Pensamentos
2 Salinha de Escape
Notas iniciais
Hoje em dia não mais, porém me lembro daquela época, época em que eu chegava da escola e via minha casa apinhada de gente, cheia de serzinhos andando por lá, grandes e pequenos, novos e velhos, andando, comendo, existindo no MEU habitat natural.
Via minhas roupas em corpos que não eram o meu e por isso fugia, pegava cobertas e livros, travesseiros e pelúcias e corria em disparada para uma salinha que tinha no prédio. Ela era mal iluminada, não muito utilizada, tinha uma mesa de sinuca no meio e bancos com almofadas acoplados as paredes de madeira.
Lá eu ficava, imersa em minhas aventuras literárias e devaneios — Não os mesmos que tenho hoje, graças aos céus— Pegava meus amigos de pelúcia, personagens de anime que havia ganhado da minha tia, e abraçava, conversava, buscava neles o consolo que queria ter em seres humanos.
Mas bem, na época eu não podia cobrá-los, eles estavam ocupados com seus próprios problemas e com os de outras pessoas também.
Na verdade, eu poderia sim, cobrar a eles, mas não queria, não sabia! Fiquei me sufocando naquela saleta até que alguém, um dos serzinhos invasores notou meu sofrimento.
Então desde aquela época eu nunca mais me confinei na salinha da sinuca, simplesmente ia lá para relembrar por alguns instantes, nunca mais do que isso, a válvula de escape que me foi confiscada juntamente com as pelúcias...
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