31/08/2015, Londres.

O antigo relógio de madeira marcava quatro horas da tarde em ponto. Teddy estendeu a mão para o maço de Mago Azul em cima de sua escrivaninha, sacou um dos longos cigarros inteiramente verdes que ainda restavam em seu interior e o acendeu com ajuda da varinha, tomando o cuidado de permanecer próximo a grande janela aberta. A última coisa que precisava antes de enfrentar uma lua cheia era de uma briga com seu padrinho, que considerava o seu velho hábito nojento e um mau exemplo para seus filhos. Bom, tudo que ele fazia era considerado errado de alguma forma desde que fora selecionado para a Sonserina, e a mistura inebriante de nicotina, tabaco e uma mistura secreta de ervas mágicas e tabaco era tentadora demais para que realmente se importasse com o grande Harry Potter tinha a dizer.

Suspirou, jogando a fumaça para a tarde estranhamente quente. O fim das férias lhe provocava medo e alívio, um misto de sentimentos que lhe deixava com um inevitável gosto amargo na boca. Não poderia negar que naquele ano, as férias foram surpreendentemente maravilhosas e, por poucas semanas, pode fingir que era apenas um jovem bruxo normal. todos pareciam ter algo legal para fazer com ele e fora há mais jantares n’A Toca do que poderia contar. Todos os Weasley estavam se esforçando muito para que ele pudesse esquecer por alguns instantes o fato que sua avó estava, inevitavelmente, morrendo.

Fora um choque descobrir aquilo, pouco depois de terminar seus exames dos N.O.M.s. Era uma notícia que temia receber desde os seus dez anos, quando Andrômeda encontrara alguns objetos amaldiçoados mexendo nos antigos pertences de seus pais, ainda abandonados na Mui Antiga e Nobre Casa dos Black. Aparentemente, era um dos muitos experimentos de sua mãe, Druella Black — e Andrômeda repetia, toda vez que contava aquela história, o quanto subestimou as habilidades e a maldade da própria mãe. E ninguém poderia dizer que a velha senhora Black não era ardilosa. O equipamento era um inofensivo conjunto de chá antigo, aparentemente de porcelana. Uma valiosa relíquia de família, principalmente considerando que qualquer coisa bebidas nele tornava-se veneno — um efeito diferente para cada xícara. O único consolo da senhora Tonks era que seu neto não a acompanhara no chá da tarde naquele dia.

O conjunto maldito foi examinado por curandeiros, especialistas em magia das trevas, aurores, mestres em poções. Harry Potter moveu mundos e fundos para garantir que seu afilhado não perdesse um de seus poucos parentes de sangue ainda vivos — afinal, o padrinho jamais aceitara o fato de que Narcissa e Draco faziam parte da família de seu afilhado. E aparentemente, tudo foi em vão. Até onde sabia, em todos aqueles anos, só haviam conseguido classificar dois dos venenos do conjunto de dez, e nenhum deles era o que havia acometido sua avó. Os curandeiros conseguiram retardar o efeito fatal da substância, mas Andrômeda ainda tinha que conviver com os efeitos colaterais. Teddy nunca tinha parado de pensar que uma hora aquela medida paliativa não faria mais efeito, até ver a manchete d’O Profeta Diário: “Família amaldiçoada? A última Tonks viva deve morrer dentro de um ano. A assassina? Sua própria mãe”.

Rita Skeeter definira o veneno que a contaminara como um paralisante de órgãos, parecendo ter especial apreço pela área do pulmão, embora também por vezes afetasse sua memória e músculos. Tivera acesso a documentos que nem mesmo ele vira, e é claro que não perdeu a oportunidade de rememorar, em detalhes sórdidos, a antiga fama da família Black e o polêmico relacionamento entre uma sangue-puro da elite bruxa e um reles nascido muggle. “Por mais que Nymphadora tenha tentado transmitir a melhor parte de sua família ao nomeá-lo em homenagem ao seu finado pai, Edward “Ted” Tonks”, escrevera Skeeter, “a seleção do garoto para Sonserina nos deixa questionando se o rapaz não herdou o pior de ambos os lados de sua herança genética — a licantropia de Lupin e a loucura dos Black”.

一 Não é pessoal, é política. 一 Teddy murmurou a frase que seu padrinho vivia repetindo quando aquele tipo de coisa acontecia, mas parecia simplesmente vazio e hipócrita quando saia de sua boca. Mas Mael também havia lhe dito aquilo um dia, então deveria ser verdade.

