Penseira
1 Capítulo único.
Era um dia comum no Ministério da Magia; o sol não estava muito vívido tampouco o céu límpido, porém não deixava de ser uma bonita tarde. Hermione passou pelos umbrais em mármore do salão, batendo seus saltos médios contra o chão polido, encontrando no meio dos presentes, quando ergueu a visão, um homem preso, acorrentado.
Apesar de estar particularmente de mal humor naquele dia, precisava estar presente naquele julgamento. O homem preso era uma antigo comensal, que agora esperava pacientemente pelas acusações feitas à ele e, posteriormente, por sua sentença. O acorrentado a observou passar, tomando seu lugar ao lado de Harry Potter, seu ainda melhor amigo.
Harry sorriu para Mione quando ela sentou –se ao seu lado, e antes que respondesse a ele com um outro sorriso , a bruxa franziu o cenho, observando as olheiras ao redor de seus belos e brilhantes olhos verdes. Parecendo entender a expressão da amiga, Harry sussurrou um “Depois” explicitando que contaria o que estava lhe tirando sono. Hermione lembrou-se que aquela era a segunda semana que o via assim e ele sempre adiava a conversa.
Naquele momento, entretanto, decidiu também procrastinar: não estava em um bom dia. Olhou para a aliança em seu dedo e parecia pesar mais que nos dias normais. Tinha discutido com Ronald, de novo.
— Aos senhores presentes, peço-vos atenção. Daremos inicio ao julgamento do réu condenado pelos crimes de: traição, conjuração de maldições imperdoáveis, homicídio qualificado...
Hermione não prestou muita atenção no nome do acusado nem nas acusações: Sabia que ele era culpado. O viu lutando ao lado de outros comensais e isso era suficiente para que votasse pela condenação. Estavam lutando por um mundo melhor e com certeza ter um traidor de alta periculosidade solto não era, definitivamente, um bom caminho. Posteriormente a toda àquela fala protocolada do ministro, viu, como que em uma fração de segundos, alguém aparatar num canto um pouco escuro da sala. Olhou ao redor, verificando se mais alguém tinha visto aquilo, mas todos pareciam alheios, exceto Harry, que ao seu lado mantinha os olhos firmemente presos ao invasor.
— Não dá para aparatar aqui, dá? — Questionou ao amigo. O moreno apenas balançou a cabeça em negativa.
A coisa toda ficou mais estranha quando o individuo veio um pouco mais para a luz, mostrando-se ser do sexo feminino e de uma forma discreta, chamou-os fazendo um gesto com as mãos.
Harry encarou a amiga por um instante, esta que também tinha o mesmo olhar confuso que o seu. De pronto, tomou sua mão e ela soube que ele estava dizendo que tinham que ir, que precisavam saber o que aquela mulher queria. Um pouco nervosa, Hermione ergueu uma das mãos, pedindo do modo mais discreto que conseguiu que a visitante esperasse um instante, recebendo dela a resposta na forma de um gesto tocando o pulso duas vezes, indicando que não tinha muito tempo.
Pedindo licença e prometendo que logo voltariam, os dois saíram em silêncio, porém em passos largos em direção ao canto escuro da sala. Quando chegaram mais perto, Hermione viu Harry sacar sua varinha, fazendo o mesmo em seguida. O vulto começou a andar, fazendo com que fossem após ela até uma sala que antes se encontrava fechada. Quando a porta fechou-se atrás de Hermione, a estranha retirou de sua cabeça seu capuz.
— Ótimo, — Suspirou — Não foi tão difícil.
Agora em um local mais iluminado, os dois bruxos se permitiram observar melhor a mulher estranha: Seu cabelo era dourado, como que pintado para brilhar propositalmente. Suas unha eram grandes e pontiagudas, pintadas num tom de verde escuro. Em seu pescoço, havia uma tatuagem que com certeza não acabava onde se podia ver, e ela usava uma maquiagem exagerada para qualquer festa à noite, quanto mais para uma tarde de quarta feira. Suas roupas também eram estranhas: parecia de um tecido nunca antes visto.
