isso...- Dei uma leve mordida no seu queixo e lábio inferior.- E depois isso...- A beijei novamente, mas dessa vez um beijo lento e provocante.- Você falaria comigo rapidinho.