Penny Dreadful: Hunters
4 Demônios vivos
Victor também não recebeu a carta do Sr. Lyle de maneira calma. Seu olhar perdido procurava nas suas fórmulas e livros de ciência algo que pudesse, por algum milagre, refutar cada ponto do manuscrito em letra cursiva delicada, mas levemente trêmula, do excêntrico historiador. Mas Victor havia visto coisas tão horrendas e diabólicas que não restava nada além de acreditar. Sua natureza de cientista não permitia questionamentos quando nem a própria ciência conseguiria explicar os eventos horrendos os quais aqueles três homens tomaram parte.
"Eu não tenho muito o que dizer após ler o que o Sr. Lyle escreveu, Sir Malcolm, m-mas... Sinto muito, eu não posso tomar parte nessa empreitada.", disse Victor, enquanto virava-se na apertada carruagem para abrir a pesada porta. Ethan, segurou-o pelo colarinho do seu afilado, mas puído, sobretudo, e o endireitou o dr. Frankenstein no banco da carruagem, encontrando um Malcolm extremamente sério, fitando-o.
"Victor, precisamos de você. Precisamos reunir a comitiva e darmos um fim a essa história que, sim, nos causou inimaginável dor, mas que ainda não acabou. Londres foi só o começo, só uma pequena mancha no mapa, e olhe ao seu redor!", incitou Malcolm, que fez Victor, em sua palidez doentia e sempre implacável, enrubescer de vergonha. "Pessoas morreram, pessoas que nada tiveram a ver com todo o terror que vimos. Nossa Vanessa morreu para salvar a quem ainda restava, Victor, por Deus!", exclamou o velho, com lágrimas minando dos seus apertados olhos. "Nós devemos isso a ela. Nós devemos um ponto final nesse horrendo conto de horror, por ela, doutor. Não podemos deixar que a morte dela tenha sido em vão.".
"Sir Malcolm, o senhor sabe bem a estima que eu tenho por essa corajosa comitiva, mas tudo isso é demais para um homem da ciência. Eu não consigo explicar o horror do inexplicável, do que não pode ser mensurado, estudado, entendido!", exclamou Victor, trêmulo. "Eu não posso alimentar os pesadelos que me atormentam à noite como demônios que sempre estiveram lá, revelando-se à luz da dolorosa verdade, meu caro Malcolm! Eu simplesm...". Victor teve sua fala interrompida pelo rápido punho de Ethan, que atingiu seu queixo com precisão cirúrgica. "Desculpe, Victor, mas podemos conversar quando chegarmos na Cidade do Cairo.", disparou Ethan à um desacordado dr. Frankenstein, recostado inconsciente à porta da carruagem, com um pequeno filete de sangue se formando no canto de sua boca escancarada.
Sir Malcolm bateu duas vezes no teto da cabine, e o cocheiro estalou novamente o chicote, enfim partindo do local.
Os dois estavam tensos, pois sabiam que Victor não seria tão amigável quando se visse forçadamente dentro de uma nova empreitada, talvez ainda mais perigosa e mortal do que a que os mesmos enfrentaram não muito tempo atrás.
"Ethan.", o velho explorador chamou a atenção do americano. "Não sei até aonde vão seus conhecimentos sobre Egito Antigo, mas acredito que é seguro afirmar que não devem ser tão avançados quanto os de um garoto em idade escolar.". Ethan assentiu com um sorriso informal, mas que não conseguia esconder preocupação com o que Malcolm estava para dizer. "Quero que entenda que eu desejo que minha tão corajosa comitiva se junte a mim nessa empreitada, mas não quero que vocês o façam sem consciência do que estamos para enfrentar.". O semblante de Sir Malcolm se tornou mais sombrio. Ethan assentiu, "Continue Sir Malcolm. Não pretendo ir às cegas, e desejo saber o que vamos enfrentar.". "Pois bem.", Malcolm continuou, "Anúbis, segundo a mitologia egípcia, é tido como o deus da morte, e governante do mundo dos mortos. É uma religião muito mais antiga que o Cristianismo, que data de milênios antes de Cristo, mas que carece de registros tão consistentes, e por isso devo dizer que nós viajaremos para a Cidade do Cairo sem sabermos com exatidão a força que enfrentaremos. Claro que devemos descobrir algo nos próximos dias, mas até lá nós podemos apenas ter como base tudo que enfrentamos até aqui, e você sabe o que as batalhas que travamos nos custaram, meu caro Ethan. Não podemos subestimar o perigo que nos aguarda, e precisamos ser cautelosos.", finalizou Sir Malcolm, com clara preocupação na voz.
Ethan olhava pela janela da carruagem os pilares de fumaça provenientes da queima de corpos levantando-se por toda cidade. "Ainda bem que o Victor não ouviu isso", respondeu Ethan, tentando cortar através da palpável aura de medo e preocupação que tornara o ar dentro da carruagem pesado, irrespirável.
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