Suspirou. Pareciam-lhe motivos suficientes para querer adiar os estudos, mas aquilo era algo que Andrômeda Tonks não podia admitir. Tecnicamente, a decisão era sua, uma vez que era maior de idade, mas sua avó faria novamente aquele longo discurso sobre como educação era um privilégio que fora negado durante séculos aos lobisomens, e Teddy não podia simplesmente dizer não a ela — principalmente com argumentos tão fortes.

E então, primeiro de setembro estava chegando, mas antes disso, uma lua cheia. Era como um doloroso lembrete que sua vida voltaria a sua própria normalidade, onde uma vez por mês, se transformava em um terrível monstro controlado apenas por uma poção e por um pequeno cativeiro magicamente reforçado. Uma única vez por mês, e era por aquilo que era definido o resto de seus dias. É claro, havia também o peso de seu sobrenome, principalmente nos meios licantropos. “O legado Lupin”, era como vários de seus colegas se referiam ao fato de seu pai ter inspirado toda uma série de leis no mundo bruxo, finalmente reconhecendo lobisomens como cidadãos funcionais, e não de segunda classe. O processo político-histórico era mais complicado do que isso, e envolvia várias reuniões da Confederação Internacional dos Bruxos e contribuições de vários mestiços e nascidos muggles, mas ninguém realmente se interessava pela verdade. E era exatamente a figura heróica criada em torno de seu pai que havia lhe brindado no início das férias, na forma de uma carta de McGonagall.

“Prezado senhor Lupin,

É com prazer que venho lhe dizer que seu nome foi aprovado nas três etapas do processo para o cargo de Representante dos Licantropos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Seu nome foi votado por unanimidade pelos seus iguais, e passou com louvores pela análise realizada por nosso corpo discente e pela Seção de Proteção aos Direitos do Licantropos do Ministério da Magia.

Como bem sabem, as atribuições de seu cargo são semelhantes aos cargos de monitores de Hogwarts, devendo, portanto, integrar suas reuniões semanais e trabalhar em parceria com o Monitor-Chefe nomeado esse ano, Eugene Wood. Sua presença também é requerida para auxílio do professor Slughorn na preparação da Poção Acônito.

Envio, em anexo, um manual com o detalhamento de suas funções, bem como modelos para os relatórios que devem ser preenchidos ao longo do ano. Este documento também contém instruções do Ministério para suas funções relativas a eles, e o senhor Franklin Stone coloca-se à disposição em caso de dúvidas ou necessidade de ajuda.

Em nome de nosso corpo docente e de toda Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, parabenizo-o por mais esta conquista.

Atenciosamente,

Prof. Minerva McGonagall

Diretora da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Ordem de Merlin, Primeira Classe.”

Ele suspirou, jogando a bituca do cigarro em uma lixeira antes de se virar para a pilha de pergaminhos acumulados em sua escrivaninha. Haviam cartas de todos os seus amigos empilhadas em um canto, mas as únicas que foram abertas eram as de seu melhor amigo, Aleksandur Krum, e a que Bastien lhe enviara mais cedo. Não havia nenhuma chance de ele não abrir alguma das cartas dos Durant — bom, pelo menos dos dois mais velhos. Mael e Bastien basicamente transformaram os lobisomens em Hogwarts de pequenas crianças assustadas e acuadas em um grupo coeso, seguro o bastante para garantir a integridade dos seus na maioria das vezes. Basicamente tudo que sabia sobre ser um lobisomem, poções e defesa pessoal era graças a Mael e Bastien Durant.

Definitivamente, precisaria concluir pelo menos as cartas antes de embarcar no dia seguinte. Ser pego de surpresa logo em sua primeira reunião certamente não causaria uma boa impressão. Ao lado das cartas, também havia uma grossa prata de couro preto, onde Aleksandur havia feito o favor de reunir as notícias mais relevantes para a comunidade licantropa — desde projetos de leis, a colunas de fofoca e artigos de opinião. E talvez devesse ter pelo menos aberto o seu novo livro de poções para olhar o índice.

Olhou novamente para o relógio. Quatro e vinte e três. Precisava decidir logo qual seria sua prioridade, porque seria completamente inútil depois que a lua surgisse no céu. Sentou-se, pegando novamente um cigarro em seu maço e percebendo que suas mãos estavam tremendo. Acendeu, tentando calcular quanto tempo faltaria para ter que ir ao porão. Já era algo a que estava acostumado, uma vez que sua primeira transformação havia ocorrido quando tinha seus três anos. Mas não podia negar que o porão da agora casa dos Potter não era nem de longe tão aconchegante quanto ao da casa de sua avó.

