Penny Jackson E O Resgate Do Tártaro
31 Adeus acampamento, olá Octavian
Notas iniciais
Na escola, quando tinha alguma tarefa mais chata eu sempre adiava. Procurava motivos para não começar o trabalho, mesmo sabendo que eu teria que correr para terminar a tarefa em tempo hábil. Eu sempre acabava me dando mal, é claro. Os professores culpavam meu TDAH por isso, eu culpava o sistema educacional que não entendia minhas necessidades e sempre chegávamos a um impasse.
Agora, ali no chalé, olhando para a Deusa e Sócrates me senti do mesmo modo, como se tivesse levado bronca por ser desorganizada e não tivesse feito as equações de segundo grau que a professora pedira no dia anterior. Só que a situação era bem diferente. Afrodite me olhava quase com pena.
–Afrodite- disse surpresa a encarando- O que a senhora está fazendo aqui, se é que posso perguntar.
–Ora, obviamente que vim me despedir de você. Dar últimos conselhos antes que nosso contato se torne mais escasso essas coisas...
Eu não queria ser desrespeitosa, mas, mesmo com pouco tempo no mundo grego, eu sabia que quando um deus vem te visitar geralmente ele vem para exigir algo que você dificilmente conseguirá cumprir sem acabar sendo morto, dando sua vida para uma alma do mal pela eternidade ou coisas assim.
–Hum, obrigada Lady. No entanto, eu acho que ainda tenho algum tempo não é? Quer dizer... Um mês não pode ter se passado tão rápido, pode? Tem coisas que eu ainda necessito fazer por aqui.
Eu devo ter soado mais desesperada do que pretendia porque Afrodite me deu um sorriso maroto. Eu podia jurar que ela sabia exatamente o que eu estava pensando. Claro que ela sabia, ela era a deusa do amor afinal.
– Ah pobrezinha, meu neto não é o único que ficará com o coração partido. Isso é tão fofo!_ disse ela.
A deusa realmente estava se divertindo muito com a minha cara. O pensamento de que ela pudesse achar que eu sentisse alguma coisa por Alex ou que estivesse jogando comigo foi o suficiente para me deixar furiosa e clarear meus pensamentos.
–Não posso ir agora. Eu mal cheguei ao acampamento, tenho que... meus pais, eu mal acabei de conhecê-los.
Eu não queria ir, não agora. Observei o acampamento pela janela. Eu não acreditava que poderia chamar esse lugar de lar, mas era o que ele tinha se tornado. Sócrates parecia realmente triste. Ele olhou na mesma direção que eu, observando o acampamento como se buscando uma resposta.
– Penny, é o momento certo-disse ele por fim- Todos eles estarão ocupados demais com a festa, não perceberão que você sumiu a tempo. E além disso...
–Além disso o quê? Perguntei com raiva- Há alguma coisa que eu deva saber? Alguma coisa realmente importante que me faça largar minha família agora sem ao menos...
–Se despedir? – Perguntou Sócrates perspicaz. Ele me lançou mais um olhar triste- Penny, você sabe que isso é impossível. Você não poderia.
Ele estava certo, é claro. Se eu me despedisse da minha família, poderia nunca cumprir minha promessa a Eris e esperar lentamente a morte enquanto via o mundo todo virar de cabeça para baixo. Não, eu tinha que lutar. Como se cada movimento doesse desvio o olhar da janela e olho para os dois que me observam cuidadosamente.
–Vocês estão certos, tenho que ir.
Afrodite deu um sorriso frouxo enquanto Sócrates soltou um suspiro.
–Há algo que você deve saber antes de partir Penny. Um dos motivos pelo qual você deve ir hoje é que Octavian está concentrando suas tropas. Ele está se preparando para treinar seus exércitos na Carolina do Sul.
–Carolina do Sul? — Pergunto descrente olhando para o filosofo.
Um frio trespassa minha coluna. Se ele estava querendo ir para o sul, ele estava se preparando para começar uma nova guerra civil, como Jefferson fizera. Eu podia logo estar presa no meio de um conflito que seria tão ou mais destrutivo quanto a último. Eu tinha que evitar.
– Penny, isso não vai ser fácil- disse Sócrates me olhando intensamente- A Guerra de Troia, a Guerra civil. Todos esses combates foram sangrentos, duradouros e deixaram muitos mortos. Infelizmente, eu acredito que estejamos caminhando rumo a tudo isso novamente. Então, tenha cuidado.
Eu odiava admitir que ele estava certo. O fato de que eu tinha que deixar tudo o que eu conhecia, tudo o que eu mais amava me fazia querer esmagar tudo na frente até que não existisse mais nada. Mais do que qualquer outra coisa, eu odiava saber que estaria sozinha com pessoas que me desprezavam e dessa vez seria apenas eu contra eles. No entanto, essa era a escolha que eu tinha feito não era?