— Claro, deixem que eu me apresente. Sou Evanna Mystigan, faço parte da Ordem. — Ao ver o rosto confuso se formando no rosto de Harry, Evanna logo emendou — Não da Ordem vigente, é claro. Do futuro. Vim por que preciso da ajuda de vocês.
— Certo. Você está nos dizendo que veio do futuro. É isso mesmo? — Indagou Hermione, incrédula.
— Sim, isso. Eu sei que é difícil de assimilar, mas você mais que ninguém sabe que isso é possível. Não tenho muito tempo para explicar como vim parar aqui, mas o que devem saber é que uma ameaça cruel se ergueu em nosso mundo e o bruxo que é nosso líder foi capturado. Você, senhor Potter. — ela coçou um pouco a cabeça antes de murmurar baixo, mais para si mesma que para os presentes — É tão estranho chamá-lo de senhor Potter aqui. São tão jovens...
— Sei que somos jovens. Pode continuar? — instigou Hermione, mostrando que ouvira seu comentário.
— Claro... ! Bem, quem sequestrou o senhor Potter o está escondendo com um feitiço muito poderoso. Temos uma bruxa especialista em feitiços localizadores mas ela precisa de um ingrediente específico para fazer algo tão poderoso: sangue dado voluntariamente pela pessoa que se procura. Como o vira-tempo foi roubado tive que me utilizar de um outro instrumento ainda em fase de teste, o que explica eu estar aqui e não no ano em que deveria... Digamos que eu não consigo controlar a “ida” muito bem, apenas a “volta”. — Evanna quase riu quando Harry timidamente ergueu seu dedo indicador para fazer uma pergunta. — Pode perguntar, senhor Potter. Só peço que seja rápido. Deixei Sirius muito desesperado e sozinho, preciso voltar logo. Ele queria vir, mas como é menor...
— Sirius? Que Sirius? Sirius não está morto em seu tempo? — Perguntou Hermione, já alarmada.
— Sirius Black sim, está morto. Estou falando do Potter. Sirius Potter. — Quando viu os olhos de Harry crescerem, a mulher tornou a se explicar — Sirius é filho de vocês. De vocês dois. Eu cuido dele algumas vezes e tem sido difícil para um menino de onze anos segurar essa barra toda... Se querem saber ele é adorável e um gênio em poções. Uma vez...
— Espera! Você disse nosso? Você disse meu e de Harry?
— Sim, ué. De vocês. São casados, não? — Evanna apontou para a aliança dourada no dedo de ambos como se fizesse pouco caso daquilo.
— Sim, mas não um com o outro. Sou casada com Ron e Harry casou-se com Ginny há um tempo. — Hermione levou seus olhos para Harry, balançando negativamente o rosto como se quisesse dizer que Evanna era insana ou desorientada. Ele entendeu sua expressão.
— Por Merlin, é pior do que eu pensava! — exclamou, enquanto dava uma volta em si mesma, arrastando seu manto feito do tecido estranho — Vocês nem estão casados ainda! — Harry abriu a boca para falar algo mas foi interrompido pela loira de cabelos dourados que continuou — Antes que digam, não, eu não sou uma louca e sim vocês são casados e têm um garoto adorável de onze anos.
— Isso não é possível, nós...
— Olha eu não sei bem a história, tudo o que eu sei é que você se separou de seu marido primeiro, alegando incompatibilidade de genes, mesmo ainda sendo amiga de Ronald até hoje, se quer saber. Hoje não, quer dizer, no tempo em que eu vivo... Bem, você entendeu. — Hermione observava o indicador de Evanna apontado para seu rosto para logo depois passar para o rosto do bruxo ao lado — Já você demorou mais algum tempo para se divorciar. Alguns anos a mais que Hermione, mas não posso ser mais precisa que isso por que, sinceramente, as colunas de fofoca do Profeta Diário não me interessam muito. Pelo que eu sei, ficaram sem se ver por anos quando Hermione decidiu morar em um lugar mais recluso depois do divórcio e após anos sem se verem vocês se reencontraram. — A bruxa futurística olhou para Hermione que detinha no rosto uma expressão de total choque — Por favor, Hermione, não me olhe assim. Achei que entenderia mais facilmente já que foi você mesma quem me colocou nessa confusão me fazendo vir até aqui.