一 Eu pensei que Harry lhe tivesse pedido para não fumar aqui dentro. 一 a voz grave e cansada de Andrômeda retirou o mais novo de seus pensamentos com um leve sobressalto.

一 Desculpe, vovó. 一 suspirou e apagou o cigarro ainda quase inteiro no cinzeiro antes de se virar para a porta.

Andrômeda estava parada na soleira, como se precisasse de permissão para entrar, amparada de um lado por uma grossa bengala de madeira escura, e de outra pela sua irmã mais nova, Narcissa. Teddy se surpreendeu — sua tia havia se tornado presença constante em sua vida desde seus cinco anos, quando ela finalmente se divorciara de Lucius Malfoy e se reconciliara com a irmã; no entanto, era visível o desconforto de estar justamente na casa de Harry, principalmente quando Ron estava presente, que era quase sempre.

Usou a varinha para puxar duas poltronas verde-escuro que estavam em um canto para perto da escrivaninha antes de se dirigir a porta, tomar o lugar de Narcissa ao lado de sua avó e a ajudar a se sentar. A loira teve o cuidado de fechar a porta e murmurar alguma coisa com a varinha pelo corredor, que Teddy achou melhor não comentar. Bill já lhe dissera várias vezes que ninguém sobreviveu a Segunda Guerra Bruxa sem algumas paranóias.

一 Como você está? 一 Andrômeda perguntou-lhe assim que se sentou, lhe lançando um olhar severo. Por um segundo, sentiu um riso sarcástico querendo escapar-lhe a garganta. Não era ela que deveria estar cuidando dele.

一 Não é como se essa fosse minha primeira lua cheia. 一 deu de ombros, desviando o seu olhar e ouvindo um guincho horrorizado de sua tia.

一 Como ousa usar esse tom insolente… 一 Narcissa começou, irritada, sendo interrompida por um gesto da irmã mais velha, que a fez se calar.

一 Você sabe que não é sua transformação que me preocupa. 一 continuou, impassível. 一 Por favor, não aja como uma criança.

一 Mal, mas tenho minhas responsabilidades. 一 Teddy obrigou-se a engolir seu orgulho e responder no tom mais firme que conseguisse. Cair no choro logo agora definitivamente não era algo pelo qual ansiava. 一 Eu não me esqueci de minha promessa, vovó.

一 Bom. 一 Andrômeda permitiu-se um pequeno sorriso aprovador antes de aprumar-se na cadeira. Procurou em sua sacola de pano, que geralmente guardava seu tricô, até retirar uma pequena caixa de madeira, decorada por pequenos talhos em espiral e um elegante fecho dourado em forma de “L”. Sentiu-se satisfeita ao observar o interesse do neto por tal objeto, que pousou em seu colo e cruzou as mãos em cima. 一 Sei que às vezes eu exijo demais de você, meu querido, mas não posso admitir menos de quem têm a capacidade de alcançar a grandeza. Posso me orgulhar de dizer que você está correspondendo todas às expectativas.

Teddy piscou algumas vezes, surpreso. A senhora Tonks era conhecida em seu ciclo pessoal de amizades como uma senhora ligeiramente conservadora e extremamente rigorosa em sua criação, em termos de princípios e exigências. Elogios não eram costumeiros, de modo que aquele, naquele momento, o deixou sem palavras.

一 Ora, não se surpreenda tanto. 一 Narcissa lhe dirigiu um pequeno sorriso, pegando em sua mão. 一 Está no seu sangue, de todos os lados. Você está destinado a coisas grandes, se tiver o juízo de aproveitar todo o seu… potencial.

一 Mas esse não é o momento para falarmos sobre o que você deve ou não fazer, já que, como você mesmo disse, está ciente de suas responsabilidades esse ano. 一 Andrômeda continuou, brincando com os dedos ao redor de uma das espirais que decoravam a tampa. 一 Como já estamos todos aqui a par de minha nova… situação, creio que já é hora de eu te deixar com algo especial. Uma dessas heranças de família que seu avô achava tão bobas.

