Pensamentos de Papel
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Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
End.:- Rua da Esperança, 43.
O olhar curioso e atento fitava as páginas do jornal naquele fim de tarde. Era improvável que alguém pensasse em responder aquele anúncio. O motivo? Era inusitado demais, até mesmo com a proximidade da virada do século.
Mas por que aquela ideia o atraía tanto? Não tinha interesse em casamento, definitivamente. Estava no auge do curso de medicina com seus vinte e dois anos. Possuía estabilidade financeira por causa da família rica e tradicional de São Paulo. Talvez, unir-se a alguém não fosse uma boa ideia justamente pelas péssimas experiências.
Suspirou ao lembrar-se de como sua vida amorosa era um fiasco. Não que faltasse mulher interessada, mas era justamente esse interesse exacerbado que o irritava: elas se aproximavam com o intuito de tirar proveito. Sempre concordavam com tudo que ele pensava e fazia – até tinha conversado coisas absurdas com as pretendentes de propósito, mas elas somente riam e seguiam a “brincadeira”. Eram superficiais, interesseiras e não sentiam de verdade aquilo que diziam.
Ele então as dispensava cordialmente e retomava sua rotina de estudos até a próxima garota tentar se aproximar. Era um ciclo que não se findava. Algumas eram de boa condição financeira, mas mesmo assim ele sentia faltava alguma coisa, um quê de amor que o fizesse pensar: é ela!
A mulher do anúncio poderia ser apenas mais uma. Porém, desejava ver com seus próprios olhos. E se ela fosse diferente? Não perderia nada se tentassem talvez algumas horas de conversa. Qualquer coisa diria que era um engano e voltaria para casa livre de qualquer responsabilidade.
Heitor levantou-se do banco com a certeza de que iria até o endereço no dia seguinte.
A menina escrevia impaciente seus resumos sobre a escrivaninha do quarto. Estava quase maluca com a prova de cálculo que teria no dia seguinte. O pior de tudo era que não conseguia revisar a matéria direito depois da notícia absurda que a mãe lhe dera: um anúncio de jornal.
Sentia-se brava, impotente e até mesmo uma criança. Que mãe em sã consciência faria algo do gênero pra filha conseguir casar? Deixou o lápis de lado e apoiou os cotovelos na mesa. Um bico formou-se nos lábios rosados e soprou a franja de um jeito irritado.
Flores? Flores?! Não. Não era como as jovens de sua idade. Não queria saber de casamento ou de qualquer tipo de relacionamento no momento. Precisava estudar e terminar o curso de matemática o mais rápido possível para seguir sua vida, pois já estava com seus vinte e um.
E foi justamente pela mãe saber como Joana era difícil de lidar nessa área que resolveu agir – um classificado. Ninguém havia aparecido naquele dia, o que preocupava uma e aliviava outra.
O jovem chegou ao endereço no final da tarde, pois imaginava que naquele horário teria a chance de encontrar alguém em casa. Optou por usar roupas comuns e por não se arrumar demais: parecia um típico estudante universitário.
A casa de tijolos amendoados transmitia-lhe serenidade. O jardim bem cuidado podia ser visto ao longo do muro baixo com grades. Era um lugar simples, mas bonito. Observava tudo da esquina imaginando que aventura poderia encontrar caso tocasse a campainha daquela casa simpática.
E foi quando estava em seus pensamentos que ele a viu. O cabelo preto e comprido estava levemente bagunçado quando a garota passou por ele. A calça rasgada nos joelhos, o All Star preto e o moletom também preto não combinavam em nada com a imagem que tinha na cabeça.
Na verdade, já a vira no campus duas ou três vezes, ela estava sempre estudando no departamento de matemática quando ia visitar Jorge, o qual estava prestes a se formar.
Ela não parecia ser uma mulher desesperada por um casamento. Muito pelo contrário, parecia querer fugir de um. Os livros que levava nos braços somente reforçavam essa ideia. Livros que, inclusive, eram precariamente equilibrados junto com a bolsa da menina. Não foi surpresa tudo cair no chão quando ela tentou tirar a chave da bolsa.
— Que ótimo! – Resmungou levantando as mãos em sinal de rendição. Estava com a cabeça cheia de pensamentos acerca da prova que tinha feito.
Quando ia se abaixar, viu uma sombra surgir em sua frente. As mãos masculinas arrumaram rapidamente os livros em uma pilha enquanto a menina subia o olhar até o garoto um pouco surpresa pela atitude.
— O-obrigada... – Falou pegando os livros de volta. Ele era bonito. Tinha a leve sensação de que o conhecia de algum lugar.
— De nada. – O garoto colocou a mão atrás da cabeça um pouco sem graça.
— Tenho a impressão de que já te vi em algum lugar... – Enrugou a testa na tentativa de lembrar. – Ah! Você é aquele menino que aparece no departamento, você faz curso da saúde, não é?
— Sim... E você é a menina que sempre fica estudando quando eu passo por lá. – Ele riu. Não era exatamente o planejado.
— Hum... Meu nome é Joana. E você é...?
— Heitor. – Ele sorriu meio sem jeito. Ela parecia ser uma pessoa legal.
— Joana! Trouxe visita? Eu fiz um bolo de cenoura, traga o menino pra dentro! – A voz de dona Márcia surgiu da janela da sala. Joana deu de ombros.
— Quer entrar? Uma fatia de bolo e café pela ajuda com os livros. – Heitor pensou alguns segundos. Bom, por que não?
Três anos depois.
Maria Joana e Heitor Villela casam-se no sábado, dia 20 de julho. Cerimônia ocorrerá a partir das 15h na Catedral.
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