– Eris está vindo cobrar sua promessa não está? — Perguntei já sabendo sua resposta.
–Está- disse Afrodite- Daqui há três dias, se você não tiver se juntado ao acampamento ela virá buscar aquilo que lhe foi prometido. Você sabe que será um desastre se ela vir até aqui não?
Um desastre? Essa era uma boa palavra para definir a situação. Eu não pretendia pagar para ver. Sem ousar olhar para eles comecei a juntar minhas coisas silenciosamente. Peguei apenas uma mochila com as coisas mais importantes. Eu não podia levar muita coisa. Nem queria. Eu já teria que misturar minha vida com os Menelaus, preferia deixar tudo o que fosse sagrado para mim no acampamento.
Cogitei deixar Contracorrente e o bonê dos yankees da minha mãe. Embora só de imaginar os presentes mais sagrados dos meus pais misturados com aqueles imbecis fizesse meu estômago revirar, eu sabia que não poderia fazer isso, não iria encontrar os meus inimigos desarmada.
Assim que terminei de empacotar minhas coisas, olhei para os dois a minha frente, Sócrates parecia tão ou mais perdido do que eu e Afrodite tinha um ar indiferente que me fez querer pintar o cabelo dela de verde para ver a deusa tendo um ataque (Eu já tinha feito isso uma vez com um patricinha da escola, o resultado era hilário)
–Estou pronta! – disse com um suspiro resignado.
Afrodite sorriu.
– Espere, ainda acho que falta uma coisa- disse ela me olhando criteriosamente, me examinando como se eu estivesse em uma espécie de prova.
–Ah sim- disse ela finalmente, fazendo com que eu tomasse um susto com sua alegria repentina- Claro!
A Deusa estralou os dedos e senti uma espécie de formigamento no coro cabeludo. Engoli em seco. Eu tinha certeza de que eu odiaria o que quer que ela tivesse feito comigo.
–Perfeito! -disse ela batendo as mãos como se estivesse terminado sua obra prima- Você está tão...oh deuses!
Tomei coragem e olhei para o espelho. Meus cabelos que eu havia tingido estavam agora em sua cor natural. Cachos loiros escorriam por sobre meus ombros.
–Estou parecida com minha mãe- disse soltando um som abafado de surpresa.
–Está linda! Claro, se você quiser posso diminuir seu nariz e...
–Não, assim está perfeito- disse rápido demais. Afrodite sorriu, fazendo com que uma onda de alivio tomasse conta de mim. Ao que parecia, as transformações tinham acabado.
–Você tem razão. Quando enfrentamos o desconhecido é sempre melhor sermos nós mesmos- disse ela com um ar sonhador. Eu não sabia quando ela tinha se tornado tão sábia, não me importei, já que só me restava concordar com ela.
Antes de partir no entanto, me lembrei de algo que eu tinha que fazer. Com tudo o que acontecera eu acabara me esquecendo do livro Sibilino. Jamais poderia levar ele comigo para o acampamento dos Menelaus e muito menos deixá-lo desprotegido aqui.
Fui até a cama que eu usara nos últimos tempos e busquei embaixo do colchão. Ele ainda estava bem embrulhado. Era tão engraçado como algo tão pequeno poderia ser tão poderoso. Entreguei o embrulho para Sócrates.
–Você cuidaria dele para mim?- perguntei ao filosofo- Ele ficaria mais seguro com você.
Sócrates apenas assente.
–Penny- diz ele antes que eu saísse- Não esqueça... é fácil se perder quando você está rodeada de inimigos. Não esqueça quem você é!
O aperto na garganta é mais do que eu posso aguentar, então para evitar cair em lágrimas ali mesmo, faço apenas um movimento com a cabeça em um sinal de que havia entendido. Afrodite enxuga uma lágrima de uma forma tão pomposa que eu quase tenho vontade de rir.
–Boa sorte Penny! Deixe que o colar de Psique guie você. E não se preocupe. Sua família jamais saberá onde você está. Hécate e eu cuidaremos disso- A deusa estava estranhamente séria.
–Hécate?- Pergunto desconfiada.
–Sim, os deuses tem prestado muita atenção em você menina.
Eu sabia que isso não era bom, assim mesmo sorrio para deusa. Por mais que ela não fosse uma das minhas favoritas, ela realmente estava tentando me ajudar. Seus conselhos não eram muito bons, porém eu não podia negar que sua ajuda me dava um pouco de calma. Percebi que se não fosse por ela, eu nunca teria a coragem de empacotar as minhas coisas e me mandar do acampamento.
