Não havia tempo a perder. Sir Malcolm e Ethan Chandler agasalharam-se e saíram imediatamente da mansão. Apesar do dia claro, fazia frio em Londres, e as ruas ainda estavam vazias e cheirando a podridão dos corpos em decomposição que foram deixados à míngua após a neblina venenosa que assolou a cidade semanas antes.

O destino dos dois, apesar de desorientados, era certo, e não era necessária nenhuma forma de verbalização sobre o local para onde estavam indo. Os dois entraram na carruagem escura, no mais completo silêncio, e, após Ethan fechar a porta atrás dele, os dois cavalos negros partiram com o estalar do chicote do cocheiro.

Londres parecia uma cidade fantasma. As poucas pessoas que andavam na rua cabisbaixas, e a expressão que a grande maioria carregava era de pesar e estranhamento, e não eram poucos os grupos que se amontoavam para enrolar e carregar os corpos espalhados pelas ruas, amontoando-os ao pé de muros de pedra antigos ou em terrenos baldios.

Foi uma viagem rápida pela cidade, dada a pouca movimentação nas ruas, e em questão de poucos minutos o cocheiro encostou a carruagem na frente de um prédio particularmente decrépito numa vizinhança nem um pouco convidativa. Ethan e Malcolm desceram, enquanto o cheiro desagradável de corpos queimando em algum lugar próximo invadia suas narinas, queimando suas gargantas. Era um cheiro incômodo, mas dado o que aqueles dois já haviam visto e sentido, não era nenhuma novidade, e nem de longe a sensação mais desagradável que aquelas duas figuras já experimentaram.

Sir Malcolm, com sua luxuosa bengala, deu algumas pancadinhas na porta, que em alguns pontos parecia oca, provavelmente por conta de alguma peste de cupins que devoravam a madeira por dentro. Segundos depois, ouviram passos que ecoavam dentro do apartamento. Com um estalo metálico particularmente barulhento, a porta abriu. Uma figura familiar pálida, de olhos claros rodeados por olheiras observou pela fresta da porta aberta, e, ao ver o americano e o velho aristocrata inglês, abriu a passagem por completo.

"Sir Malcolm. Ethan. A que devo a presença dos senhores? Não imaginava que nos veríamos tão cedo.", disse o Dr. Victor Frankenstein, tentando parecer mais animado do que realmente estava, e, no fim das contas, não havia, realmente, motivo para animar-se. Victor sabia que a presença daqueles homens tão cedo após aquela fatídica noite era um mau sinal. "Olá, Victor.", respondeu Sir Malcolm, enquanto Ethan apenas bateu na aba do chapéu com a ponta dos dedos. "Temo que não tenhamos tanto tempo para uma conversa agradável. O Sr. Lyle nos enviou uma correspondência de conteúdo preocupante, e temo que precisamos dos seus serviços mais uma vez.". Victor encarou os próprios pés por alguns segundos, em silêncio, e, finalmente, respondeu: "Confesso que não estou muito inclinado a ouvir o conteúdo dessa carta, mas sei que os senhores insistirão em conversar sobre esse assunto tão urgente, então não oferecerei resistência.". Terminando a frase, Victor puxou seu casaco que estava pendurado atrás da porta, vestiu-o e, acompanhado por Sir Malcolm e Ethan, entrou na carruagem.