Penny Jackson E O Resgate Do Tártaro
24 Conhecemos o filho mal encarado de Júlio César
Notas iniciais
Antes de sairmos em busca da espada mágica eu repassei mentalmente o que eu sabia sobre Júlio César. César era um senador romano descendente de Enéas, filho de Afrodite, que fugiu de Troia e acabou fundando Roma. Ele tinha sido um extraordinário líder militar, se envolvera com Cleópatra (que apesar de ser egípcia também tinha sangue de deuses gregos) e acabara assassinado por seus próprios colegas senadores.
Sua morte deu margem a terríveis disputas que acarretaram o fim da República Romana e o início de uma era de imperadores (A maioria bem mal encarada). Se eu estava muito ansiosa para tocar em uma relíquia que pertencera a ele... bom, sim. Mas eu não estava tão excitada para entregar a espada para Euristeu.
Estávamos encostados em uma parede branca como marfim, um pouco distantes do trono do tio de Hércules. No início achei que a parede fosse feita ossos, mas depois eu percebi que ela era lisa demais. Estremeci ao pensar que poderia ser pele. Mas que tipo de animal tinha uma pele tão branca?
-Penny, por favor, nós já sabemos o suficiente sobre esse cara- Disse Alex com uma careta depois que eu comecei a dar um monólogo sobre a importância de Júlio César- Não precisamos de mais detalhes obrigada.
-É- disse Tales- Se você ficou um dia no acampamento Júpiter vai ficar cansado de ouvir sobre ele, na boa. Temos até uma tartaruga com esse nome. Sério, vai por mim, você ia odiar o nome Caios Júlios César se tivesse que ficar chamando por ele por todo o acampamento.
Uma tartaruga chamada Caios Júlios César? Eu não pude deixar de pensar no quanto isso era bizarro. De repente senti tanta saudade do acampamento e tanta vontade de conhecer Nova Roma que não consegui olhar para os garotos. O que me surpreendeu, eu achei que não tinha gostado do acampamento meio sangue.
-Então- disse tentando me recompor- O que quero dizer é, temos que pensar em algo. Não podemos entregar a espada a Euristeu e deixar Nico e Thalia aqui não é uma opção.
Os dois me olharam esperando que eu tivesse alguma ideia. Eu odiava isso. Era como se só por ser neta de Atena eu devesse ter um plano genial na manga. Eu era apenas uma menina disléxica e problemática de Nova York que, por um azar do destino, nascera com sangue divino nas veias.
Nico e Thalia gemeram baixinho e senti uma pontada no coração. Eles precisavam ser resgatados.
-Bom- disse desanimada- Uma coisa de cada vez. Vamos recuperar a espada primeiro.
Eu achei que seria difícil achar a tal espada. A verdade é que só demoramos cinco minutos para encontrá-la. Ela estava grudada em um pedestal de mármore negro. O pedestal era lindo. Haviam diversas cenas entalhadas na pedra. Eu reconheci a maioria. Eram histórias da vida de Júlio César. Mas não só a história de Júlio César. Eram representações de cenas da peça de Shakespeare sobre a vida do senador romano. Mas havia algo de errado, muito errado.
- Não há nada protegendo a espada- disse Tales lendo meus pensamentos.
-Com certeza tem. Só que não podemos ver.
Senti um calafrio. Alex estava certo. Se fosse outro monstro como Cindy eu não tinha certeza de que conseguiríamos lutar. Estávamos todos muito cansados. Eu olhei para o monumento a minha frente. Era realmente uma pena que uma peça daquela beleza estivesse num lugar como aquele, uma espécie de caverna da punição bem na entrada do Tártaro. De repente tive uma certeza.
-Alex, você tem que pegar a espada.
- O quê? — Alex me olhou como se eu tivesse acabado de perguntar “Hey, por que você não vai brincar com cachorrinhos infernais” — Você... hum... está falando sério?
-Estou. Você é neto de Vênus, assim como Júlio César. Seu pai também ocupou uma posição importante para os romanos. Você tem que pegá-la.
-Mas... o pai do Tales também foi Pretor, seu pai também. Por que tem de ser eu?
Olhei feio para ele.
-Droga! Eu sempre fico com as piores tarefas- reclamou ele.
Eu quis discutir, mas realmente não tínhamos tempo.
-Apenas pegue a espada ok? Vamos lhe dar cobertura.
Tales usou seus poderes para manter Thalia e Nico protegidos. Eu não sabia como ele fazia isso, mas apenas uma palavra dele e os outros espíritos se afastaram dos nossos amigos. Deixamos os dois distantes alguns metros de onde pegaríamos a espada. Diocleciano nos olhava a distância satisfeito, provavelmente antevendo nossa derrota. Como eu odiava esse Lar!
Caminhamos em direção a bancada. Alex parecia resoluto mas eu sabia que ele estava com medo de que saísse um monstro de lá inesperadamente tentando cortar sua cabeça ou algo assim. Eu não pude evitar, antes de ele chegar bem perto da espada lhe dei um beijo na bochecha.
-Vamos proteger sua retaguarda- disse apertando sua mão.
Ele não respondeu. Parecia congelado. Eu e Tales nos postamos de costas para ele e para o pedestal. Embora eu soubesse que essa era uma posição estratégica, eu não podia evitar a sensação de que deveríamos olhar para onde Alex estava.
Assim que ele deu o último passo ouvi um clic, como se alguém acabasse de desativar uma armadilha. A droga é... eu tinha certeza de que quem desativara a armadilha tinha sido Alex . Não tive tempo de gritar por ele. As sombras nos envolveram completamente.