Sinto um vento agradável quando saio do chalé. A noite já havia caído, felizmente não havia muita gente nos arredores. Estavam todos se arrumando para festa, recepcionando os romanos que haviam sido convidados e que chegavam aos poucos.
Coloco o boné da minha mãe por precaução e rumo direto ao estábulo, onde Blackwind está me esperando calmamente.
–Você tem certeza de que quer fazer isso?– Pergunta o cavalo assim que percebe que eu entrei no estábulo. Não sei como ele podia perceber minha presença, acredito que cavalos sejam mais sensíveis que seres humanos e que ficar invisível para eles talvez requeira algo mais sofisticado.
– É a coisa certa- digo sem nenhum traço de emoção, esperando de todo o coração que eu estivesse correta em minhas suposições e que não estivesse me aliando aos inimigos apenas para ver minha família morrer em um banho de sangue.
Blackwind solta um relincho e sei que é seu convite para que eu monte. Meio segundo depois estamos em direção a floresta, aquele era o lugar mais seguro de partir. Embora eu estivesse invisível, meu cavalo não estava.
Quando eu encontrei um ponto mais seguro, no entanto, me dei ao luxo de olhar para trás. Se eu não soubesse o que estava em jogo teria descido do cavalo na mesma hora e voltaria correndo.
Eles já estavam reunidos na fogueira, todos ali. Pude me despedir silenciosamente de cada um. Com o coração apertado vi Alex espichar o olhar para o chalé de Poseidon, com certeza a minha procura. Alguém o provocou e ele corou, sorrindo. Meus pais conversavam animadamente com os amigos. Era uma boa imagem para guardar na memória.
– Vamos princesa!- Diz Blackwind- O seu destino chama
Sem poder adiar mais, dou uma guinada e rumamos campo a dentro. A última informação que eu tinha era de que Octavian estava perto de Nova Jersey, então eu não teria muitos problemas para encontrá-lo.
O caminho ia ficando cada vez mais sombrio a medida que eu avançava. Monstros passavam por mim e me ignoravam. Eu sentia um frio na espinha toda vez que encontrava um deles. Nem um deles me atacou, apesar de tudo. Eu estava invisível, mesmo assim eu tinha a impressão de que alguns sorriam quando eu passava, o que só aumentava minha apreensão.
Cheguei no acampamento tarde da noite. Todos eles estavam reunidos, numa espécie de reunião, terminando todos os preparativos para a partida que se aproximava. Octavian e Eris estavam em um local acima dos outros, numa espécie de púlpito. Eles olhavam para a multidão como se fossem os governantes daquele lugar e, infelizmente, eles eram.
Caminhei lentamente ao centro, deixando Blackwind bem a vista de todos. Alguns não sabiam bem do que se tratava e abriam caminho para nós. Era uma sensação esquisita ser observada sem realmente ser vista. No entanto, assim que tirei o boné, bem no centro onde todos poderiam me ver, senti o silêncio caindo por todo o acampamento.
–Penélope- disse Octavian sorrindo maldosamente- Ah que devemos sua visita.
–Vim me juntar aos Menelaus, vim lutar ao lado de vocês, assim como prometi a Eris.
Octavian me estudou por um minuto. Era quase como se ele buscasse saber o que eu tinha em minha alma. Depois de alguns segundos dolorosos, ele virou para um homem com uma barbicha amarrada em uma espécie de rabo de cavalo. Senti um frio na minha espinha quando o homem sorriu se aproximando de mim.
–Isso não vai doer nada gatinha- disse ele com a voz calma que me fez ter certeza absoluta de que aquilo seria a coisa mais dolorosa que eu já faria. E eu estava certa. Ele colocou um ferro na brasa e, antes que eu me desse conta, tomou me braço. A queimadura não era o pior. O pior era saber que minha pele estaria marcada para sempre. Olhei para o pomo em meu pulso, a bile tomando conta de minha boca.
Eu senti a tontura vindo em ondas. O cansaço, a dor e a solidão me dominando completamente. Senti dois braços me erguerem enquanto eu lutava para não desmaiar na frente daquelas pessoas. Uma voz, uma voz que eu conhecia, chegou até meus ouvidos.
–Calma minha pequena, você ficará bem, eu vou lhe ajudar.
Ainda tive tempo de registrar dois olhos cinzas me encarando com compaixão. Homero. Quem estava me amparando era Homero. Me senti tonta enquanto todos aplaudiam, urravam e comemoravam a nova conquista.
–Bem vinda Penélope- disse Octavian com sua voz pomposa que ficava cada vez mais distante- Bem vinda aos Menelaus!
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