一 Eu não acho. 一 apressou-se a dizer, sentindo o seu estômago revirar. Desde muito novo, precisou aceitar que sempre existiram pessoas que conheciam seus pais bem melhor do que ele — afinal, o pouco que tinha se resumia a histórias que lhe contavam e fotos que guardava como tesouro.

一 Eu sei que não, meu querido. E foi por isso que tomei meu tempo para localizar algumas cartas que o seu pai escreveu na vida. Não foi muito fácil, sabe, mas Quim e Harry tiveram a bondade de me ajudar, o ministro mesmo doou algumas. 一 Andrômeda sorriu, animada, estendendo a caixa para o neto. 一 Estou tentando fazer o mesmo com as cartas de sua mãe, mas Dora tinha o costume de usar um feitiço que destruia a carta após a leitura… pegava fogo, como se fosse um berrador, mas não gritava, graças aos Céus. Nymphadora sempre levou o lema de Moody muito a sério, você sabe…

“Vigilância constante”. 一 Teddy murmurou respirando fundo ao passar o polegar pela fechadura em “L”. Ainda um pouco trêmulo, empurrou-a delicadamente para trás, observando com certa ansiedade ela levantar com um sonoro “clique”. A caixa era mais funda que aparentava, forrada com macio tecido rosa-chiclete.

A primeira coisa que conseguiu identificar foi uma pequena pilha de fotos, mantidas organizadas por duas fitas, uma vermelha e outra amarela. Deu um pequeno sorriso ao reconhecer o seu pai na foto, parecendo cansado e abatido, ao lado de Shacklebolt e um homem de longos e pesados cabelos negros, que provavelmente era Sirius Black. Certamente, seriam mais aquisições para o seu sempre incompleto álbum de fotos. O resto do conteúdo era composto por envelopes e alguns rolos de pergaminho, todos organizados em pequenas pilhas separadas por fitas vermelhas e douradas. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas ao imaginar o trabalho que Andrômeda deveria ter tido para organizar tudo aquilo.

一 Família sempre será a nossa raiz, a nossa origem, e para onde devemos nos voltar quando as coisas ficam realmente ruins. 一 Narcisa comentou, com um sorriso triste e o olhar perdido. Sabia que tinha sua parcela de responsabilidade no que acontecera na Batalha de Hogwarts, mesmo que tentasse dizer a si mesma que só ficara nos bastidores, que aquilo não contava de verdade. Sabia que tinha uma parcela de responsabilidade nas mortes de Tonks e Lupin, assim como todos que engrossaram as fileiras do Lorde das Trevas. E para que? Tudo em vão.

一 Eu sei. 一 Teddy suspirou, encarando novamente a sua avó. Em pouco tempo, não teria mais a quem se voltar, a não ser às cartas e talvez sua tia. 一 Vovó, muito obrigado.

Andrômeda deu um grande sorriso, tentando não deixar as lágrimas que insistiam se acumular em seus olhos. Saber quanto tempo resta até sua morte era ao mesmo tempo cruel e conveniente. Tinha tempo de fazer tudo aquilo que deveria ter feito mais cedo, mas sabia que em pouco tempo, já não estaria mais junto ao seu neto e a sua irmã. Mas sabia que aquilo provavelmente estava sendo pior para ele, pois ela já aceitara seu destino, e agora sua função era fazê-lo aceitar o seu.

一 Deixe para ver isso em Hogwarts. 一 ordenou, obrigando-se a manter a voz firme. Não queria estar perto quando ele lesse, recusara-se a ler até mesmo uma única linha. Havia coisas que ela ainda não estava pronta para relembrar. 一 Você ainda precisa tomar a última dose da Acônito, e seu padrinho teve a bondade de preparar um chá para todos nós. Vamos, ainda temos algumas horas e você precisa também se alimentar antes da lua cheia.

一 Você estará aqui amanhã também, tia Narcissa? 一 Teddy perguntou sem rodeios, surpreendendo a loira, que já começara a se levantar para ajudar a irmã.

一 Bom, se Potter não tiver nenhuma objeção, certamente posso encontrá-los em King’s Cross. 一 Narcissa deu de ombros, os lábios transformando-se em uma fina linha enquanto concentrava-se em oferecer o braço esquerdo como apoio para Andrômeda. Passar a noite na casa em que crescera certamente não estava em sua lista de desejos, e convenientemente, nem na do dono da casa. Sua presença era apenas tolerada até certo ponto. 一 Você ouviu sua avó, querido.

E Teddy sabia que a ele só sobrava uma opção: obedecer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.