Pequemos, irmãos
1 E ao pó retornarás
O pecado de Adão e Eva no Jardim do Éden é comumente chamado "Pecado Original". Significa que esse pecado é passado de geração em geração como uma maldição; que somos pecadores desde o primeiro sopro de vida. O pecado corre nas veias do humano, que há séculos vem regando a terra com o sangue de seus irmãos. O crime de Caim repete-se como um disco riscado, um refrão de uma canção horrenda. Eva deu à luz a Guerra.
As guerras dividem e unem pessoas contra outras pessoas. Grupos de pessoas crescem, e daquela união patética, surgem os povos e as primeiras nações. Mas eu sempre fui diferente. Enquanto a maioria dos povos formavam-se para protegerem-se uns dos outros, nasci para atacar primeiro. Às vésperas da grande campanha militar que o papa Urbano II convocou entre os reinos cristãos, vim ao mundo. Não houve lenda que contasse sobre o aparecimento de um místico garoto que simbolizaria a união de um povo pela sua cultura, língua e costumes. Apenas rumores de uma lavadeira que engravidara de algum cavaleiro no meio da comitiva.
Entretanto, ao contrário da mulher (que morrera na fogueira) e do cavaleiro (cujo paradeiro era desconhecido), o menino fora agraciado com uma vida longa. Longa, mas não gentil. Meninos de cabelos alvos como a neve e olhos vermelhos como o sangue não costumavam viver muito naquela época. Era um presságio, uma mensagem de Deus, diziam. A "Encarnação do Pecado Original".
Em meio às Cruzadas, nascia a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos de Santa Maria de Jerusalém, que logo retiraria-se da Galileia, em direção à Europa em derrota. Minha primeira experiência de vida foi o mar de sangue, fogo e ódio.
Os padres, frades, enfim, as pessoas olhavam-me com medo. Era puro preconceito, eu sei. Mas até onde essa preocupação não espelhava um futuro com mais guerras e mais conflitos?
Medo. Era fácil plantar medo nos corações dos homens, criaturas maleáveis, estúpidas e ignorantes. Senhores feudais entocavam-se em suas terras, servos escondiam-se sob as catedrais. Eram ovelhas, crentes de que um pastor as guiava… Sem saber que o pastor era na verdade o próprio lobo.
Sem saber que anjos e demônios são todos iguais, que apenas seguem crenças opostas. Sem saber que tirávamos as enxadas e púnhamos lanças em suas mãos, dizendo que era a vontade do Senhor.
E no final, os salmos, os evangelhos e as orações são apenas mantras repetidos mecanicamente antes das refeições, nos cultos e antes das guerras. A religião não era senão uma grande manipulação, uma das engrenagens principais do negócio da guerra. Não é uma mensagem de amor para com o seu próximo. Não é o altruísmo.
São o rufar dos tambores, o rugido das fileiras, o trote dos cavalos contra a guerra. Sou eu sangrando sobre a terra, assistindo meus irmãos assassinando uns aos outros. E sorrindo.
Eu sorrio porque é esse o meu objetivo. Porque é o que eu sou; o terceiro filho de Adão e Eva: a Guerra. Com o sangue do homem nas mãos e o sangue do Cristo nos cálices, o mundo gira e dança ao som e ritmo da barbárie.
E, hoje, tudo o que eu quero dessa religião que chamam de Cristianismo é o vinho e seus pecados.
Então, pequemos, irmãos.
[1] Gloria sanguinem, et flamma et odium. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.
Amém.
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