Pensando Bem
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Te conhecia há muitos anos. Mas era aquele conhecer de só saber quem é, estudar no mesmo prédio, ter amigos em comum, cumprimentar à distância... Tinha toda uma opinião formada sobre o superficial que sabia de você, e em resumo: sarcástico. Era esse o seu adjetivo, depois de ter ouvido várias colocações suas, bem inteligentes, diga-se de passagem, mas um tanto quanto afiadas demais pro meu gosto “cordial”. Era o tipo de pessoa de quem eu não me aproximaria mais que o necessário, sendo eu um verdadeiro poço de sensibilidade que detesta pisar em ovos. Enquanto você diz o que precisa dizer, eu sinto muito.
Mas entre os desamores da vida, tudo (re)começou naquele dia do jogo. A turma se reuniu sem combinar e lá estávamos nós, numa mesma sala de estar cercados de amigos e sem falar nada um com o outro. Eu nem ligava, éramos indiferentes. Só não contava que com uma abertura, eu faria um comentário despretensioso, e você acharia engraçado. Você que eu já tinha decretado como um mero conhecido e que me fazia pensar duas vezes antes de falar qualquer coisa. Você gargalhou. E eu, que nunca tinha reparado no quanto você fica lindo rindo, sorri também. Nesse instante, eu enxerguei você, melhor que nunca, e me senti confortável, como há muito não me sentia. Eu, que morria de medo de você e das suas frases afiadas. O que você não deve ter ideia é de que aquele dia, em especial, estava sendo bem triste pra mim, mas de repente estávamos conversando. Não me recordo de uma palavra sequer do que falamos nos minutos seguintes, seja por conta da bebida, seja porque você, que diz o que precisa dizer, sorriu pra mim. Um sorriso que eu nunca tinha visto igual. Nem todo mundo combina com o sorriso que tem. Para alguns ele sempre diz mais do que deveria, para outros sempre diz menos. Mas em você, era o sorriso perfeito, dizia o que precisava dizer.
E foi assim, bem simples. Tem coisas que acontecem e não precisam de motivo pra acontecer, mas não foi este o caso. Existiu um momento preciso em que eu quis você e em que soube que ia querer mais que só um sorriso seu: te conhecer e sentir muito por você.
Loucura ou insensatez? Tem horas que o mundo vira de ponta a cabeça e a bagunça faz sentido. Você fazia sentido agora.
“Você e eu
Até pensei
Que não era pra acabar”
E eu que não me contenho, fui logo contando para todo mundo do meu novo interesse em você, sem nem ter as palavras para explicar. E quando te viram sorrindo pra mim, não precisei dizer mais nada. Eles entenderam.
Mas nós dois somos complicados. Eu sinto muito e você diz o que precisa dizer. Ninguém apoiava essa junção que eu teimei que seria bonita. Eu pintei um céu de expectativas. Levei a cabeça nas nuvens, enquanto eles me avisavam que você era pé no chão. Não ia me acompanhar nesse meu voo. Já era tarde. Até quando eu tentava negar, entre um delírio e outro, quando a razão me mostrava que nada tinha além de um sorriso, eu já me encantava de novo com a ideia de que era um sorriso seu. Pra mim. E então eu mesma me aconchegava, inventava e me contava a história com as palavras que você ainda não tinha me dito. Já sentia muito.
E com o tempo, você já tinha um novo adjetivo: Seguro. Era tranquilidade a melhor sensação que você me despertava. E talvez o mais impensável é que você, que não combinava comigo, me permitiu ser a versão mais natural e mais realista de mim mesma. Talvez porque já tinham falado que a gente não era pra ser. Melhor assim então. Não tínhamos nada a perder por sermos você e eu de verdade, autênticos separados.
Quando finalmente houve um beijo, foi o mais poético possível no contexto menos romântico deste mundo. Ainda assim, o universo parece ter conspirado a favor. A chuva caiu, nós dois molhados. Você olhou pra mim. Toquei no seu braço, na tatuagem que diz sobre você. Sorriu. E nos beijamos com gosto de bebida, cigarro e nós dois. Sorri. Não tinha nada a ser dito. Queria ficar com você pra sempre nessa memória, moço da tatuagem mais linda que eu já vi.
E seu último adjetivo veio logo: livre. A citação diz que “To be free is to belong”. E acho que você sabe disso. Pertence a si mesmo. Nunca tive a pretensão de te ter pra mim. Mas dá saudade de lembrar das suas palavras, que não eram românticas, mas eram bonitas, porque era você falando pra mim o que você precisava dizer sobre você. Conversas fáceis, que nunca vão ter a profundidade esclarecida. Será que num instante você quase sentiu muito?
Rápido demais, o momento que eles avisaram chegou. As nossas conversas diminuíram e eu esperei, mas você não disse nada. E eu entendi. Você sempre diz o que precisa ser dito.
Loucura ou insensatez? Tem horas que o mundo vira de ponta a cabeça e a desarruma o que estava no lugar. Você e eu não fazia sentido mais.
E eu não me permiti ir atrás. Não que você não valesse a pena. Ah como eu senti que valia. É que eu precisava valer também. Depois de tantos enganos, agora sou eu que preciso de um “fique” bem dito pra não ter dúvidas de que ali é meu lugar.
“Você faz muita falta
Dá saudade de lembrar
De onde a gente iria”
Espero que um dia você diga o que precisa ser dito. Não pra mim, mas para alguém que te faça sentir muito. Eu não tive coragem de dizer pra você. Mas queria ter dito. Eu senti muito por você.
Fica aqui a minha gratidão por você, seus dizeres e pelo seu sorriso, que me fizeram de novo acreditar que as coisas lindas podem ser tão mais lindas quando o conhecer não é só de longe. Que bom que eu te conheci. Talvez seja o que faltava para encontrar meu próprio riso.
Te quero bem. Muito.
“Melhor assim”
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