Pensamentos Voadores
2 Tudo bem. Ele esta com você.
— O espartilho apertava impiedosamente o busto daquela mulher loira, esbelta e atraente. Ela iria morrer, mas nem por isso perderia a classe. ‘Classe’ — pensou ‘- isto já perdi a muito tempo’. Ela tinha tudo o que poderia querer, então por que correu em busca do proibido? Por que ela foi apaixonar-se justamente por quem não podia? Por um pirata.Inumano, podre, ladrão. Um assassino sem um pingo de dignidade. Naquela época — século XIX — o homem que levou a mulher em perdição poderia ser considerado mais baixo que os outros nojentos de sua espécie.
E eles iriam morrer. Hoje. Agora.
A obsessão daquela mulher passou dos limites quando fugiu com ele em sua jornada ridícula. Ela ajudou-o a fazer o mal. E vão pagar pelo o que fizeram. Foram capturados e, ao lado de fora, sendo separada apenas por uma parede suja, encontrava-se a sua morte.A sua forca.
Os guardas entraram de supetão no cubículo onde a mulher se encontrava, e puxando-a de uma forma brusca a levou para o seu fim.
Ela não percebeu a multidão que caçoava dela pela estupidez evidente de seus atos, não percebeu o choro do pai e os gritos de dor da mãe. Não percebeu o homem que iria ler sua sentença. Ela só percebeu o ser humano que estava com uma corda no pescoço, ao lado da sua, contando os últimos minutos de vida, olhando para ela.
E — quando os soldados colocaram ela na forca — sorriu.
Olhou para o lado e encontrou seu amor sorrindo também. Ele foi sua perdição, seu pesadelo, sua morte. Foi sua alegria, seu sonho, sua aventura, sua vida. Foi seu tudo, seu nada. Ele foi ela mesma.
- Tudo bem — ouviu o pirata sussurrar — estou aqui. Com você. Para sempre.
E o chão se abriu.
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