— Eu? — Evanna assentiu, balançando duas vezes sua cabeça, com seus olhos atentos — Como eu pediria isso? Tenho total ciência de que coisas terríveis acontecem à bruxos que são vistos fora de seu tempo. Eles mudam a linha temporal e...
— Não se essa memória for apagada e foi por isso que você me mandou. Depois de você eu sou a melhor nessa arte e como você estava impossibilitada me escolheu como a melhor opção. Se as memórias do que foi modificado forem apagadas a linha do tempo volta a seguir seu curso normal e nada de mal acontece ao bruxo que se arriscou. Por falar em memórias... Como pude esquecer...! Você se atentou para o fato de que eu podia voltar demais no tempo, então mandou isso.
Do bolso do grande casaco que usava, Evanna tirou 4 frascos. Eram lembranças, logo perceberam.
— Acho que precisaremos de uma penseira.
Quando chamaram por uma penseira e a viram chegar, Hermione parecia nervosa; suas mãos suavam e ela apertava um lábio no outro objetivando diminuir a tensão, o que parecia sem sucesso. No momento em que os conteúdos dos fracos foram derramados e as imagens começaram a se formar, ela sentiu sua barriga revirar de nervoso mais uma vez antes de se concentrar na cena que já se desenvolvia.
“A decoração era forte e marcada por tons de azul bem escuro com branco. Hermione caminhava por entre as tendas percebendo que era, pelo que parecia, um casamento. Haviam rostos conhecidos por toda parte e ela via todos cumprimentá-la com um singelo e cordial aceno de cabeça.
Procurou uma mesa mais afastada para sentar-se. Apesar de conhecer muitas pessoas do local, seus seis anos afastada de todos fizeram com que não fosse íntima de mais ninguém, portanto não tinha com quem sentar-se. Achou, para seu alívio, uma mesa vazia perto da bancada de guloseimas.
Estava determinada a levantar-se e pegar um daqueles doces quando o viu: fazia mais que seis anos, mas parecia ter sido no dia anterior. Ele sorria, não para ela, mas sorria despreocupadamente para um senhor desconhecido que lhe dizia alguma gracinha. Em algum momento, o viu erguer uma das mãos e passa-la por entre os cabelos agora bem aparados, mas ainda lisos e escuros como sempre. Mione pressionou os lábios contendo um sorriso ao perceber que sabia exatamente a textura daqueles fios já que muitas vezes teve que cortá-los quando estavam escondidos.
Pensou em sentar-se silenciosamente sem ser vista. Era o mais fácil, certo? É normal não saber o que dizer depois de ficar anos sem ver alguém, e preferir sair pela tangente. O observou mais uma vez antes de sentar-se e como ele passou mais uma vez os dedos por entre os fios pôde constatar o que era considerado só boatos: Harry não usava mais aliança.
Baixou seus olhos e virou as costas, ficando de frente agora para a mesa de docinhos. Sentiu-se culpada por não estar com ele nesse momento difícil, pois tinha certeza que não havia sido nada fácil para ele essa separação. Harry sempre fora uma pessoa bastante sensível e quando tratava-se de perder pessoas ainda mais.
Quando ia virar para tomar novamente seu assento, sentiu uma mão em seu ombro. Não precisou virar para saber que era ele, pois depois de anos passando por tantas coisas juntos já conhecia seu cheiro como poucos.
— Então é mesmo você. Pensei que tinham feito uma brincadeira com minha mente.
Quando virou-se Hermione tentou rir, pois ele sorria, mas pouco conseguiu. Vendo-o assim, tão de perto e tão amável como sempre fora, perguntou a si mesma como tinha ficado tanto tempo sem tê-lo por perto.