Senti um frio congelante e quando abri os olhos estava olhando diretamente para milhares de soldados romanos. Bem, não eram soldados romanos exatamente, eram mais como a versão zumbi deles. A maioria parecia altamente disposta a nos matar. Eles avançaram para nós com suas espadas em punho, eu não sabia se elas podiam nos ferir, mas eu tinha certeza de que se não nos fatiassem em pedacinhos, elas fariam coisas bem piores como nos fazer queimar até morte ou algo do gênero.
Um homem de cabelos pretos e olhos castanhos que pareciam tão maldosos quanto dissimulados comandava as tropas. Aparentemente ele não estava num estado cadavérico como os outros.
-Olá – disse ele- Então vocês vieram roubar a espada do meu pai? Que petulância.
- A espada é nossa por direito. Sou Alexandre Grace, filho do pretor Jason Grace e vou levá-la para Nova Roma.
Eu não sabia de onde Alex tinha tirado tanta confiança, mas eu estava gostando.
-A espada não é sua. Ela pertence a nós, espíritos desprezados da antiga república romana- O homem parecia pronto para nos atacar.
-Quem é você? –perguntei com contracorrente apostos.
-Sou Marco Júnio Bruto, patrício romano e assassino de Júlio César.
Meu queixo caiu. Eu tinha encontrado Homero, Sócrates e até fantasmas da guerra civil, mas encontrar Brutus, O Brutus, bem no meio do mundo inferior, já era um pouco demais para mim.
-Eu acho que esse é o momento perfeito para dizer... até tu Brutus!
Assim que falei isso senti que havia pisado na bola e feito nossas chances de negociar a espada, se é que tínhamos alguma, evaporar.
-Nunca mais fale isso sua grega insolente- disse Brutos com os olhos faiscando.
E então a batalha começou. Eu me lembrava vagamente de um documentário sobre o poder militar de Roma que eu assistira no History Channel (Ei, eu sei é estranho, mas eu gosto) Eu ficara particularmente impressionada com o modo como os romanos conquistaram a Britânia. E para ser sincera... eu estava me sentindo exatamente como a Britânia.
Alex era bom com a espada e conseguia manter a maioria dos monstros afastados, Tales atirava algumas flechas comuns nos fantasmas e de repente usava algum feitiço em latim que fazia com que eles se desintegrassem. Eu dava golpes com contracorrente da melhor maneira que podia. Por mais que fossemos bons, os fantasmas dos legionários romanos eram melhores e continuavam surgindo do nada.
Depois que Alex acabou com uns cinco soldados romanos Brutos investiu contra ele. O romano era feroz e eu sabia que não jogava limpo. No entanto, eu tinha mais problemas com o que me preocupar, já que haviam cerca de 20 fantasmas me cercando.
Tales viu que eu estava encurralada e sem pensar atirou três de suas flechas envenenadas nos legionários. Quando a flecha acertou o peito de três zumbis que estavam prestes a me atacar eles rapidamente se transformaram em leões que começaram a engolir os companheiros.
-Uau- foi a única coisa que consegui exclamar enquanto Tales me olhava com um sorrisinho- Mas não gaste todas as suas flechas.
Ele apenas revirou os olhos e atirou mais uma flecha comum em um zumbi que estava prestes a enfiar suas garras nele. Estávamos indo bem, mas não era o suficiente. Eu sabia que o exército de mortos estava apenas brincando com a gente. Ouvi um estrondo forte. Alex havia sido atingido por Brutos no estômago e estava caído no chão.
- Alex- Gritei
Eu não tive como chegar nele porque dois Zumbis estavam no caminho. Tales estava preso por dois Zumbis que aparentemente viam luta de boxes o suficiente para entender como se dava uma boa chave de braço.
- Ah vocês realmente acharam que tinham uma chance? Não passam de pirralhos. Vocês não são heróis.
Alex estava sangrando, mas o olhar que ele lançou para Brutus era de dar medo. Ele pegou a espada e investiu contra o romano. Foi uma jogada inteligente. Brutos pensou que Alex apenas iria atacá-lo com toda raiva partiu para cima do meu amigo que desviou no último minuto. Alex recebeu mais um ferimento no braço, mas sem que Brutus se desse conta, mudou de direção e pegou a espada.
-Quem disse que não somos heróis Brutus- Disse Alex com os olhos faiscando perigosamente.
Eu já tinha o visto em batalha antes, mas dessa vez, eu entendi que ele não estava lutando apenas com Brutus, mas com seus próprios fantasmas.
- NÃO!
-Honor Lulius Cesar- disse Alex fincando a espada no chão.
Milhares de outros soldados zumbis apareceram, mas estes estavam do nosso lado. Brutus tentou se defender como pode atirando sua espada a esmo mas no fim foi vencido.
- Você matou Júlio César, agora é a vez da espada dele mandar você de volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído, o fundo do tártaro- disse Alex.
Brutus estava se dissolvendo em pó, mas antes de ir ainda teve tempo de dar uma risada horrível.
- Você pode ter me derrotado neto de Júpiter, mas eu derrotei sua namorada. Você não vai poder salvá-la.
-Que ....
Eu não escutei Alex terminar a pergunta, senti um frio subindo pelas minhas costas e um liquido quente escorrendo do meu estômago olhei para baixo. Soltei as piores maldições contra mim mentalmente! Eu baixei a guarda quando achei que Alex tinha sido ferido. E quando Brutus atirou sua espada eu não percebi. Agora ela estava cravada bem no meu peito.
-Penny não!- A voz de Alex estava distante eu não conseguia distinguir mais nada. A última coisa de que tive consciência foram os braços de Alex me segurando firme enquanto eu caia em uma escuridão profunda.
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