Penny Jackson E O Resgate Do Tártaro
25 A pior forma de conseguir noticias
Notas iniciais
A primeira coisa que eu percebi foi que eu estava em um sonho. O cheiro de morango, os quadros... Eu estava no acampamento meio sangue. A escuridão lá fora deixava claro que era noite. Um homem estava dormindo no sofá de frente para mim, provavelmente de vigia. Dava para perceber que vinha tendo uma semana bem difícil. Seus cabelos pretos estavam desalinhados, como se ele passasse constantemente a mão, um sinal de preocupação.
–Pai- falei sem saber se ele poderia me ver ou ouvir. Provavelmente não. Como poderia? Eu estava em um sonho.
Mas antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele abre os olhos. Minha visão o acorda completamente. Ele corre diretamente para mim e se ajoelha para me observar melhor. Não sei se fico feliz ou não em vê-lo. Ainda é muito estranho conversar com ele.
– Penny, é você? É você mesmo?
Ele colocou a mão sobre meus cabelos, como se para se certificar se eu era real.
–Sou eu pai. Mas... o que eu estou fazendo aqui? O que...
Tentei organizar meus pensamentos. A última coisa que eu lembrava era de uma espada sendo enfiada bem no meu peito. Da escuridão... Eu deveria estar morta não?
–Penny, eu não sei. Sua mãe teve um sonho. Você estava no tártaro, lutando contra Brutus e ai...bom ela não conseguiu me contar- diz ele me estudando.- Está... está tudo bem com vocês?
Eu iria dizer que sim, mas não tinha certeza. Eu provavelmente estava desmaiada, me esvaindo em sangue. Imaginei Alex com lágrimas nos olhos segurando meu corpo inerte, tentei afastar esse pensamento estranho da minha cabeça.
–Eu... Acho que sim. No momento estamos tendo umas falhas técnicas mas...
Ele me olhou entre divertido e exasperado.
–Falhas técnicas?
–Bom, eu não esperava ser atingida pela adaga de Brutus.
A diversão abandonou completamente os olhos do meu pai.
– Penny!- diz ele, os olhos repentinamente arregalados- O que aconteceu?
– Calma. Vai ficar tudo bem, eu acho –digo me levantado. O engraçado é que o local onde Brutus tinha atingido ainda latejava com a dor.
–Penny- ele suspira cansado.
–Está tudo bem, vamos conseguir trazer eles de volta. Mas e por aqui?- pergunto percebendo seu cansaço.
Ele morde os lábios. Percebo que ele está evitando me dar noticias ruins.
– Estamos tentando manter todos calmos, mas romanos e gregos às vezes podem ser um povo difícil de misturar.
–Acho que não. Eles só precisam de mais tempo- digo pensando.
–É, acho que sim, eles só tiveram três mil anos- Meu pai sorri triste para mim.
Percebo que ele tem o sorriso igual ao meu. Ele fica sério.
–Penny vocês estão bem? Você foi atacada? O quão ruim foi isso? Não quero chamar Hazel para saber se você está realmente viva.
–Eu estou viva pai... Bom, pelo menos acho que estou. Devo estar dormindo ou algo assim.
Ele me olha resignado.
–Ok me conte exatamente o que aconteceu. E não adianta me esconder nada. Acabei de conseguir tranquilizar sua mãe. Não me faça acordá-la.
Eu mordo os lábios, não quero preocupá-lo. Acabo contando tudo, exceto a parte em que eu devo estar estirada no chão em uma poça de sangue. Sei bem que a parte dos meus amigos em perigo e duas almas a serem resgatadas já é bem preocupante por si só. Ele me encara, tentando achar a coisa certa a dizer.
–Vocês vão acabar achando um jeito. Sempre acham- diz ele os olhos faiscando como se estivesse tentando não chorar- Tem que achar.
–Pai o que exatamente está acontecendo aqui?
–Nada demais. Só... O acampamento não está contente com nossa proximidade com Nova Roma. Apesar de termos conseguido provar que o último ataque foi coisa de Octavian e os Menelaus , eles ainda culpam os romanos por isso.
– O que?- digo sentindo uma nova pontada no ferimento- Isso é ridículo, é injusto, é..
–Eu sei, eu sei. Mas não há nada que se possa fazer quando as pessoas decidem se tornar estupidamente insanas.
– Acho que você tem razão. Mas não é só isso é? Não parece ser.
– Não dá para esconder as coisas de você não é mesmo? Você é igual a sua mãe. Eles estão obrigando os romanos a irem embora do acampamento. Hazel e Frank não são bem vistos em nenhum lugar. E não é só isso. Jason foi destituído do seu cargo de conselheiro no acampamento.
– O que?Oh não! Jason. Isso é...
–Horrível eu sei. Mas vamos dar um jeito nas coisas.
–Eu espero que sim- digo sincera.
Senti uma dor aguda no peito. Eu sabia que meu tempo estava acabando.
–Pai, eu tenho que ir.
–Penny sua mãe vai ficar arrasada por não ter falado com ela.
– Eu sei. Diga a ela que vamos ficar bem.
–Vou dizer. E Penny... Nós amamos você.
Eu sorri. Não sabia o que dizer de volta. Eu tinha ficado pouco tempo ali, mas não queria partir. Como não tinha escolha, apenas observei meu pai sumindo. Senti a escuridão e o frio me envolvendo novamente. Quando percebi estava num lugar ainda mais terrível que o Tártaro. O acampamento dos Menelaus, mais precisamente a tenda de Octavian.