Passou seus braços por seus ombros e o abraçou com força. Sentiu sua barba rala lhe arranhar um pouco e sorriu, pensando que isto era algo novo. Ele nunca deixava a barba crescer antes.
O ouviu respirar fundo com o rosto ainda entre seus cabelos e só se apartaram quando um flash estrambólico invadiu o espaço. Alguém do Profeta Diário já tinha a foto para a manchete.
— Vem. — Foi tudo o que ele disse.
Os dois seguiram por entre a noite escura para perto de um lago. Ao assistir a cena, Hermione pensou que nunca tinha ido àquele lugar antes, mas que era realmente um bom lugar para casar-se.
Conversaram e riram de coisas banais atualizando um ao outro com o novo dia a dia de cada um. Em um dado momento, Harry descansou sua mão sobre a perna, e foi quando Hermione a pegou, passando suavemente seus dedos sobre seu anelar antes de perguntar:
— Doeu muito? Digo, se separar.
— Foi insuportável no começo. Na verdade para a maioria das pessoas eu disse que não, que estava bem, mas não tenho por que mentir para você. Eu sentia, no fundo da minha alma, que ficaria sozinho de novo, principalmente quando me vi sem você e sem Ron. Eu não o culpo. Meu divórcio era com a irmã dele e meus problemas com ela acabou afetando minha relação com ele também, assim como também não te culpo por precisar de um tempo depois de tudo com Ron. Ouve um momento em que eu pensei ser novamente o menino da escada sabe? O mesmo, igual. Parecia que todo o esforço que eu tinha feito para garantir a paz tinha sido em vão.
Hermione olhou nos olhos dele enxergando o brilho que sempre vira ali. Estava feliz por ainda serem os mesmos olhos, já que eram os seus favoritos no mundo. Aliás, ela sabia disso, mesmo quando era casada com Ronald.
— Não foi em vão. Você sabe, não é?
Ele assentiu, e a brisa da noite quebrou o contato visual deles, fazendo com que os cabelos castanhos de Hermione , agora bem mais curtos, se espalhassem em uma bagunça pelo rosto. Eles riram um pouco, então ele começou a o arrumar, fio por fio, colocando por trás de suas orelhas. Quando terminou, ela pegou seu braço, deitando sua cabeça em seu ombro, como fazia antigamente.
— Você quer saber o porquê, não é? — Hermione apenas assentiu em silencio — Acho que começou quando ela quis ter um filho no nosso primeiro ano de casados. Acho que você lembra que eu chegava com olheiras terríveis nas sessões que tínhamos que assistir no ministério. Eu não queria e o motivo era óbvio: nada era seguro naquela época. Voldemort tinha caído, mas seguidores seus ainda existiam por toda parte e você sabe que os que eu amo sempre eram alvos. Depois outros problemas foram surgindo a partir desse e virou um efeito dominó que eu não consegui parar. Passávamos os dias na companhia de outras pessoas e as noites nos evitávamos para não brigarmos. Hoje eu compreendo que discutir ainda é melhor que evitar, pois depois de um tempo o “evitar” torna-se “ignorar” e a partir daí é bem mais difícil reverter. Mas se quer saber, hoje eu os teria. Os filhos, digo.
— Será que isso não uniria vocês de novo? Talvez se disser a ela que quer ter filhos com ela agora vocês consigam achar um caminho de volta, Harry.
O Potter riu um pouco antes de responder à amiga, ainda com um sorriso no rosto:
— Você ainda tenta resolver os problemas de todo mundo, não é? — riu mais um pouco antes de prosseguir — Gina já está casada novamente, Mione. E mesmo que não estivesse, dificilmente daríamos certo de novo. Algumas coisas não voltam, principalmente palavras ditas. E... Eu disse que queria ter filhos, mas não necessariamente com ela.
Foi a vez de Hermione rir, dando-lhe um tapa fraco no braço.
— Então Harry Potter, o bruxo mais famoso do mundo da magia, está à procura de uma nova esposa! — Harry assentiu, voltando a rir, enquanto a via levantar-se e continuar — Não se preocupe, senhor Potter! Procurarei, sem demora, uma nova esposa digna de vossa senhoria. Uma que aguente um esposo que fala enquanto dorme, é claro. Detalhe: Língua de cobra.
