Ela estava morta.

Ela estava morta muito antes de estar naquele leito de hospital, muito antes de ter Alzheimer.

Ela estava morta.

Richard sabia, ele sabia desde aquele dia, desde aquele momento. Ele sabia que ela estava morta desde o dia em que ele a havia deixado para ficar com Adele.

Ela estava morta.

Ellis Grey estava morta – agora naquele leito, seu corpo presente – e ele a encarava com seu silêncio taciturno, pensando em todos os momentos de sua vida, em tudo que havia desejado fazer ao seu lado, mas que sua escolha havia lhe arrancado.

Uma vida feliz com Ellis e mais dois filhos além de Meredith. Uma casa tranquila com um balanço feito de pneu. Uma vida, talvez, medíocre, mas naquele momento, enquanto encarava seu corpo sem vida – uma vida que já havia sido tomada dela há muito tempo – , era a única coisa que ele queria ter.

Mas jamais poderia.

Ele não poderia, e, de certa forma, ele sabia que parte da culpa era sua. Ele era o assassino que a havia sentenciado.

(Mas poderiam ter uma vida feliz? Poderiam realmente ter sido felizes? As vezes ele pensava que não)

Ele sabia, e a culpa o consumia. Ele sabia, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito. Nem mesmo confortar-se dizendo que as coisas teriam sido diferentes, porque não dá para imaginar algo que jamais vai acontecer. E, de certa forma, Richard sabia que finais felizes jamais existiriam para pessoas como ele, que escolhem ser chefes do setor de cirurgia ao invés de olharem para a própria família. E ele sabia, também, que se tivesse escolhido ficar com Ellis, ela teria se sentado naquela cadeira que por tantos anos havia sido sua e talvez isso sim fosse insuportável.

Ela não saberia dividir o tempo, porque era Ellis Grey. E ser uma cirurgiã estava acima de todas as coisas para ela.

Sim, essa era ela, capaz de dizer para a própria filha o quão incapaz era de fazer seu próprio trabalho, suas próprias escolhas.

E ainda assim a amava.

E ainda assim pensava que deveria tê-la escolhido.

Mas não o fez.

E agora ela estava morta e ele precisaria seguir em frente.

E era exatamente o que faria.

Seus olhos repousaram sobre o corpo de Ellis uma última vez. Seus dedos se entrelaçaram aos dela, sentindo como estavam frios, quase rígidos ao toque, embora sua morte ainda fosse recente. Ellis sempre havia tido as mãos frias. As mãos perfeitas de uma cirurgiã.

Nunca de uma mãe.

Nunca de uma esposa.

Porque ela jamais poderia ser nada disso.

E ainda assim a amava.

E a amaria pelo resto de seus dias como sua própria penitência pessoal. Como uma forma de punir-se por tudo o que poderia ter sido e não foi.

Notas finais
Um pouco depois de eu ter visto o capítulo em que a Ellis morria, eu escrevi essa fic, mas eu achei que ela não era boa o suficiente pra ser publicada. No entanto, por fim, eu decidi publicar.

Tem muitas coisas que quero escrever sobre esse cenário, muitas mesmo. Eu não explorei nem metade das minhas ideias sobre a terceira e a quarta temporada, e também a quinta agora que é a que estou assistindo.

Acho Ellis e Richard, no mínimo, intrigantes. Quero saber mais sobre eles pra poder escrever mais. Mas por enquanto é essa a minha opinião.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!