Pensamentos de uma Garota Vazia
28 No jardim
Notas iniciais
Você quer que eu conte uma história em um universo mais bonito. Uma história que tenha final feliz. Isso é a vida, não é? Um monte de merda com um final feliz.
Não eram as nuvens que encobriam as estrelas. Simplesmente não estava lá, nada, ninguém. Era um enorme breu e eu tinha me cansado de encará-lo, desejá-lo, pôr e expôr meus sentimentos a céu aberto para eles serem despedaçados. Ao meu redor, tudo estava coberto de sangue e os cortes, de fato, nunca se curariam. A minha alma sangrava; passava de propósito pelos cacos. Ela tinha um enorme prazer por isso! Mas essa era eu?
O espelho devolvia-me a pergunta até com certa rispidez depois de minha insistência. Eu tinha o quebrado. Sete anos de azar, grande coisa. Não aguentei ver a mim mesma e naquele momento, sentir-me tinha um peso enorme, que me derrubava. Eu enterrei meus sentimentos, por fim, para permanecer em pé, sorrindo e sendo quem eu precisava ser.
Sim, eu enterrei meus sentimentos: então, acha-me. Descubra-me. Minha boca é um túmulo e o problema é que eu estou indo. Não adianta segurar minha mão. Eu cansei de gritar no escuro. Eu quero o dia, pois quando o sol se vai, o pesadelo começa e tudo vira um pequeno e doce inferno com um cheiro no ar que me diz que vai ficar tudo bem. São os sonhos sendo queimados e os sorrisos voando — ou caindo — na fogueira.
Você está me investigando? Observando as chamas e revirando a terra... Você quer que eu conte uma história em um universo mais bonito. Uma história que tenha final feliz. Isso é a vida, não é? Um monte de merda com um final feliz. Ah, será desesperador e vazio, sinto em informar, pois eu sou uma bailarina. Giro, giro, giro. Em volta da terra, do meu mundo, da fogueira. Mais um sonho. Onde eu estou? Eu me prendi em galhos secos. E dói aqui em cima.
Alguém se arrisca? Alguém ouve-me? Alguém aparece e me salva? Não, não e lágrimas, mas ainda assim não. E eis que surge uma menina, quase como estrela cadente, e a esperança volta a nascer acompanhada do sol. O grito é tão sincero e puro: "Ei, garota perdida, venha me ajudar. Por favor, venha me ajudar!"
No entanto, para a minha surpresa, ela não se move. Não fala, apenas comunica-se dentro de mim com uma voz que envolve meu pescoço feito serpente. "Estou presa pelo passado" — um eco: pelo passado — "e a ajuda será tardia" — tardia? uma pergunta nunca feita, temida pela resposta -, "mas virá. Ele prometeu."
O mistério na conversa se manteve na minha cabeça e uma águia retirou a serpente, dando uma piscada."Às vezes é bom ser contraditório e vago. Ninguém consegue te entender". A serpente riu e desapareceu em um buraco; ia ter-se com os ossos que queimavam de febre.
O tempo que se seguiu usufruiu da mensagem da águia e tornou-se fechado e diriam complexo, mas, na verdade, era só mais um fugitivo do intelecto humano. Não queria mais ser entendido, ser ajudado. Era como o mais belo dos vasos que foi quebrado. Não haveria substituto, não haveria cola e na verdade, nada a ser feito ou dito.
Ao mesmo tempo, aquele sol que a garota perdida trouxe — assim como as personagens que a acompanharam — foi se pondo e a noite chegou com o seu pior veneno. Aos olhos supérfluos e míopes, não havia nada na árvore — sequer uma árvore viam. Então, eu desapareci para todos na escuridão.
Ou a quase todos. A melhor coisa na vida sempre será as exceções: aquilo que não é pensado ou corriqueiro. E essa melhor coisa voou sobre a forma de coruja. Eu era tola e chorosa. De repente, não só desprendi da árvore como quis alcançar voo. Era bela e doce, a coruja. Dizia muitas coisas que caiam em esquecimento, por isso não as descrevo, apesar de lembrar-me da última frase que ela disse para mim, depois de muito silêncio. "E daí que você está cansada?"
Seus olhos, amarelos e gigantescos, foram o sol que eu precisava. E ela se foi em um piscar de olhos, e eu voltei à escuridão. Já longe dos galhos, já longe daquele lugar, aos outros, era estranha. E daí? — repetia como mantra. E daí? Só precisava encontrar um caminho e o que me deparei, ao fim, foi com o abismo.
O meu caminho tinha me levado ao abismo, você já deve se familiarizar com ele. O abismo aqui, o abismo acolá. O abismo suicida, inclusive. Um enorme conforto me proporcionou, mas assim como todos, ele deixou-me. Ou eu o deixei. Estava só de novo e dessa vez a espreita. Esperava. Olhava no céu, aos lados, procurava pelos cantos, sentia um vazio que me sufocava. E onde está a ajuda?
É certo que um menino apareceu, como fantasma, como fumaça. Semelhante aos frutos da minha fogueira e admito que já o encontrei nessa ocasião algumas outras vezes. O que me faltava é a dose da realidade, do vento, pois a noite aparenta ser interminável e tudo se perde ao meu lado.
Tudo se distorce com uma fluidez estranha e a exceção dessa vez é o vazio, o que talvez seja contraditório, mas e daí? Os meus sentimentos ainda estão no jardim junto com as flores que eu deixei morrer. E quem sabe, elas renasçam no meu amanhecer.
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