Hermione tentou imitar algumas palavras que já o viu proferir na frente de cobras enquanto o amigo ria mais e mais alto. Em um dado momento, ainda rindo, ele tornou a falar:
— Nós dormimos juntos por muito tempo quando estávamos escondidos e você nunca pareceu se incomodar. — Quando viu Hermione cessar o riso mantendo apenas um sorriso amistoso em seus lábios, o moreno completou — Dormíamos na mesma tenda, quero dizer.
— Tenho um sono pesado quando enfim consigo pegar no sono me sentindo segura. E eu sempre dormia antes de você.
Harry levantou-se, batendo com as mãos as pernas da calça escura que usava, começando devagar a andar, olhando vez ou outra para trás.
— Onde está indo? — Perguntou ela depois de vê-lo dar três passos.
— Como para onde, estou indo te levar para casa, claro. Se não percebeu a festa já acabou e não vou te deixar aparatar e ir embora sem mostrar onde mora. Não vou deixar que se livre fácil de mim dessa vez.
Quando Hermione deu três passos ligeiros, pegando no braço dele e em seguida e começando a contar uma outra história engraçada, a Hermione que assistia desejou acompanhá-los até sua casa e saber do que ele sorria, mas quando viu o cenário aos poucos se desonerar, percebeu que a primeira memória recolhida infelizmente acabava por ali.”
Sem demora, uma outra lembrança começou a se formar. Hermione pôde ouvir quando o amigo respirou fundo antes de embarcar na próxima memória.
“Harry se viu entrando em um apartamento bonito, porém todo bagunçado. Haviam cacos de vidro do que parecia ser um espelho quebrado, além de utensílios de decoração caídos por vários lugares. Seus passos se faziam ouvir pelo piso de madeira quando ele começou a subir as escadas, onde já conseguia ouvir alguns soluços.
Ao abrir a porta, a encontrou deitada e encolhida no meio da cama, enxugando sem sucesso as lágrimas que não deixavam de cair por um segundo. Quando percebeu a presença dele no quarto, mais ainda chorou, estendendo uma das mãos em sua direção.
Harry logo foi ao encontro dela, pegando a mão que lhe era oferecida e sentando-se na cama. Hermione apertava a mão dele com força, como que querendo transferir o aperto em seu coração, mas sem sucesso.
— Ele nem estava doente. Como isso é possível? Como é possível?
Viu quando ela segurou a barra de sua camisa, apertando-a ainda mais que sua mão. Estava tão frustrada e quebrada. Harry parecia querer dizer alguma coisa, mas ele já tinha passado por aquela situação o suficiente para saber que nada do diziam ajudava ou diminuía a dor. Fez então o que ele considerava o fator que o ajudou a suportar tantas percas em sua vida: deu a ela sua presença.
Deitou-se devagar ao seu lado, vendo-a escorregar sem demora para mais perto, deitando sobre seu peito, passando agora a chorar ali. Com um tempo, os soluços pararam, mas as lágrimas, ele sabia, essas continuavam a vir.
Era fim de tarde e a noite já se aproximava, mostrando a lua nova pela janela. Seria uma noite com estrelas ao que parecia. Quando se deu conta de que o quarto já estava escuro pela ausência da luz do sol, Hermione enfim percebeu que já era noite e que tinha passado mais tempo do que pensava aos prantos, sentindo unicamente sua dor e o carinho feito em seus cabelos pelo moreno deitado embaixo de si. Se permitiu olhar diretamente para ele pela primeira vez, tomando ciência do quanto tinha molhado sua camisa ao levantar-se um pouco. Se sentiu um pouco culpada por transferir para ele sua tristeza, já que seus olhos não brilhavam como sempre. Ele mexeu-se um pouco, e como pensou que o veria se levantar, ela logo parou-o.
— Não vá. Fique. Só hoje.
Harry terminou de levantar-se, sentando mais ereto na cama. Ele sorriu um pouco antes de responder.