–Alguma noticia Eris?- Perguntou ele ao observar a deusa entrar na tenda.
Eu já tinha tido vários encontros memoráveis com a deusa, mas eu podia afirmar com toda a certeza que ela ficava mais assustadora e irritante a cada vez que aparecia em meus sonhos.
–Tenho algumas boas notícias. A Principal delas é que Penélope Jackson está prestes a fracassar em sua missão. A Garota provavelmente não irá sobreviver.
Octavian olhou para ela interrogativamente.
–Você tem certeza disso?
–Absoluta. Você sabe que eu tenho acompanhado a menina de perto. Ela é perigosa . Precisamos ter cuidado com ela.
Octavian sorriu satisfeito.
–Bom isso é ótimo
–E não é só isso. Jason e os outros romanos estão sendo cada vez mais hostilizados no acampamento meio sangue.
– Isso não é novidade. Você sabe que enquanto Quiron estiver por lá eles sempre vão encontrar um jeito de serem bem vistos no local.
–Já pensei nisso. Vamos providenciar para que ele seja destituído. Tântalo já se mostrou interessado, mas ele fracassou da primeira vez – diz ela servindo um copo de vinho para os dois- Nossa melhor opção é esperar o que vai acontecer com Penélope e seus amigos.
–Então, um brinde ao fracasso dela- Ele ergue a taça e sinto meu estômago embrulhar com a visão.
–Não se preocupe Octavian. De um jeito ou de outro ela irá fracassar. Se não morrer no mundo inferior, estará com os Menelaus assim que conseguir escapar de lá.
Quiron. Eles planejam afastar Quiron do acampamento.Se é possível começo a odiar ainda mais esses dois. De repente Eris me olha intensamente e vejo tudo ficar preto. Me dou conta que estou observando meus amigos. Alex está tentando fazer com que eu tome algo, enquanto Tales tenta afastar alguns fantasmas que chegam perto de nós.
–Alex- grito, mas ele não me ouve. Ele está ocupado fazendo com que eu tome o remédio que Perséfone deu de presente.
Thalia e Nico estão afastados, gritando e observando a cena impotentes. Preciso tirar meus amigos dali, eu não posso estar morta. Sinto o desespero tomar conta de mim.
–Triste né? Vir até o Tártaro... para nada.
–Eris! O que você quer? – digo desesperada.
–Ainda há uma saída Penny. Você pode tirar seus amigos daqui, só precisa se juntar a nós.
Senti a raiva percorrer minhas veias. Isso foi como uma descarga de adrenalina. Parti para cima dela e percebi meu corpo estremecer no chão. A deusa desviou rindo.
–Ai, Ai Penny. Quanta agressividade! Ainda não chegou o tempo de você me dar sua resposta.
Meu desespero aumentava na proporção da raiva. Meus amigos continuavam a ser atacados sem piedade e eu estava perdendo cada vez mais sangue.
–Penny!- Gritava Alex- Acorde!
Ele estava usando charme, eu podia sentir.
–Você sabe qual é a minha resposta Eris!
A deusa riu mais forte ainda.
–Você é precipitada para uma neta de Atena. Conheço você Penny, vai fazer o possível para salvar seus amigos. Mesmo que isso signifique traí-los.
–Eu não vou traí-los.
Eris se limita a sorrir e estalar os dedos. Uma pulseira com um pomo aparece na minha mão.
–Uma arma poderosa semideusa, quando decidir usar terá tomado sua decisão.
Tento tirar a pulseira mas não consigo
–Ela não vai sair, não aqui no mundo inferior. A menos que você a use. Lembre-se Penny, eu posso ajudá-la, mas só se decidir se juntar a nós.
Ela desaparece me deixando enfurecida. Não enxergo mais nada. A dor no meu peito aumenta. Percebo que a voz de Alex está ficando cada vez mais nítida. Também há um gosto de limão e jasmin na minha boca. Provavelmente do remédio especial de Perséfone.
–Penny, acorde!- Sinto o desespero na voz de Alex assumindo o controle- Vamos domadora. Por favor.
Acho que nunca teria conseguido abrir os olhos se não fosse pelo remédio, nunca teria aberto os olhos se não fosse pelo charme. Respiro com dificuldade, cada movimento é doloroso demais. Assim que abro os olhos dou de cara com Alex.
– Pensei que ia perder você- diz ele.
Sinto o suor frio passando pelo meu rosto. Alex passa a mão sobre minha testa para ver a temperatura.
–Não vai ser assim tão fácil General- digo, sentindo cada palavra doendo em meus pulmões.
–Eu espero que não domadora.
Alex me carrega para um local longe dos fantasmas. Tales faz o possível para afastá-los. Assim que chegamos onde Thalia e Nico estão escondidos, sinto as forças me abandonando novamente. Alex me coloca gentilmente no chão.
–Descanse um pouco. Você ainda está ferida e com febre. Espero que o remédio faça efeito logo.
Ele coloca seu casaco em cima de mim. Sinto o frio me abandonar aos poucos, mas não consigo parar de tremer. O peso da pulseira de Éris machucava meu pulso e eu não conseguia parar de pensar no aviso e nas visões que eu tivera ao visitar Tirésias.
Eu não queria dormir, não precisava de mais pesadelos. No entanto acabei desistindo, por que até mesmo respirar era difícil. Mas, antes que eu ficasse sem consciência, fiz uma promessa. Se eu tivesse que proteger meus amigos com minha vida, se eu tivesse que traí-los, eu faria Eris pagar caro por cada um deles.
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