Pendências
2 O desastre é oficial
Frio ainda me circundava quando me forcei a abrir os olhos novamente. Por um momento foi como se eu estivesse de volta ao meu quarto – após acordar de longas horas de sono – e a janela estivesse aberta. Em circunstâncias normais, eu gemia infantilmente para minha mãe e ela vinha fechá-la, me poupando do trabalho de levantar da cama deliciosamente morna e me chamando docemente de preguiçosa em seguida. Mas aquilo estava muito longe de ser uma circunstância normal.
Ainda com os olhos entreabertos, senti estar sentada sobre uma superfície dura – provavelmente um banco – e a posição me permitia abraçar as pernas e trazê-las para perto do tronco, como se isso fosse de alguma maneira afastar o frio. De repente me sentia exausta demais para continuar alimentando os níveis de pânico de antes, mas, se estivesse disposta, com certeza eu estaria tremendo diante do fato de o ar sair de meus pulmões já gelado.
Tive certo trabalho para recordar dos momentos anteriores. Também não me lembrava de como havia chegado até ali. Mas fosse como fosse, a questão não era essa. A questão era que, se o que eu havia visto antes era mesmo verdade, o que diabos eu estava fazendo ali?
Eu tocava minhas próprias mãos e sentia a pele que as envolvia – gelada também, mas ainda assim – e, acima de tudo, eu me sentia respirar. Como eu ainda era capaz de estar respirando?! Talvez seja apenas uma ilusão, uma vozinha alojada no fundo de minha mente se encarregou de responder, o seu inconsciente projeta a sensação do toque ou da respiração porque é isso o que você espera sentir.
Precisei de longos segundos para analisar aquele pensamento. Passei-os com o olhar vidrado no calçamento do que parecia ser uma pequena praça, a julgar pelas árvores e os bancos em volta da onde eu estava sentada. O céu agora estava tingido de um tom mais puxado para o negro mas ainda assim eu via pequenas estrelas acima das copas das árvores.
Estava ainda tão frio! Parecia ser algo que vinha de dentro para fora, me fazendo sentir como se nada mais pudesse ser capaz de me aquecer. Cruzei os braços e comprimi os lábios mesmo assim, finalmente me forçando a levantar o olhar. Senti um pequeno suspiro de alívio – ou a ilusão de um – escapar de meus lábios assim que constatei que haviam pessoas ali em volta, ainda que dispersas. Fechei os olhos, me deixando ficar realmente feliz em ouvir aquele burburinho, sem saber bem por quê.
Eu me sentia literalmente capaz de ouvir tudo ao meu redor, desde o transitar suave dos carros mais à frente – já em bem maior escala, como se eu estivesse em uma área central agora – até precisos fragmentos de conversas alheias. Era como se um amontoado de vozes chegasse até mim ao mesmo tempo, na verdade. Me sentia como Jim Carry em O Todo Poderoso na cena onde ele recebe orações via telepatia. Consegui distinguir uma senhora conversando com outra sobre uma das duas ter um caso sério de trombose à minha esquerda; à minha direita, um homem desabafava com um colega de trabalho sobre sua esposa em coma. Novamente, se as circunstâncias fossem normais, tal habilidade me deixaria bastante impressionada.
Finalmente estranhei o fato de todas as conversas girarem em torno de alguma doença e virei-me, podendo ver então a fachada do hospital Chestnut Hill. Eu estava mesmo na região central da Filadélfia. Cerrei os olhos com força, tentando pensar no que diabos podia ter acontecido desde o momento em que eu “me vira” sendo carregada para dentro de uma ambulância até agora, mas parecia haver uma enorme lacuna em minha memória, ainda maior do que antes.
A sensação de saber que eu havia me deslocado de um lugar era evidente, porém não saber como eu havia chegado a este outro lugar, era desesperador. Entretanto, eu me sentia literalmente impotente, incapaz de gritar ou correr em qualquer direção para pedir ajuda. Qual seria o ponto disso, afinal?
Senti uma leve pressão no peito e o ar me faltar também levemente. Minha visão embaçou sutilmente e eu cerrei os olhos outra vez para tentar livrar-me do excesso de lágrimas. Não possuía forças nem para questionar-me se espíritos ou fantasmas – fosse qual fosse a diferença – tinham de fato lágrimas. Ainda assim senti uma gota d’água rolar pelo lado direito de meu rosto.