— Não ia. Só precisava arrumar minha postura. Acho que estou mesmo ficando velho.
Hermione deu um sorriso pequeno para ele, que ficou mais animado só de vê-la um pouquinho melhor, mesmo sabendo que aquela dor nunca iria embora.
Os dois começaram a conversar em sussurros quando ela voltou a deitar-se, agora de frente para ele, mas os bruxos que assistiam não podiam mais ouvir, pois o cenário todo já de desfazia.”
— Quem tinha morrido? — Perguntou Hermione, assim que a lembrança findou-se.
— Sinceramente não sei. Mas por não estarem usando alianças, pode ser que seja seu pai. Ele faleceu antes que vocês se casassem.
Hermione suspirou e tentou não pensar muito no assunto. Agitou a superfície da penseira para continuar.
— Vamos para a próxima.
“Harry viu a si mesmo vestido num justo terno de cor azul marinho tão elegante que deduziu que não havia possibilidade dele mesmo ter escolhido. O corte era perfeito e estava assentado sob medida em seu corpo, agora mais forte. Estava muito bem barbeado e até parecia o mesmo Harry jovem de sempre, se não fosse por algumas pequenas diferenças, como uma ruga aqui ou ali.
— Nervoso? — Era Neville Longbottom, que ao seu lado ria baixinho do nervosismo do amigo. Ele viu Harry assentir, passando a mão pela testa na tentativa de conter as gotículas de suor que se instalavam no local — Normal. Anormal seria se não estivesse.
— Eu... — pareceu que ia falar algo quando a viu entrar. Ela usava um vestido claro, com algumas poucas borboletas aplicadas no colo que era de um modelo ombro a ombro. Neville riu mais quando ouviu Harry suspirar alto, soltando o ar pela boca. O próprio Harry que assistia à cena riu, acompanhando o amigo.
Quando chegou perto dele, Hermione pegou sua mão esquerda, apertando-a visivelmente e foi quando ele se permitiu sorrir. Fechou os olhos, respirou novamente, percebendo que agora o ar tinha o cheiro dela. Quando abriu os olhos, viu que ela sorria abertamente, talvez achando graça do nervosismo dele.
Depois da cerimonia simples, Harmione se dirigiu ao lugar de destaque, e alguém bateu em uma taça afim de chamar atenção das pessoas para ela. Ela tossiu um pouco para que a voz saísse sem falhar.
— Bem, eu não planejava falar nada, mas escrevi essa carta... Enfim. — Harry viu o seu outro eu do futuro voltar-se a ela com uma taça na mão, com uma expressão que denotava curiosidade. Ela preparou a garganta uma vez mais antes de começar a ler o escrito que tinha nas mãos — "Há um tempo venho tentando entender como tudo isso aconteceu. É no mínimo diferente quando, por anos você tem um melhor amigo e depois de um tempo ele não é só isso. Na verdade eu gostaria de poder explicar o que o Harry Potter significa hoje para mim, mas é algo complexo. Não é só noivo, ou a partir de hoje, marido, é um dos poucos bens preciosos que eu ainda tenho, como uma relíquia de valor imensurável. Queria dizer a Lilian e James Potter que eu entendo o que fizeram por ele e que há muito tempo estaria disposta a fazer o mesmo se necessário e hoje mais. Queria que soubessem que cada sacrifício não foi em vão pois possibilitou ao mundo a oportunidade de conhecer alguém tão altruísta que não pouparia nada, nem a própria vida, pelos que ama. Eu amo o eleito, e sinto que não podia ser diferente, já que o mundo todo parece sorrir para mim essa noite."
Quando Hermione ergueu os olhos para encontrar os de seu marido, o viu tombar a cabeça para o lado como uma criança, antes de abrir um dos maiores e mais bonitos sorrisos que já tinha lhe dado. Quando os lábios de Harry pronunciaram as palavras “eu amo você”, os observadores já não podiam ouvir sua voz, mas conseguiram ler seus lábios antes que todo o cenário se desfizesse.”
— Isso foi intenso. — suspirou Hermione, afastando-se um pouco da penseira. Harry a olhou por alguns segundos antes de voltar-se novamente ao utensílio mágico que já exibia a próxima imagem. Não tinha sons, e mostrava apenas um momento íntimo deles em que Harry estava sentado em uma rede com a esposa entre suas pernas. O que mais chamava atenção porém, era a barriga protuberante de Hermione, ao qual Harry pressionava três dedos de forma suave e via de modo visível a criança chutar o local pressionado. Ele parecia dizer alguma coisa que fazia a esposa rir e ela pressionava a própria barriga utilizando a mão dele, ainda mantida no mesmo local. Pareciam genuinamente felizes. A cena findou-se depois que a gestante, que agora tinha o rosto escondido no pescoço do marido, o tirou de lá para para beijá-lo nos lábios depois que o viu rir mais uma vez do movimento de sua barriga.
Quando acabou, o moreno percebeu que Hermione também assistia a cena, boquiaberta, enquanto ouviam Evanna rir discretamente no fundo.
— Não entendam mal meu riso. É tudo verdade. Estou rindo por que, nossa, é muito engraçado a cara surpresa de vocês. — Riu um pouco mais, agora um pouco mais alto — Quero que vejam mais essa — falou, tirando de sua própria têmpora uma memória. É bom que vejam como as pessoas vêm vocês. Esta é mais recente, é apenas de uns dois meses atrás, quando essa loucura toda começou.
“Indiscutivelmente, era uma festa. Algumas pessoas dançavam um tipo diferente de valsa no meio de um grande salão. A arquitetura era diferente; parecia mais límpida e ampla que os designers a que os observadores eram acostumados, mas a beleza era incontestável. Num canto, na parte periférica do espeço havia um casal em pé. A mulher usava um vestido de seda simples, num tom claro de verde, enquanto o homem ao seu lado vestia um terno em bege claro, de linho.
A Hermione que observava não deixou de rir quando o Harry do futuro parou um garçom, pegando um lenço que ele oferecia, afim de limpar a bochecha da esposa que, apesar de elegante, parecia não resistir aos docinhos.
Do lado em que estavam se atentaram à presença de Evanna, com um copo de bebida forte, observando-os de longe. Algum momento depois, uma outra jovem mulher chegou ao seu lado. Não parecia ter mais que dezoito anos e aparentava ser bem simpática.
— Ás vezes também faço isso. Os observar, digo. — Explicou a jovem de longos cabelos negros. O casal de bruxos agora conversavam com Luna Lovegood, sem, em momento algum, desentrelaçar seus braços — Quer dizer, eles são o casal de bruxos mais brilhantes a que se tem notícia em séculos e isso de alguma forma faz eu me sentir segura. Sei lá. Quando lembro do mal que ainda pode haver por ai, gosto de pensar que os mais fortes estão do nosso lado. Me trás esperança.
Evanna sorriu e assentiu, voltando novamente seu olhar aos Potter, quando uma áurea ruim tomou conta do local. Hermione ria para Luna até o momento em que viu o primeiro feitiço ser conjurado. Ninguém soube direito de onde tinha surgido o que não impediu do pânico se formar assim que perceberam que se tratava de uma maldição imperdoável. Na última cena, antes de tudo começar a desaparecer, viram quando o casal antes tranquilo e alegre, se posicionavam um de costa para o outro, com suas varinhas erguidas, esperando juntos pelo próximo ataque.”
— Que novas forças malignas são essas? De onde surgiram? Já há algo sobre ela hoje? — Começou Harry, ainda um pouco perplexo.
— É uma longa história e eu sei que querem ajudar, mas modificar a linha do tempo para evitar que o mal se erga não é o caminho. Como eu disse, deixei um garoto sozinho, chorando pelo pai. Além do mais todos sabem que eles não te levaram com a intenção de pedir algo em troca, e é por isso que Hermione tomou essa decisão desesperada. Se eu não voltar a tempo de te localizar, estará morto antes do amanhecer.