Em seguida, escutei um barulho praticamente ensurdecedor cuja fonte agora dobrava a esquina à minha esquerda e chegava cada vez mais perto. Mais uma vez, distingui ser uma sirene. Segui a ambulância com os olhos até a área coberta à frente do hospital e então congelei, sentindo que, se não era o meu coração, algo dentro de mim martelava, tanto que se eu colocasse a mão sobre o peito, sentiria-o pulsar junto.
Corri até o veículo e observei, a alguns metros de distância, a garota sendo retirada de lá em cima de uma maca frágil. Senti meus membros enferrujarem de novo. Esperei novamente se tratar de outra garota morena e baixinha fã dos Rolling Stones. Mas não. Reconheci o formato do rosto e, chegando ainda mais perto, as pontas dos cabelos lisos tingidas de vermelho escuro.
Quis que minhas pernas cedessem. Queria simplesmente desabar ali e chorar até que conseguisse acordar do maldito pesadelo, porém me obriguei a fazer tudo menos aquilo. Segui os paramédicos que empurravam a maca rapidamente em meio a um corredor largo e demasiadamente iluminado. Eu me sentia zonza mas consegui distinguir certa confusão ao meu redor e palavras como garota ferida, cirurgia emergencial,colisão e embriaguez. Apenas a última não fez sentido algum para mim. Mas até agora nada fazia, então qual era a diferença?
Desisti de persegui-los quando vi que eles conduziam a maca – e em cima desta o que supostamente era o meu corpo vazio – rápida e cuidadosamente em direção às portas duplas de acesso a outro corredor, onde podia-se ler numa plaquinha “somente pessoas autorizadas”. Olhei em volta, sentindo outra vez lágrimas em volta de meus olhos. As pessoas que, há poucos momentos, pareceram estar quase tão assustadas quanto eu ao verem uma pessoa praticamente morta sendo carregada às pressas para uma provável sala de cirurgia, agora pareciam voltar à uma normal tranquilidade, ou a mais normal possível dentro de um hospital.
Caminhei rapidamente de volta ao saguão do local até o balcão de recepção onde três mulheres vestindo jalecos brancos trabalhavam, duas sentadas em cadeiras giratórias e a outra em pé ao telefone, numa conversa ininteligível à mim.
– Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – tentei, num tom relativamente desesperado, por um momento esquecendo do fracasso que havia sido quando eu tentara falar com aquele paramédico – Para onde estão levando aquela garota?
Nada. Dei mais dois passos à frente, assim ficando onde normalmente estaria visível para as três ao mesmo tempo, mas elas continuaram trabalhando com os olhos baixos. Arrisquei apoiar os antebraços no balcão, rezando para que não acontecesse o mesmo que acontecera quando eu tentara tocar o ombro daquele paramédico. Obtive sustentação, o que tentei encarar como um bom sinal. Deslizei uma das mãos pela superfície lisa, a qual eu tinha em mente como sendo fria, daquelas que causam um pequeno choque elétrico se forem de encontro a um corpo quente. Foi estranho – não mais estranho do que todos os outros acontecimentos até agora. Eu sabia que estava tocando uma superfície sólida, mas não a sentia nem quente nem fria. Apenas não sentia. Era como se as pontas dos meus dedos tivessem perdido a sensibilidade.
Levantei outra vez meu olhar para as três mulheres e sustentei-o nelas por um tempo consideravelmente longo. Ouvia o barulho de papeis sendo remexidos, passadas e vozes ao meu redor. Certo, eu já entendi, pensei comigo. Elas nunca me notariam ali.
– Para onde estão me levando? – perguntei baixinho, contendo os soluços, ainda que soubesse que não adiantaria de nada.
Outro telefone tocou em seguida. Uma das mulheres que estava sentada atendeu no primeiro toque.
– Ela acabou de chegar – disse – Menor de idade, dezessete anos. Foi encaminhada para uma das salas de cirurgia emergencial. Possível traumatismo craniano, mas é difícil afirmar – ela deu um clique no mouse do computador à sua frente – Sim, todos os documentos do carro estavam em dia e o nome na certeira de motorista é Mona Vanderwaal.
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