Apesar das mentes estarem com certeza muito barulhentas, houve silencio depois disso. Sem mais, Harry tomou um instrumento para abrir cartas que encontrou sobre uma mesa para então cortar sua própria mão logo em seguida. Evanna lhe ofereceu um frasco vazio, ao qual ele utilizou para guardar o líquido que escorria.
— Certo. Obrigada. — Ao agradecer, a bruxa do futuro levantou-se da cadeira de madeira escura, aproximando-se mais deles com a varinha em mãos — E então? Prontos para perderem a memória?
— Podemos conversar por dez minutos antes que você faça isso? — Pediu Potter.
— Cinco. — Decretou, já se retirando da sala. — Volto em cinco.
Quando o som das botas de salto grosso de Evanna se afastou, a sala voltou ao silencio de antes. Ao ver que o sangue ainda escorria da mão do amigo, Hermione tratou de retirar a echarpe vermelha que usava para prendê-la à sua mão. Até então não se olharam, mantendo seus olhos presos à mão machucada.
— Isso foi... Surpreendente. Me pergunto se as pessoas ficarão tão surpresas quanto nós.
Harry sorriu de modo singelo antes de erguer seus olhos para encontrar as orbes castanhas da amiga.
— Nem tanto. — Deu de ombros. Hermione o interrogou com o olhar e ele prosseguiu — Bem, tenho tido problemas com Gina exatamente como disse na lembrança. Do mesmo jeito. Aliás, agora você sabe a causa. — Finalizou, mostrando suas olheiras em evidência.
— Isso pode ser passageiro. — tentou consolar a bruxa.
— Também pensava assim até entrar nessa sala. Ao que parece, vou continuar pensando assim por um bom tempo quando sair.
Hermione considerou para si mesma que parecia estar na mesma situação, mas não quis externar. Era melhor assim. A verdade é que nos últimos dias se pegava várias vezes pensando em quantas coisas grandiosas poderia estar fazendo se não estivesse sempre tão preocupada com seu casamento. Poderia ser maior, melhor. Sempre que ponderava sobre essas coisas, dizia a si mesma que eram consequências por ter se casado cedo demais. Ás vezes achava que até Ronald não estava pronto para isso.
Quando voltou seus pensamentos ao momento vigente, viu o moreno a sua frente olhando-a, como se estivesse tentando desvendar o que ela tanto pensava. Passaram um tempo assim, apenas analisando um ao outro, repassando em suas mentes tudo o que tinham vivenciado na penseira, e talvez imaginando como seria se suas memórias não fossem apagadas naquele exato instante.
— Estão prontos? — apenas com a cabeça para dentro da sala, Evanna interrompeu, certificando-se de que a veriam. Logo após, entrou totalmente, já com a varinha em mãos, pronta para terminar sua missão. — Só se lembrarão de que saíram para cumprimentar uma amiga. Não posso apagar isso também, caso contrário outras pessoas podem dizer que se ausentaram e isso pode acarretar perguntas em suas mentes que não devem existir.
Evanna orientou que sentassem um de frente para o outro pois, segundo ela, facilitaria seu trabalho.
— Vejo você daqui há alguns anos? — questionou Harry, pegando a mão de sua companheira, lhe dando um último sorriso do momento.
— Vejo você daqui há alguns anos. — Repetiu ela, afirmando e apertando um pouco a mão dele, antes que ouvissem a voz de Evanna e tudo aquilo simplesmente sumisse.
Notas finais
Essa é a primeira vez que escrevo sobre Harry Potter e tenho que dizer que não sou especialista nisso, por isso se algo precisa ser modificado por estar incongruente podem deixar nos comentários, vai ser um prazer deixá-la melhor.
Eu amei escrever essa história, mesmo que curtinha. Honestamente, amo esses personagens e achei que eles mereciam uma homenagem legal.
Se vocês gostarem e pedirem em comentários ou recomendações posso fazer um spin-off ou uma continuação, sei lá. Eu amei escrever sobre eles, principalmente nessa pegada meio Asuna e Kirito* jasijdiasj
Enfim, espero que tenham gostado.
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